XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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13/04/14

OFERENDA - Fernandes Jorge, Jorge Pinheiro e mais...

E só no fim xadrez como transfiguração...

Um livro que é uma pérola de concepção, de edição, de amor pelo livro. Só o podia ser com o desvelo e categoria  desse grande editor-livreiro portuense que é o José Cruz dos Santos e a sua "Modo de Ler". Desde a Editorial Inova passando pelo Oiro do Dia, que a cultura, a sensibilidade, o bom gosto e o amor aos livros em geral e à literatura e edição em particular de José Cruz dos Santos é reconhecida nos meios de uma certa cultura portuense ( não aquela de fachada, festivaleira, parola, entre o pseudo intelectual pimba jovem e o senil-patético turístico modo de se ser). 

Um prazer e uma aprendizagem constante com este Homem, sempre que com ele me cruzo em conversas de livros e literatura no seu refúgio de Guilherme Gomes Fernandes. Foi ele que mo sugeriu. E que sugestão! Um livro magnífico com reproduções lindíssimas de pinturas (35) de Jorge Pinheiro e reflexões poéticas de João Miguel Fernandes Jorge sobre essas mesmas pinturas. Nem sempre um grande pintor e um grande poeta dão um bom livro,  neste caso deram, não bom , mas um livro maravilhoso estética e poeticamente falando.
Publicado em 2012, de edição limitada, dedicado à memória de Eugénio de Andrade e de Ângelo de Sousa, guardo-o como tesouro num jardim-canto da minha biblioteca onde só eu sei.

No poema XVIII, Inspirado no álbum " Quinze ensaios sobre um tema ou Pitágoras jogando xadrez com Marcel Duchamp" (1970-74), J.M.F. Jorge reflete sobre o tempo, os corpos reais e abstratos, sobre a transfiguração do xadrez como expressão do silêncio, do momento.





Jorge Pinheiro




XVIII
Gotas de sangue e o esperma de
um deus mutilado por Cronos pontuam o
firmamento e caem sob o
harmónico som dos astros

passam os dias e as noites - o
medidor no visível das unidades corpóreas
e logo abstractas

*

Junto à mesa branca sentaram-
-se no jardim, vindo dos mortos, ao calor das
horas - as figuras ardiam no fulgor do verão
e sobre o homem de Samos e o de Blainville
movia-se o ramo da bétula negra

 sem suor e sem voz
 o rei e a rainha o bispo o cavalo e logo o
peão eram coisas sensíveis, de pórfiro
verde

jogadas pelo bater do sufocante meio-dia -
    sobre eles o silêncio de um ramo, causador de todas
 as coisas.


João Miguel Fernandes Jorge

09/04/14

XADREZ, SURREALISMO, LITERATURA, MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

Um dos grandes nomes do surrealismo português. Injusta e estupidamente esquecido. Muitos dos seus contos nada, mas mesmo nada inferiores ao vate Herberto Helder ( claro, claro, sou blasfemo). Os seus livros começam a rarear, mesmo em alfarrabistas, principalmente os "Contos do Gin Tónico"  e os "Novos Contos do Gin ". De um humor fino, mordaz, de uma agudeza desconcertante, de uma forma de riso que se transforma em sorriso desmaiado para burgueses anafados, idiotas militantes, ou amantes de badalhoca e triste stand-up comedy de muito e triste e badalhoco pseudo humorista nacional, os Contos de Mário Henrique Leiria estão e se não estão ainda, hão-de estar entre jóias cimeiras da literatura portuguesa. 
Dois desses contos referem indiretamente o xadrez. E que contos! Apreciem. E, se não perceberem, paciência, que isto não é propriamente revista do Sá da Bandeira ou Parque Mayer. Temos pena!




XEQUE-MATE

   _ Vai um judeu num comboio...

- Essa já conheço. Nem calcula como conheço as de judeus! Todas.


Então o meu vizinho mudou logo para as de escoceses.

Eram esplêndidas.


Aquilo acontecera na oferta de um cigarro public-relations, enquanto íamos a caminho de ainda outra cidade. Como o compartimento não tinha mais ninguém, a relação sociável dera-se inevitavelmente.
Expansivo e muito viajado, ao que parecia, contou-me tudo, excepto o que não contou, claro. Depois foi a ternura amiga, com anedotas a chegar em sucessão rápida.

 Acabaram os escoceses. Realmente óptimos.


- Joga xadrez?


- às vezes, com dúvidas.


- Não faz mal. A dúvida é o que nos ensina. Se quiser...

—e puxou do tabuleirinho portátil, encadernado em couro autêntico, próprio para todas as viagens.


Quis, não tive outro remédio.


Passaram pelo corredor a tocar sino. Jantar. Primeira série.


Deu-me uma certa fome, mas tinha que aguentar um bispo que se preparava para me roubar   o cavalo e sabe-se lá que mais.


Estava o meu vizinho explicando as excelências do xadrez, a sua história e os seus santos, enquanto jogava mais uma torre inesperada, quando rugiu a segunda série pelos espaços pasmosos do corredor.


Quanto a mim, não tinha mais nada a perder. Fora-se tudo. Possuía o rei escondido a um canto, dois peões apavorados e, perdido na incerteza, o último bispo envergonhado. Cedi, logo ali.


O sorriso do meu vizinho eficiente foi magnífico.

- Agora um jantarzinho, ein!

Pois claro. Lá fomos, atravessando ao contrário o caminho feito, até chegarmos às mesas  trepidantes. 
Comida de Ia reverendíssima patada, diria Juanito de Cuernavaca, se estivéssemos em Cuernavaca com Juanito.
 
Entre a sopa e a parede ouvi tudo. Tudo o que faltava.


Café, conhaque e voltámos, a oscilar.


Já não faltava mais nada.


Logo ao lado da discreta privada das carruagens em viagem, há uma porta de emergência como sabem, fácil, é só levantar a alavanca. São as emergências das viagens que a puseram ali. Levantei a alavanca e deu-me um desequilíbrio de ombro muito súbito auxiliado com um jeito de perna. O meu vizinho estava a explicar como se devem resolver os problemas da deliquência pré-juvenil.


O resto da explicação hei-de perguntar um dia destes à Erika que sabe tudo de kindergarten, de deliquências e ainda mais coisas.


Vai um judeu num comboio... lembrei-me de repente da história toda. É bem divertida, gostava de lhes contar, se tivesse tempo.                                              
                                                                




JANTAR DE AMIGOS


- A. vida é um problema complicado — decretou Armindo o corrector, enquanto cortava com precisão mais um pedaço do rosbife à sua frente. A !uz discretamente tamisada do QUATRO ASES fazia realçar a transparência do vinho no copo alto, junto ao prato.

- Não mais complicado do que qualquer outro—retorquiu Guiihermino o xadrezista que, no !ado oposto da mesa, se limitava a um puré de legumes e queijo de soja. Era vegetariano. E também Grande Mestre.


- Desculpem-me a interrupção — permitiu-se dizer o maître com uma leve inclinação, aparecendo junto à mesa. - Mas creio dever informar os senhores que, por um engano inesperado, o chefe da cozinha deitou no rosbife a estricnina que tínhamos para usar nas ratoeiras. É lamentável. Podem crer que a casa está sinceramente penalizada com o acontecimento. -  Com um sorriso discreto e compreensivo, retirou-se deslizando e desapareceu entre o ruído animado da sala.


Armindo estremeceu contra vontade. O rosto mudou-lhe um pouco. Para verde. E arrotou. Então teve um movimento em que parecia retorcer-se e começou a inclinar-se para o prato.


- Realmente não mais complicado do que qualquer outro — insistiu Guilhermino, enquanto desviava o copo para que o corrector não lhe acertasse com a cabeça. Levou à boca um pouco mais de puré de legumes. Com prazer.


- Queiram desculpar-me ainda mais esta interrupção — disse o 'maître', reaparecendo-lhes ao lado e inclinando-se levemente. — Parece-me ser de minha obrigação informar os senhores que, por engano realmente impróprio, o chefe da cozinha deitou no puré de legumes o arsénico que estava destinado aos cães vadios. Permito-me afirmar que a casa lamenta e que isto não voltará a acontecer tão cedo. — Com o sorriso discreto retirou-se, deslizando até desaparecer entre as mesas murmurantes.


Guilhermino o xadrezista ficou a olhar o espaço. Apenas a imaginar como conseguiria, só com um copo, o paliteiro e o saleiro, dar xeque à garrafa de Armindo o corrector. Então sentiu a dor que, fulgurante, lhe subia dos intestinos.


Pelo chão alcatifado começavam a estrebuchar clientes.

(Este conto maravilhoso de MHL dedico-o aos muitos Guilherminos do Xadrez nacional e internacional, sejam jogadores, dirigentes, e outros  "inos" que tais) A. V


12/08/13

FILOSOFIA, CRIANÇAS E...XADREZ


 



Não, não vem de agora, esta “moda” pedagógica de empanturrar escolarmente os meninos com carradas e carradas de horas vitamínicas de Português (não Literatura, da verdadeira, que essa não existe a bem dizer nos currículos) de Matemática, ou Inglês, deixando as outras à míngua famélica de uma carga horária exígua, de 100 minutos ou mesmo 50 deles por semana. Também não será de admirar que determinadas disciplinas tenham sofrido o ataque, o opróbrio, a chacota de nada servirem para o PIB, o deficit, as finanças públicas e há que as ostracizar, desprestigiar, acabar com elas se possível. 


Um “cratino” ou uma “lulufrufru” conseguiriam lá vislumbrar a mínima importância da Educação Visual, da Educação Musical, da Educação Tecnológica, entre outras para a formação de um jovem? Mas não só estas disciplinas que têm levado no “lombo” pela estupidez governativa no que diz respeito a Educação. A Filosofia é outro exemplo carismático de uma área do saber cada vez mais arredia dos interesses do poder dominante em relação ao Ensino e nem vou perder tempo a explicar as razões tão simples elas são.
Acontece que cá por casa somos adeptos da introdução da Filosofia no ensino básico e logo no 1º Ciclo, fosse nas AEC, fosse agora na Oferta complementar, mas podemos tirar o cavalinho da chuva, porque….


E quando se fala de filosofia para crianças e jovens tem de se referir  Oscar Brenifier e já gora o seu companheiro de ilustração, Jacques Desprès. “L’Aprenti-Philosophe”, “Les Petits albums de philosophie” , “PhiloZenfants” entre outras, bem como “O Livro dos Grandes Opostos Filosóficos”, que lhes ganjeou o “Prix de la Presse des Jeunes” em 2008, o prémio Jeunesse France Télévision” no mesmo ano, e em 2009 o prémio “La Science se Livre”, bastavam para colocar Brenifier e Després como dois belíssimos lutadores da Filosofia como ideário comum na vida em geral e na Educação em particular, mesmo dos mais jovens.


E todo este “relambório” para quê? Para comprarem os livros? E porque não? Eles estão traduzidos da Nathan e  em Português nas EdiCare Editora.  Porque tem alguma relação com o Xadrez? Claro! No capítulo dos Opostos, relacionado com a Razão e a Paixão, O Xadrez aparece como ilustração da razão, para duas páginas à frente Benifier nos confrontar com a possibilidade de a inovação, a genialidade ser uma combinação “subtil dessas duas facetas da nossa personalidade, que nem sempre se dão bem”.
E talvez o Xadrez seja isso, uma enorme possibilidade de criatividade humana entre “paixão e razão”. 




07/08/13

ILDA DAVID, ONDINA BRAGA, MANUEL GONÇALVES e...XADREZ

Um bocadinho de Literatura, de Arte, de não esquecimento,  e... de Xadrez cultura fora de tabuleiro também faz bem e não engorda num país em muitas coisas, nomeadamente na cultura, obeso de estupidez e boçalidade.

Uma grande artista conhecida de poucos ( não costuma expôr no Palácio da Ajuda, nem "cacilha", nem faz "cagalhões ampliados" como certeiramente os apelida o poeta Manuel de Freitas), que numa arte de inscrição poética de uma beleza sintética, frágil, comedida, tem vindo há anos a preencher um universo artístico rarefeito dessas virtudes que me fazem tanto admirar esta artista plástica.
De 86 e do catálogo da INCM com belíssimo texto de Alexandre Melo e João Pinharanda, em que o jogo, talvez o xadrez, serve como temática reflexiva inspiradora da obra.



  



"Mesmo quando todos os elementos remetem para uma única situação, reconhecível — o paraíso terreal, as visitações, os jogadores —, não se está nunca num contexto de narração, mas de aparição: o verbo estar, conjugado como imanência sem peripécias. O que anima a presença não é o previsível desenrolar de um jogo narrativo, o que se passou antes ou vai passar-se depois, o que estão a fazer ou a dizer, mas uma suspensão da batida do tempo, uma expectativa que se distende ilimitadamente e se carrega de ternos e temíveis presságios.


Dois jogadores repousam reclinados um de cada lado de um tabuleiro de xadrez sem peças.

Frequentemente, e quase sempre sob maus augúrios, se tomou o xadrez para metáfora dos jogos, das regras e dos combates que crispam o mapa--mundo e ciclicamente lhe afligem a história. Com óbvio exagero podem, portanto, generalizar-se à humanidade toda as conclusões a retirar do facto de nos sentarmos à mesa de um tabuleiro sem peões nem reis.


Da ausência de peças resultam radicalmente alteradas a natureza do jogo, a marcação do tempo, a forma de presença, a possibilidade de coincidência ou cumplicidade. O confronto ou a dissipação deixam de ser mediatizados por acessórios guerreiros ou lúdicos, não há modo nem motivo de comprimir as durações.


Na rarefacção do contexto narrativo, na suspensão do tempo, as figuras entregam-se no seu mútuo mutismo, cegueira, solidão, mas também na sua maior franqueza e vulnerabilidade.

Sem trunfos e sem pressa, as mãos encaminham olhares que se respeitam até ao temor e se detêm no pressentimento. Adivinhação de encontro iminente, que pudesse ser uma aliança sem ser um nó."
                                                    ALEXANDRE MELO
                                                   JOÃO PINHARANDA






De Maria Ondina Braga, escritora das maiores da Literartura Portuguesa, quem nem se "rebela" nem "margarida", extratos de um romance curioso, que por acaso nem foi dos mais felizes que escreveu, mas em que nalguns extratos aparece o xadrez como leifmotiv de uma das infelicidades conjugais de uma personagem.



"21 de Junho

Pois Vânia sempre cá veio no sábado. Um pouco atrasada, que desculpasse... Ora, que importava? Bonito o seu vestido de algodão florido, sapatos abertos, um penteado novo. Devido a esse penteado, no entanto, estive todo o tempo contrafeita. Alterava-lhe as feições. O rostinho estreito alargava; até os olhos; até o sorriso. A boca lembrava-me, volta e meia, a boca rasgada da Brigitte. «Sabe, fica diferente com o cabelo assim.» Bem, uma vez o Gustavo tinha insinuado que gostava mais de cabelos curtos. O Gustavo!... «Não notas nada em mim?» Levantando a cabeça do papel onde resolvia o problema de xadrez (joga xadrez por correspondência), olhou-a, desatento, a pensar talvez como havia de conseguir xeque-mate — e nem a viu.(...)



 Por outro lado, aquele que o meu coração elegeu  (ou o meu cérebro?) vai-se tornando cada vez mais  presente e inexplicável. Não sei se enlouqueci. Passo as duas mãos pela testa, aparto o cabelo molhado de suor, sufoco. E o remorso a morder-me nas veias. Éramos amigas. Ela abria-se comigo todas as noites: «Vivo com um fantasma, sabe? Um fantasma que  joga xadrez e fala só. E eu abstracta... e apaixonada. Ah, como é cruel estar apaixonado! Mesmo que  seja só mentalmente. Os outros deixam de existir. (...)







A Vânia jamais aludiu ao marido de modo a individualizá-lo, a defini-lo na sua radical unidade. Antes alternadamente como colega de estudos (ou mestre); especialista em números (técnico de contas?); pai excitado com o nascimento do filho e vexado por este lhe sair anormal; marido sem atenções para a companheira; espírito terra-a-terra; jogador de xadrez...(...)



27 de Agosto

Do diário da Vânia:

Saudades? Sim: da minha sala de estar, do meu maple, dos livros da Pearl  Buck, dos poemas da Florbela, dos discos do Bela Bartok. Aqui nem sequer uma estante, e as paredes manchadas a alcatra rota. Não é o Gustavo que me falta nem o baque das peças de xadrez.

 Visto de longe, a frio, o Gustavo não passa de um cavaleiro, torre ou coisa assim ao jogo de xadrez. Não consigo desligá-lo da simetria dos quadrados a preto e branco, do método, do cálculo. Um perfeito mecanismo, o Gustavo: Chego às sete. Preciso de jantar cedo. Tenho reunião às nove. Dá primeiro de comer ao pequeno e deita-o.

 Mas será isto vê-lo a frio? Ou vê-lo a desempenhar um papel automatizado pela rotina, eixo de uma instituição? Como, neste momento, me verá a frio (?) o Gustavo?(...)"





 Para terminar, um poeta, Manuel Fernando Gonçalves, nem dos conhecidos, nem dos badalados, nem de escolas-lcapelas da poesia dita atual e portuguesa que existindo se negam, mas que ao longo dos anos tem construído uma obra em que  o humor, a sensibilidade fina,  a des-construção da realidade pelo absoluto da linguagem ,se tornaram na minha ótica uma imagem de uma poesia de invulgar qualidade. 








CONTAS À  VIDA

Eu sou um rapaz a prazo,

sem lei nem rock, nem rei

ou torre que queira defender

e se a dama insistir, não sei:

ou me perco e me atraso,

tenho mesmo muito que fazer

antes que ela me mate.



Todos os jogos são assim,

uns mais de lógica, de amor,

outros táticos, mesmo virtuais,

estes com as peças no chão,

aqueles cegos, fingidos, carnais.

Finjo que adivinho o meu fim

se espreito o ás do outro jogador,

embora pareça só, concentração.



A dama, dona de séria intuição,

agita-se, mexe no vento, bate

na garupa do cavalo, põe ordem

à mesa: o cheque, na minha opinião,

não tem cobertura, é falso, anima

apenas a ilusão de haver um trono

e, espero mesmo que concordem,

apesar da posição branca, incerta,

não deve, sequer em lance brilhante,

o peão tomar a sela, como dono,

como quem lhe salta para cima.



Eu sou um rapaz de mente aberta,

sem vantagem, preta ou branca,

ou roque algum em mão amante.

Não quero mesmo é ser pobre,

não quero é, neste jogo, morrer

en passant, em lance pouco nobre.

Onde vive a dama de alma franca,

o traço do que estou a escrever?


 Manuel Fernando Gonçalves ( Revista de Poesia, Relâmpago, 31-32)