XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

23/11/14

ANTÓNIO TORCATO




António, talvez agora seja o tempo. Porquê? Não sei. Talvez porque vou sabendo aceitar a visitação silenciosa da ternura. Instala-se. Nada diz. Acabo por a perceber perfeitamente...

Ou por outra razão difícil de explicar, uma espécie de rumor interior de beleza comovida que regressa sempre ao lugar de partida de um momento, de momentos, das coisas guardadas no lado bom do coração que não sei bem onde fica.

Ou talvez nem seja nada disto e esteja a ficar "parvolírico" típico da velhice, dos mimos da velhice, com todos os vícios inerentes a esse inevitável pé ante pé ir no suave declive. Mas é meu, silencioso das coisas e pessoas pegadas para sempre em mim. Tem lá paciência António.

Assim António Torcato, uma homenagem e um torneio de xadrez, numa espécie de dois em um te querem fazer, te queremos fazer no CPN que foi sempre o teu.

Pronto, conheço-te António! Aí onde estás, junto de Caíssa, vejo o tua gargalhada tão típica e o teu não menos conhecido gesto de simples mão aberta alisares para trás o cabelo de risca ao meio  , estupefacto com a novidade. Sei o que pensas:
Um torneio de xadrez com aquela malta já entradote, uns já "urinaparaochão", outros trelharoucos a colocar volante ao lada da Torre e a insistir para jogar com a "Torrante", outros a pedir encarecidamente "onde está a rede, a rede - sem rede não jogo!", outros, pior ainda, a entrar no salão do CPN e a perguntar se é ali o tal campeonato de sueca, ou bisca lambida. António, estou com medo, juro-te! Medo, acredita, porque nem eu sei bem onde me enquadrar neste nova coleção dos velhos cromos Victória.

E tu a rires, eu sei! Sinto o teu riso aberto a bandeiras despregadas, estilo Gambito de Rei. E todavia, sei que vou ver-te, que vais andar por lá, vestido com o teu celebérrimo casaco de couro castanho, a alindar de mão aberta o teu cabelo de risca ao meio, a pesquisar as asneiras, o assassínio às espanholas, à escocesa, berlinesa, à italiana, nós que te perdemos num gambito, nós a quem nos ficou sempre o sabor amargo de faltar sempre mais um bocadinho no xadrez e na vida depois de te apaixonares por essa deusa desgraçada que te quis perto dela. Vais andar por ali, de mesa em mesa, de respiração em respiração, de mão em mão nestes teus amigos e pobres empurradores de plástico em tabuleiro encardido. 


E vejo-te. Como te rias a fundo perdido do meu medo automóvel, como te escangalhavas às gargalhadas com a minha reprovação pelo facto de trataram jovem mancebo-nubento a casamento com o jogo, abaixo de "peskito" recém chegado de fresco ao CPN. Assim, o peixinho chegado do mercado, era metido no aquário envidraçado da sala de xadrez, era escamadinho que nem peixeira do Bolhão com mates estilo Bc2-Dd3 mate em h7, ou Torre g3, Dd4 para mate em g7, mas muitas vezes com olhar disfarçado de franciscano-descalço para o lado contrário ao do mate, ou seja, a ala de Dama. Claro que o Júlio Rei do Mambo, era Grande Mestre neste arte, embora tu António, chegasses a Mestre Internacional. E rias, rias muito do teu dichote, perante a minha indignação e certeza que o "peskito" não mais nadaria naquele aquário, havendo até o perigo de se dedicar à caça! "Arlindo, é fo...agora, que daqui a uns meses estão ele a fo...nos!", e rias com aquele belo sorriso rouco tão à António Torcato.


Tive sempre enorme respeito xadrezistico por Ti, António, por isso, mete lá uma cunha a Caíssa para mim daqui a uns bons e longos anos. Jogamos várias vezes oficialmente, ganhei-te uma vez porque te distraíste e a sessão de cinema não podia esperar, empatamos muitas, mas tiveste sempre no tabuleiro aquilo que sempre apreciei num jogador de xadrez – ser amador de xadrez: amar o xadrez para além da competição no xadrez.


Nunca quiseste a mestria no xadrez, porque o teu lema era o Xadrez Sem Mestre. Acho que leste o Xadrez Básico do Agostini (malta do CPN...não, não é o do Planeta do mesmo), alguns Pachman, um ou outro "Escaques" e pronto. Literatura esquística a mais e suficiente para chegares a uma categoria que tendo-a não precisavas de a ter, até porque nunca te vi muito preocupado com os tais números que parecem medida de "gaja”", e que tem o nome de Elo. Podia chamar-se outra coisa, como "liga", "espartilho", ou sei lá! Já reparaste António qualquer coisa como Arlindo Vieira 1950 "espartilhado", António Torcato 1900 "ligado"?! Podia ser Vicks Vapourub, mas é Elo, Arpard do mesmo, Arpard Elo, quase nome de loção de barbear ou xarope para a tosse o que ficou e o que pretende medir a potência de um maduro no tabuleiro e que põe ufano e contente muito xadrezista que quer subir "Piço...elo".

Talvez fosse por isso que adorávamos o Badminton onde não há "Picelo" mas Categorias! Dá mais griffe à coisa, distinção sem paralelo. Assim, fomos reis em Terceiras categorias: Eu, o Matias, Tu e o Júlio Rei do Mambo-meu irmão. Mas António, o que queríamos? "Homens a empurrar uma peninha para cá e para lá" como dizia o meu querido pai com certo desdém, um desporto entre o "maricas e o mata-moscas" só Categorias para enobrecer a coisa, embora o topo da modalidade fosse "Honras" para desonrar as categorias!

Assim o xadrez uma das tuas paixões...ou não! Talvez fosse mais pelos amigos, pelos dichotes, as piadas durante as partidas, por um xadrez que no CPN se jurava não ter sido inventado por mudos, nem no oriente, nem em lado nenhum, mas ali, naquele aquário ao som cavo das bolhas de bilhar, discussões quase de pera afocinhada, cheiro de bifana "siciliana" , cachorro à "benoni" , cerveja à  l' échiquier, ou brandy "caro-kan", versão cara ou coroa, sempre tudo com entra e sai, com "caralhadas" que não sendo assadas, eram medianamente cozidas, e tudo sempre atapetado por uma enorme amizade, um forte sentido de camaradagem, que nem o nojo da politiquice, ou o submundo futebolístico estragava.


Isso era Xadrez, e do bom , carago! Daquele que se gosta, do estilo: bifana do lado de Rei e mate a seguir! Assim António, impregnado daqueles sons, daqueles cheiros, daquelas "tangas" vocabulares e sobretudo da tua gargalhada franca, cortês, mas ao mesmo tempo cortante quando necessário. Nunca fui muito de participação, porque nunca cepenista do fundo d'alma, já que o meu lado de xadrez andou sempre pelo FCP e GXP, mas gostava de sociologicamente de vos observar, de te observar António. Aqui e ali, servindo-te dos teus superiores conhecimentos teóricos lá abifanavas um "GM chesscromo" com ganho de peça, lá davas um mate que mais do que pastor, era rebanho e tudo, mas por vezes lá perdias e nunca esquecerei aquele teu gesto tão típico de "braços abertas e punhos cerrados" em tremelique à António Torcato Teixeira, quando perdias uma peça, ou mostravas o teu desalento pela perda da partida. Apesar de teres uma filosofia própria sobre o xadrez, não gostavas de perder nem a feijões, corrijo, peões! 

Alguns dos matches com o Julinho Rei do Mambo eram extraordinários, ficaram célebres nos anais da modalidade, só superados pelos imorredoiros encontros nos grandes "open" da modalidade de Badmínton entre o Diomar e o Joãozinho, esses sim na história do desporto português - tanto pavilhão depenado!


Mas António, a memória galopa-me em vagas azuis quando te penso. Existiu outro António para mim que sendo o mesmo era um outro. Nem sei se fui teu amigo, ou alguma vez me consideraste como tal, nem me importa mesmo nada, já que os amigos não se dizem, estão onde são, mas ainda hoje acho que nunca partiste porque quem está permanece, oblíquo, vertical, gravado a ferro e fogo da ternura está. 


Percebi a importância para mim de um outro António para além do xadrez, numa noite em que te vi, aprumado, dignatário sim , mas já muito debilitado, no Centro Comercial Brasília. Saudamo-nos com as respetivas e tive de fugir apressado para um banco do Jardim da Boavista, onde não pude conter a represalágrimas de uma tristeza infinda que sabia ir perder um amigo que pelo nível intelectual, cultural e humano tanto me tinha marcado desde o fim da minha adolescência.


Mas foi assim, António. Lutador infindo de primeira vaga, não resististe à segunda. Um dia resolveste frágil gota já, ir embora. E foste de mistério que ainda não compreendo.

Será que te promoveste para além da casa 8 no Reino do nunca mais atraído pela belíssima deusa Caíssa ?

Será que num serviço longo, ele foi tão, tão longo que foste com volante e tudo até te esqueceres que o jogo terminava aos 21?

Não sei António. Sei que nunca mais fui o mesmo. O que contigo aprendi, o que te devo está, estará sempre guardado, ou não seja eu colecionador de xadrez e de alguns afetos.

Nunca mais o esquecimento do ouvir-te sobre o Marxismo, ou sobre o Fellini do Navio, que eu não gostava e que adoravas à força de me tentar convencer da minha azelhice, ou sobre o Cinema Novo francês, ou sobre um romance que andavas a ler. 

Sempre argumentativo, sempre convincente, mas nunca do estilo "Sartana Perdoa, eu Não", ou de "sacar primeiro", era preciso dar-te, corda "guita" como se diz no Porto, e então lá desenvolvias a tua entusiasta opinião que sem tentar convencer, convencia. Numa conversa tinhas um estilo curioso de "retranca-ofensiva" que muito me encantava. Penso que nunca te convenci do meu adorado Bach, mas tu lá me foste convencendo de alguma modernidade de Bartok e afins.


Numa das últimas visitas que te fiz, o encantamento com os enormes posters que tinhas trazido de viagem, sobre a pintura de Mark Rothko, mas também me falaste de Malevich, como foste pressuroso como menino encantado com descoberta, buscar a caixa de Vinis desse nosso gosto comum: Sandy Denny. 

E podia continuar, mas para quê? Da tua geração e do meu conhecimento de muita "malta" ermesindense, foste António o individuo que mais alto cotei intelecto e culturalmente. Aprendi imenso contigo e abriste algumas portas que por outros interesses e paixões estavam entreabertas à minha formação.


Olha António, eu gostava, gosto daquela malta do CPN, mas convenhamos que alguns ficavam muito bem colados numa caderneta de rebuçados estilo Vitória: claro que haveria o bacalhau, a cobaia, o cabrito, mas também ao raposa, o papagaio etc, etc, e porque não,  o burro – eu, mas sabes uma coisa? Nunca te consegui arranjar lugar de cromo nessa tal caderneta! Não sei, talvez porque achei sempre em ti uma categoria intelectual, um charme qualquer de inteligência, uma capacidade perceção ambiente que escapava a muitos de nós.


Assim António, como sussurro, como aragem de pensamento de fim de tarde, guardo-te invisível na palma da minha mão. Conheces a expressão certamente:"Foste um Senhor, carago!". Ou talvez não! Nem senhor, nem doutor, nem nada. Simplesmente o António Torcato Teixeira que vejo ao longe de mão só a ajeitar o cabelo para trás, nesse sorriso franco, gargalhado de uma meninice que de ti nunca se despojou.


Mas não...Caissa que já tinha no seu reino tanto Grande Mestre, tanto titulado, tanto génio do tabuleiro, invejosa, carente, tinha logo que nos levar um dos melhores tabuleiros da Amizade?!


António, nem precisas de convite, porque é em Ti, por Ti que lá estaremos naquele salão do teu sempre querido CPN. Aparece, sei que vais aparecer! No repasto nocturno, sei que vais aparecer novamente e guardar-te-emos um lugar especial! Consegues, claro que consegues espalhar-te na ternura quarenta, cinquenta e sessentona de dezenas de corações de amigos que te guardam tesouro precioso para sempre.

António, até sábado.



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