XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

23/11/14

ANTÓNIO TORCATO




António, talvez agora seja o tempo. Porquê? Não sei. Talvez porque vou sabendo aceitar a visitação silenciosa da ternura. Instala-se. Nada diz. Acabo por a perceber perfeitamente...

Ou por outra razão difícil de explicar, uma espécie de rumor interior de beleza comovida que regressa sempre ao lugar de partida de um momento, de momentos, das coisas guardadas no lado bom do coração que não sei bem onde fica.

Ou talvez nem seja nada disto e esteja a ficar "parvolírico" típico da velhice, dos mimos da velhice, com todos os vícios inerentes a esse inevitável pé ante pé ir no suave declive. Mas é meu, silencioso das coisas e pessoas pegadas para sempre em mim. Tem lá paciência António.

Assim António Torcato, uma homenagem e um torneio de xadrez, numa espécie de dois em um te querem fazer, te queremos fazer no CPN que foi sempre o teu.

Pronto, conheço-te António! Aí onde estás, junto de Caíssa, vejo o tua gargalhada tão típica e o teu não menos conhecido gesto de simples mão aberta alisares para trás o cabelo de risca ao meio  , estupefacto com a novidade. Sei o que pensas:
Um torneio de xadrez com aquela malta já entradote, uns já "urinaparaochão", outros trelharoucos a colocar volante ao lada da Torre e a insistir para jogar com a "Torrante", outros a pedir encarecidamente "onde está a rede, a rede - sem rede não jogo!", outros, pior ainda, a entrar no salão do CPN e a perguntar se é ali o tal campeonato de sueca, ou bisca lambida. António, estou com medo, juro-te! Medo, acredita, porque nem eu sei bem onde me enquadrar neste nova coleção dos velhos cromos Victória.

E tu a rires, eu sei! Sinto o teu riso aberto a bandeiras despregadas, estilo Gambito de Rei. E todavia, sei que vou ver-te, que vais andar por lá, vestido com o teu celebérrimo casaco de couro castanho, a alindar de mão aberta o teu cabelo de risca ao meio, a pesquisar as asneiras, o assassínio às espanholas, à escocesa, berlinesa, à italiana, nós que te perdemos num gambito, nós a quem nos ficou sempre o sabor amargo de faltar sempre mais um bocadinho no xadrez e na vida depois de te apaixonares por essa deusa desgraçada que te quis perto dela. Vais andar por ali, de mesa em mesa, de respiração em respiração, de mão em mão nestes teus amigos e pobres empurradores de plástico em tabuleiro encardido. 


E vejo-te. Como te rias a fundo perdido do meu medo automóvel, como te escangalhavas às gargalhadas com a minha reprovação pelo facto de trataram jovem mancebo-nubento a casamento com o jogo, abaixo de "peskito" recém chegado de fresco ao CPN. Assim, o peixinho chegado do mercado, era metido no aquário envidraçado da sala de xadrez, era escamadinho que nem peixeira do Bolhão com mates estilo Bc2-Dd3 mate em h7, ou Torre g3, Dd4 para mate em g7, mas muitas vezes com olhar disfarçado de franciscano-descalço para o lado contrário ao do mate, ou seja, a ala de Dama. Claro que o Júlio Rei do Mambo, era Grande Mestre neste arte, embora tu António, chegasses a Mestre Internacional. E rias, rias muito do teu dichote, perante a minha indignação e certeza que o "peskito" não mais nadaria naquele aquário, havendo até o perigo de se dedicar à caça! "Arlindo, é fo...agora, que daqui a uns meses estão ele a fo...nos!", e rias com aquele belo sorriso rouco tão à António Torcato.


Tive sempre enorme respeito xadrezistico por Ti, António, por isso, mete lá uma cunha a Caíssa para mim daqui a uns bons e longos anos. Jogamos várias vezes oficialmente, ganhei-te uma vez porque te distraíste e a sessão de cinema não podia esperar, empatamos muitas, mas tiveste sempre no tabuleiro aquilo que sempre apreciei num jogador de xadrez – ser amador de xadrez: amar o xadrez para além da competição no xadrez.


Nunca quiseste a mestria no xadrez, porque o teu lema era o Xadrez Sem Mestre. Acho que leste o Xadrez Básico do Agostini (malta do CPN...não, não é o do Planeta do mesmo), alguns Pachman, um ou outro "Escaques" e pronto. Literatura esquística a mais e suficiente para chegares a uma categoria que tendo-a não precisavas de a ter, até porque nunca te vi muito preocupado com os tais números que parecem medida de "gaja”", e que tem o nome de Elo. Podia chamar-se outra coisa, como "liga", "espartilho", ou sei lá! Já reparaste António qualquer coisa como Arlindo Vieira 1950 "espartilhado", António Torcato 1900 "ligado"?! Podia ser Vicks Vapourub, mas é Elo, Arpard do mesmo, Arpard Elo, quase nome de loção de barbear ou xarope para a tosse o que ficou e o que pretende medir a potência de um maduro no tabuleiro e que põe ufano e contente muito xadrezista que quer subir "Piço...elo".

Talvez fosse por isso que adorávamos o Badminton onde não há "Picelo" mas Categorias! Dá mais griffe à coisa, distinção sem paralelo. Assim, fomos reis em Terceiras categorias: Eu, o Matias, Tu e o Júlio Rei do Mambo-meu irmão. Mas António, o que queríamos? "Homens a empurrar uma peninha para cá e para lá" como dizia o meu querido pai com certo desdém, um desporto entre o "maricas e o mata-moscas" só Categorias para enobrecer a coisa, embora o topo da modalidade fosse "Honras" para desonrar as categorias!

Assim o xadrez uma das tuas paixões...ou não! Talvez fosse mais pelos amigos, pelos dichotes, as piadas durante as partidas, por um xadrez que no CPN se jurava não ter sido inventado por mudos, nem no oriente, nem em lado nenhum, mas ali, naquele aquário ao som cavo das bolhas de bilhar, discussões quase de pera afocinhada, cheiro de bifana "siciliana" , cachorro à "benoni" , cerveja à  l' échiquier, ou brandy "caro-kan", versão cara ou coroa, sempre tudo com entra e sai, com "caralhadas" que não sendo assadas, eram medianamente cozidas, e tudo sempre atapetado por uma enorme amizade, um forte sentido de camaradagem, que nem o nojo da politiquice, ou o submundo futebolístico estragava.


Isso era Xadrez, e do bom , carago! Daquele que se gosta, do estilo: bifana do lado de Rei e mate a seguir! Assim António, impregnado daqueles sons, daqueles cheiros, daquelas "tangas" vocabulares e sobretudo da tua gargalhada franca, cortês, mas ao mesmo tempo cortante quando necessário. Nunca fui muito de participação, porque nunca cepenista do fundo d'alma, já que o meu lado de xadrez andou sempre pelo FCP e GXP, mas gostava de sociologicamente de vos observar, de te observar António. Aqui e ali, servindo-te dos teus superiores conhecimentos teóricos lá abifanavas um "GM chesscromo" com ganho de peça, lá davas um mate que mais do que pastor, era rebanho e tudo, mas por vezes lá perdias e nunca esquecerei aquele teu gesto tão típico de "braços abertas e punhos cerrados" em tremelique à António Torcato Teixeira, quando perdias uma peça, ou mostravas o teu desalento pela perda da partida. Apesar de teres uma filosofia própria sobre o xadrez, não gostavas de perder nem a feijões, corrijo, peões! 

Alguns dos matches com o Julinho Rei do Mambo eram extraordinários, ficaram célebres nos anais da modalidade, só superados pelos imorredoiros encontros nos grandes "open" da modalidade de Badmínton entre o Diomar e o Joãozinho, esses sim na história do desporto português - tanto pavilhão depenado!


Mas António, a memória galopa-me em vagas azuis quando te penso. Existiu outro António para mim que sendo o mesmo era um outro. Nem sei se fui teu amigo, ou alguma vez me consideraste como tal, nem me importa mesmo nada, já que os amigos não se dizem, estão onde são, mas ainda hoje acho que nunca partiste porque quem está permanece, oblíquo, vertical, gravado a ferro e fogo da ternura está. 


Percebi a importância para mim de um outro António para além do xadrez, numa noite em que te vi, aprumado, dignatário sim , mas já muito debilitado, no Centro Comercial Brasília. Saudamo-nos com as respetivas e tive de fugir apressado para um banco do Jardim da Boavista, onde não pude conter a represalágrimas de uma tristeza infinda que sabia ir perder um amigo que pelo nível intelectual, cultural e humano tanto me tinha marcado desde o fim da minha adolescência.


Mas foi assim, António. Lutador infindo de primeira vaga, não resististe à segunda. Um dia resolveste frágil gota já, ir embora. E foste de mistério que ainda não compreendo.

Será que te promoveste para além da casa 8 no Reino do nunca mais atraído pela belíssima deusa Caíssa ?

Será que num serviço longo, ele foi tão, tão longo que foste com volante e tudo até te esqueceres que o jogo terminava aos 21?

Não sei António. Sei que nunca mais fui o mesmo. O que contigo aprendi, o que te devo está, estará sempre guardado, ou não seja eu colecionador de xadrez e de alguns afetos.

Nunca mais o esquecimento do ouvir-te sobre o Marxismo, ou sobre o Fellini do Navio, que eu não gostava e que adoravas à força de me tentar convencer da minha azelhice, ou sobre o Cinema Novo francês, ou sobre um romance que andavas a ler. 

Sempre argumentativo, sempre convincente, mas nunca do estilo "Sartana Perdoa, eu Não", ou de "sacar primeiro", era preciso dar-te, corda "guita" como se diz no Porto, e então lá desenvolvias a tua entusiasta opinião que sem tentar convencer, convencia. Numa conversa tinhas um estilo curioso de "retranca-ofensiva" que muito me encantava. Penso que nunca te convenci do meu adorado Bach, mas tu lá me foste convencendo de alguma modernidade de Bartok e afins.


Numa das últimas visitas que te fiz, o encantamento com os enormes posters que tinhas trazido de viagem, sobre a pintura de Mark Rothko, mas também me falaste de Malevich, como foste pressuroso como menino encantado com descoberta, buscar a caixa de Vinis desse nosso gosto comum: Sandy Denny. 

E podia continuar, mas para quê? Da tua geração e do meu conhecimento de muita "malta" ermesindense, foste António o individuo que mais alto cotei intelecto e culturalmente. Aprendi imenso contigo e abriste algumas portas que por outros interesses e paixões estavam entreabertas à minha formação.


Olha António, eu gostava, gosto daquela malta do CPN, mas convenhamos que alguns ficavam muito bem colados numa caderneta de rebuçados estilo Vitória: claro que haveria o bacalhau, a cobaia, o cabrito, mas também ao raposa, o papagaio etc, etc, e porque não,  o burro – eu, mas sabes uma coisa? Nunca te consegui arranjar lugar de cromo nessa tal caderneta! Não sei, talvez porque achei sempre em ti uma categoria intelectual, um charme qualquer de inteligência, uma capacidade perceção ambiente que escapava a muitos de nós.


Assim António, como sussurro, como aragem de pensamento de fim de tarde, guardo-te invisível na palma da minha mão. Conheces a expressão certamente:"Foste um Senhor, carago!". Ou talvez não! Nem senhor, nem doutor, nem nada. Simplesmente o António Torcato Teixeira que vejo ao longe de mão só a ajeitar o cabelo para trás, nesse sorriso franco, gargalhado de uma meninice que de ti nunca se despojou.


Mas não...Caissa que já tinha no seu reino tanto Grande Mestre, tanto titulado, tanto génio do tabuleiro, invejosa, carente, tinha logo que nos levar um dos melhores tabuleiros da Amizade?!


António, nem precisas de convite, porque é em Ti, por Ti que lá estaremos naquele salão do teu sempre querido CPN. Aparece, sei que vais aparecer! No repasto nocturno, sei que vais aparecer novamente e guardar-te-emos um lugar especial! Consegues, claro que consegues espalhar-te na ternura quarenta, cinquenta e sessentona de dezenas de corações de amigos que te guardam tesouro precioso para sempre.

António, até sábado.



16/11/14

CAMPEONATO DO MUNDO...A SÉRIO! Fischer-Spassky

Pois...quem veio aqui pelo "Carlão" X "Anão" desengane-se. Aquilo é tão emotivo, mas mesmo tão emotivo que o meu vai para velho coração já não aguenta. É mesmo! Emoção a rodos, relatado e tudo com verve, com "panache" pela Santa Casa da Mesericórdia do Xadrez internacional quem tem uma base no chess. Então não ver um 26...Ce5 de 1400 de Elo e quase 0:1 e perder a partida é obra. Claro muito cansaço, de tanta partida disputada ( 6!!!), muita tensão nervosa, um grande campeonato do mundo de "sueca", desculpem...xadrez. Pois, só que eu começo a acreditar em coisas,  noutros submundos no mundo do xadrez. Existiram sempre e sempre existirão. Temos pena. Como pena temos dos ingénuos que vão alimentando este triste mundo do xadrez atual. Lá vai a "Mula" do Karsten de parceria com o Dvoretsky fazer um livro do estilo "Tragicomedy in the Midllegame: Instructive Mistakes of the Masters" - ( brinco como é óbvio, e o com o mesmo título in the Endgame é um livro fabuloso para demonstrar tanta coisa óbvia sobre o desconhecimento absoluto de muitos GM do topo sobre finais - desculpem Rubinstein, Schlechter, Capa, Botvinnik, Fischer, Karpov tão douta e inculcada ignorância de muitos bimbos GM apesar de tanta experiência acumulada de xadrez - que nem sabem , nem querem saber.
Assim mundial, mas uma coisa com algum cheiro a naftalina , mas artigo de luxo, de bom gosto, com "griffe".

Da Revista Observador nº 81 de Setembro de 1972 (42 anos!) esta reportagem muito bem escrita mas mistério: não tem assinatura, nem do artigo nem no índice da revista. Alguém saberá desvendar o mistério? Ou será uma tradução de qualquer agência de notícias?
Aí vão pois as páginas para o  já vosso conhecido "right click and save!" que sou um mãos largas pois claro.









07/11/14

VASCO SANTOS ... Só para não esquecer





Em 2006, num comentário no blogue do Alverca aquando da sua morte, escrevi a respeito de uma polémica ( Xadrez Livre)  na Stadium entre o Vasco Santos e o Costa Moreira 

"Vasco Santos num número posterior de 10 de Dezembro de 1950, dá a sua própria opinião sobre o Xadrez Aleatório, no seu estilo fluente, bonito, escorreito mas profundamente elucidativo. Vasco Santos era um grande escritor de xadrez! Um colunista brilhante, talvez dos melhores, senão o melhor que passou pelo xadrez português! Já agora…para quando uma merecida homenagem ao Vasco Santos? Para quando este miserável país passa a não esquecer aqueles que lhe deram algo? Para quando nós, xadrezistas, que deveríamos ter memória bem estruturada, só a temos para variantes, posições, e não para o xadrez sentido dos afectos, do não esquecimento? No Xadrez, como noutras actividades, gostamos imenso de mandar as pessoas para os “lares de 3ª idade do nosso esquecimento”, como se o jogo que amamos, não o seja pelo que outros no passado lhe dedicaram!" - Arlindo Vieira

Reafirmo hoje o mesmo! 


Só um país peão sem alma, só uma comunidade xadrezista entre o parolo, o pacóvio, e sobretudo ingrata e mal agradecida é que permite que um nome como o de Vasco C. Santos esteja num limbo ignóbil. Pronto,  já sei,   foi organizado um torneio em sua memória vai para anos e uma sessão solene…querem um biscoito?! Acham que isso honra alguém como o Vasco Santos?
O António Pereira dos Santos dedicou-lhe umas belas palavras, mais aqui e ali umas lembranças aquando do seu falecimento e a partir daí o esquecimento.
Não, o que era preciso é que qualquer jovem mancebo se aventurasse a recolher tudo (e foi tanto, tanto! a Bola, Record, Mundo Desportivo, Flama, o Diário de Notícias, Jaque etc. etc. ; ) o que este Grande Homem do Xadrez escreveu sobre xadrez em jornais e  revistas  de xadrez ou não xadrez.
Eu dou uma ajudinha ( Flama  Ano VI nº 62 de 13 de Maio de 1949) se não se importam neste meu humilde blogue. Já agora, se me puderem identificar a foto do artigo agradeço encarecidamente ( É o Vasco Santos? Se o é, porque razão ninguém colocou esta foto online?). Se o for, finalmente uma belissima foto de Vasco Santos.
Ah! Não esqueçam: right click and save!




Caro Mestre Vasco Santos, vi-o duas vezes, mas nunca lhe falei. Sei hoje o que perdi de cultura e nível de xadrez. Valeu-me o que foi deixando escrito, e foi muito, de amor-paixão ao xadrez . Alimentou este feitiço  embevecido de Caissa que não me larga. Grato eternamente.


25/10/14

DURÃO nos seus 84 anos



Caro Mestre e Amigo Durão não é a primeira vez que sobre si escrevo no meu Xadrez Memória, até um poema já lhe dediquei, e como é óbvio sei que hoje comemora o seu aniversário. Aliás, se me esquecesse, lá estará o site do Kevin Spraggett e os seus excelentes artigos sobre si para mo lembrar.

Sabe o Mestre Durão que sou parco, muito parco mesmo em encómios pessoais no xadrez português, e quando o sou, é porque o visado me deixou profunda marca naquilo que ao xadrez diz respeito, nomeadamente na paixão e amor ao xadrez que continua viva, talvez ainda mais, do que quando aprendi este bruxedo encantador aos 14 anos.

Assim neste artigo duas ou três coisas gráficas que nunca vi em lado nenhum, fosse no site do Kevin, fosse no fabuloso vídeo do Babo, ou mesmo em qualquer site de xadrez.

É um artigo sobre o Mestre na antiga FLAMA nº 213 de 4 de Abril de 1952. A fotografia de capa que  Silva Nogueira, esse grande fotógrafo, principalmente do teatro, hoje tão esquecido (mais um!)  realizou do Mestre Durão é simplesmente extraordinária, e arrisco-me a dizer talvez a melhor foto do Durão ( das muitas em que foi retratado) que algum dia vi. A postura, a elegância que sempre o caraterizou, o fabuloso Staunton e o lado técnico da foto de uma nitidez e jogo de luz quase perfeito, encantaram-me de tal forma que não descansei enquanto não palmilhei durante meses "lés e grés" tudo o que era sítio para arranjar a revista. Dentro um belo artigo de R. D. ( Rolo Duarte) com um Durão de 11 anos enternecedores.

Depois, de pesquisa aqui e ali mais umas fotos raras do Mestre. Em Nice 74 no jogo com Guernsey, e grandes fotos do Zonal Amsterdão 63. Por último a foto de capa de uma Jaque, o Durão num recente torneio, e até uma caricatura.

Pata terminar duas grandes e pouco publicitadas partidas comentadas pelo Durão, em que o seu talento e visão de xadrez são evidentes.
No fim, uma sua vitória das 4 que obteve em jogos comigo. Partidas sempre "rasgadinhas", mas em que o Mestre mostrou a diferença entre a mestria e o jogador "piço" de 1. categoria (seria?) Arlindo Vieira.


Mestre Durão, um abraço enorme e que a deusa Caissa lhe permita ficar entre nós por muitos e bons anos.  Aqui no meu melhor tabuleiro e peças, vou repassar dez das suas melhores partidas – estética e aprendizagem do xadrez de que me vou alimentando.

(para os meus parcos leitores e porque sou um mãos largas, as fotos em tamanho acessível para " right click and save") - basta clicar nelas.















DURÃO,Joaquim - Kievelitz (RFA)
1980
[Durão, Joaquim]
1.e4 c5 2.Cc3 e6 3.g3 d6 4.Bg2 g6?!

Esta jogada é duvidosa porque permite a reação central imediata. Teria sido superior 4... Cç6 levando a partida para posições conhecidas e aguardando que as Brancas definissem o avanço do peão d à 3|_ ou 4|_ casa. No primeiro caso, então sim , as Negras poder-se-iam decidir pelo fiachetto do Bispo de Rei sem problemas.

5.d4 cxd4 [5...b6? 6.dxc5 bxc5 7.e5 d5 8.Cxd5+-]

6.Dxd4 Df6 7.Dd3 Cc6 8.Cf3 Dd8

A Dama estava mal colocada e devido à ameaça Bg5 opta por retroceder e ocupar-se da vigilância do peão d6 atrasado, que é outro dos problemas do Jogo negro

9.0–0 a6 mais uma jogada de um peão, para evitar Cb5 e ataque ao peão d6

10.Td1 Parece insólito este lance, até porque a Torre faz falta nas colunas de Rei ou Bispo de Rei. Aqui esta jogada justifica-se pois atyrasa o desenvolvimento do Bispo de f8 a g7 casa natural deste Bispo.

10...Dc7
[10...b5 talvez fosse melhor]

11.Bf4 e5 12.Cd5 Db8 13.Be3 Be6
[13...b5 14.Cb6 Ta7 15.Cxc8]

14.Cb6 Ta7 15.Cg5 Cf6
[15...Bg4 16.Dc4 Ch6 17.f3+-]

16.Cxe6
[16.Cd5 Bxd5 17.exd5 Ce7 18.Bxa7 Dxa7 19.Dc3 Bg7 também se ganhava a qualidade desta forma, mas as Brancas consideraram, talvez erradamente que seria de forma mais longa e difícil do que a jogada do texto]

16...fxe6 17.Cc4
[17.Dc4 Rf7 18.Bh3 De8 não levaria a nada de concreto]

17...Ta8 18.Cxd6+ Bxd6 19.Dxd6 Dxd6 20.Txd6 Re7 21.Bc5 Rf7 22.Tad1 Tac8 23.Bb6 Re7
as Negrass esperam uma cilada salvadora, mas as Brancas viram mais longe e deixam-se cair nela 24.c3! No caso das Negras não precipitarem os acontecimentos, o plano das Brancas seia simples : f3 seguido de Bf1 ou Bh3 e a aproximação do Rei ao centro a partir de f2 com um final claramente superior

24...Cd4? 25.cxd4 Rxd6 26.dxe5+ Rc6 [26...Rxe5 27.f4#] 27.Td6+

foi este xeque que escapou às negras. As Brancas ganham o cavalo. A fuga do Rei levaria ao mate 27...Rb5 28.Bf1+ - Rb4 29. Td4+etc

1–0







 Shipman,Walter (2400) - Durao,Joaquim (2220)
New York op New York, 1986
[DURÃO, Joaquim]
1.d4 d5 2.Cf3 Cf6 3.c4 c6 4.Dc2
uma variante utilizada pelo GM Miles com o objetivo de levar o jogo para uma espécie de Catalã, evitando assim combater a defesa Eslava do Gambito de Dama.

4...e6 [4...g6 5.Bf4 Bf5 6.Db3 Db6 7.e3 Ca6 8.Cc3 Dxb3 9.axb3 Cb4 10.Ta4! Era outra possibilidade, mas com melhor jogo das Brancas como na partida Palatnik-Popov(URSS, 1976)]

5.g3 Ce4 Com o objetivo de tentar entrar numa espécie de variante Stonwall da defesa Holandesa

6.Cfd2 Com a ideia de expulsar o mais cedo possível o Cavalo, mas é duvidoso que seja melhor do que o desenvolvimento natural do outro Cavalo a c3 ou d2

6...f5 7.Bg2 Bd6 8.Cxe4 fxe4 9.f3
[9.0–0 Parece ser melhor]

9...exf3 10.Bxf3
[10.exf3 e5!]

10...0–0 11.0–0 e5 12.dxe5 Bxe5 13.cxd5 Bh3 14.Td1 cxd5
[14...Db6+ 15.Rh1 Df2 16.Db3 com as ameaças de pxp + e Be3]

15.Be3 [15.Bxd5+? Dxd5 16.Txd5 Tf1#; 15.Txd5 Db6+ 16.Rh1 Df2 com ameaças variadas Df1 mate; Txf3 e Dg2 mate]

15...Cc6! 16.Cc3 [16.Txd5 Cb4 17.Txd8 Cxc2 com ganho decisivo de material]
16...d4 17.Bf2 Txf3!
Forte sacrifício de qualidade que deixa muitas vulnerabilidades na casas brancas do Roque do MI americano

18.exf3 Df6 19.Db3+
 [19.Ce4 Dxf3 20.Db3+ Dxb3 21.axb3 Cb4 e a boa situação das peças negras aliada ao forte peão passado compensariam a qualidade]

19...Be6 20.Ce4 Df7 21.Da3
[21.Dd3 Bc4 com ganho de tempo]

21...h6 tanto para impedir um Cg5 como para abrir uma casa de escape ao Rei

22.Rg2 Tf8 23.h4 Bd5 24.Td2 b5!
As Brancas conseguiram evitar Bxe4 ganhando peça, todavia, as negras conseguem agora dar um novo impulso no seu ataque ao Roque com este lance que pretende afastar a Dama branca da defesa de f3

25.Tc1 Bc4 26.b4 a5! 27.f4 Bxf4!! novo sacrifício, agora especulando com a dupla ameaça depois de 28.gxf4 - Dxf4

28.Txc4 bxc4 29.gxf4 Dxf4 30.Te2
Devolvida a qualidade resta esta defesa, mas os peões negros compensam amplamente a peça. A luta está decidida

30...d3 31.Te3 d2! 32.Da4 Dg4+ 33.Cg3 d1D 34.Dxc6 encontrava-me em apuros de tempo e por isso o meu adversário decide resistir. Agora o mais simples era 34...Dç2, mas...

34...Txf2+ 35.Rxf2 Dd2+ 36.Ce2 Dxh4+
[36...Df4+ 37.Tf3 Dde3+]

37.Tg3 Dhf4+ 38.Rg1 De1+ 39.Rh2 Dxe2+ 40.Rh3 Df5+ 0–1



Arlindo,Vieira (FCP) - Joaquim,Durão (SLB)
Cam Nac I Divisão Coletivo (3), 27.02.1987
 1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 d5 4.Cf3 c6 5.e3 Cbd7 6.Bd3 dxc4 7.Bxc4 b5 8.Bd3 a6 9.e4 c5 10.e5 cxd4 11.Cxb5 Cg4 12.Da4 Bb7 13.Cbxd4 Db6 14.0–0 Bc5 15.Be3 h5 16.b4 Dxb4 17.Dxb4 Bxb4 18.Tab1 Bxf3 19.gxf3 Cxe3 20.fxe3 Bd2 21.Rf2 Cxe5 22.Be4 Tc8 23.Re2 Bc3 24.Cc6 Cxc6 25.Bxc6+ Re7 26.Tb7+ Rf6 27.Be4 Thd8 28.Td1 Txd1 29.Rxd1 a5 30.Td7 Bb4 31.Td3 Tc7 32.h3 Rg5 33.a3 Be7 34.Td4 Bxa3 35.f4+ Rh4 36.f5 Rxh3 37.fxe6 fxe6 38.Re2 e5 39.Td1 Tc1 40.Td5 Tc5 41.Td1 Tc1 42.Td5 Bb4 43.Txe5 Rh4 44.Bg6 Tc5 45.Te4+ Rg5 46.Bf7 Bc3 47.Te8 a4 48.Ta8 Ta5 49.Th8 Rf6 50.Ba2 a3 51.Tf8+ Re7 52.Tf7+ Rd6 53.Rf3 Bf6 54.Tb7 h4 55.Tb1 h3 56.Th1 Th5 0–1