XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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18/05/19

OS 79 ANOS DO MEU GXP

Foi hoje. Jantar , bolo e parabéns na nossa sede, torneio de rápidas, mas sobretudo o encontro, o convívio, o reencontro afetivo com xadrezistas que se encontravam afastados do xadrez e do Grupo de Xadrez do Porto vai para anos e refiro-me ao Carlos Prezado, Manuel Matos,  Vladimiro Miranda, e António Carlos.. Dois deles foram palestrantes bem memoriados num amena cavaqueira que envolveu o Mário Marques e as suas pesquisas sobre o Gencsi Dezso, o Dinis Ribeiro  e vários aspectos ligados a cultura, arte  e filosofia no xadrez . Vladimiro Miranda e Manuel Matos sócios do GXP de longa data, mas jogadores muito fortes do FCP em anos já bem idos, relembraram rivalidades, destilaram algumas histórias curiosas, bem como apelaram à união do Xadrez em geral e do nosso Clube em particular, sempre num estilo em que afeto e humor andaram lado a lado. Algumas intervenções de sócios, nomeadamente do Carlos Prezado acabaram por enriquecer esta mesa "quadrado" em que o G.X.P foi Rei.
Uma tarde bonita, bem passada, diria à Grupo de Xadrez do Porto.
A mim pediram-me para falar. Li um texto. Aqui deixo esse texto. Também assim se constrói a História de um Clube peculiar como disse o Matos, um Clube de convergências como afirmou o Vladimiro, ou um Clube primeiro para alguns e segundo de todos para os outros que jogam xadrez, como uma vez afirmou o Carlos Prezado.
Longa vida ao MEU GRUPO DE XADREZ DO PORTO.

Passei minutos largos a pensar no Grupo. 79 anos não se conseguem pesar em nenhuma balança de afeto. Pode-se olhar o Grupo de Xadrez do Porto de fora, ou pela parte de dentro. Pela parte de fora e solar talvez seja o mais fácil: a História, ou as Estórias, os troféus, a competição, o património e tudo o que foi o património material e imaterial do Grupo. Da parte de dentro, talvez a da chuva intima, e essa por sê-lo molha e cola-se ao silêncio de afeto, a esse túnel imponderável e insondável da memória, que mesmo doendo algumas vezes, talvez seja o que melhor vai resistindo à erosão dos sentimentos.


Comovo-me assim a leste de mim, lugar onde nunca faço férias de quem gosto e do que gosto, e comovo-me dessa torrente cascata de pensamentos que num gesto de alquimia transforma o ontem no agora, o banal no rico oiro do dia, o acontecimento fortuito na força motriz da vida de uma instituição. E comovo-me, nem que seja pelo riso, pela interior gargalhada sonora, pelo lampejo luminoso de uma recordação doce como algodão.
Paro o tempo, escolho de memória, mesmo do conhecimento, um tropel do passado e não é difícil, manejável, dócil, e reversível como é o tempo da memória, que o real, esse tique taque de relógio irreversível onde se perde sempre para o tempo.


Faz-se silêncio cá dentro e de súbito…descem as calças do Aristides para umas costureirinhas que não o sendo da Sé, mas de Passos Manuel, lá se ficaram de agulha na mão entre o ai jesus católico apostólico romano, ou quem sabe entre a visão mais ou menos celestial do visionado. Uma coisa é certa, ou pelos dotes artísticos e exponenciais do “Stripper Arestaides”, ou pelo pouco tempo do espetáculo, houve queixa às autoridades competentes, nomeadamente à provecta e honrada Direção do Grupo quem em douta reunião aplicou o respetivo esfriamento a sócio que tão acalorado andava. Que aprenda esta e futura direção: calças abaixo, punição adequada acima! Apesar de não gostar de ficheiros secretos, uma coisa me intriga ainda hoje neste momento sexual esquístico que nem o Blogue do Kevin consegue igualar: afinal, o que é isto? O Aristides baixou as calças, mas… não tinha cuecas!? Ou baixou as calças e as cuecas? É que uma coisa é uma coisa e outra são duas! Na investigação deste processo, não consegui resolver este mistério intrigante, e uma Direção que se prezou em julgar e atar este caso, deveria ter levado a investigação a este grau de perfeição antes da aplicação de pena. Comigo, com cuecas e tudo, duas semanas de castigo no Meco, só calças, obrigação de mostrar agora cabelos do peito a peixeiras do Bolhão!


Mais sério agora: vejo alguém a levar a mão à boca, meio grogue, e a encostar-se a um bilhar sem fazer como se diz no Porto “ dar a volta ao bilhar grande”, que por acaso era dos grandes e aquecidos onde o Ferraz até tinha caramboleado, mas grogue sim senhor, porque Mestre Mário Machado, na sua raiva ou de não ter sido convidado para uma sessão de boxe no Palácio de Cristal, ou de no xadrez não gostar de empatas, tinha acabado de pregar um autêntico “uppercut” num distinto senhor que lhe andava a aguilhoar o juízo e a dar cabo do Grupo. Disse uppercut, mas deveria antes dizer uma “pera fegatelliana” com molho de francesinha e  com mate K.O não sei em que round!

Silêncio agora, mas mesmo silêncio. Jogam duas venerandas e idosas figuras; uma daquelas partidas com resultados anotados, não estilo pauzinhos de sueca, mas naquele estilo ressentido e ronha de ontem f…hoje vou-te f.eu! Largo os olhos do meus Botvinnik, e reparo que a figura de costas, sub-repticiamente tenta meter no tabuleiro um peão que estava de fora, comido que tinha sido, mas com um mindinho habilidoso, lá tentava a arte da ressurreição da peonagem assassinada, mas qual o meu espanto, o de frente tentava com falatório distrativo para o seu adversário, rodar o manípulo do ponteiro do relógio, coisa de ratito, que o mindinho habilidoso, mas olhar de coruja, topou. E vociferou,  e ameaçou, e outro respondeu historiando outras “mindinhices” históricas, e o mindinho pediu ajuda aos colegas anelares, e polegares, e só não chamou os dos pés, porque sapateados, e pegou na muleta que estava no seu lado direito e ergueu-a bem alto, qual estandarte de Aljubarrota e o outro meio encolhido lá foi para trás da cadeira, qual trincheira defensiva e…eu a intervir como a crianças de infantário desavindas e a ameaçar de tau-tau e a explicar que tudo não tinha passado de um mal entendido, e que se calhar o mal entendido tinha sido apenas arranjar o relógio, e que o peão tinha sido no fragor da luta também sem querer arrastado para as 64 casas. vermelhos, quase babados, lá acalmaram. E foi numa partida ocasional daquelas ao início da tarde de um dia de semana.


Barulho outra vez, mas longínquo, cadenciado, ritmado, amaciado por borracha a bater em madeira. Fim da tarde, sala silenciosa. Contava, um..dois…três… quatro, infindáveis minutos, até que quase cem anos entram na sala e dois sóis de olhar irradiam felicidade, O barulho, eram as muletas que penosamente apoiavam um esforço hercúleo de subida de poucas escadas para alguém já muito debilitado. Sentava-se, olhava deliciado para as paredes, os móveis e mexia prazenteiramente as peças de madeira. De súbito e em contraste, passos apressados, de procura, angustiados, galgadas num ápice as velhas e carunchosas escadas. Entrada ofegante na sala e olhar de reprimenda para o velho ancião. As palavras sem maldade, mas a medo: outra vez Pai? Já lhe disse que não pode fazer isso, sair de casa sozinho, da maneira como está! Vamos lá para casa! Era. O Mestre Faria, fugia de casa com quase cem anos, apanhava transporte, e vinha para o Grupo de Xadrez do Porto, mesmo já com muitas dificuldades físicas. Percebi que queria levar o Grupo com ele na sua partida. Era tão dele o GXP, como o era o seu já fraco respirar. A tudo assisti, lume dos meus olhos, fulgor de coração que ficou para sempre Mestre Faria.

Ainda o silêncio, agora de ambiente de torneio. Aproximava-se o controlo de tempo. Um rapazito ainda adolescente parece manejar com facilidade da idade a angústia do levantar do ponteiro, o seu adversário, já quarentão, não. Branco, nervoso, agitado, olha com terror para o tempo que se esvaía, para o tabuleiro agora, outra vez para o relógio, outra vez para o tabuleiro e joga uma peça com velocidade vertiginosa, o seu adversário esboça um sorriso e com decisão próxima da arrogância, ganha uma peça. Caro de pavor absoluto, um olhar mais para o relógio, segundos a escoar, vai jogar…não joga, porque o seu adversário sonoramente avisa “caiu!”. Não há cumprimentos. O que perdeu (e sabia que ia perder, porque havia um complexo que o levava sempre a perder com este adversário) levanta-se lívido, branco da cor da gabardina que tinha na mão, quase autómato. Não sabe o que dizer ou fazer. Lia-se a frustração toda do mundo no rosto, na postura. O que ganhou sorri aberta e francamente, enquanto balbucia que teve sempre a partida ganha. O outro ouviu, irritou-se, disse algo que me pareceu “você não sabe ganhar, seja bem educado” e vestindo a gabardina de supetão, pega no seu livro de xadrez da Batsford e sai como um raio pela porta fora. Os seus passos de raiva, faziam ranger as escadas do GXP. Foram os duelos mais encarniçados e titânicos (talvez só igualados pelos a feijões” e estilo bisca lambida entre o Pinho e o Castro, ou os rapidinhas de rachar lenha entre o Silva e o Paulo Ferreira) que assisti na minha vida. E diga-se que o perdedor era dos jogadores mais corretos e afáveis que conheci, enquanto o ganhador era uma força de vida e gosto pelo xadrez. A ambos o destino foi cruel, ambos nos deixaram nesta crua e fria senda do quotidiano. Que saudades Sílvio Santos! Que ternura na minha saudade, caro Bernardino Passos.


Uma figura sorri para ninguém, abstrata no seu mundo interior. Fuma o cigarro numa forma muito característica de sofreguidão. Revira ligeiramente os olhos e continua a sorrir. Figura estranha. Alto, calças à rega milho, nariz com curvatura pronunciada, quase adunco, olhos nervosos, inquietos que fixam tudo no nada. Olha o tabuleiro, balbucia qualquer coisa enquanto o seu adversário medita. Impávido, o seu adversário medita,  no cansaço, tira os óculos, coloca-os fechados no lado contrário ao do relógio.   O outro continua a sorrir agora para os óculos, como se inertes fossem dois olhos vazios que o olhavam e, de súbito, levanta-se, pega nos óculos do seu adversário, coloca-os no chão e..salta, uma , duas vezes, desfazendo-os em bocados. Pega neles, coloca-os no sítio onde estavam, senta-se, coloca as mãos no rosto e começa a analisar a posição. O Gilbert, o Jaime cujo mundo impenetrável se tornou o seu castelo de rei de curto reinado. Tanto lhe deveu o Grupo em êxitos no tabuleiro.


E a calma, a ponderação, a suavidade luzidia como a sua calva do senhor Carvalho? E aquela voz melhor do que cantor do Metz em ópera de gala que mal me encarava me dava as boas tardes com aquele sorriso grande, aberto, de Homem-Bom e a célebre frase“ Então Amizade, ainda de corpinho aberto” ?  E um dos meus Mestres, o Machado? Aquele sorriso maroto de “quem a sabia toda”, de quem muito andou e muito para andar, de quem mais consegui sacar o sumo do amor à História do xadrez, do gosto pelos finais, das boas e ternas conversas, das análises de partidas de fim de tarde de sábado, das nossas discordâncias sobre os atributos não xadrezisticos da Kosteniuk, de ele achar o site do Kevin, bom, e eu, no xadrez sim, no resto nem por isso. Das raríssimas pessoas que ainda me conseguiu restituir um xadrez límpido, cristalino, puro, do antes das resmas de variantes e de conhecimento balofo, como o senti com 14, 15 anos no Palladium.

E o…”Pinho da Lixa” que há trincha ou brocha lá nos fazia ter saudades da parede suja antes das obras? E a ajuda entre o esburacada-desastrada do trolha Castro, que queria fazer das paredes da sala do Grupo queijo  suíço?  E homem dos andaimes? Tenham medo, muito medo andaimes que o Rogério vem aí! E o choque dos electrochoques na instalação da eletricidade da sala do Grupo- aquilo ou ia a bem ou a berbequim ou a car…, mas ia! A ele, ao Rogério até a eletricidade tem respeitinho. E melhor que o fazedor de milagres, o fazedor de tabuleiros do Grupo?

E na História do Grupo, as não poucas vezes que durante Assembleias Gerais, quando um ou dois sócios iam tomar café, quando voltavam, estavam nos órgãos dirigentes, mesmo sem estarem em lista ou quererem? Não havia, arranjava-se! E “ quem vai à guerra, cargo leva” ! Por isso aviso: nas Assembleias Gerais, não saia do seu lugar!
E o querido Velez Grilo que começava no Alekhine, passava pelo Kasparov e terminava na Faculdade de Engenharia e terminava na eletrificação da Ponte da Arrábida ?
E o Brandão, num programa televisão a deitar faladura da boa sobre o G.X.P, mas com um cenário que parecia a Televisão da Coreia do Norte?
E as vezes que o Grupo serviu para muita coisa e Vª Excª(s) não têm nada com isso, até para um rapaz entrar no GXP pelas três da tarde e ficar a dormir até ao dia seguinte com o seu computador portátil Kasparov?
 E o homem do anel dourado no dedo, que por vezes nos visitava pela tarde acompanhado da sua madame pompadour de ataque?
E alguém que tinha uma tara de roubar só uma peça de um jogo, ou a mola de um cinzeiro? E aquele som característico entre o afogado e o arrotado do autoclismo sanitário do Grupo? E aquela lâmpada diferente das outras num arremedo de “uma diferente todas iguais” o Grupo pela integração? E a cera de abelha que aumentou a produção devido a um tarado encerado? E los Romances do Grupo? Bem, estou a referir-me ao do Mário Marques…que pensavam?
E…tanta coisa.

Morro-me de tristeza, ressuscito de alegria. Como a vida do Grupo.


Para um tabuleiro de 79 casas

No coração queima ainda o lume,
Alado Cavalo no tabuleiro,
Salta, sonha inteiro
Da ambição suprema, o cume.


Vida longa, vastidão de horizontes,
Sólida Torre de esperança
Coluna, esteio, perseverança
Vida pouca, com tamanhas fontes


Peões de serviço, sem anseios de promoção
Vida, tabuleiro de lembranças
Movimentos, perdas, ganhos, esperanças
Estamos, vamos, outros continuarão


Reis assim seremos, esfarrapados,de joelhos
E habitados de sonho acreditado
Continuaremos o caminho continuado
Como o sol, nunca nos cansaremos de ser velhos

A.V






14/09/18

O PINHO...O meu Presidente



Amanhã, se tudo correr bem, o meu Clube de Xadrez, o Grupo de Xadrez do Porto, vai ter uma nova direção.
Digo se correr bem, porque mesmo não correndo, haverá sempre Direção do G.X.P. Quem conhece a história do Clube, sabe que em tempos bem passados e perante impasses, ou não aparecimento de candidatos a órgãos diretivos, durante Assembleias Gerais aqueles que se ausentavam para café ou apanhar ar fresco, quando chegavam, quase por magia, cafeína, ou oxigénio, estavam nos lugares que faltavam nas listas! Era assim e pronto e nem pestanejavam! Belas histórias estas de amor consentido ao Grupo de Xadrez do Porto.


Mas dizia, temos então órgãos dirigentes novos no Clube. Bem, novos não serão, quer pela idade, quer pelo facto de a maioria dos elementos transitar dos outros órgãos da Direção anterior. Digamos que não são bem novos, são uma espécie de novos sendo os mesmos, estilo “ lavados com Extra” – lembram-se?
Existe um elemento da anterior Direção que não vai fazer a transição. Resolveu que chegava e encostou “à boxe”, ou se quiserem, resolveu guardar os “cavalos à la Chigorin” que tanto gosta na caixa do sossego.


Um exercício: Olhem para esta foto. 


Reconhecem-no? Quase como num conto: jovem, cabelos no peito, bigode à Errol Flynn, decisão a capturar a peça do adversário, e…dinheiro no bolso da camisa (10, ou 100 euros?!). Uma estampa, um verdadeiro “espera aí que já te atendo” do tabuleiro.

Olham agora para esta foto intermédia com o nosso querido Velez Grilo. 


Os mesmos cabelos no peito, barba por fazer, e sem dinheiro no bolso da camisa, substituído por uma esferográfica para assinar o que der e vier, nem que sejam alguma dividazita do GXP.

Olhem agora para esta última. 



Apesar do meio sorriso, do peito para fora (e barriga também), os cabelos e barba branca, dos óculos de quem “ Já nem vos vejo bem”, nota-se qualquer coisa naquele rosto. Não notam nada? Mesmo nada?
Ou não amam o xadrez, ou não percebem onde eu quero chegar. Na última foto existe claramente na personagem mais do que a idade que avançou, o caminhar temporal do cansaço, os verdes anos que já eram, num futuro outro que há-de ser sem o dirigismo do xadrez. 

Pois é! O Joaquim Brandão Pinho, o meu Presidente, o nosso Presidente no antes e no quase agora adeus. Que chegava, por cansaço, por outros objetivos, por necessidade de renovação do plantel, porque isto de marcar golos de pontapé de bicicleta na Direção do Grupo e não ter direito a prémio nem gala, não compensa.


O Joaquim Brandão Pinho. Um dos melhores Presidentes de Direção na história do G.X.Porto. Obviamente sem negar mérito aos membros dos órgãos sociais das sucessivas direções que encabeçou, sem dúvida que ele foi o elemento agregador, o jogador ansioso de rápidas na resolução de problemas do Clube, mas também o estratega paciente à espera do golpe tático para obter o melhor para o GXP. Por vezes as dificuldades deveriam ter-lhe surgido com Torres intransponíveis, outras vezes teve que lidar com ziguezagueantes cavalos fossem políticos, dirigentes putativo-federativos, bem diferente dos nossos do tabuleiros que saltitam em L, quando não teve que aturar “bispos” sem dioceses, “reizinhos” e “damazinhas” que abundam no dirigismo do xadrez português e arredores. 

Assim, um excelente Presidente do meu GXP. E quem me conhece, sabe que sou parco de elogios no que diz respeito ao xadrez português. Mas não sou mal agradecido, nem falho de compreensão afetiva, quando alguém como o Pinho deu ao xadrez o que tinha e não tinha ( e a isso não era obrigado), com paixão, dedicação, entusiasmo, e sobretudo com um sentido de dignidade, de abnegação, de entrega , de amor ao Grupo de Xadrez do Porto como poucos. Costumo dizer que uma Direção, um Presidente conseguir manter um Clube como o G.X P vivo durante um mandato, já daria lugar no céu, mantê-lo por vários mandatos, nem pede para entrar… tem lugar cativo.


Não me interessa muito enumerar o que o Brandão Pinho fez pelo GXP, outros que o façam, mesmo com folha Excel. Bastava a nova sede para esta Direção e o seu Presidente ficarem na História do Clube. Podemos discordar de uma ou outra orientação, de uma ou outra opção tomada pela Direção cessante, mas uma coisa é certa: o Grupo de Xadrez do Porto está vivo, e continua. 

Continuando a ser um Clube “Robin dos Bosques”, um Clube cuja pobreza monetária sempre foi seu apanágio, mas de uma grandeza de ser e sentir o xadrez na sua essência apaixonada e intima, de uma História viva , mesmo com o passado presente, que o torna raro e quase único. Um Clube que mais do que físico, quando se ama, entranha-se na alma a ferro e fogo, quase como identitário da nossa personalidade. Um Clube onde não há “croquetes” xadrezísticos,  mas mais  “tripas à moda do Porto”, mais carrascão da “adega do Olho” que já não há. 

Assim o Meu G.X.P. E o meu Presidente, Joaquim Brandão Pinho, continuou esta saga, que não sendo das estrelas, certamente o pôs muitas vezes a ver das mesmas. Sei o que ele passou nestes anos. O que a família perdeu ( e dava para fazer uma tese sociológica com o título “ Coitadas das mulheres e filhos e netos dos xadrezistas” É que eles tem por amante outras damas e por filhos outros peões), o tempo que dedicou ao xadrez tirando-o do seu lazer, do seu descanso, da sua paz interior tão necessitados estamos dela nestes tempos que correm, das canseiras e moideiras que um Presidente mesmo de um pequeno Clube como o G.X.P deve ter tido para lhe assegurar o sangue vital da sua sobrevivência.


Depois…depois há o Joaquim Brandão Pinho, que para mim será o “Pinho da Lixa”, porque só a garrafas do verde de nome, eu, o Rogério e Ele conseguimos fazer as obras quem nem de Santa Engrácia da sede de Passos Manuel, ainda por cima agravados pelos buracos do Castro. Há o Pinho dos matches titânicos de rápidas, a apontar tipo sueca e tudo com o Castro, há o Brandão Pinho cujo sorriso desarmante…desarma, o Pinho e a sua bonomia, o Pinho e a sua simplicidade, a boa vontade, a incapacidade de se chatear a sério e eternamente com alguém, o Pinho que dá uns toques valentes no xadrez por correspondência e toques menos valentes no não por correspondência, o Pinho que ama o xadrez por aquilo que ele é e nada mais. 


Não sei se o Joaquim Brandão Pinho deu muito ou pouco ao xadrez nacional, ao meu GXP deu muito, mas muito mesmo. Sei que não precisa de homenagens, nem foi a vaidade, nem a ambição (apenas e só a de servir o GXP) que o moveu e conhecendo a sua simplicidade, quase que me apetecia citar-lhe um poema da Dickinson:


Não sou Ninguém! E tu és quem?
Ninguém - Também?
Então somos um par?
Não contes! Podem espalhar!

Que enfadonho ser – se Alguém!
Como uma rã- que passa o junho todo –
A dizer o seu nome – publicamente
A um admirador, o Lodo!

Assim, Amigo Joaquim Brandão Pinho o meu obrigado pelo que serviste o G.XP, e neste meu obrigado, penso que se revêm muitos sócios do GXP. Saímos todos bem na fotografia, Tu principalmente que conseguiste dar seguimento a uma História de um Clube de emoções, afetos, aflições, apertos, enganos/desenganos, alegrias,  mas uma História que há-de continuar para corrente vida e memória futura.

O resto? Vamos andando por aí, Caro Pinho para o quer der e vier do nosso G.X.Porto, seja uns escritos, uma rápidas, o xadrez por Correspondência, a cavaqueira ocasional de um ou outro sábado de tarde. Quem sabe se ainda te vais dedicar ao colecionismo de xadrez… quem sabe?! Pronto lá vai a tua família fazer-me em “francesinha à moda do Porto”, por esta ideia.
Abraço apertado e cheio de afeto xadrezístico
Do Arlindo
A foto que mais gosto da tua "carantona" e que tem direitos de autor, só para se saber, não vá alguém "faná-la" para alguma revista da FPX. O teu sorriso franco, desalmado, estilo Bolhão, é uma maravilha!



 

23/02/13

NO REINO DE CAÌSSA ...MÀRIO MARQUES




O Meu Amigo Mário Marques escreveu um livro.

Um livro que tendo por pano de fundo o Xadrez, ultrapassa em muito as 64 casas do tabuleiro, sendo os lances-jogadas uma simbiose curiosa entre o jogo e a vida. E ao pensar no livro do Mário Marques, sorrio ao lembrar-me da ideia espatafúrdia conjunta minha e do Dinis Ribeiro no recente Encontro na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto sobre Xadrez e Ensino, em que lançamos a "farpa" de criar um outro congresso por nós organizado sobre o lado mais obscuro, sombrio e doentio do Xadrez. Ora, o livro do Mário de forma romanceada vem demonstrar o óbvio : que no xadrez e maioritariamente existe um normalidade de gente normal que consegue suportar o banal de uma sedução, de um enamoramento, do amor, tendo como abertura, meio-jogo e final a sala do meu querido Grupo de Xadrez do Porto.

Interessa pouco que se procure nas personagens do romance os colegas do meu Clube, até porque, só quem o frequenta habitualmente conseguirá identificá-los, mas os "Peões" e "Damas" que se movem na trama romanesca têm carácter bem definido, personalidades fortes mesmo na fraqueza da procura de si, ao mesmo tempo que tudo gira em torno da aprendizagem do xadrez, do tique-taque de um relógio de xadrez semelhante ao da vida, da complexidade -cumplicidade dos encontros - desencontros, tudo para além das 64 casas da madeira dos tabuleiros do G.X. Porto. 


Um romance de amor? Nem tanto! Um romance de xadrez? Tão pouco! E entre este "nem" e este "tão", um romance de vida, da vida comezinha, quotidiana como é preciso vivê-la. Há no Reino de Caíssa o comer , o beber, a cama, o processo criativo da sedução, a arqueologia interior das personagens que na diferença se vão descobrir amorosamente pela aproximação.


E o meu, o nosso Grupo de Xadrez do Porto lá. Entre as frinchas da história de Raquel e Vasco , o ranger das velhinhas escadas do Clube, o cheiro característico a madeira da nossa sala, as peças a serem jogadas mais ou menos energicamente nos tabuleiros, as vozes cruzadas entre as ciciadas e tonitruantes dos sócios, um ou outro palavrão disparado como peão de flanco, a conversa política, ou  os desabafos catárquicos de má língua sobre as misérias do xadrez português, mas e acima de tudo, o amor, a paixão com que neste Clube se vive o Xadrez. No romance do Mário, respira-se xadrez, porque a respiração do Grupo de Xadrez do Porto, está nele reflectido. 


O próprio autor no lançamento da obra o explicou: não é um livro para Nóbel, nem para Top de escaparate de livraria, mas um livro para ser lido por quem gosta de ler e  de xadrez. Para ler O Reino de Caissa não é preciso saber Xadrez, mas saber Xadrez pode ajudar na leitura.
Um livro muito, muito bem escrito com um Mário Marques de óptica afilada e clínica apurada a plasmar nas suas personagens as suas idiosincracias, os seus tiques, as suas fragilidades, complexos, mas também força, personalidade , no fundo, carradas de humanidade que torna esta escrita apelativa do virar de página arté ao fim.
Um romance que foca o xadrez, o que é raro na literatura portuguesa, um romance que partindo do particular da vida instestina de um Clube de Xadrez, passa para o geral de uma vida a ter de ser vivida por nossa. Não sei se isto é pouco ou muito, simplesmente É , e isso não deixa de ser já bem mais do que pouco!


Tive o privilégio de ser dos primeiros a ler o "rascunho" de parte do Reino de Caissa e logo pressenti a sua qualidade. O Mário não precisou do meu incentivo, pois quem o conhece sabe que projecto que nele nasça tem por norma continuidade, e o seu trabalho de dirigente no GXP, ou na AXP assim o demonstrou. Disse-lhe da minha opinião, depois calei-me porque tinha pressentido o final e o Mário Marques não é "gajo" para abandonar facilmente - eu que queria um fim com morte de alguém, porque nunca gostei de finais felizes!

Assim, alegria imensa por um dos meus, um dos nossos lançar um livro em que o GXP é focado. A mim foi-me lançado o repto da História do Clube, esquecendo-se quem mo lançou da minha profissão, que com uns "cabrões" europeus, uma coisa PM, um retardado mental financeiro, um ME "asnático" querem levar ao grau zero da dignidade com mais horas, mais turmas, mais cargos, mais burocracias, e, sobretudo, com trabalho até para aí aos 70!
Gostar, gostava e iria a brios com denodo e sinceridade a tal tarefa até porque amo a Tribo do Xadrez, sobretudo a do meu Grupo de Xadrez do Porto, mas uma outra Tribo, está acima de tudo, com lugar cativo, procedência cá dentro! Que se há-de fazer? Nunca o fiz, nunca o farei: nunca inverterei os tempos e as prioridades do Amor. 

Ah! Parece que a Raquel e o Vasco aparecem agora bem menos no meu GXP, não é verdade? Claro!

Um grande abraço para o Mário Marques e esperemos por novo romance que tenha por fundo uma nova sala do Clube para aí com 100 m2! Da pintura, eu, o Rogério,  o "Pinho da Lixa" , tratamos. Não deixem é o Castro tapar buracos, que o Clube um dia vem abaixo!


Certamente um mail para o GXP e qualquer pedido do livro será atendido.
Idem as livrarias Leitura Books & Living, no Porto, Apolo 70, em Lisboa, e ainda nas livrarias online Bertrand 

28/03/11

"O NOSSO MIÚDO"

De Mestre Machado, a um dos nossos mais novos jogadores...

Tive algumas reticências em escrever este post. Cada vez me convenço mais que de louvores "anda o mundo cheio" e em particular de laudas desmesuradas a jovens que por tudo ou por nada são etiquetados de génios, ou talentos natos, quando nem embriões disso se apresentam.

Existem alguns casos passados do xadrez nacional em que jovens xadrezistas foram quase levados ao estrelato, pela entrevista televisiva ou pequeno documentário xadrezistico de Telejornal, na assumpção de que estaríamos perante "geniozinhos" do xadrez, ou no menor, de enormes talentos, futuros GM, quando quem anda nos meandros do xadrez, sabia, sabe ,que isso não tinha a mínima consistência, pois no actual estado da evolução do xadrez mundial, aos 12, 13, 14 anos ter entre 2200 e 2500 começa a ser comum, e quer se queria quer não, a forja, onde sairão futuros Grandes Mestres. Como e a que custos, daria um longo e filosófico artigo.

Tenho por opinião que um miúdo, um jovem, na arte, ou no desporto, mais do que parangonas jornalísticas, precisa sim de incentivo ao trabalho árduo e continuado, à aprendizagem pela auto-crítica, ao estudo, e não menos, à humildade de se ser menos para se querer sempre mais!
Ao longo da minha vida de xadrez, assisti a atitudes e comportamentos de miúdos, que mais pareciam de "prima-donna", arborados em grandes jogadores, malcriados, birrentos, muitas vezes incentivados por pseudo jogadores-treinadores falhados a querem projectar -se psicanaliticamente nos seus jovens jogadores, ou por pais famintos de rebento famoso, ou vencedor à força!

Assim , importantíssimo para um miúdo no xadrez, o enquadramento familiar (o que quero do Xadrez para o meu miúdo, o que pode dar o Xadrez ao meu miúdo) e a própria dinâmica da instituição/clube a que pertence, sem deixar de referir esse eixo fundamental que tanto pode ser um factor de crescimento, como de estagnação, ou mesmo abandono da modalidade - o treinador.

Estou à vontade. O meu GX Porto tem feito um trabalho meritório com a miudagem, salvaguardando sempre o lado formativo do xadrez em primeiro lugar, a importância do Clube na História do Xadrez Português, não abdicando do lado competitivo como é evidente, mas só quando os miúdos mostram interesse e maturidade para isso. Não temos centenas de miúdos para as estatísticas, ou para impressionar autarquia, ou seja, praticamos uma política de formação em que impera a verdade, e o de sabermos o que queremos e ao que vamos.

No caso do "miúdo" deste artigo, conhecendo os Pais, também sei os muitos sacrifícios que o xadrez lhes tem pedido, mas também sei, o quanto respeitam a individualidade dos filhos e sobretudo procuram o equilíbrio entre o xadrez, a escola e a "arte" de ser miúdo.



No G. X. Porto, chamamos-lhe o "Nosso Miúdo", apesar dos seus onze anos. Campeão Regional, Nacional, e com futuro no xadrez, se a ele se quiser dedicar.
O André Ventura Sousa.

Não é um génio do xadrez, não é um talento extraordinário do xadrez. É simplesmente um miúdo que adora o xadrez, que tem uma combatividade assinalável no tabuleiro, tendo em conta a sua idade, e que se descontarmos as contingências do xadrez nacional, (falta de apoios, competitividade, etc., etc) joga mesmo muito bem , conforme os escalões que tem palmilhado. É sem dúvida um miúdo com uma margem de progressão bem vincada e que poderá com grande dedicação tornar-se no espaço de anos um jogador em progressão até à casa dos 2200. A partir daí...veremos.

Acolhi-o, tal como ao irmão, o Nuno Ventura de Sousa, na sala do GXPorto no ido ano de 2005. Ensinei-lhes os primeiros rudimentos de estratégia xadrezista, fui-lhes mostrando alguma da beleza escondida em alguns golpes tácticos no xadrez, "massacrei-os" com mates elementares e um ou outro final básico e, desde logo, se notava uma aptência especial do André para o Xadrez.
Com 5 anos, mostrava já nas sessões de treino uma atenção assinalável ( tal como o irmão - Ah! A importância da música!) e um interesse muito visível pela resolução dos problemas no tabuleiro. Não desistia à primeira e não raro ficava "chateado" por não descobrir o lance, ou a solução à questão proposta. Quase não chegava à mesa, mas a pernita por baixo do rabiote lá servia de almofada elevatória. O seu irmão Nuno, mostrava igualmente uma capacidade de atenção e assimilação do xadrez que o colocava um pouco acima dos meus outros alunos.

Via-se que o "miúdo" tinha pinta, e sobretudo que gostava do Xadrez. Aqui e ali, uma faltas ao treino, porque a Música ocupa um lugar cimeiro na vida destes miúdos ( o Nuno começa a ser um caso sério no Piano ), mas quando estavam, era um gosto vê-los jogar entre eles, ou no tabuleiro gigante, degladiarem-se em equipas de três ou quatro contra quatro.

Na Direcção, eu, mas particularmente o Rogério, com uma perspectiva bem larga e pedagógica sobre estes miúdos. Ainda era cedo! Ainda não a competição. Era preciso consistência, amadurecimento, calma. Poderíamos perder o André e o Nuno para o Xadrez, se os atirássemos precipitadamente para a competição. Sempre e primeiro a formação, o saber estar num tabuleiro, o saber apontar uma partida, o carregar num relógio, o saber estar com um adversário. Os títulos em miúdos têm de ser consequência de e não objectivo primordial para, como sempre defendemos nas nossas reuniões de Direcção.

Valeu a pena a espera. No ano seguinte, via-se um André Sousa mais jogador, mais concentrado, e sobretudo, mais cativado para o xadrez. Depois foi o trabalho com outros colegas que o foram treinando, foi a sua chamada serena a jogos por equipas na equipa C ou D, foi a aprendizagem com as derrotas, foi a cativação cada vez maior que as vitórias e os títulos foram trazendo.

Simples e clara a sua caminhada no xadrez que ainda agora culminou com títulos regionais, nacionais e com um esplêndido 5º lugar no Campeonato da Juventude da União Europeia - Sub10, que aliás podia ter ganho.

Hoje sei quem no GXPorto treina o André, (e muito bem!) e, longe de mim dar palpites, sobre o que fazer para o André continuar na senda do progresso. Apenas e só uma certeza tenho: é com trabalho demorado de tabuleiro, com forte sentido de auto-crítica no estudo das próprias partidas, sem vedetismos vãos, e sobretudo com o computador como meio e não como fim, que esse progresso irá continuar.
Depois outro trabalho será preciso: este mais complicado, porque o André ainda é muito novo: instilar no "Nosso Miúdo", o gosto pelo GXPorto, o espírito do GXPorto, porque apesar de sermos um Clube pobre, temos essa riqueza de 71 anos de vida!


Agora duas partidas do André de que gosto particularmente. A primeira com o austríaco Floriam Mesaros ( No Flsh está erradamente Húngaro) à altura com 1825 de pontuação Elo, em que o "Nosso Miúdo" parece ter percebido a ideia da Siciliana Dragão e vai calmamente parando ataques hipotéticos das Brancas, com um contra-ataque avassalador. Aqui e ali, alguns esquecimentos tácticos, não invalidam a bela partida do André, apesar da sua idade.

Na 2ª partida, também com o austríaco Jioung Wuo André joga mais calmo , mais posicional, e aos poucos vai construindo uma posição de clara superioridade posicional alicerçada num peão passado e num Cavalo claramente superior ao Bispo negro.