Caro Martinho Lopes escrevi-te em vida em 2009, depois de a Casa do Xadrez te ter lembrado. Agora nada mais tenho a dizer. O que disse nesse texto de blogue tinha saído de alguém que tinha percecionado noutro alguém essa paixão tão rara pelo xadrez, que noutros é qualquer coisa que não paixão.
Caro Martinho Lopes resolveste partir e foi de colunas abertas e tudo, mas podias ter esperado mais um bocadinho na oitava casa, mas não!
Caro Martinho, espera lá um bocadinho: foi o Durão, o Ochoa, Tu, afinal como é? Quando tal vamos ter uma réplica do Nacional de S. João da Madeira no reino de Caissa? Ris-te? Estamos velhos, "Captain" Martinho Lopes!
Em 2009 escrevi-te, que eras dos Bons, daqueles que até as peças se domam nos dedos que as movem no tabuleiro, que eras dos Puros, dos que deram tudo ao xadrez sem dele nada esperarem, exceto essa magia, esse embruxamento que nos toma a alma por paixão, que eras dos que guardo cá dentro no coração como vinho de excelência em cascos de carvalho e para sempre porque de safra inegualável, que eras de um tempo do xadrez em que havia tempo de transfiguração de um outro tempo de xadrez em que se criavam laços e admirações.
Martinho Lopes, neste teu mundo do xadrez, isto está mesmo ganho pá! Comigo ganhas sempre, nunca perdes o que ganho conseguiste no meu respeito, na minha admiração, na minha memória.
Caro Martinho, vou esperar mais um bocadinho, jogar estilo ataque índio de Rei-g3-d3-Cbd2-c3, h3 e tenta esperar mais uns anos até à promoção. Preciso ainda de tempo para te lembrar, a Ti, ao Ochoa, ao Marino, ao Durão, ao Tarira, etc,etc. Assim faz aí a minha inscrição para o tal Torneio que haveremos de jogar e não te esqueças de por a tua melhor barba de pirata. Prometo levar as peças de xadrez mais bonitas da minha coleção , e de madeira claro! Ris-te Martinho? Tu, que adoravas empurrar plástico e amadeirar os teus adversários no tabuleiro!
O Xadrez, Santarém, a Casa do Xadrez perderam um HOMEM.
E estou triste e contente: pela perda e pelo que o xadrez me foi dando de alegrias ao longo da vida muito vezes escondido no halo do xadrez, nem que fosse conhecer de raspão Martinho Lopes.
Não, não era a altura que nele impressionava. Era qualquer coisa indefinível que passava pelo seu ar “maciço”, pesado, pelo seu andar pausado mas decidido, e sobretudo pela abundante e negra barba que quase lhe escondia a cara. Uma barba, negra, cerrada, florestal que lhe dava um aspecto épico, prometeico, assustador e, se a isto juntarmos uns centímetros acima, cobrindo uns olhos vivos, inquisidores, umas grossas lentes enquadradas por largas armações, teremos um retrato ténue do que na Escola Preparatória de S. João da Madeira vislumbrei no dia 19 de Setembro.
Esta a personagem que se me arribou frente a um tabuleiro de xadrez na 5ª sessão de um distante Campeonato Nacional de Xadrez no ano de 1978.
31 Anos passados, recordo nitidamente o MARTINHO LOPES, retenho-o numa espécie de “vi claramente visto” fotográfico para sempre. O Homem impunha respeito aos meus 21 anos da altura, embora o seu ser mais velho, mais parecia do que era efectivamente.
Esperei calmamente que chegasse e realizasse o seu lance inicial e confesso que quando se aproximou do tabuleiro, pareceu-me ver dois, não porque o Martinho Lopes tivesse o dom da ubiquidade, mas porque os 39,5 de febre com que amanheci, confirmado no boletim do torneio, faziam-me ver um pouco a dobrar, e como tal, não favoreceram nem a visão nem o entendimento do Xadrez, que não era famoso, diga-se.
Não, não foi por isso que perdi com esta fantástica personagem. Perdi, porque tinha de perder, perdi simplesmente porque era pior jogador do que o Martinho, perdi, aliás, porque como indica o meu último lugar neste Nacional, era sem dúvida o pior jogador, aquele que estava prestes a descobrir o óbvio: não tinha capacidade, nem vontade, de ir mais além no Xadrez de competição. Daria pouco mais do que aquilo que ali tinha mostrado. Sabia muita teoria decorada, muito lance pendurado numa espécie de tabuada pré-definida, e entendia muito pouco de xadrez. Acho que foi a partir desse momento que comecei a entender o xadrez, a amar um outro tipo de xadrez, a perceber a beleza escondida por detrás de um xadrez competitivo de tabuleiro.
Claramente o Martinho Lopes era melhor jogador do que eu, não na proporção de me ganhar no número de lances que ganhou, mas simplesmente porque era competitivo até dizer basta. O seu lugar nesse Campeonato Nacional Absoluto de 1978, assim o diz: 6º lugar, apenas com uma derrota! Um jogador que ao longo de 11 sessões de um duro campeonato, e com jogadores do topo, só inclina o rei uma vez, não podia ser um jogador qualquer...e não era! Um jogador de xadrez na verdadeira acepção da palavra, como constatei ao longo do torneio. “Esmagou” os dois fracotes, perdeu com aquele que era à data o Campeão Nacional, Fernando Silva, e empatou com todos ou outros jogadores, entre eles com aquele que seria neste torneio consagrado o novo campeão nacional, Luís Santos. Diga-se desde já que em algumas partidas, Martinho Lopes teve clara vantagem, deixando aqui ou ali, fugir a vitória.
Agressivo, ou de contra-ataque perigoso numas partidas, noutras, mostrava uma solidez de jogo que não permitia aos consagrados tirar qualquer partido da sua pretensa superioridade. Gostava de afirmar que não ligava nada à teoria, mas se estudarmos as suas partidas deste Nacional de S. João da Madeira, verificamos que era uma “blague”, porque o Martinho sabia teoria e não era pouca, veja-se a título de exemplo a sua partida com Ochoa e o ataque Fegatello ou a sua “Ruy Lopez-Chigorin-Keres “ de brancas contra o António Fernandes.
O Martinho Lopes e a sua negra barba à “captain Edward Thatch” impressionava, mas o que mais me impressionou quando se aproximou do tabuleiro para a “abordagem” à nossa partida, foi a sua voz de baixo profunda, rouca, cavernosa , no cumprimento da praxe e aperto de mão inicial “ Martinho Lopes – Santarém” !
O Martinho que fui observando ao longo das sessões e fora deles. Um Martinho pretensamente rude, distante invólucro de um outro Martinho sensível, brincalhão, de frase afiada e sentido de humor apreciável. Bom garfo, óptimo copo, o Martinho adorava a “charla” brincalhona, o dichote, o humor corrosivo e não raro a ironia quando falava de xadrez. Claro que não contamos com ele nas fileiras da equipa de futebol dos jogadores que defrontou a organização no dia livre, pois o nosso querido Martinho Lopes era daqueles que não tinha a cabeça onde nós nesse dia teríamos os pés, preferindo outros jogos, e depois... a finta à caldeirada sumptuosa oferecida pela maravilhosa organização.
Bem verdade o que o jogador Rui Silva Pereira e o árbitro José Oliveira, escreveram do Martinho na Revista Portuguesa de Xadrez, II Série nº 19 de Outubro de 1978 (e de que forma maravilhosa se escrevia sobre e de xadrez, nesta altura!).
screveu Silva Pereira: “ Martinho Lopes fecha a 1ª metade da tabela. Considerações sobre o estilo deste autêntico pirata do tabuleiro poderão ser encontradas no artigo de José Oliveira. Tal jogador ( que usa uma espessa barba negra) é sempre o terror do torneio, chegando a povoar os pesadelos dos seus potenciais adversários “.
O “Zé Oliveira” do apito Sanjoanino escreveu “ O Martinho Lopes foi das figuras mais típicas ( “castiças” diz-se em S. João) do Campeonato. Para além dos dotes fadísticos, oratórios, e no campo da futurologia, impressionou o seu estilo de jogo descontraído: “ Aquilo está ganho, pá. Sacrifico duas peças, entro com a torre na sétima e dou mate”. “Hoje - dizia ele entre duas fumaças - vou derreter o Luís Santos. Senão o Campeonato está resolvido”. E gerou-se uma certa expectativa à volta da partida. Ninguém contava era que o Luís aparecesse com um casaco novo, ao que parece revestido de amianto, assim conseguindo escapar in extremis ao maçarico do Martinho”.
“ A minha partida com o Sílvio estava ganha - dizia o Martinho Lopes, enquanto pousava a beata no cinzeiro – o pior é que levava duzentos anos a acabar” . E puxando de outro cigarro: “ Amanhã jogo com o Renato. Da última vez, eh!...ia com a dama, lá no fundo e ameaçava cinco peças ao mesmo tempo. Desfiz o tipo, mas estava à rasca porque tinha de ir apanhar o comboio, e propus empate” .
Era assim o Martinho Lopes, explosivo, de mar largo, de onda bravia, mas também de um enorme coração, de uma franqueza, de uma simpatia que cativava. Um senhor do Xadrez, um Senhor que nunca mais tive o privilégio de ver, porque ao que parece, depois deste Campeonato Nacional o Martinho Lopes resolveu tirar umas longas férias de dezenas de anos do Xadrez, quando muito poderia ter dado ao xadrez. Talvez aquilo que em tempos escrevi: quem ama muito a coisa amada, por vezes necessita dela desprender-se para melhor a amar, ou no mínimo amar a memória da beleza dela.
Por isso, uma enorme emoção, quando nesse excelente Blogue que é a “CASA DO XADREZ” num poste de 3 de Fevereiro deste ano, vi fotos do Martinho Lopes, a jogar xadrez no café "Solbar" em Santarém. Como confessou o fotógrafo, difícil de fotografar o Manuel Martinho Lopes, talvez por isso, as fotos não estejam famosas, mas mesmo de cabelos brancos e barbeado, reconheci o Martinho, na forma como se concentra, como se move decidido na realização de um lance, naquele olhar maroto de eterno apaixonado de Caissa!
Fez-me bem recordá-lo, fez-me bem mergulhar ma memória afectiva mais profunda relacionada com o xadrez, com um Xadrez, com um Campeonato de Xadrez, que suspeito ter sido “para hoje nunca mais”, pelo convívio, pela relação entre os jogadores, pela extraordinária organização, pelo puro prazer que era jogar xadrez e estar no xadrez apesar da competição.
Hei-de escrever sobre este Nacional.
( que me desculpe o Pessoal da Casa de Xadrez, mas...vou roubar do seu blogue uma ou duas fotos do Martinho...espero não ser processado). Bem, dedico este artigo ao Martinho Lopes e à Casa do Xadrez que é mesmo uma “habitação familiar” de xadrez!
Lopes,Martinho - Vieira,Arlindo [B33]
Campeonato Nacional S. João da Madeira (5) 09.1978 [Arlindo Vieira] B33: Siciliana:
Durante a partida esperei pelo lance lógico 10.f4, mas o lance do Martinho Lopes, parecendo uma "jogada de cafè", acaba por ter uma ideia clara, libertar o Bispo de c1 e tentar não permitir às negras a libertação do seu jogo com d5
10...d5?! Se conhecesse o Martinho Lopes, teria jogado o mais calmo e expectante [10...d6!?]
11.Bg5 Be6
Não é que este lance seja mau, todavia, deslumbrado com a minha posição e com a frase feita lida não sei algures " Na Siciliana se as negras jogam d5, sem problemas, ficam com excelente jogo", continuei a desenvolver as peças calmamente , procurando que as Torres entrassem em jogo , pressionando o centro. Claro que vi o avanço de d4, mas a possibilidade de ficar com um peão isolado em c6 não me agradou. Um mau juízo posicional, pois esta debilidade seria mais aparente que real, devido à actividade das minhas peças.
[ por exemplo: 11...d4 12.Ca4 Dc7 13.Bxf6 Bxf6 14.c3 dxc3 15.Cxc3 Be7 16.Dc2 Dd6 17.Tbd1 Dg6 com igualdade]
12.f4!
Bom e típico lance "à Martinho Lopes". Ele não fica a esperar para ver e inicia um ataque no flanco de Rei.
12...dxe4?
Mau lance e típico do fraco jogador que era. Abandonar a tensão central para quê e porquê? Depois abrir vias e avenidas de ataque ao Rei negro com que objectivos? [12...Dd4!?; 12...Tae8!?]
13.Bxf6
[ ainda era melhor 13.fxe5! Cg4 14.Cxe4 Tfe8±]
13...Bxf6
se tivesse estudado como deveria ter estudado na altura partidas do Fischer e o seu célebre " Castling into it", então não teria sido difícil descobrir que defensivamente a abertura do Roque era o mais aconselhado! [13...gxf6 14.Bxe4 f5 15.Dh5 fxe4 16.f5 Bxa2 17.Cxa2 Rh8 18.f6 Bd6 19.Dg4 Tg8 20.Dxe4 Tad8 21.b4 Tg6 ]
14.Cxe4 Dd8??
Cegueira e completo desnorte na análise da posição. Digo análise e não houve nenhuma, simplesmente um lance mecânico que surgiu na ideia e que na altura me pareceu que defendia tudo. É exactamente neste tipo de posições que um jogador tem de se aplicar na análise profunda da posição, isto é, na altura em que tem de reconhecer que da igualdade passou para uma posição claramente inferior, e como tal arranjar um plano defensivo adequado, ou pelo menos, uma série de jogadas que ponham problemas ao ataque do adversário.14...Bd8 impunha-se para uma defesa difícil. [14...Bd8!? 15.f5 (15...Bxa2 16.f6 De3 17.fxg7 Rxg7 18.Dg4+ Rh8 19.Tbe1 Dd4 20.Dh3 f5 21.b3 Ba5 22.Cg5)
(15...Bd5 16.f6 Dd4 17.fxg7 Rxg7 18.c3 De3 19.Dg4+ Rh8 20.Tf3 Dh6 21.Td1 Bb6) ]
15.fxe5+- Bxe5??
Sentindo a posição perdida, joguei ao correr da mão, nem sequer pensando na retirada do Bispo para e7, ou para g5, que não salvando a partida, ofereceriam mais resistência
1) 15...Be7 16.Cf6+ Bxf6 17.exf6 g6 18.Dd2 Rh8 19.Tbd1 Tg8 20.Dc3 Db6 2) 15...Bg5 16.Dh5 h6 17.Tbd1 De7 18.Cxg5 Dxg5 19.Dxg5 hxg5 20.Be4 Tab8 21.b3 Tb5 22.c4 Txe5 23.Bxc6
clássica manobra da variante, com vista a manter a possibilidade de domínio espacial no flanco de dama, útil no caso das pretas rocarem largo, e ao desenvolvimento Bc1–a3
7...Cbc6 8.Cf3 Bd7 9.Dd2
[9.Be2 Da5 10.Bd2 conforme partidas Durão-Sílvio Santos e Martinho Lopes-Sílvio Santos no presente campeonato, baseados na experiência do match Korchnoi-Spassky , Belgrado 1978/79, em que se jogou uma partida importante para o estudo da sub-variante]
9...Da5 10.Bd3 cxd4
[10...c4 11.Be2 (11.Bf1 com a ideia de g3 Bh3 é perigoso, por causa do posterior domínio da diagonal a3-f8) ]
11.cxd4 Dxd2+ 12.Bxd2 f6 ataque ao centro, antes que tenha tempo de ser consolidado pelo peão f
13.0–0 Rf7
mantendo o "status quo" central e colocando o rei em casa de pouca vulnerabilidade
14.Tfe1 h6
importante, pelo domínio que exerce sobre a casa "g5", negando o acesso pelas figuras menores 15.h3!? com o lance do texto, as pretas ficam sem problemas imediatos após 15...fe5 16.Ce5 Ce5 17.de5 Thc8 com muita partida por diante[15.exf6!?]
½–½
14.dxe5 dxe5 15.c4 0–0 16.Dc2 c6 17.Ce3 g6 18.Ted1 De7 19.Td2 f6 20.Tad1 Tad8 21.Td6? o melhor era 21.b4! seguido de c5 e depois as brancas preparavam o avanço dos peões na ala de Rei com g4,h4 e g5 para final vantajoso