XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

10/06/15

DURÃO, Joaquim

Aqui no limiar da tarde, enquanto repasso no meu melhor tabuleiro e peças algumas das suas partidas.
Caro Mestre, vai para anos escrevi (lhe) que ainda era cedo para a promoção. Caissa não quis, pronto.
Daqueles que respeito e gosto, prefiro a repousada  ternura da memória , sobretudo quando partem.
Aqui no meu blogue vários textos sobre o Mestre. Agora mais um. Até um dia para uma partida amigável, Mestre Durão. 




Os que partem trazem o fogo à extremidade do tabuleiro



Para além da oitava casa o que procuram não sei

o mistério talvez…

de amor morrem isso sei.



Na geometria diáfana de um quadrado

o incendiado milagre da multiplicação,

a omissa e abstrata procura de uma verdade

impura como a realidade do pensamento,

como se fosse possível explicar sopro de respiração.



Um jogo, sim, de mecânicos adotados silêncios,

um jogo, sim, esse e o da vida que não consente empate,

um jogo, sim, o xadrezvida

gesto habitado e suspenso, soletrado lance a lance

no mastigar paciente da morte.



Os que partem trazem o fogo à extremidade do tabuleiro.

Xadrez Memória - A.V


18/04/15

COLIN CROUCH

 
Keverel Chess


Já me tinha referido várias vezes a ele neste espaço como um dos grandes autores de xadrez atuais e talvez de sempre. Vai para tempos tive de "ensinar" a muito ignorante americano no "bar bexigoso" e comercialão do Chess.com quem era Crouch e calculo que a incultura xadrezista reinante não permita a muitos ter um livro de Crouch numa biblioteca de xadrez que se preze de o ser.

How To Defend in Chess foi só o primeiro livro sobre Lasker ( e já tinha alguns) que me permitiu perceber um pouco da genialidade e jogo "estranho" deste formidável Campeão, tal como no mesmo livro a abordagem sobre outro meu ídolo, Tigran Petrosian, não deixa de ser menos genial. Este livro de Colin Crouch é um diamante no meio de milhares e milhares de calhaus que vão soterrando o parolo, otário e indigente mercado e comprador  do livro do xadrez.


 



Hastings 1895, The Centenary Book, escrito com Kean Haines, de edição limitada e por isso raro,   é um dos melhores livros de Torneio que algum dia se escreveram e prova que é possível pegar num livro de época e sem "computadorizar, sem armar ao pingarelho analista, (re) fazer um torneio histórico. Grandioso como poucos este livro. Não tenho pejo em dizer, ao nível de um Zurique 53 de Bronstein, ou de um Karlsbad 1907 de Marco e Schlechter.
Outros livros excelentes de Crouch ( e até belas partidas de MI)  poderia  citar aqui, mas chega.







Morreu Colin Crouch e o xadrez ficou mais pobre. A literatura xadrezista, a boa, a grande escrita do xadrez perdeu um daqueles que amava o xadrez e que acima de tudo respeitava para quem escrevia, os amadores de xadrez na verdadeira acepção da palavra. Tenho os livros de Crouch à minha frente, pego num dos meus melhores tabuleiros, no livro de  Hastings 1895 e vou viajar com Colin Crouch até 1895.



17/03/15

IRENE LISBOA





De uma escritora livre, profunda e grandiosa. Tão atual hoje, como o seria em 43 quando o escreveu. Dos bobos, dos verdadeiros e dos falsos, que destes nem o reino dos céus será o seu poiso. Atual para as nódoas sebosas que nos governam, da nóda máxima de bolo-rei à mínima governamental, bem como aspirantes a nódoas mais vísiveis, que já o sendo procuram oposição-expansão. Também poderia aplicar-se a essas peças magníficas que não fazendo parte do xadrez, gravitam nelas bobosos e borbulhosos chocalhando guisos numa necessidade pueril de serem conhecidos e amados como ninguém. Que conseguem corte , lá isso conseguem. É que existem os bobos e os babosos. 


" Bobo, sim! Ser bobo foi alguma coisa; nos velhos tempos o mister do bobo tinha ressonância. Tinha utilidade. O bobo, deformado e desprezado, era uma consciência elementar e acessória, de que um senhor lançava de vez em quando mão, à falta de outra melhor. O bobo via, ouvia e sabia...

Correm tais os tempos que me parece bem que o mister do bobo devia ser ressuscitado. Com as suas duas funções e não uma só... Gente que divirta a outra há muita. De que se carece é das tais consciências elementares, consentidas. Para rematar, finalmente: sempre que me vejo em certos lugares acomete-me o desejo de ser bobo.

A corte era só uma, nos velhos tempos. Hoje são muitas! Pequenas cortes, onde os homens mestres na arte da dissimulação, jogam subrepticiameníe os seus interesses e tomam atitudes nobres ou sensíveis. Mentindo sempre...em nome de ridículas verdades e de razões excessivamente particulares.

Mas a finura, única que verdadeiramente cultivam, para dizer agora que o preto é preto e loco que é branco? E a paixão disfarçada mas firme com que se defendem aqui e atacam além.Com que dominam e desbaratam os seus ilusórios contendores... Quais contendores? Os fantoches de oposição que criam!

São admiráveis, admiráveis. Tudo o mais é gente simplória, massa indistinta, salpicada de idealistas e de materialistas, fora dos rumos viáveis e dos seus segredos.

Mas isto na pulverização da vida livre não assumiria a importância nem a ardência consumidora que assume nos gabinetes particulares, nas linhas do comando. Como tudo ai se joga e palpita…

Para exemplificar: aqui está um homem que ontem se sentia desclassificado, mal aproveitado, e que hoje se sente no seu devido lugar... sem uma visível alteração de funções! Mas o seu espirito trabalhou e trabalha, molemente, brincando...enquanto a roda das paixões tornejando à sua volta altera todos os valores de posição. Esqueceu-se lá de pequenas humilhações e desaires, que engoliu como quem engole saliva.

É encantadora também a naturalidade com que homens destes se cortejam! Tratam-se entre si de indispensáveis, de preciosos. Consideram-se uma nova espécie de marcas de xadrez, que com muito cálculo e prudência se devem manejar As próprias marcas, animadas de espirito, dão palpites aos seus jogadores. E disto saem multas vezes resultados esplêndidos, mas efémeros. Contingentes, para melhor dizer. Porque, enfim, nunca se viu ambição sossegada... E num jôgo, as combinações e os lances imaginativos sucedem-se!

No meio disto tudo correm atropelados como é humano, absolutamente humano, os confusos interesses intemporais e impessoais: o bocado da ciência, da arte ou da administração que uns vagos anónimos pretendem cultivar. Para extrair proveitos... Mas sabe-se lá de que qualidade? E quem ousa duvidar de que esses mesmos proveitos não estejam incluídos, ou não decorram dos pessoais? Há muita dúvida viciosa e imoral.

Tão imoral como certas crenças, absurdas.

Para que se hão-de deixar persistir as famas gastas e as velhas idolatrias? Porque se não hão-de arruinar, liquidar? Mas sem grosseria, de luvas calçadas. Confrontemos tipos e épocas, E concluamos: que levianos eram os nossos maiores... que enganados...

Ó perfeita e delicada função do bobo! Como eu te cobiço e invejo... Gostava sinceramente de te cultivar.

Em cada dia que Deus dá, se mo permitissem, se me não arredassem com o pé (os senhores de hoje são mais impacientes e cruéis que os antigos) os motetes lindos que eu havia de fazer...as sátiras graciosas, a filosofia honesta, os epigramas risonhos... Animaria gostosamente a corte!

A vida de câmara, propícia por excelência ao afinamento do espírito, tornar-me-ia tão lúcida  prestável como qualquer velho bobo."
Irene Lisboa, Apontamentos, Lisboa 1943



01/03/15

LUÍS OCHOA





Faleceu em Bruxelas onde se encontrava como delegado da Antena 1 no pretérito dia 13 de janeiro de forma rápida, fulminante. Vi a notícia nesse mesmo dia na TV. Percebi que era ele. Na altura não me apeteceu escrever nada. Escrever o quê? O contato com o Luís só aconteceu no Nacional de S. João Da Madeira em, 1978 e um ou outro  torneio, como tal, pouco o conhecia. A imagem que dele tenho era de uma pessoa cordial, afável, um pouco reservado com quem não conhecia e que amava o xadrez, como percebi em S. João da Madeira, principalmente quando a partir da 5º sessão o Torneio lhe começou a correr mal. Notava-se a sua amargura, todavia mostrou sempre uma elevação e categoria intelectual que outros jogadores de xadrez não conseguem manter perante a adversidade. 

Na análise que comigo fez depois da partida e depois para o Pirilampo, nunca lhe vislumbrei qualquer sinal de arrogância, ou mesquinhez perante a minha pessoa, claramente jogador inferior e por isso facilmente derrotado na 3º sessão. No jogo de futebol-convívio com a organização do Torneio, mostrou outra faceta sua: a simpatia, o humor e a boa disposição, embora o seu jeito para a futebolada não fosse lá muito. Aqui e ali naqueles dias apercebi-me de um nível cultural já apreciavel, ausente de muitos outros jogadores de xadrez, embrenhados só nas 64 casas e no seu restrito mundo.

Em 2009, descobri com alegria que lia o meu  Xadrez Memória por um comentário que fez ao post que escrevi sobre o Martinho Lopes, agradecendo as minhas memórias do Nacional e achando que não era tão "perneta" futeboleiro como o tinha descrito.

Faleceu o Luís Ochoa. Procurei na virtualidade Web do mundo xadrezistico nacional notícias sobre o infausto acontecimento e nada, quase nada. Apenas o site da Associação de Xadrez de Lisboa, se lhe referiu num ato de memória que só a dignifica. Claro que esse rico "lupanar" do site FPX, tão carregadinho de missanguinhas, de entrevistinhas, de conteúdo incontido de informação, nem se lhe dignou uma linha ( ou eu perdi-me em tanta profusão de confusão!).



Claro que o Mestre Cordovil, (eternamente agradecido) não se esqueceu e enviou-me alguns materiais, quer de S. João da Madeira ( um , comovedor, com as anotações dos resultados do Luís por ele próprio na tabela classificativa), quer da Revista Portuguesa de Xadrez. Claro que pouca gente sabe que o Luís Ochoa era um forte jogador e até foi o primeiro Campeão Nacional de Semi-Rápidas, chegou a ser o 1º tabuleiro do Ateneu, mas que o Jornalismo foi a sua paixão, o seu leitmotiv de vida profissional e por isso o xadrez passou a ser uma paixão escondida, tenho a certeza.



Claro que poucos sabem que o Luís escreveu um Livro e bom sobre o Match de Baguio 1978 entre Karpov e Korchnoi e que nesse livro ( a grandeza dum Homem vê-se em pormenores!) a dedicatória é para o " meu Grande Mestre e amigo MARINO FERREIRA" ! ( já agora: sim, para quando alguém escrever sobre o Marino e o seu trabalho imenso no xadrez português? Eu sei que ele ainda mexe e não é muito de homenagem, mas era bom lembrá-lo!).



 

Assim partiu o Luis Ochoa e o xadrez nacional ficou mais pobre. Aqui eu, para lembrar este companheiro de paixão pelo xadrez, porque numa modalidade onde a memória de linhas, variantes e subvariantes parece ser tão importante, para mim só a memoria dos afetos vai contando.

OCHOA,Luís - SEQUEIRA,Fernando [B82]
Nacional Absoluto (1), 09.1978
[Arlindo Vieira]
1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 a6 5.Cc3 Dc7 6.Bd3 Cc6 7.Be3 Cf6 8.0–0 Be7 9.Rh1 0–0 10.f4 d6 11.Df3 Bd7 12.a4 b6 13.De2 Db7 14.Cf3 Cb4 15.e5 Ce8 16.Ce4 Cxd3 17.Dxd3 d5 18.Ceg5 g6 19.Cd4 Cg7 20.Tf3 f6 21.Cxh7 [21.Cxh7 fxe5 22.Cxf8 e4 23.Dd2 exf3 24.Cxd7 fxg2+ 25.Dxg2 Dxd7] 21...Rxh7 22.Th3+ Rg8 23.Dxg6 Be8 24.Dh7+ Rf7 25.f5 [ Havia aqui mate em 4: 25.Tg3 Tg8 26.Dg6+ Rf8 27.Cxe6+ Cxe6 28.Dxg8] 25...Bc6 26.fxe6+ Re8 27.Dxg7 1–0




OCHOA,Luís - ARLINDO,Vieira
Nacional Absoluto (3), 09.1978
[Arlindo Vieira, Luis Ochoa]
1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 a6 5.c4 princípio básico: evitar repetir variantes já jogadas no Torneio em causa-Ochoa-Fernando Sequeira-na primeira sessão 5.Cc3 5...Cf6 6.Cc3 Bb4 uma variante bastante ativa, quiçã a melhor na posição. 7.Bd3 Dc2 também defendia o peão e4, mas era inferior: aliás tinha de ser inferior : "desenvolver as peças menores o mais rapidamente possível" (Pachmann) princípio básico. 7...Cc6 8.Cc2!? [8.Cxc6 dxc6 9.e5 Cd7 10.De2±; 8.Cxc6 bxc6 9.e5 Cg8 10.Dg4± (10.0–0) ; 8.Cxc6 dxc6 9.e5 Da5!? 10.exf6 Bxc3+ 11.bxc3 Dxc3+ 12.Dd2 Dxa1 13.fxg7 Dxg7 e embora as negras estejam muito debilitadas nas casas negras devem ganhar] 8...Bxc3+ 9.bxc3 d5? as Negras comprometem o Roque. Melhor seria 9....Da5 ou 9....0–0 [9...Da5; 9...0–0] 10.exd5 antes de procurar impedir o Roque Negro com Ba3, há que abrir a coluna de REi para a pressão em e7 ser maior 10...exd5 11.Ba3 Ce7? bem? mal? Nesta posição a vitória Branca é rotina. Escrito na altura (1978). Hoje com 1...Be6 o jogo decorreria nornalmente. O lance da partida é timorato, inexperiente, de alguém, eu, que sabia alguma teoria, mas decorada, sem categoria para resolver problemas no tabuleiro que extravasassem o lance não teórico ou menos jogado. [11...Be6 12.De2 Da5 13.0–0 Dxc3 14.Tab1 dxc4 15.Bf5 0–0–0 16.Bb2 Dd2 17.Bxe6+ fxe6 18.Dxe6+ Dd7 19.Dxc4 isto hoje é teoria!] 12.De2 Ce4? [12...Bg4! 13.f3 Be6 14.Td1 Dc7 ewra perfeitamente jogável com ligeira vantagem branca.] 13.0–0 0–0? [13...Be6] 14.cxd5 Cd6? [14...f5 15.Tae1 Tf7 16.Bxe4+-] 15.De5 Cef5 e as negras abandonam sem esperar resposta 16.Bxf5 Cxf5 17.Bxf8 Dxf8 18.Tfe1 Bd7 19.Tad1 Tc8 era só prolongar o que já não valia pena prolongar. 1–0