XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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27/10/10

NANJING...CLÁSSICOS E AFINS

Vá lá, um bocadinho mas mesmo “inho” de modernidade, de aqui e agora no Xadrez Memória, que gosta mais de se espraiar no passado, no pouco conhecido, ou se quiserem, no esquecido.


Assim, para minha própria surpresa, este vosso humilde servo a acompanhar o tal Torneio extraordinário, sensacional, o maior, acrescido de todos os epítetos que lhe queiram atribuir, seja por necessidades mediáticas, promo-comerciais, ou outras, o tal Pearl Spring em Nanjing 2010, que se disputa na longíqua China.


Um interregno nesta modernidade, para outra modernidade, esta mais grave porque me faz subir a tensão arterial, ou seja, a desfaçatez, a petulância com que alguns “bicharocos” que andam no xadrez, mesmo com o título de GM, criticam os chamados clássicos, a herança do passado, os comentários, livros ou partidas de Grandes jogadores que marcaram o xadrez, principalmente no século XX e cuja obra escrita ou de tabuleiro, faz parte da herança cultural e xadrezista do nosso jogo.


Porque o fazem? Isso dava “pano para mangas” e um outro longo artigo, mas sobretudo, fazem-no por duas razões fundamentais :“burrice” cultural-xadrezista, uns, desonestidade intelectual associada à necessidade de ganhar uns cobres, numa modalidade em que estes só estão disponíveis para alguns, outros. Por vezes a associação destes dois factores, transforma os escritos contra os clássicos do xadrez em autênticas corridas de obstáculos, em que a determinada altura temos dúvidas sobre quem corre, se a “cavalgadura” ou o condutor que a conduz.



Um amigo meu falecido, confidenciava-me vai para uns anos, acerca de alguns alunos do 1º ano de Economia, que o que o irritava não era a ignorância de alguns, porque essa curava-se, agora o que o deixava “doente”, era quando essa ignorância era alicerçada na arrogância, ou seja a “arrogância da ignorância”: era-se burro, gostava-se de ser burro, achava-se normal sê-lo, e tinha-se raiva de quem não o queria ser, ou não compreendia a burrice brilhantemente ensimesmada.



Pois é, no Xadrez, e particularmente há duas décadas para cá, tem surgido umas luminárias, umas mais conhecidas do que outras, que resolvem em artigos ou livros escoicear dos clássicos, de jóias de partidas do passado, simplesmente olhando com olhos do presente, ou se quiserem, com toda a parafernália tecnológica da ChessBase-Fritz-Afins, ou agora do Rybka, para mostrar as debilidades do jogo de Capablanca, ou as análises falhadas de Alekhine numa ou outra partida, ou o fraco sentido de defesa de um Schlechter, ou a pobreza confrangedora da compreensão dos finais de vários jogadores do passado. Tudo, mas tudo, por esse valor supremo, por essa deusa: a verdade, a verdade do xadrez! Essa verdade tão heroicamente conseguida com os monstros cibernéticos.



E editam-se livros de xadrez, e alguns gozam de fama, e alguns miúdos aderem a esta moda: estudar Capablanca para quê, se não vou jogar com ele!? E até se diz sorrindo de amarelos dentes: “O Alekhine, o Capablanca, o Lasker , se jogassem hoje era trucidados” – claro sem conhecerem nem um décimo do que estes génios jogaram ou pensaram xadrez.



Enfim, sinais dos tempos de indigência intelectual, de promoção da ignorância a valor supremo de “status”, da bestialidade como triunfadora sobre o trabalho, o conhecimento, da futilidade rainha soberana sobre o pensamento e a cultura.



Querem exemplos contrários: Façam o favor a vocês próprios: Vão a ChessCafe e imprimam os artigos que Dvorestsky escreveu sobre Lilienthal! Aquilo é respeitar os clássicos, é perceber a essência deste extraordinário jogador, é trazer uma compreensão e herança de um certo xadrez ao público comum. Podem também imprimir o seu artigo sobre Simagin, ou sobre uma das partidas “Lasker-Schlechter”! Mas Dvoretsky é um grande autor de xadrez, daqueles que escreve os tais 5% dos livros diferentes dos outros 90% que nunca deveriam ter sido escritos, como afirmou certa vez Polugaievsky.


Façam outro presente à vossa inteligência xadrezista: vão ao “Spraggett On chess” e procurem a maravilha dos artigos que o Kevin Spraggett escreveu sobre Efim Geller. Imprimam-nos e repassem-nos muitas vezes no tabuleiro. Vão entender muito melhor o jogo deste lutador do tabuleiro, mesmo que não tenham estudado “ Application of Chess Theory”. Mas Spraggett, sabe o que são os clássicos e sobretudo sabe o que o estudo aturado de Akiba Rubinstein trouxe à evolução do seu xadrez.



Peguem num dos melhores livros de xadrez de todos os tempos “Learn from the Legends”, do Mihail Marin e guardem para todo o sempre o que este autor escreveu sobre Rubinstein e os seus finais de Torre: assombroso! Isto é respeitar os clássicos!


Ou peguem no Lasker do Crouch, ou no Fischer do Agur, ou mesmo nos “Grandes Predecessores” do Kasparov, e vejam onde há reverência, respeito pelos clássicos, apesar da modernidade de vistas, ou crítica quando necessária.



No entanto... peguem nesse livro que tanto vendeu, nesse livro que fruto das laudas de Watson, que por sua vez tinha recebido as mesmas do autor que vou referir, tanta projecção nos xadrezistas: “The Road To Chess Improvement” de Yermolinsky. Um bom livro, um muito bom livro, diga-se de passagem, no entanto no capítulo sobre os clássicos, quando se propõe analisar a extraordinária partida Janowsky-Capablanca Nova Iorque, 1916, a célebre da retirado do Bispo negro a d7, Yermolinsky, mostra uma mistura do que acima afirmei, a ignorância mais larvar, misturada com a mentira mais mesquinha, para passar ao insulto à inteligência do leitor.

Aquele capítulo é uma vergonha, um autêntico tratado de como se escrevem asneiras a rodos por centímetro de papel, e sobretudo, como se enganam leitores pouco preparados que ficam encantados com a prosápia a pseudo perspicácia e sabedoria de Alex Yermolinsky, que de “cu sentado” no Mechanics Institute, resolveu escrever sobre um assunto que não dominava só para mostrar que sim, porque em determinada altura era giro, modernaço, atacar os clássicos e sobretudo mostrar a sapiência de GM actual. Pobreza de espírito, isso sim! Um GM que nem uma Enciclopédia de Xadrez sabe consultar, para não dizer a enormidade que Janowsky e Lasker jogaram dois matches para o Campeonato Mundial, para não afirmar que Capablanca não jogou mais Bf5 ( bastava ir a uma base de dados) e sobretudo escrever que ninguém tinha comentado esta partida com os lances que ele propunha, quando o “aldubras” sabia que Panov, no seu “Capablanca”, e mesmo Chernev e Reinfeld nos seus livros, aos anos que tinham escrito e sugerido os lances que dariam melhor defesa a Janowsky, mostra o quê? Querem que eu acredite no Homem? Duas Hipóteses: ou ignorante, ou intelectualmente desonesto, o que num GM de nome reconhecido e autor de livros, nem sequer é grave, é patético. ( hei-de colocar neste blogue o que mandei por mail para o Mechanic’s Institute, dirigido ao “Yermo-Termo”, que não me respondeu como é obvio!).


Porque razão, ninguém, mas mesmo ninguém dos críticos de livros de xadrez, Watson, Silman, Seegard, etc, etc, teve a coragem de dizer a verdade da vergonha do capítulo do livro de Yermolinsky? Existem interesses corporativos entre GM de xadrez, interesses editoriais, no que respeita à literatura xadrezista? Malhas que o Império tece!


Mas também poderíamos chamar à liça e desmontar aqui e ali o “Mentiras Arrisgadas en Ajedrez de Lluís Comas Fabregó, onde a par com algumas verdades , não sabemos se GM espanhol se refere a algumas mentiras dos clássicos ou algumas das suas sobre os clássicos , mas nem sei quem é o GM Fabregó, nem me interessa muito esse trabalho agora!




Enfim…mas onde ia eu? Ah! Em Nanjing.. Fica para um Próximo artigo




26/09/10

SPASSKY...BORIS VASILIEVICH




Nos últimos tempos uma tristeza imensa. Foi Fischer, Foi Lilienthal, Smyslov, Bent Larsen e agora... Um Xadrez, um Xadrez magnífico que se vai extinguindo. Restam Ivkov, Portisch, Gligorich, Uhlmann, Hort e poucos mais.

Um fortíssimo AVC parece ter colocado Boris Spassky entre a vida e a morte. Tinha recuperado de um outro há pouco tempo, e agora parece que Caissa o quer recolher ao seu seio.

Spassky, juntamente com Lasker, um dos meus heróis do xadrez, um dos Campeões do Mundo que mais aprecio.


Jogador como poucos, completo em todas as fases da partida, um gentleman, um Homem de cultura, um Homem que irradia simpatia e que encara o xadrez de uma forma universal muito para além do campo competitivo, o que acabou por lhe trazer problemas na sua Pátria ( e só ele saberá o que passou depois da derrota com Fischer). O que representam as "Tablas" de Spassky? O que representou o ser regresso a um Match com Fischer ( a sua necessidade, ou a compreensão da miséria material de Fischer?)

Isto individualizava-o perante outros jogadores e mostrava-o um Campeão do Mundo sereno, calmo, para quem o Xadrez não era a própria vida, mas sim uma faceta, se calhar nem a mais importante do seu Ser. Com uma filosofia de vida adversa a neuro ou psicopatias, tão comuns em alguns Campeões do Mundo, narcísico o suficiente para controlar o seu narcisismo, em Spassky não existia o ódio, o instinto de serial -killer, apanágio de muitos dos seus colegas. Contudo era um jogador fortíssimo, um "allaround" do tabuleiro que dominava na perfeição a arte da defesa, ou os ataques mais encarniçados.


Não sendo um teórico por natureza, dominava muitíssimo bem as aberturas que jogava, fosse a Espanhola, ou a Tarrasch, ou a Tartakower-Makogonov do Gambito de Dama. As partidas de Boris Spassy são um tratado de bem jogar em todo o tabuleiro e qualquer jovenzinho que se pretenda jogador de xadrez, só tem de aprender com elas, sobretudo com a clareza das ideias estratégicas de Spassky, com os golpes tácticos a preceito, com a capacidade de decisão e análise deste extraordinário Campeão do Mundo.

Talvez por isso e por averso ao espectáculo, ao mediatismo, Spassky continuou enigmático, pouco conhecido e pouco estudado. Basta contar os livros que lhe foram dedicados...muito poucos. Só no ano 2000, os seus amigo Krogius, Golubev e Gutman lhe prestaram a homenagem xadrezista merecida com com quase mil páginas dividas em 2 volumes, numa obra monumental em russo. Antes apenas o sofrível Cafferty ( apesar de tudo um dos meus primeiros livros de xadrez e que me fez amar o jogo clássico e cristalino de Spassky), o bom Soltis, e mais recentemente o simbólico Spassy's 400 Wins de Khalifman.

Coisas do destino, coincidências que me surpreendem. Na manhã de 5ª Feira passada a chegada da Abebooks de uma remessa de livros de Xadrez, alguns bastante raros e entre eles uma preciosidade que faltava na minha Biblioteca xadrezistica: O "Second Piatigorsky Cup" sobre o Torneio jogado em S. Mónica, Califórnia no ano de 66. Livro fabuloso em cada partida é analisada por ambos os jogadores ( excepto Fischer, que só comenta uma: com Najdorf), ou seja, praticamente 90 partidas cada uma com comentários dos dois jogadores, o que dá uma visão extraoirdinária e multifacetada da forma como cada jogador via o desenrolar da luta no tabuleiro. E claro... Spassky nesse livro, e o brilhantíssimo vencedor do Torneio. E minutos depois num site de xadrez internacional a dolorosa "novidade" sobre a saúde de Spassky.

Desde esse dia, vários dias com Spassky, os livros sobre Spassky, as fotos deste grande campeão.

Neste meu blogue, alguns livros indispensáveis, uma ligação para o You Tube onde coloquei um pequeno apanhado de fotos num vídeo ( já lá se encontra o de Emanuel Lasker) e partidas de Spassky, quase todas do Livro que referi acima acabado de receber, com humilde tradução para Português deste vosso criado.





27/07/10

Bergman-SOMMARLEK -Cartier Bresson-CINEASTA

Férias, outras actividades xadrezistas a imporem-se, ou mesmo a dificuldade da identificação, e nem uma resposta, apesar de vários xadrezistas terem vindo aqui espreitar.

Pois aí vai.

As primeiras duas gravuras são de:

Sommarlek, um dos mais belos filmes de toda a história do cinema. A cena em que Henrik apresenta o seu amor, Marie, a Elisabeth sua tia, quando esta joga xadrez com o padre.





As quatro outras:

Henri Cartier Bresson, não foi só, na minha opinião, subjectiva como tal, um dos maiores, senão o maior fotógrafo de todos os tempos, foi também cineasta, realizando vários filmes -documentários interessantes e visualmente muito bonitos.


“Victoire de La Vie” de 1937, produzido pela Centrale Sanitaire Internationale, sobre o lado médico e sanitário da Guerra Civil Espanhola-Republicanos , “ L’Espagne Vivra” de 1938, “Le Retour” de 1944-45, ou “Impressions de California” de 1969-70, e “Southern Exposures” de 1969-70, são alguns desses filmes que realizou.


As fotos colocadas no blogue, pertencem ao primeiro filme-documentário “ Victoire de La Vie” , quando soldados republicanos feridos da guerra-civil, jogam xadrez na enfermaria.


Já agora, se puderem, vejam esses filmes de Cartier Bresson que foram editados em 2 DVD conjuntamente com o Bresson fotógrafo, numa belíssima edição da Fundação HCB.



09/05/10

LILIENTHAL, Andor 2 .


E... SOVIET CHESS - Grekov

Tem razão o Kevin Spraggett no seu recente post ao apontar como um grande livro de Xadrez, o "Soviet Chess" de Nicolai Grekov. Assino por baixo tudo o que diz sobre o livro, na sua e minha edição da Putnam's Sons-Capricorn Books-NY.

Este livro refere-se obviamente a tudo o que era GM e Mestre Soviético, iniciando-se a análise de partidas por volta da 1ª década do Século XIX. São 108 partidas comentadas de forma verbal e variantes, não de forma exaustiva, o que permite uma panorâmica geral e abrangente ao mesmo tempo do Xadrez Russo-Soviético até aos anos 60, embora Grekov tenha ido só até aos anos 40, sendo o resto da responsabilidade de Bronstein.
O curioso deste livro são as verdadeiras jóias de partidas muito pouco conhecidas, muitas delas de jogadores praticamente desconhecidos no Ocidente, e alguns nem sequer com título de GM.

Claro que este livro refere-se a Lilienthal, nomeadamente a algumas das suas derrotas, mas também a duas vitórias importantes: uma contra Botvinnik e uma outra que ganhou um prémio de beleza.

Em formato digitalizado, uma página do índice do livro de Grekov, para verificarem a diversidade e riqueza das partidas e, a digitalização da Partida de Lilienthal contra Finogenov. ( cliquem na foto para aumentar)
Um aviso importante: a notação da partida está em descritiva inglesa (grandes, enormes livros da História do Xadrez estão nesta notação!) por isso coloco a partida na notação "normal" no visor abaixo.


(Parte do índice do Livro Soviet Chess-Grekov)









03/01/10

LASKER...Emanuel X LASKER , Edward , N Y 1924








Emanuel Lasker - Edward Lasker
N Y, 1924


Depois de considerar momentaneamente que abertura escolher, Emanuel Lasker começa a partida com o seu lance favorito e4. Sabia perfeitamente que se a minha resposta fosse e5, seria confrontado com a Ruy Lopez e as suas infindas subtilezas, nas quais Lasker tinha a experiência de trinta anos de lutas para o Campeonato do Mundo. Mas não havia muito por onde escolher. A Defesa Francesa, Siciliana ou Caro-Kann seriam talvez terra incógnita para o meu oponente, mas também o eram para mim. Numa Espanhola teria ao menos a vantagem de algum conhecimento de análises recentes do ataque que Marshall inventou. Curiosamente, uns dias antes tinha mostrado essas mesmas análises a Emanuel Lasker, mas de certeza que ele não tinha tido oportunidade de analisar todos os detalhes destas análises. De qualquer forma, não tive a coragem de tentar o Ataque Marshall...afinal uma duvidosa inovação, e preparei-me para jogar uma nova variante da defesa Tarrasch que tinha analisado antes do torneio com Maroczy. Então:


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4


Lasker hesitou um pouco antes de jogar o lance da partida e isso levou-me a pensar que a minha ideia de jogar o Ataque Marshall, o poderia induzir a jogar a sua velha e favorita variante de trocas, seguida de d4, com o objectivo de procurar um final favorável através da sua maioria de Peões no flanco de Rei. Verdade que Tarrasch afirmou que " antes do final , os deuses colocaram o meio-jogo", mas o que é certo é que perdeu com esta variante contra o mesmo Lasker na primeira partida do Campeonato do Mundo que disputaram. Não pude também deixar nesses breves momentos, de relembrar a belíssima partida que Emanuel Lasker ganhou a Capablanca no Torneio de S. Petersbursgo de 1914 e isso, obrigou-me a um esforço de memória para me lembrar que variante era a melhor para contestar à variante de Lasker, no entanto a minha preocupação desapareceu quando Lasker retirou o Bispo a a4.


4...Cf6 5.0–0 Be7


Por breves segundos considerei jogar Cxe4 em vez do lance da partida, já que Schlechter jogou esta variante com sucesso no seu math de 1910 contra Lasker, no único Campeonato do Mundo que terminou empatado.. Todavia, não conhecia em pormenor os meandros desta variante pelo que preferi afastar-me de complicações.


6.Te1 b5 7.Bb3 0–0


(...) Quando joguei 0–0, estava a fazer "bluff" e já tinha em mente jogar a variante Tarrasch, mesmo que o meu ilustre adversário jogasse 8.c3. Pensei todavia que Lasker pudesse temer as complicações deste ataque, nada fáceis de resolver no tempo limite da partida. Efectivamente Lasker gastou algum tempo do relógio antes de se decidir pelo lance da partida. Finalmente com um encolher de ombros, respondeu...


8.c3


A defesa Tarrasch da Espanhola desenhava-se no tabuleiro depois de eu ter desistido do ataque Marshall

8...d6 9.h3

um lance importante nesta variante, com o objectivo de evitar a pregagem Bg4, o que iria enfraquecer de forma significativa o planeado avanço do Peão de Dama


9...Ca5 10.Bc2 c5 11.d4 Dc7


até ao momento, a partida segue pelos caminhos mais trilhados nesta variante da Ruy Lopez


12.Cbd2 cxd4


Tarrasch jogou 12... Cc6 nesta posição. As Brancas ficam então com duas opções: oferecer temporariamente um Peão com 13.Cf1, ou jogar 13.d5, fechando o centro e apontar as baterias para um ataque no flanco de Rei. O plano que iniciei com 12...cxd4 ligado ao lance seguinte, pretende uma ocupação rápida da coluna c com uma das Torres, tirando partido de um certo atraso de desenvolvimento da Ala de Dama das Brancas. Esperava que esta linha de jogo pusesse mais dificuldades ao meu adversário do que qualquer outra variante que tivesse escolhido

13.cxd4 Bd7 14.Cf1 Tfc8


Pode parecer razoável usar a Torre de Rei nesta coluna e manter a Torre de Dama operacional para acções no flanco de Dama, conclui que a Toore de Rei talvez fosse mais útil no flanco de onde saiu.


15.Te2



Este lance surpreendeu-me. Esperava 15.Bd3, e pelo resultado de outra partida jogada com esta variante neste mesmo torneio, o lance parece ser o melhor. Talvez o lance de Lasker tenha dois objectivos: proteger a segunda linha e preparar uma futura dobragem das Torres em qualquer coluna que se proporcione. Procurei encontrar uma forma de tirar partido da posição algo artificial da Torre branca e o lance 15...Ch5 pareceu-me o mais adequado à minha análise da posição. O Cavalo negro poderia então atacar a Torre na csa f4 e, se as Brancas trocassem o seu Bispo de casas negras, o meu Peão em f4, controlaria e3 e g3, tirando liberdade de manobra ao cavalo branco de f1.Enquanto estudava as possíveis consequências do lance, vi que o mesmo envolvia o sacrifício de um peão, já que as Brancas podiam capturar duas vezes em e5; então se eu capturava o cavalo de e5 com a minha Dama, Lasker capturaria o meu Bispo de d7 com a sua. Mas...não poderia sacrificar o meu Bispo de casas brancas em h3 e ganhar um peão antes de capturar o cavalo de e5? Sim , mas antes as Brancas tomariam o meu peão de f7 com o seu cavalo.Céus! Eu não poderia tomar o cavalo! As Brancas dariam xeque com a Dama em d5 e se eu interpusesse o meu Bispo de casas brancas, tomaria o meu cavalo de h5 com xeque e ataque vitorioso.Não, tinha de haver alguma coisa escondida. Verifiquemos a variante outra vez: eu jogaria 15...Ch5 e seguir-se-ia 16.dxe5 - dxe5 17. Cxe5 - Bxh3 18. Cxf7. Mas porque não retirar o meu Bispo para e6, atacando o cavalo branco em e5 e defenfendo o xeque em d5? Lasker teria de jogar Cg5 e eu poderia jogar Bc4. A sua Torre não se poderia mover, porque quer se movesse para a casa d2 ou e3, cortaria a ligação do Bispo de casas negras que defendia o cavalo de g5. Restaria à Torre a casa e1, mas isso levaria à perda de uma peça, depois de trocar o meu Bispo de c4 pelo cavalo de f1 e tomar de seguida com a minha Dama o Bispo Branco de c2. Assim só restaria a Lasker uma solução, interpor o seu Bispo em d3 que eu pregaria com a minha Torre jogada a d8.Verifiquei toda a variante uma e outra vez e não encontrei nenhum erro nela. Pareceu-me que o ataque que obteria, valeria bem mais do que o Peão sacrificado.Assim nem hesitei:


15...Ch5 16.dxe5 dxe5 17.Cxe5 Bxh3 18.Cxf7



Be6 19.Cg5 Bc4 20.Bd3 Td8 21.Tc2!


Esta contra-pregagem humorística não foi considerada nas minhas análises. Ela permite às Brancas escaparem da pres21.Bxc4+são. O que eu tinha analisado antes deste lance de Lasker foi: 21.Bxc4+ -Dxc4 22.Dc2 - Dxc2 23. Txc2 - Td1 24.Cf3 - Cf4 e não encontro lance satisfatório para as Brancas, pois 25. Td2 - Td8 e as brancas não têm tempo para o lance libertador b3, pois a ocupação da casa d3 pelo meu cavalo teria efeitos devastadores.Também 25.b3 - Cd3! 25.g3 - Cd3 26.Rg2 (para jogar Ce3) Tf8! 27. Ce3? - Txf3 28. Rxf3 - Ce1+ . Se ao lance 27. C1d2 - Bg5!! 28.Cxg5? - Txf2 e mate em dois.As Brancas com a seu lance evitam todas estas complicações, mas eu continuo com vantagem na mobilidade das minhas peças e controlo a coluna de Dama, pelo que a minha superioridade posicional vale bem um peão. Encorajado pr todas estas considerações, continuei:


21...Cf4 22.Bxf4 Dxf4 23.Ch3 De5



As brancas ainda terão trabalho duro para me desalojar desta casa central dominante.


24.Bxc4+ Cxc4 25.De2 Td4 26.f3



As casas negras em volta do Rei Branco estão agora enfraquecidas, pelo que o meu Bispo de casas negras pode encontrar um fértil campo de acção. Como é óbvio primeiro terei de dobrar as Torres na coluna D para evitar as trocas na mesma coluna das Torres Brancas.


26...Tad8 27.Tac1

Agora as brancas estão preparadas para afastar o meu cavalo com b3 e depois começar a manobrar na coluna aberta , ameaçando entre outras coisas trocar torres em c8. Examinando a posição no sentido de encontrar uma boa casa para o meu cavalo, conclui que só em d2 ele estaria bem colocado.Em d6, a minha Dama seria desalojada da sua posição central com Tc5. Retirar o cavalo a b6, daria oportunidade à Torre Branca de fazer uma incursão no meu campo com Tc6 e, se punha a minha Torre em d6, ela jogaria a c5. Se colocar o meu cavalo em d2 ameaço a troca com o cavalo Branco de f1 e assim as casas negras em volta do Rei ficam sem o seu principal defensor e o meu Bispo pode aumentar o seu raio de acção. Para permitir a ida do meu cavalo a d2, tenho de jogar primeiro o meu Bispo a b4 e tenho de ter cuidado de não deixar cravar o mesmo cavalo na coluna, se as Brancas tentam iludir a troca pelo de f1.
Tinha apenas 5 minutos no relógio para completar o meu lance 30 e concluindo que o plano idealizado com Cd2, era o único à minha disposição, decidi entrar nele. Antes de jogar o Bispo a b4 e para ganhar tempo ao relógio, decidi jogá-lo primeiro a c5, encostando o Rei Branco ao canto do tabuleiro.


27...Bc5 28.Rh1 Bb4 29.b3 Cd2


Só me faltava um lance para o controlo.Pensei em dois lances que as Brancas poderiam jogar se quisessem evitar a troca de cavalos: quer 30.Ch2 ou 30.Ce3. Neste ultimo caso, porque não sacrificar o meu cavalo em e4 e depois recuperar a peça, aproveitando a pregagem do cavalo branco em e3? Confesso que não esperava que Lasker jogasse este lance. Mas acordei da minha crença com :

30.Ce3!?


Lasker atreveu-se, jogou mesmo o lance. Jogou-o para tornar a posição complicada e aproveitar o pouco tempo que me restava para calcular as consequências do sacrifício Cxe4?
Ou...haveria alguma falha nos meus cálculos? Num estado de grande agitação, retornei aos meus cálculos. O que podertia jogar Lasker depois do sacrifício 30...Cxe4 31.fxe4 - Txe4 ? Talvez...32.Tc8. Eu não poderia trocar torres, porque depois de Txc8 33.Txc8+ seguido de Df3+ estaria perdido.
Mas que se seguiria depois de retirar a minha torre para e8? 33...Te8? Isso não defenderia a minha primeira linha e não recuperaria à mesma o Cavalo pregado? Depois de trocar a Torre de c8 pela de e8 , as brancas não podem defender o Cavalo de e3, mas talvez dar o cavalo de e3 e jogar para um ataque perigoso com Dd3?
Tick, Tick, lembrava o relógio ao meu lado, a seta quase a cair, 15 segundos restantes...depois de Txe3 35 Dd5 + . E para quê tomar logo o cavalo de e3? Porque não jogar primeiro Dd6, ou simplesmente retirar o meu Rei para o canto?
Mas em vez de Dd3, se as Brancas retiram o seu Cavalo de h3 para g1 e respondem a Txe3 com Dg4 atacando o meu bispo em b4 ameaçando a sua ida de Torre a c8, obrigando-me a jogar Bf8... Três Segundos e a seta quase a cair! Tenho de jogar. Estava tão apurado pelo tempo que as peças começaram estranho bailado em frente dos meus olhos. Não haveria um lance que mantivesse as minhas ameaças e que não estragasse a posição neste escasso tempo que tenho para o realizar e só depois do controlo de tempo ultrapassado pensar nas consequências do sacrifício do Cavalo?
Ah! Achei Ba3 obrigando a sua Torre a mover-se...Depressa:

30...Ba3

Realizei esta jogada no exacto momento em que me preparava para perder por tempo, mas rapidamente me dei conta que tinha deitado por terra a possibilidade de vencer, pois...

31.Td1


Agora não há sacrifício em e4, pois a minha Torre de d8 está em "prise".
Estava esgotado pelos terríveis apuros de tempo e descroçoado, agora que lentamente poderia ir atrás e ver mais detalhadamente a variante do sacrifício do Cavalo e a minha retirada da Torre de d8 para e8.Uma análise detalhada da posição com próprio Emanuel Lasker no ano transacto, mostrou que se ele tivesse em vez de 30.Ce3 !?, jogado 30.Tc8, a partida poderia terminar em empate, o que me deixou mais consolado.30...Cxf1 31. Txd8+ - Txd8 32.Dxf1 - Bd6 33.f4 - Dxe4 seria a continuação mais plausível. Dificilmente as brancas poderioam manter o Peão com 33. Dg1 -Dg3! 34. Td1 -Tc8 35. Td5 - h6 e as negras ameaçam Tc3 e sacrificar em f3 depois de retirar o Bispo . Se as Brancas tentam parar esta ideia com 36. Td3 - Tc5! com a ideia de Th5 37.Te3 (para f4) Bf4 38.Cxf4 - Dxf4 e se 39. g4 - h5 39.De1 - Tc2. Alekhine nos seus comentários a esta partida considerou o meu lance com o cavalo em d2 como um acto de desespero e deu uma exclamação ao lance de Emanuel Lasker Ce3 , não se apercebendo de que o meu plano e o consequente sacrifício eram correctos, levando à derrota das brancas. Alekhine não analisou a possibilidade 32...Te8 em resposta a 32.Tc8. É uma pena que através deste erro conclua da ineficácia de toda a estatégia negra nesta excitante e interessante nova defesa que levou a um ataque feroz. Valeria a pena os leitores lerem o Livro do Torneio para verificarem as suas notas , agora sob um ângulo não distorcido pelo lapso de Alekhine.
Tinha que selar o meu lance, pois a partida iria ser adiada aré à sessão da noite. Depois do primeiro controlo de tempo ao fim de 30 lances, e com duas horas de intervalo, teria muito tempo para avaliar a situação no tabuleiro.Como não posso proteger o meu cavalo com 31...Dd6 devido a 32.Cf5, apenas me resta 31...Bb4 ou o sacrifício do cavalo 31...Cxe4 com chances de ataque, mas nada mais , porque o cavalo branco é impossível de recuperar. 31...Cxe4 32.fxe4 - Bd6 33. Cf1 - Txe4 34. Dd3? - Bc7 35. Df3 - Txd1 36. Dxd1 - Te1 e ganham. Tudo isto é um sonho, como rapidamente percebi. Ao lance 33. Cg4 - Txd1 34. Dxd1 - Dg3 35. e5 e não encontro nenhuma resposta satisfatória para as negras.Mas porque não uma combinação das duas ideias depois do meu lance 31...Bb4.? Parece evidente que as brancas irão expulsar o Bispo negro para ganhar o meu cavalo. Depois de 32.a3-Ba5 33. b4 - Bc7 ameaço mate, mas 34.f4 defende o mate e ameaça a minha Dama e Dd6 não pode ser jogado para defender o meu cavalo devido a Cf5 das Brancas. Assim a partida parecia perdida para mim, ou pelo menos daria essa sensação ao meu adversário...sonhava eu. Todavia o lance 34...Cxe4 seria o lance salvador e que até poderia virar a partida a meu favor!
Gastei quinze minutos a analisar variantes e subvariantes relacionadas com esta linha de jogo, pelo que fiquei com 45 minutos para os restantes 14 lances antes do segundo controlo. Tinha que me decidir. Decidi, e selei o lance.

31...Bb4


Quando a partida recomeçou duas horas depois, Emanuel Lasker jogou os lances esperados

32.a3 Ba5 33.b4 Bc7 34.f4



Evidentemente que as Brancas não podem defender o mate com 34. Cg4 ?- Cxe4 35. Txd4 - Cg3+ 36. Rh2 - Cxe2+ 37. Cxe5 - Bxe5+ e ganham.Lasker jogou 34. f4 com uma rapidez que me fez desconfiar, pois no intervalo para Jantar teve tempo suficiente para analisar detalhadamente a posição. . Mesmo assim analisei cuidadosamente a minha variante com Cxe4, para ver se não havia nada de errado nas minhas amálises anteriores.
Depois de 35. fxe5 - Cg3 + 36. Rh2 - Cxe2 37. Txc7 ( 37.Txd4??-Bxe5+ e ganham) Txd1 38. Cxd1 - Txd1 39. Cg5 - Td8 40. Ta7 - h6 41. Ce6 - Te8 seria talvez empate. Estava claramente desanimado pois era o que me restava depois do meu lance surpresa. Não havia mais nada a fazer e por isso joguei:

34...Cxe4


O meu adversário nem pensou muito...Penoso verificar que nem sequer considerei o seu lance que refuta a minha bela combinação.


35.Rh2!!


Aí está! O xeque em g3 está agora defendido, tenho de mover a minha Dama, mas de fortma a manter o Bispo de c7 defendido. Na resposta a Dd6, as brancas teriam simplesmente trocado as Torres e capturado o Bispo negro. De7 também era fraco devido a Cf5 . Nesta situação desesperada encontrei aquilo que julgava ser um brilhante recurso que me salvava a partida. Mas... a ideia é demasiado bonita para ser verdadeira.

35...Txd1!!


Se agora 36.fxe5 - Bxe5+ 37g3 - T1d2 ; Se 37. Cf4 -Bxf4+ 38. Rh3 - T1–d3!


36.Cxd1


Refuta toda a minha combinação. Agora a minha Dama deve mover-se e perco uma peça, ou Bispo ou Cavalo


36...De7 37.Txc7?



Um erro do tipo a que o antigo Campeão Russo Ossip Bernstein chamou de "Igualdade na Injustiça no Xadrez". Emanuel Lasker jogou este lance sem qualquer hesitação. Evidentemente que o tinha previsto de antemão, na altura em que elaborou a sua defesa com Rh2. Ele viu que ganhava a qualidade e não se preocupou em verificar outras possibilidades. Com 37. Cf2 ganhava uma peça e o jogo. 37...Td4 38. De3 - Bb6 39. Tc8+ -Rf7 40. Cxe4 - Txe4 41. dxe4 seguido do duplo ecom Cg5 + Depois de ter ganho Cavalo e Bispo por Torre as brancas não têm um final fácil. De facto é dividoso que o final se possa ganhar "per si". O seu peão fraco a , as Brancas devem jogar cuidadosamente evitando a troca de Damas, pois a Torre negra poderia deslocar-se ao longo de todo o tabuleiro ao contrário dos cavalos brancos. Lasker foge à troca de Damas e manobra de forma magistral de forma a conseguir um ataque ao Rei negro.


37...Dxc7 38.Dxe4 Dc4

Claro que Txd1 39.De8 Mate


39.De7 Dc8


Para impedir a aproximação dos cavalos. o Cavalo branco a e3 não pode ser jogado devido a Te8


40.Cdf2



[40.Cg5 Txd1 41.Df7+ Rh8 42.Dh5 h6 43.Dxd1 hxg5 44.Dh5+ Rg8 45.Dxg5 produziria um final de Damas bastante problemático de ganhar]

40...h6 41.Da7

o lance 41. Ce4 seria bastante desagradável, porque agora Te8 seria respondido com 42.Dc5. A troca de Damas nesta posição era-me desfavorável porque as brancas podiam capturar o peão a e embora eu pudesse capturar o a branco, o cavalo negro em d6 defenderia o peão b, o que me impossibilitaria a obtenção de um Peão passado

41...De6

Agora durante um pouco evito o cavalo em e4


42.Db7 Dd5 43.Db6





[43.Dxa6 Ta8 Cai o peão a branco e o b também estará ameaçado futuramente]


43...Td6 44.De3 Te6 45.Dc3 Dc4 46.Df3 Dc6 47.Dd3 Td6 48.Db3+ Dd5 49.Db1 Te6


Novamente prevenindo Ce4 e agora ameaço atacar o peão a branco com Te3

50.Cg4


[50.Cd3 Te2 51.Chf2 Ta2 52.Dc1 Dc4 e o peão cai. As Brancas decidem aproveitar e atacar sacrificando um cavalo em h6 para assim coilocar uma bateria de Dama, Cavalo restante e peões passados sobre o meu Rei.]


50...Te2



Permitindo o sacrifício e oferecendo o empate, já que as Brancas não terão dificuldade em forçar o xeque perpétuo. Todavia, psicologicamente eu penso que tenho chances práticas de vitória, porque as Brancas podem tentar ganhar com o Cavalo e dois peãos passados contra a minha Torre. Não tenho muito a temer desta tentativa, porque o Rei branco ficaria exposto depois do avanço dos peões. Poderia ter tentado 50...Te4 e só depois das Brancas jogarem o Cavalo a e5 é que jogaria a Torre a e2

51.Cxh6+



51...gxh6 52.Dg6+ Rf8 53.Dxh6+ Re8 54.Dg6+ Rd8



As Brancas poderiam agora empatar poor xeque perpétuo, começando com 55.Dd6+ e continuar a dar xeques na Oitava ou Sétima linhas at+e ur interpor Torre ou Dama, desfazendo a ameaça de mate em g2 . Então se as brancas se voltam para o meu peão a não teria nada de melhor do que renovar a ameaça de mate no mesmo ponto g2.As Brancas decidem prolongar a luta provavelmente convencidas que a possibilidade de xeque perpétuo se manteria e que uma possibilidade de vitória poderia nascer no caso de a minha Torre ou Dama se afastarem da luta capturando o seu peão a

55.Dg3



Agora descortinei uma possibilidade de evitar o xeque perpétuo, enquanto mantenho a ameaça de mate da mninha Torre na coluna g


55...Te8 56.Df2 Tg8 57.Db2 Dd6


Este lance protege o Rei contra xeques e ao mesmo tempo evita a aproximação do Cavalo pelo menos enquanto o peão de Bispo está desprotegido. Agora Emanuel Lasker manobra a sua Dama com grande subtileza no sentido de obter uma cooperação do Cavalo em g5. Entretanto a minha possibilidade passa por capturar o peão branco a, sem dar oportunidade de cheque perpétuo e tentar obter uma posição vitoriosa.


58.Dc3 Rd7 59.Df3 Rc7 60.De4 Tg7 61.Df5 Te7


Não consigo impedir o Cavalo de ocupar g5 e assim volto-me para o peão a.Aqui a partida foi adiada e as brancas selaram o seu lance. Uma terceira sessão de quatro horas estava a caminho, pois o final iria ser difícil para ambos os jogadores


62.Cg5 Te3 63.Ce4 De7!


Ameaçando mate em dois

64.Cf6 Rb8! 65.g3 Txa3 66.Rh3 Ta1



[66...Dxb4 67.De5+ Rb7 68.Dd5+ Perpétuo]


67.Cd5 Th1+



Por momentos considerei 67...Dh7+ 68. Dxh7 - Th1+ mas as brancas poderiam jogar ao lance 68. Rg4 e o seu Rei avancaria perigosamente. Com o lance do texto, o Rei deve retirar a g2 para não sofre duro ataque.

68.Rg2 Dh7



Troca obrigatória, porque a Dama Branca só disporia de um xeque e o seu Rei não poderia defender-se da acção concertada da Torre e Dama negras


69.Dxh7 Txh7 70.Rf3 Rb7 71.g4 Rc6 72.Re4 Th8


O meu plano era afastar primeiro o cavalo e só depois avançar o meu peão de torre, para assim abrir caminho ao peão b. Com o meu lance ameaço dar xeque em e8 e ganhar o cavalo, pelo que o mesmo vai ter de se retirar. Poderia ter conseguido o mesmo atacando o cavalo directamente da casa d7. Ao jogar o meu lance não me apercebi que a minha torre na oitava linha em vez de continuar na sétima, permitia ao meu adversário uma possibilidade escondida de empate. Com Td7, tudo era muito mais difícil para Lasker 72...Td7 73.Cf6 (73.g5 Txd5 74.g6 Td1; 73.Ce3 a5 74.bxa5 b4 75.g5 Rc5 76.Cc2 b3 77.Ca3 Rb4 78.Cb1 Td1) 73...Td8 74.g5 a5 75.bxa5 b4–+]

73.Ce3 Te8+ 74.Rd4 Td8+ 75.Re4


[75.Rc3 a5 76.bxa5 Rc5 77.g5 b4+ 78.Rc2 b3+ 79.Rb2 Td2+]



75...a5



76.bxa5 b4 77.a6!



[77.g5 b3 78.Cc4 Rc5 79.Cb2 Td2 80.Cd3+ Rc4 81.Ce5+ Rc3]



77...Rc5



Tivesse suspeitado que as Brancas tinham uma chance de empate como aludi atrás e teria prestado muito mais atenção ao avanço do meu peão b [77...b3 78.Cc4 Rb5 79.Cb2 Rxa6 80.Re3! Rb5 81.g5 Rb4 82.g6 Rc3 83.Ca4+ Rc2 84.f5 Te8+ 85.Rf3 a) 85.Rf2 Tf8 86.Rg3 Txf5 87.Rg4 Ta5! 88.Cb6 b2 89.g7 b1D 90.g8D Dg1+–+; b) 85.Rf4 Ta8 86.Cb6 b2 87.Cxa8 b1D 88.g7 Db8+ 89.Rg5 Dg3+ 90.Rf6 Dh4+ 91.Rg6 Dg4+ 92.Rh6 Rd3 93.f6 Re4 94.Rh7 (94.f7 De6+) 94...Df5+; 85...Te5 86.Rf4 Ta5 87.Cb6 (87.g7 Txa4+ 88.Rg5 Ta8 89.f6 b2 90.f7 b1D 91.f8D Ta5+ 92.Rg6 Rc3+ 93.Rf7 Df5+–+) 87...b2 88.g7 b1D 89.g8D Df1+ 90.Re4 Dd3+ 91.Rf4 Txf5+–+]

78.a7!!


Aqui está a surpresa que demonstra a importância da minha Torre estar na Sétima ou Oitava linha. Se a Torre tivesse sido jogada para d7 no lance 72, podia agora capturar o peão simplesmente. Agora tem de perder um tempo para isso e isso faz toda a diferença, pois permite a Emanuel Lasker o empate.


78...b3 79.Cd1 Ta8

[79...Rb6 80.Re3 Rxa7 81.Cb2 Rb6 82.f5 Rc5 83.f6 com final similar ao da partida]

80.g5 Txa7 81.g6 Td7 82.Cb2 Td2 83.Rf3! Td8


Não posso tomar o cavalo, mas posso ganhar ambos os peões e ter esperanças na vitória.


84.Re4 Td2 85.Rf3 Td8 86.Re4 Rd6 87.Rd4 Tc8 88.g7


Com o objectivo de forçar a Torre a afastar-se para o Rei se aproximar do meu Peão


88...Re6 89.g8D+ Txg8 90.Rc4 Tg3!


Este era o lance que eu pensava que ganhava, tal como outros participantes pensavam. Lembro-me que deixei a sala de jogo para descontrair um pouco e fui cumprimentado pela vitória por Bogoljuboff e outros que estavam na sala de imprensa vque me informaram que a história da partida estava feita. No entanto quando regressei ao tabuleiro, esperava-me um choque violento.


91.Ca4 Rf5 92.Rb4 Rxf4


Faltam três lances para as brancas capturarem o peão . Mas nesse momento o meu Rei atingiria a casa c5 e o cavalo estaria perdido devido à pregagem. Nunca passou pela minha cabeça que as Brancas não necessitam capturar o peão e ainda assim empatarem. Emanuel Lasker descobriu uma nova posição no final em que Torre e Peão não conseguem vencer o Cavalo. Esta posição tornou-se clássica. Por estranha coincidência, acontece que dois ou três anos depois num Torneio em Chicago, numa partida, um dois jogadores conhecia este final da minha Partida com Emanuel Lasker e salvou uma posição perdida, pois o outro jogador não conhecia a manobra de salvação.


93.Cb2!


Fiquei perplexo quando vi este lance, mas rapidamente percebi que não havia maneira de expulsar o Rei branco. Passar o meu Rei para a Terceira linha, expunha a captura do peão. A primeira coisa que fiz, foi dirigir-me à sala de Imprensa e dizer aos repórteres que deveriam desfazer a sua história da partida. Estava com medo que a já tivessem publicado, pois todos me atribuiam a vbitória. Depois retornei e analisei a posição. Se pudesse atingir d2 com o meu Rei, jogando-o por detrás da Torre podeeia ainda ganhar. Não custava nada tentar



93...Re4 94.Ca4 Rd4 95.Cb2 Tf3 96.Ca4 Te3 97.Cb2 Re4 98.Ca4 Rf3 99.Ra3


Isto destrói o meu plano.


99...Re4


[99...Re2 100.Rb2]


100.Rb4 Rd4 101.Cb2 Th3 102.Ca4 Rd3 103.Rxb3 Rd4+



EMPATE

Esta partida é geralmente considerada uma das mais emplogantes do Torneio. Claro que me senti algo decepcionado por ver a vitória fugir pelas minhas mãos depois de quase treze horas de uma dura luta. Mas quando a excitação passou, consegui olhar para esta partida como umas das melhores da minha carreira e semprte que me lembro dela, não posdo deixar de sorrir ao lembrar-me da "Igualdade na Injustiça do Xadrez" ½–½

"Edward Lasker, Chess For Fun, and Chess For Blood", Dover
(Tradução de AV)

PS: Só um aviso aos meus leitores: terão mais Lasker, Emanuel de certeza neste blogue, e mesmo de forma interessante...esperem para ver!