Já passaram dois anos do seu
falecimento. No artigo que lhe dediquei lamentava não existir nenhuma foto
decente doOchôa como jogador de xadrez. Coloquei a minha
partida da 4ª sessão do Campeonato Nacional Absoluto de 1978, jogado em S. João
da Madeira, onde era visível a diferença de força xadrezista entre um primeira
categoria e alguém que era um bocadinho mais do que isso, e nem preciso de
identificar quem é quem, porque o resultado diz tudo. Depois…depois, os amigos do costume, aqueles
raros que se vão interessando senão pela História do xadrez Português, muito mais
pelas memórias afetivas que sobrevivam a qualquer tabuleiro e peças de xadrez.
O Cordovil, claro, envia-me a última partida jogada pela Ochôa e que a custo e com dedicatória
conseguiu do mesmo, jogadaem simultânea
com o Spassky no IV Festival Xadrez de
Lisboa no dia 20 de novembro de 1999. Empate por proposta de Spassky, quede cordial ou combinado teve nada, pois foi
partida dura e bem jogada, mostrando o ditado “ quem sabe nunca esquece”
aplicado ao Luís Ochôa.
Depois, uma
emoção fortíssima quando o meu amigo, e outro apaixonado do xadrez, me resolve
presentear por mail com uma foto inacreditável que nem sabia que existia.
Exatamente o Ochoa na partida comigo desse Nacional de 1978. Esconder para quê?
Uma lágrima rebelde quis sair e eu deixei quando no ecrã do computador me
aparece o Ochôa pouco preocupado com a posição que já sentia muito vantajosa e
parecia entretido com algo que não descortino ( talvez preparar um cigarro?) e
eu, sempre com aquele ar “ciganão” morenaço de farta bigodeira , concentrado ou
ensismemado na “pinga” que ia levar com a posição quase desesperada das Negras.
Como éramos novos! Como eu amava ainda o Xadrez competitivo, como ainda tinha
ilusões de não ser tão “piço”, tão nabo na modalidade, como nos anos oitenta me
apercebi. Como acalentava a paixão por um xadrez que ainda não suspeitava que
ia morrendo aos poucos, para qual Fénix, renascer noutro, que sendo o mesmo, não
era aquele.
Porquê só
agora isto no Xadrez Memória ? E Porque isto no Xadrez Memória? Que têm V.
Excª, dos poucos que aqui vêm clicar com gosto, dos outros poucos que nem com
gosto vêm, só enfado, que não existe aqui variantes, nem árvores de análises,
nem Komodo, nem Fritz, nem “ChessBasesantacasadamesiricórdia” nem nada, digo,
que têm com as minhas memórias, emoções, se muitos nem sabem quem foi o Ochôa,
ou se sabem, querem lá saber?!
Pois…mas eu
quero. Finalmente uma foto do Ochôa como deve ser como xadrezista na Web! Não
sei se é muito ou pouco. É. Um passado, um colega de modalidade, um forte jogador,
uma boa pessoa que conheci ( e hoje não é fácil encontrar pessoas boas!), um
fractal da História do Xadrez Português. Que seja. Para memória presente e
futura.
Como sempre,
do lado bom do coração onde guardo os afetos, um agradecimento ao Mestre
Cordovil e ao Fernando Pinho.
Ah! Já agora nesse artigo referi-me ao Marino Ferreira!Agora que partiu, para quando alguém que o conheceu, que saiba escrever e goste da memória afetiva, consiga dedicar uns minutos a contar o quanto o xadrez egitanense e português lhe deve?
Não te zangues Rui, porque isto do Xadrez Memória, nem sequer é lido.
“ Eu vinha para a vida e dão-me dias” Ruy Belo, Homem de palavras
Rápido e rude como quem é atacado de garras na garganta.
Neste sudário de tristes dias, a dispensável notícia em amargos olhos de minutos.
Foi para mim proibido amanhecer.
Aqui no quase único café da minha adolescência onde ainda penso, escrevo, sonho, choro, longe da “gunagem” citadina que me estala os nervos, longe dessa praga turisteira que me faz odiar a minha cidade, penso-te Rui. Aqui, onde ainda consigo lamber as minhas feridas do dia, misturando-as com o sal amargo das horas, recordo-te.
Era escusado, Rui, perfeitamente escusado, Rui Almeida a tua partida. Assim não , assim não! Já lá estava no reino de Caissa gente que chegava para um “fechado” de categoria de ternura e, agora tu!? Assim não Rui, assim começa a existir gente xadrezista portuguesa suficiente para um “Aberto” ! Vai para muitos anos foi o Rui Marques, depois o Torcato, o Mesquita, o Carlos Quaresma, o Mamede, o Parcerias, o Durão, e outros de esquecimento e agora Tu!? Gente a mais!
Matrona, cada vez mais invejosa, demasiado portuguesa está a ficar Caissa.
Procurei noite adentro retrato teu na memória fria de discos rígidos, mas não encontrei. Só megas de memória cá dentro da tua pessoa. Teve que ser a foto da FPX. Prova provada que não gostavas de te expor, de te mostrar, de aparecer. Desde miúdo que acho que eras assim. Lembras-te ainda miúdo quando te conheci no Torneio do do Viana Taurino ? Tantos anos Rui! Miúdo, “chavalito” ainda, acanhado, tímido, era o teu pai que falava por ti. Mais tarde, em sala de torneio, numa ou outra partida que contigo joguei e perdi, sempre essa reserva, essa calada maneira de ser, essa calma em azul que te distinguia da verborreia estafada de muita gente do xadrez, ou dos fala-barato de variantes e subvariantes, ou mesmo dos ignorantes do xadrez que eram os maiores da sua rua quando não estava lá ninguém!
Gravei-te assim, impressões digitais da minha memória. Jogavas xadrez e bem, ficaste naquele número fatal do Elo da passagem dos 200 para os 300, porque isto é Portugal e porque pressinto que isso nunca foi tua preocupação. Amavas demasiado o Xadrez para perceberes que talvez atrás do tabuleiro da competição, haveria um outro d’amor d’Ele. Deixaste de competir, de aparecer nos salões de grandeza de coisa nenhuma, começaste outra vida de dádiva, de ensino, de um outro xadrez. Nunca deixaste de amar a coisa amada, disso tenho a certeza.
Poucas palavras trocamos ao longo dos anos, dos nossos encontros no tabuleiro, ou em sala de torneio, todavia as que sussurramos foram sempre de voz doce, generosa, suave, delicada da tua parte. Rui, convenço-me que eras mesmo assim. E sabias de xadrez, mesmo muito de xadrez, para além do repositório bacoco e mirrado de variantes e mais variantes, mas sim do Xadrez, da cultura do xadrez, que como sabias, não era apanágio de muito “rambo” do tabuleiro.
Assim, partiste. Eu para aqui como imagem de remo fixo em águas paradas. Reflexos da imagem de ti, nas peças Staunton, no tabuleiro verde e branco que as suportam, imagem desse teu rosto de miúdo que nunca perdeste, dessa face de “putti” deslumbrada pelo bruxedo do xadrez como a percepcionei em Viana, vai para muitos anos.
Foste, mas recuso aceitar a perda, mesmo que seja pela persistência da errância luminosa de curtas imagens e fugidios pensamentos. Ao escrever-te, vou perdendo um vazio que nunca o foi porque alguma coisa sempre esteve cá.
Já agora, avisa a velha e invejosa matrona Caissa que não comece o “Aberto” sem mim!
Abraço fortíssimo. Ah! Havemos de resolver um dia esse problema do 1.e4-ç6 2.ç4 com que me ganhaste numa noite fria e chuvosa na sala da Escola Profissional de Gaia. Hoje talvez não jogasse o g6 ! O que achas!? Para de rir com esse rosto suavemente gaiato, Rui! Afinal quase 20 anos de diferença merecem respeito, ou não?
Faleceu em Bruxelas onde se encontrava como delegado da Antena 1 no pretérito dia 13 de janeiro de forma rápida, fulminante. Vi a notícia nesse mesmo dia na TV. Percebi que era ele. Na altura não me apeteceu escrever nada. Escrever o quê? O contato com o Luís só aconteceu no Nacional de S. João Da Madeira em, 1978 e um ou outro torneio, como tal, pouco o conhecia. A imagem que dele tenho era de uma pessoa cordial, afável, um pouco reservado com quem não conhecia e que amava o xadrez, como percebi em S. João da Madeira, principalmente quando a partir da 5º sessão o Torneio lhe começou a correr mal. Notava-se a sua amargura, todavia mostrou sempre uma elevação e categoria intelectual que outros jogadores de xadrez não conseguem manter perante a adversidade.
Na análise que comigo fez depois da partida e depois para o Pirilampo, nunca lhe vislumbrei qualquer sinal de arrogância, ou mesquinhez perante a minha pessoa, claramente jogador inferior e por isso facilmente derrotado na 3º sessão. No jogo de futebol-convívio com a organização do Torneio, mostrou outra faceta sua: a simpatia, o humor e a boa disposição, embora o seu jeito para a futebolada não fosse lá muito. Aqui e ali naqueles dias apercebi-me de um nível cultural já apreciavel, ausente de muitos outros jogadores de xadrez, embrenhados só nas 64 casas e no seu restrito mundo.
Em 2009, descobri com alegria que lia o meu Xadrez Memória por um comentário que fez ao post que escrevi sobre o Martinho Lopes, agradecendo as minhas memórias do Nacional e achando que não era tão "perneta" futeboleiro como o tinha descrito.
Faleceu o Luís Ochoa. Procurei na virtualidade Web do mundo xadrezistico nacional notícias sobre o infausto acontecimento e nada, quase nada. Apenas o site da Associação de Xadrez de Lisboa, se lhe referiu num ato de memória que só a dignifica. Claro que esse rico "lupanar" do site FPX, tão carregadinho de missanguinhas, de entrevistinhas, de conteúdo incontido de informação, nem se lhe dignou uma linha ( ou eu perdi-me em tanta profusão de confusão!).
Claro que o Mestre Cordovil, (eternamente agradecido) não se esqueceu e enviou-me alguns materiais, quer de S. João da Madeira ( um , comovedor, com as anotações dos resultados do Luís por ele próprio na tabela classificativa), quer da Revista Portuguesa de Xadrez. Claro que pouca gente sabe que o Luís Ochoa era um forte jogador e até foi o primeiro Campeão Nacional de Semi-Rápidas, chegou a ser o 1º tabuleiro do Ateneu, mas que o Jornalismo foi a sua paixão, o seu leitmotiv de vida profissional e por isso o xadrez passou a ser uma paixão escondida, tenho a certeza.
Claro que poucos sabem que o Luís escreveu um Livro e bom sobre o Match de Baguio 1978 entre Karpov e Korchnoi e que nesse livro ( a grandeza dum Homem vê-se em pormenores!) a dedicatória é para o " meu Grande Mestre e amigo MARINO FERREIRA" ! ( já agora: sim, para quando alguém escrever sobre o Marino e o seu trabalho imenso no xadrez português? Eu sei que ele ainda mexe e não é muito de homenagem, mas era bom lembrá-lo!).
Assim partiu o Luis Ochoa e o xadrez nacional ficou mais pobre. Aqui eu, para lembrar este companheiro de paixão pelo xadrez, porque numa modalidade onde a memória de linhas, variantes e subvariantes parece ser tão importante, para mim só a memoria dos afetos vai contando.
1.e4 c5
2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 a6 5.c4 princípio básico: evitar repetir
variantes já jogadas no Torneio em causa-Ochoa-Fernando Sequeira-na primeira
sessão 5.Cc3 5...Cf6 6.Cc3 Bb4 uma variante bastante ativa, quiçã a melhor
na posição. 7.Bd3 Dc2 também defendia o peão e4, mas era inferior: aliás
tinha de ser inferior : "desenvolver as peças menores o mais rapidamente
possível" (Pachmann) princípio básico. 7...Cc6 8.Cc2!? [8.Cxc6 dxc6
9.e5 Cd7 10.De2±; 8.Cxc6 bxc6 9.e5 Cg8 10.Dg4± (10.0–0) ; 8.Cxc6 dxc6
9.e5 Da5!? 10.exf6 Bxc3+ 11.bxc3 Dxc3+ 12.Dd2 Dxa1 13.fxg7 Dxg7 e embora as
negras estejam muito debilitadas nas casas negras devem ganhar] 8...Bxc3+
9.bxc3 d5? as Negras comprometem o Roque. Melhor seria 9....Da5 ou 9....0–0
[9...Da5; 9...0–0] 10.exd5 antes de procurar impedir o Roque Negro com
Ba3, há que abrir a coluna de REi para a pressão em e7 ser maior 10...exd5
11.Ba3 Ce7? bem? mal? Nesta posição a vitória Branca é rotina. Escrito na
altura (1978). Hoje com 1...Be6 o jogo decorreria nornalmente. O lance da
partida é timorato, inexperiente, de alguém, eu, que sabia alguma teoria, mas
decorada, sem categoria para resolver problemas no tabuleiro que extravasassem
o lance não teórico ou menos jogado. [11...Be6 12.De2 Da5 13.0–0 Dxc3 14.Tab1
dxc4 15.Bf5 0–0–0 16.Bb2 Dd2 17.Bxe6+ fxe6 18.Dxe6+ Dd7 19.Dxc4 isto hoje é
teoria!] 12.De2 Ce4? [12...Bg4! 13.f3 Be6 14.Td1 Dc7 ewra perfeitamente
jogável com ligeira vantagem branca.] 13.0–0 0–0? [13...Be6] 14.cxd5
Cd6? [14...f5 15.Tae1 Tf7 16.Bxe4+-] 15.De5 Cef5 e as negras
abandonam sem esperar resposta 16.Bxf5 Cxf5 17.Bxf8 Dxf8 18.Tfe1 Bd7 19.Tad1
Tc8 era só prolongar o que já não valia pena prolongar. 1–0
Sim…o teu olhar na foto, para além do tabuleiro que pareces observar. Foste sempre assim, serás sempre assim. Explicado uns tanto por cento porque nunca foste bom jogador de xadrez. O teu vício, a sobreposição do teu eu, o vogar dos teus pensamentos, à vontade de te queres concentrar no jogo, num jogo. A tua imaginação sorrateira, matreira e mansa, a passear por rostos, sons, mundos tão teus. A posição nas 64 casas, complexa e, a tua cabeça nos mergulhos de menino no Douro-Areínho, ou no Douro-Ribeira! A posição a pedir estratégia, completamente ultrapassada pelo último sorriso da Matilde, ou a última tirada da Elisa, o labirinto das variantes e sub variantes, com a Teresa a interpor-se no seu abraço, o final a pedir experiência e o problema pessoal e terrível de aluno a aflorar ao pensamento. Porquê? Nunca o soubeste explicar, nunca o quiseste explicar. Aconteceu desde o embruxamento do xadrez. Foste sempre da equipa da evasão do pensamento, da emoção, da concentração interior de ti, longe dos outros, mesmo estando presentes. Nunca umas peças de plástico ou madeira tiveram autorização de interromper o natural curso do teu fluir interior. A ginástica mental, o exercício de um pensar abstracto, geométrico, inteligente, nunca te interessou muito, ou pelo menos, nunca conseguiu vencer a poderosa força dos afectos, das emoções. Talvez nunca amasses o xadrez! Em última instância, o xadrez e o seu mundo de imersão complexa nas 64 casas, talvez fossem, uma fuga inconsciente ao eu sério de ti. Um jogo, um simples jogo divertido de menino. Agora talvez saibas, porque dedicando-lhe tão pouco, se te colou como uma praga! Conseguiste esse distanciamento tão perfeito, tão necessário, para o apreciares naquilo que será uma das suas essências: a estética, a cultura de jogo, de um extraordinário e belo jogo. Muitos tentam, procuram…poucos conseguem lá chegar! Muito poucos conseguem esse olhar interior e cultural que lhes permite qual raio-X, ver para além dos quadrados de um tabuleiro e do movimento mais ou menos coordenado de umas peças.
Agosto, Figueira da Foz, 1975. Eras novo de 18 anos e preparavas-te para ser o que ainda não sabias o que verdadeiramente querias ser. Procuravas-te com a avidez, com a perplexidade, de quem sai do certo de uma idade, de um período, para entrar no incerto de uma vida adulta. Nesse mês de Agosto, um capítulo diferente na tua história: o conhecimento de gente do xadrez, o convívio salutar e amigo de adolescentes que partilhavam o mesmo sonho, a mesma paixão por este jogo. Não te desiludiste. Foi bom.
Época conturbada fora e dentro de ti. O Verão politicamente quente de 75, o fim do Liceu, o teu navegar partidário na tua incipiente politização, do PUP, ao PPM, passando pelas RGA, pelas bandeiras azuis ou vermelhas, para acabar num… nunca mais até hoje de filiação partidária. Oxigenavas e saturavas as feridas de um amor não correspondido, começavas a descobrir o valor da solidão procurada e a beleza poética pequenas coisas. A música e os livros, começaram esse diálogo essencial, de instalação para sempre, na casa da tua vida. A entrada na Faculdade iria esperar, pelos tempos conturbados a viver, e, um ano de Serviço Cívico no IARN e como monitor de xadrez da DGD, esperavam-te.
Era Agosto nessa bela Figueira de 1975. E nós, dezenas e dezenas de jovens nela, por uma paixão comum: o xadrez. No Seminário, por hospedagem, grande parte de nós, porque uns poucos, por ambição, ou falta de vontade para a confusão, em pensão particular, ou em casa de amigos. no seminário, onde também matinalmente se realizaram alguns reatamentos de partidas adiadas. No seminário, de refeitório amplo, de quartos - celas curiosas. Um salão grande com camas baixas, onde alguns tiveram o privilégio de ficar, outros, coube-lhes em sorte um outro salão verdadeiramente extraordinário, com quartos individuais, mas que o não eram, separados que estavam apenas e só por uma rede cúbica que os dividia. Com porta e tudo, cada quarto, mas sem paredes, ou tectos, ou janelas - unicamente uma rede de arame de malha estreita em cubo que permitia toda a visão de e para….
Os seminaristas e as…tentações! É que Deus é omnipresente, mas o Diabo poderia tecê-las, e vá de travar os intentos do demo, com uma visão mesmo quadriculada, por parte de destro, pio e atento vigilante nocturno dos seminaristas. Que na altura, não deveriam existir no seminário, ou por férias, ou falta de vocações, porque aquela “pensão” estava por nossa conta! Aquelas extraordinárias redes de arame, por onde manhã cedo, no pseudo tecto, eram depositadas toalhas encharcadas, que pingue que pingue, iam molhando o incauto dorminhoco, até que estremunhado, entre um “filho da p…”, um “fod….”, “put…que vos pariu”, berrava que nem louco, nada satisfeito com o “baptismo” seminarista que lhes tínhamos preparado! Havia os espertos que afastavam a cama do alvo central, mas de nada lhes valia, pois a barrela ainda era pior, pelo encharcamento lateral, autênticos tiros ás redes, estilo “água-vai” nas “fuças” do angelical dorminhoco, sonhado protegido. Estive sempre do lado dos “encharcadores”, porque o meu dormitório, era no outro salão, todavia nunca pude cantar vitória, pois a vingança era servida fria, madrugada dentro, com “berros aos ouvidos” e autênticos “martelos” de almofadas, dos “encharcados” da manhã anterior! Dois gangs, perfeitos, definidos: os “encharcadores matinais” e os “travesseiros nocturnos”! Lembro-me como se fosse hoje, daquele riso muito particular e matreiro do João Sequeira, depois de me ter ensurdecido e almofadado as “trombas” pelas três ou quatro da madrugada, como vingança da encharcadela dessa manhã. Ao pequeno-almoço, aqueles que coragem tinham de se levantar, pazes feitas pela fome, ou pelo sono de noite mal dormida.
Ao Jantar, ânimos mais acelerados, pelo extravasar das emoções vividas nos tabuleiros do Casino Peninsular. Aqui e ali a “pêra” de mão portuense levantada a ameaçar, a “cabeçada” a quereres levar, o costumeiro “ vai pró cara…” e uma ou outra voz mais sensata a apelar à calma, ao bom senso, ou a interpor-se entre os beligerantes e tudo conforme as regras da sobremesa. Pela noite dentro, os noctívagos saíam para as miúdas, o casino, ou o cafés. Os “Xadrezistas-seminaristas” ficavam para as cartas, as rápidas, o “dolce-fare-niente”, ou a preparação da partida do dia seguinte. Eras um deles.
Mas estudar o quê? Dois livros apenas e, um deles surripiado por empréstimo ao meu F.C.Porto, no meu saco-mala portuense: “La Defensa Paulsen” de Pedro Cherta, da Escaques e El Gambito de la Dama” do Ludek Pachman. Descobri então, numa noite o que eram livros de Xadrez, daqueles bons e a sério! A minha educação livesca no xadrez, nunca tinha ido além do Xadrez Básico, dos volumes de aberturas do Pachman, já então ultrapassados, da Paulsen do Cherta, das Defensas Índias do Euwe e de uma ou outra revista Europe Échecs, ou a Jaque do Jose Luís Gonzalez, nada mais! Sabia que no Porto, o Sílvio Santos nos levava à perna com alguns Informadores, ou com ou outro volume alemão do Schwarz, agora que existiam livros com a qualidade, com a beleza dos que vi nessa noite no Seminário na Figueira da Foz, não o suspeitava.
Que os irmãos Sequeira, traziam uma mala pesada, cheia de livros, notava-se, agora que me deixassem folhear alguns, que me deixassem maravilhar com outros, foi um privilégio. Ao contrário de muitos xadrezistas que mais tarde vim a conhecer, para quem o segredo, a novidade, era “a alma do negócio”, e como tal se recusavam a mostrar livros, revistas, os Sequeira não me recusarem mostrar essas preciosidades, que o eram na altura e o ainda são agora para qualquer bibliófilo de xadrez. Nunca o souberam, mas o seu gesto nesse Agosto de 75 foi o propulsor do meu gosto pelos livros de xadrez, pelo coleccionismo de livros de xadrez. Que grandes livros, na altura! Esses livros fabulosos da R-H-M Press, dos primeiros e belíssimos cartonados volumes da Batsford britânica, dos Informadores Yugoslavos. Tinham uma apresentação gráfica, uma clareza de ideias, uma disposição da teoria, com que ainda hoje, as Everyman, ou Gambit, deveriam aprender. Passei três ou quatro noites a folhear os livros da autoria do David Levy, do W.Harston, do R.Wade, do Blackstock The Sicilian Dragon, The Grunfeld Defense, The Pelikan Defense (com análises de Svesnikov e Timoschenko), The Sacrifice In the Sicilian, The King’s Indian, etc. Não faltava na mala livresca do Sequeira, os que na altura me pareceram maravilhosos livros do Reuben Fine “ Basic Chess Endings” , “The ideas behind the chess openings “ “ The Middle Game In Chess”, além de diversos Informadores. Como não ser candidato ao título o João Sequeira, ele que até já tinha participado em Europeu e Mundial de jovens, ele que até livros húngaros tinha?
Percebi à altura, a distância espantosa entre a preparação teórica, a capacidade de estudo, o “apetrechamento” de muitos jogadores de Lisboa em relação aos do Porto. O equilíbrio começou a estabelecer-se, quando ou através do Durão, ou através de Férias, a “malta” do Porto conseguia a mesma bagagem teórica através dos livros, Informadores e mais tarde das Enciclopédias! Eu não! Ainda corria até Vigo, não para os caramelos, mas para o Corte Inglês, onde se vendiam os bons e relativamente baratos livros da Martinez Roca, Colecção Escaques!
Foi boa essa semana xadrezística na Figueira. Xadrez, convívio, risos! Éramos jovens e sorriamos. Tornamos aquele seminário menos austero, levamos talvez os últimos ecos de vida e juventude àquelas paredes. O xadrez, o xadrez como pano de fundo. O nacional, mas também as simultâneas do Meste Júlio Santos e o Recorde Ibérico do Álvaro Pereira em simultânea às cegas-26 tabuleiros. Estive lá, fui lá ! Conto? Um pouco de vergonha que guardo todos estes anos! Nem o Álvaro Pereira saberá! Aqui perto de mim a partida que ganhei ao Álvaro. Fui ao Casino, para assistir à simultânea. Os Juniores a disputar o Campeonato estavam “proibidos” de jogar, ou pelo menos, foram convidados por questão de ética, a não jogarem. Não sei como, mas perante a falta de jogadores, dei por mim sentado num dos tabuleiros da simultânea, talvez por fascínio, talvez porque o xadrez, o jogar xadrez, estava na ordem das minhas prioridades, depois de ter perdido nessa tarde. Alguém, penso o Meste Júlio Santos, me chamou a atenção para o facto de ser um Júnior “jeitoso” e não ser bonito ir defrontar o Álvaro numa simultânea daquele estilo, mas perante, a inexistência de outro voluntário, fiquei. E ganhei, uma peça primeiro, a partida pouco depois. Não contribuí para um score mais positivo do Álvaro Pereira, no seu recorde. No fim, envergonhado, não tive a coragem de pedir ao simultaneador para me assinar a folha de partida. Saí do Casino Peninsular e noite dentro, acabrunhado, dirigi-me para o me parecia naquela altura, o acolhedor seminário. Mais tarde (ou antes) joguei outra simultânea, esta à vista com o Mestre Júlio Santos, empatando a partida.
Era Agosto, na Figueira de 1975. Num campeonato Nacional de Juniores de Xadrez, onde ainda consegui ganhar dois ataques Fegatello, a jovens do interior. Onde vi o António Fernandes, então com treze anos, como ainda hoje o vejo: um estado de nervosismo incrível, nos apuros de tempo, na partida que disputou comigo e que perdi.Onde conheci e joguei a minha primeira partida com o António Pereira dos Santos, já de uma categoria e correcção no tabuleiro impecáveis. Um Nacional que terminou em grande, com a vitória muito “profissional” do Luís Santos, com os outros favoritos nas posições imediatas. Um Nacional que me demonstrou à saciedade a distância enorme que me separava em força xadrezística, em preparação, em métodos de estudo, em relação aos melhores jogadores “juniores” nacionais.
Foi.. Acho que foi aí, na Figueira da Foz, nesse Agosto de 1975 que comecei a perceber pela primeira vez, que competitivamente nunca ultrapassaria determinada categoria, aquilo que na altura se chamaria a 1ª Categoria. Que a minha força de jogo, que o meu progresso xadrezístico poderia ir um pouco mais além, mas nunca como o tinha sonhado ao 15 ou 16 anos.
Iria a continuar a dedicar-me ao Xadrez, mas já não com a intensidade, com a paixão competitiva, com as horas de tempo que até aí lhe tinha dedicado. Outros interesses, outras paixões mais intensas e produtivas, de mim se iriam apoderar. Sei hoje: Foi na Figueira da Foz, nesse Agosto de 1975 que comecei a perder o Xadrez, um determinado tipo de xadrez, uma faceta do xadrez, para o reganhar a juros, com toda a paixão, toda a sua integralidade, a sua beleza global. Perdi um tipo de xadrez, para me sair taluda de outros. Saí da Figueira, mais humilde, mais humano, mais consciente do eu xadrezista que era.
Foi bom esse Agosto de 75 na Figueira da Foz. Foi bom ter-vos convocado camaradas xadrezistas na minha memória, foi bom ter quase cinquenta e ver-vos em dezoito, foi bom continuar esta ternura de me sentir pertencente a um grupo de xadrezistas que tem sabido envelhecer no xadrez português. È bom reencontrar-vos longe a longe, mais enrugados, mais carecas, mais Xadrezistas talvez, em rápidas de fim-de-semana, em hall de hotel, mas sempre “juniores” nessa paixão que continuais a sentir pelo nosso jogo. Foi bom esse Agosto de 75 na Figueira da Foz! Talvez por isso, não quis despertar torrentes de memória emotiva, que estou a ficar, um “meia-idade piegas”, com uma possível ida à Figueira aos recentes Torneios da Figueira. Como o Carlos Tê: por vezes é melhor não regressar ao local onde se foi feliz. Fui-o durante uma semana, nessa bela cidade da Figueira nesse Agosto de 1975. Acreditem ou não... a vocês o devo!