Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

11/11/09

LASKER...Outra vez

"Emanuel Lasker: Denker, Weltenbürger, Schachweltmeister"

Pois é. No próximo dia 20 deste mês, a Sociedade Lasker de Berlim, vai lançar em festividade na Herzog August Library em Wolfenbüttel, um livro sobre Lasker, que mais do que uma extensa biografia, será quase uma súmula definitiva sobre a vida e obra deste grande génio do tabuleiro.


Uma obra monumental que teve a colaboração de grandes nomes associados ao estudo de Lasker, mas também da História do Xadrez. A lista é realmente impressionante para quem sabe quem são Linder, Forster, Donaldson, Lisovsky ou Hilbert, a que devemos acrescentar GM como Huebner, Tischbierek, Korchnoi!


Prof. Dr. Wolfgang Angerstein, Ralf Juergen Binnewirtz, John W. Donaldson, Juergen Fleck, Dr Richard Forster, Prof Dr Bernd Gräfrath, Dr. Tony Gillam, John S. Hilbert, Robert Huebner, Peter de Jong, Karl Kadletz, Thomas Lemanczyk, Dr.Isaac M. Linder, Tomasz Lisovsky, Roberto Mayor, Egbert Meissen Castle, Dr. Michael Negele, Susanna Poldauf, Toni Preziuso, Prof. Dr. Joachim Rosenthal, Raj Tischbierek, Robert van de Velde, Hans-Christian Wohlfarth. Um prefácio de Paul Werner Wagner, o atestado de competência editorial de publicação de Richard Forster, Stefan Hansen e Richard Negele, e a chancela editorial de uma casa insuspeita como é a Excelsior Verlag de Berlim, sobre a supervisão da Sociedade Lasker, tudo preparado para uma obra que não diria definitiva, mas que se vai afirmar por longos e bons anos como um “Vademecum” para qualquer Laskeriano que se preze, ou para figurar "altaneira" em qualquer biblioteca de xadrez que seja digna desse nome.

Assim, qualquer coisa como um livro gigantesco de 28,5 cm X 22 cm, mais de 1097 páginas, 4 Kg de peso, e dentro, 700 partidas de xadrez, muitas comentadas por Huebner , Tischbierek, 500 gravuras, muitas delas inéditas e...por aí fora! O preço rondará os 115 Euros.


Claro que já adivinharam qual será a minha prenda do "menino jesus" no Natal Xadrezistico!? Depois...depois como tudo é em alemão, OCR para cima e Power Translator a trabalhar, que remédio!

Ah! Podem ir a este link e tirar em pdf um extracto do Livro, ou seja na Homepage da melhor loja europeia de venda de livros e material de xadrez, a alemã: Schachversand-Niggemann

www.schachversand.de/startneue.htm




10/11/09

LASKER...Um bocadinho da minha paixão

O que tenho de Lasker?

Bem...pouco e, tirando um caso ou outro, de qualidade sofrível.

Assim comecemos pelas BIOGRAFIAS:

Esta biografia de Hannak continua como das raras de Emanuel Lasker. Diga-se desde já, fraquinha e com alguns erros de monta sobre este genial jogador. Ficou célebre o prefácio de Einstein. Tabelas de alguns torneios e 100 partidas comentadas levemente segundo os livros de torneios ou jogadores da época, completam este livro. Dá para ter uma ideia do percurso xadrezistico de Lasker, nada mais. Sobre a personalidade, o estilo de jogo, o homem por detrás do génio de xadrez, podem esquecer.


Esta biografia de Lasker feita por Nepomuceno é simplesmente um "pastiche" monumental do livro de Hannak! Só isso. Que que desculpem os meus leitores de língua hispânica. Em certas passagens é mesmo tradução literal. Aliás, o autor acaba por confessar a sua quase "oração" ao livro do alemão. Não há absolutamente nada de novo em Nepomuceno. A mesma cópia de lugares comuns, de estereótipos, de um passar de torneio para torneio, que até cansa o leitor. Como tal, só para quem for preguiçoso da tradução inglesa , ou alemão original de Hannak.


COLECÇÕES DE PARTIDAS


A primeira colecção de partidas de Lasker que adquiri vai para umas boas dezenas de anos. 75 partidas, sendo a última Lasker-Marshall do torneio de S. Petesburgo 1914. Este projecto que primitivamente se chamava " Dr. Lasker Chess Career", seria a de dois volumes, mas por razões desconhecidas ( talvez a ascensão de Reuben Fine ao estrelato do Xadrez Mundial-Candidato, e o trabalho intenso e imenso na realização de outros livros por parte de Fred Reinfeld) ficou-se só pelo primeiro volume ( 1889-1914)
Os comentários dos anos 30, podem-se considerar excelentes para a época, misturando sabiamente o texto explicativo com variantes, nunca demasiado extensas, pesadas. Não se sabe, quem contribuiu com o quê, para este livro, ou seja, se ele é mais Fine, ou mais Reinfeld, contudo, tendo na minha biblioteca vários livros de Reinfeld, o estilo de comentários e a forma de escrita, levam-me a desconfiar que a contribuição de Reuben Fine para o livro teria sido bem menor, trazendo o seu nome ,já célebre, um certo prestígio ao livro.
Um bom livro, mas hoje claramente datado, quer no estilo, quer nas variantes apresentadas. Um bom guia para dar a conhecer algumas "gemas" da arte laskeriana, o que já não foi mau. Foi um livro com enorme sucesso de vendas nos EUA e um best- seller da Dover Publications.
Um pormenor engraçadissimo na capa que pouca gente descobriu, e que é uma monumental "gaffe" da prestigiada casa editora: olhem para a capa (cliquem), vê-se Lasker, vê-se o seu rival Capablanca e depois no lado esquerdo entre Capablanca, a violeta, Lasker sim senhor , mas não o Emanuel, mas sim o americano Edward Lasker o renomado autor de livros de xadrez e forte jogador.



Já me referi a esta colecção da Chess Stars. Dois volumes, quase todas as partidas Lasker comentadas estilo informator, com a ajuda de computadores dos anos 90 . Dirigida por Khalifman, o trabalho árduo foi realizado por jogadores MI ou MF, alguns hoje GM. As análises são boas e profundas e não será por acaso que Kasparov, ou Dmitry Plisetsky, no terceiro volume dos "Meus Grandes Predecessores" ( só aí, e depois de muitas críticas!!) citam estes dois volumes na bibliografia. Existem análises de partidas de Lasker no volume 2, do livro de Kasparov que indubitavelmente foram tiradas destes volumes.
Bons livros, mas do estilo árido, seco, informatizado, que sinceramente não aprecio. Úteis para comentar um partida, para buscar variantes numa posição mais complexa, mas que não acrescentam nada à beleza e complexidade do xadrez de Lasker.
De qualquer forma, livros a valer a pena adquirir.


De um grande apaixonado do Xadrez, de um grande Laskeriano, Ken Whyld. As partidas não são comentadas, mas é o mais completo repositório das partidas de Lasker. Limito-me a copiar o excelente texto do Lanier ( ele não leva a mal) no seu Al-Shatrandj "...contém 1390 !! partidas, muitissimas delas de simultaneas. Whyld passou anos a pesquisar em hemerotecas e collecionar partidas de Lasker - outros recolhidos só mostram as partidas do mestre em Torneio, o que são poucos. Lasker não tinha essa frenética actividade competitiva como por exemplo Alekhine, só jogou num punhado de torneios durante a sua vida. Cada partida vem com informações donde provêem, data, local, designaçâo conforme ECO. Há muitas ilustraçôes preto e branco, e além disso diagramas de partidas, tabelas de torneios - e todos problemas e estudos compostos pelo Lasker. Espantoso - a pobre encadernação e impressâo - feito na Chequia! - esconde um tesouro immensuravel!"




Um bom livro da editorial Sopena , bastante antigo, mas com comentários a preceito embora leves. Claramente um livro de divulgação aos xadrezistas sul-americanos das partidas de Lasker, mais precisamente 84, cobrindo os anos de 1894 a 1921. Lê-se com agrado, mas nada mais.


DIGITAL



Com o selo de qualidade da Chessbase, da série Monografias. Bom CD, com uma curta mas razoável biografia, algumas partidas excelentemente comentadas, algumas fotos (embora nenhuma novidade), informações de torneios e matchs do grande campeão, um ou outro vídeo com testemunhos de Hubner, Unzicker, Lilienthal, algumas tentativas tímidas de explicar auperioridade de Lasker sobre os seus adversários.
Um CD que todo o apaixonado de Lasker deve possuir, que não deslustra , mas também não deslumbra. FIca-se com a sensação que a ChessBase poderia ter feito muito mais, e que foi um trabalho realizado à pressa, lamento dizê-lo!
A ChessBase teria muito a aprender com essa obra prima extraodinária em forma digital de Sid Pickard "The Collected Works of William Steinitz", esse sim o melhor CD ROM que algum dia se realizou sobre um jogador de xadrez e Campeão do Mundo. Foi uma das homenagens mais belas que digitalmente uma editora prestou a um génio de Xadrez, neste caso Steinitz. O Lasker da ChessBase fica aquém e muito.



Da antiga Convekta estilo Chess Stars, mas sobre forma digital. Bio, e partidas comentadas tipo Informador. Interessante nada mais.


MISCELÂNEA



Claro. Kasparov sobre Lasker. E aqui a decepção. Excelentes e novos comentários com a ajuda do Friz a algumas partidas de Lasker, um ou outro lugar comum, aqui e ali "Chess Stars", correcções a um livro que irei citar mais à frente e se estavam à espera que Kasparov, explicasse ou penetrasse na essência do Jogo de Lasker, desencantem-se porque simplesmente não o faz. Apenas e só um punhado de partidas de Lasker (quase todas conhecidas) belissimamente comentadas e chega. Poucas páginas sobre Emnanuel e gostava de saber porquê! Fortes suspeitas que neste volume 1 (considerado o mais fraco da colecção) tirando as partidas, foi Dmitry Plisetsky, o autor de muito texto e infelizmente de alguns erros históricos incríveis denunciados por Winter ou Forster entre outros, para não falar das correcções "computadorizadas" feitas às análises de Kasparov pelo amador (?) Sorokin.
Portanto caros leitores, nada deslumbrado com o pouco Lasker de Kasparov, dos Meus Grandes Predecessores. Não foi uma desilusão, mas simplesmente o desânimo de continuar a ver o "meu" Lasker por explicar, ainda por cima, da parte de quem teria a obrigação de o fazer-Kasparov.



Uma Enciclopédia? Sim uma Enciclopédia! Para que todo o "xico-esperto" que escreve na Net sobre Xadrez não diga disparates, parvoíces e que mostre a sua ignorância mais alarve sobre a História do Xadrez! Para que um GM como Yermolinsky, levante o rabiosque e a consulte para não escrever no seu "The Road to Chess Improvement" a bestialidade de que Janowsky jogou dois matches com Lasker para o Campeonato do Mundo! É que o parolo acredita, quem sabe um bocadinho de xadrez, sabe que um GM apesar de o ser pode ser ignorante.
Depois, a Oxford é a melhor Enciclopédia de Xadrez do Mundo e tem sobre Lasker um belo resumo , curto mas sem asneiras! Esgotadíssimo este livro e quem ama o xadrez sabe porquê!


"GEMAS"



LASKER , O PENSADOR , de Boris Samoilovich VAINSHTEIN.

Um livro sensacional da célebre e excelente russa "Black Series". Kasparov, corrige aqui e ali akguns comentários ( variantes), mas Vainshtein tenta como ninguém até aí penetrar nos segredos do jogo de Lasker, fugindo das ideias feitas, dos lugares comuns, muitas vezes com uma argúcia e uma competência de análise formidável.
Admiram-se?
Vainshtein é o autor de um dos livros mais fascinantes e profundos do Século XX , uma autêntica preciosidade que passou despercebida: "DAVID BRONSTEIN : CHESS IMPROVISER". Que livro extraordinário ( a ele heio-de voltar noutro artigo) e que qualidade de escrita! Ao lê-lo percebi porque razão Bronstein, nunca tenha negado, chegando mesmo a assumir no fim da vida, que os comentários , os célebres comentários do "Zurich International Tournament 1953" eram de Vainshtein, sendo as analises da sua autoria! Aliás basta comparar a escrita dos dois livros para se perder muitas dúvidas!
Portanto, o Lasker do Vainshtein, o primeiro livro que me abriu as portas de um Lasker, até aí desconhecido. Porque razão este livro nunca teve uma tradução em Inglês, alemão ou espanhol? Mistérios insondáveis da edição xadrezistica! O lixo escaquístico vende mais! Existe sim uma versão em italiano da Prisma Editora " Lasker -Filosofia della Lotta", mas completamente esgotada.





Um Livro sobre a arte da defesa até hoje sem rival. Para já o autor Colin Crouch sem ser GM é um dos melhores autores de xadrez de há muitos anos para cá. O Seu "Hastings 1895-The Centenary Book" é um portento da recuperação de um dos maiores Torneios da História do Xadrez, o seu recente "The Great Attackers", que escreveu quase cego, é uma maravilha de livro com abordagens inovadoras e uma capacidade comunicar o motivo do livro como poucos. Este homem escreve sobre xadrez como raramente outros o fazem. Não é só a questão didáctica, é a cultura e profunda que Crouch tem do xadrez, o empenho o trabalho intenso, aliado à paixão que coloca no que escreve.
A Arte da Defesa é mais do que tudo uma análise de uma profundidade, de uma subtileza, de uma compreensão sobre Petrosian e Lasker, como raramente vi. As partidas que analisa e comenta de Lasker, a forma como tenta desvendar o pensamento defensivo do grande Emanuel, tornam este livro uma jóia.
Quando se acaba de ler e analisar o Lasker de Colin Crouch, nunca mais vemos Lasker da mesma forma, nunca mais Lasker se torma estranho. Tomamos quase uma familiaridade com o seu jogo. Um livro que para mim foi uma espécie de caixa de pandora sobre o jogo de Lasker. Na minha modesta opinião, "Obra-Prima" com certeza.




Soltis não sabe escrever maus livros de xadrez.Pelo contrário, muitas vezes o que escreve é tão brilhante que se torna intemporal e verdadeiras obras-primas da literatura xadrezistica. Basta dizer que o "Soviet Chess-1917-1991" da McFarland é um dos livros de xadrez do século XX!
O Lasker de Soltis é uma maravilha! Partidas pouco conhecidas, análise das partidas sobre efectivamente o que aconteceu no tabuleiro e não sobre "o que poderia ter acontecido se...", com análises onde são precisas e a preceito, mas sobretudo a explicação da força prática de Lasker, no seu jeito peculiar em situações difíceis em jogar para a "armadilha", o jogo deliberadamente confuso, em que a sua capacidade fenomenal de análise, de visão do tabuleiro lhe permitia o passe mágico de inverter a situação no tabuleiro. Soltis mostra essa técnica assombrosa de Lasker, a sua recusa da passividade e o dinamismo que imprimia às posições que mesmo parecendo inferiores lhe permitiam o contra-ataque inesperado, o contra-golpe adivinhado por ele, mas insuspeitado para o adversário. Lasker tinha um sentido posicional de uma profundidade ímpar, sabia ler o tabuleiro e tinha uma noção de dinâmica de luta, de prática, de sentido de "aqui e agora do que pede a posição", que o punham à frente, claramente à frente da sua época. Por isso, os seus contemporâneros tinham dificuldade em compreendê-lo, e apontavam-lhe "psicologismos" " gosto de posições quase perdidas", quando não uma espécie de bruxo do tabuleiro, ou um homem cheio de sorte.
O que Lasker era, era um jogador superlativo, um lutador, que partia para o tabuleiro cheio de ambição, de confiança em si, nos seus dotes extraordinários de concepção de jogo e visão táctica, para além de um domínio do final fabuloso. A cada situação de mudança nas 64 casas, este homem deixava esquemas mentais e adaptava-se de forma magistral às convulsões criadas, fosse através de uma espantosa capacidade de simplificação para um final, fosse através de uma grande ou "petit" combinação elegante que lhe trazia a vitória, fosse através de um férreo e lógico aproveitamento estratégico de debilidades estruturais na posição do seu adversário.
Um Campeão em toda a medida, em toda a linha!
Isto tudo, Soltis nos mostra, sem grande alarido, comentando 100 partidas de Lasker de tal forma que nos obriga a mergulhar de cabeça no segredo ( que afinal não existe!) do jogo de Lasker.
Um livro de companhia serena, segura e de alimento de paixão! Uma enormidade de livro.


LIVROS DE LASKER


Dizer o quê deste livro? Simplesmente um dos melhores de iniciação (?) ao Xadrez que já se escreveram. Tirando as linhas de abertura, tudo o resto é de um didactismo de uma capacidade de ensinança que tornam este livro imprescindível. Rio-me de no último Nacional por equipas em Gaia, na banca de livros do Lanier, o meu amigo Cadillon, quase meter este livro pelos olhos dentro de um seu amigo " o melhor livro de xadrez" que se escreveu para quem está nos inícios do xadrez. A pessoa lá comprou o Manual do Lasker!
Tenho pena, muita pena, que um treinador de miúdos iniciados no xadrez, ou mesmo aqueles que já entraram no campo competitivo, ou não conheça este livro, ou simplesmente não o aconselhe ou obrigue a ler aos seus pupilos! "malhas que o treino (?) de xadrez em Portugal vai tecendo"!


Ternura enorme por este livro, dos primeiros que li, depois do Xadrez Básico. As Conferências de Lasker, o Lasker Professor, Livro muito simples, mas bonito e didáctico. Lasker sabia ir ao essencial.



Comprado ao Lanier, no passado mês de Agosto. Tinha a versão antiga em anotação PK4, etc e a versão alemã. Esta versão é limpa e sem grande aparato, mas em notação descritiva.
É Lasker na sua forma típica de comentar partidas: minimalista, parco mas objectivo nos comentários. É um bom livro de Torneio, mas não o coloquem ao nível desses monumentos que são "Karlsbad 1907", "Teplitz Schonau 1922", "Karlsbad 1929", Zurique 53, etc.
Lasker, tal como Capablanca, nunca foi um grande comentador de partidas. A sua paixão era o jogo, a luta prática no tabuleiro. Quando essa paixão o consumia, quando extravasava para uma rotina, então Lasker partia para outros vôos, outras caminhadas de espírito, porque era um homem racional, prático, de uma cultura, de uma inteligência emocional como poucos. Lasker nunca foi vencido pelo Xadrez, venceu-o sempre, domou-o como cavalo amestrado. O Xadrez, uma parte significativa da sua vida, mas se calhar nem a mais significativa, nem aquela que lhe proporcionou as maiores alegrias interiores.
Um Campeão do Mundo único, ímpar.


Pronto caros leitores, o que tenho sobre Lasker, a minha paixão sobre Lasker.
Ah! Repito, isto são opiniões pessoais, gostos intestinos, por isso aberto a outras visões, outros gostos sobre Lasker.
É o que tenho e a mais não sou obrigado! Claro que vou aumentar a minha Laskeromania, com um bom velho-novo Lasker que apareça, porque isto de gosto por livros é como escanção de vinhos, com a diferença que não gosto de provar e deitar fora, gosto sim de os aconchegar bem ao alto na minha biblioteca.









LASKER...Finalmente


Finalmente!!


Encantado como menino com brinquedo novo. Já o afirmei neste blogue e repito: ao contrário de milhões de xadrezistas em todo o mundo, o meu ídolo de xadrez primacial, aquele que considero o maior jogador de todos os tempos e o Campeão do Mundo mais fascinante e ao mesmo tempo mais obscuro, estranho e ainda por estudar na sua plenitude, quer na sua concepção de jogo, quer no seu inclassificável estilo: Emanuel LASKER.


Este homem e este enorme jogador, nunca tinha até agora uma biografia à sua medida, uma colecção de partidas comentadas com a profundidade e dignidade merecidas e a razão desses lapsos está no próprio Lasker, na multiplicidade da sua vida, na sua enorme bagagem cultural, que nunca foi abundante nos Campeões do Mundo de Xadrez, na complexidade e estranheza do seu xadrez, que escondia uma profundidade visionária quase diria moderna, uma concepção muito actual do xadrez, uma capacidade de cálculo extraordinária, aliada a uma capacidade de luta prática no tabuleiro como poucos, muitas vezes isenta de concepções, de escolas, aceites na época.


Abandonava o xadrez prático quando queria, ou regressava quando entendia, mas absorvia como esponja as novas teorias, as novas ideias, estudava xadrez e o xadrez da sua época, analisava à lupa as partidas dos seus adversários no recanto do seu isolamento, sabia como ninguém, adaptar e adoptar o seu xadrez, quase anti – xadrez para o xadrez dos adversários que claramente muitas vezes não compreendiam o seu jogo, nem sequer como ferreamente Lasker conseguia impor a sua força no tabuleiro.


Uma técnica defensiva das mais perfeitas que algum dia se colocou num tabuleiro de xadrez, baseada sempre numa actividade latente, num contra-ataque sempre à espreita, numa espécie de “aranha” xadrezística que pacientemente tecia a teia onde o adversário muitas vezes se enredava. Uma capacidade de adaptação a situações novas e extremas surgidas no tabuleiro, muitas vezes por si provocadas, uma paciência de espera, muitas vezes concretizadas numa passagem para um final de jogo, onde Lasker foi praticamente inultrapassável (só Capa e Rubinstein com ele puderam rivalizar) aliada a uma capacidade de cálculo sintético notável tornaram este grande Campeão numa lenda.


Assim, não é de estranhar, o medo, o receio que foi tolhendo muitos autores de xadrez de se abalançarem numa análise do jogo de Lasker, do estilo de Lasker, das partidas de Lasker. Depois surgiu a “mitologia”, que surge normalmente na diferença, na estranheza, na não compreensão. O Lasker que propositadamente caía em situações difíceis no tabuleiro para confundir o seu adversário, o Lasker “jogador de Café”, o Lasker quase “hipnotizador”, e por aí fora.


Assim, Lasker o Campeão do Mundo mais maltratado pela literatura xadrezística quer em quantidade, quer em qualidade. E acredito hoje, como acreditava vai para anos, que tal facto se deve a esse temor que Lasker criava em quem procura estudar as suas partidas, em quem procurava uma lógica clara e cristalina Steinitziana nas suas partidas, uma tentativa de enquadramento hipermoderno noutras, quando Lasker, assimilando tudo isso, não era nada disso. Era LASKER, é o Grande LASKER.


Salvo erro em Janeiro de 2001, um grupo de apaixonados por Lasker resolveu criar a “ Emanuel Lasker Gesellschaft “, ou seja, a Sociedade Lasker de Berlim, com o objectivo de preservar todo o legado deste génio do xadrez. Começaram por recuperar a casa de Verão de Lasker em Thyrow e a partir de 2005, passaram a variadíssimas actividades desde conferências, passando pelo apoio à publicações de livros de e sobre Lasker. Esta Sociedade contra com nomes prestigiados do mundo do Xadrez, da História do Xadrez, e como não podia deixar de ser, com o nome daquele que no século XX, mais se aproximou pelo estilo de jogo e concepção do xadrez ( aliás, Lasker é também o seu ídolo do xadrez) , VIktor KORCHNOI.


Assim fiquei de esperanças, que desta instituição saísse algo que trouxesse Lasker ao mundo dos vivos, que repusesse este gigante no lugar que merece no mundo do Xadrez, principalmente ao nível da biografia, da iconografia, das partidas. Assim aconteceu para minha alegria: mais de 1000 páginas, um livro com 4 quilos, quase trinta colaboradores, mais de 100 Euros, o preço, em alemão (não se espera tradução) para minha tristeza e trabalho do Power Translator.


Mas vamos com calma. O que tenho sobre Lasker? Como fui alimentando o meu fascínio pelo Grande Emanuel?


06/11/09

INTERLUDI (C) O POÉTICO


Escrito vai para muitos anos noutro contexto.
Hoje em estado poético de má poesia e como o dia, chuvoso, amargo, cinzento. Não tiro uma vírgula. Fora do tom, da melodia do Xadrez Memória, mas hoje algo desmemoriado que não desmiolado.
Assim, caros leitores aí vai poesia da minha e da pior!Para quem quiser enfiar barretes, carapuças.

Na 1ª parte uma brincadeira com incursões minhas extractos adaptados de três grandes poetas portugueses que não digo, porque certamente adivinham. O resto é verdadeiramente meu e assumo! “ O xadrezinho português…Penso Eu de Que!” Digamos que é uma brincadeira séria, muito séria! Irritem-se, encarapucem, sorriam, enraiveçam! Saiu, está saído! Acreditem ou não, com certa ironia, ou com uma boa dose de vítrolo, é o que muitas vezes penso deste nosso xadrez. Amo o Xadrez e talvez por o amar tanto, consigo distanciar-me do Xadrez Português para o rever em toda a sua miséria, em toda a sua confrangedora debilidade estrutural e sobretudo Cultural!

Farto de alianças contra-natura no xadrez português, do estar ao lado de quem contra nós esteve, farto de ver amigos desavindos, de regulamentos estúpidos, da caminhada para uma morte anunciada.

Ó Cristo…Vem cá abaixo ver isto!
Mas…Isto o Quê?
Então , não Vês?
A Miséria do Xadrez Português!


O Xadrez Português a nú é horroroso!
O Xadrez Português cheira mal da boca!
O Xadrez Português é o escárnio da consciência!
Se o Xadrez Português é assim …
Eu prefiro jogar dominó!


Mas é assim tão mau?
Bem…
“ Neste país de monólogo, do fala-só, muito poucos
conversatam uns co’os outros,
e é sempre uma conversata
triste e chata,
um não-ter-que-dizer que não se esgota
senão em palavras pela boca fora”.


Pode lá ser!? Não será bem assim!


É …É!
No dize-tu-direi-eu
Muitos diziam que
Quer dizer é como quem diz
Que o mesmo é não dizer nada
Tenho dito


Mas dizes tão mal do xadrez português?
Dessa malta tão pura tão dedicada,
tão amante do xadrez português?


Eu? Cruzes! Ó Mestre! “ Les Portuguex…
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio
e …sont toujours gueux,
mas gosto deles porque só não querem apanhar as nozes…”



Mas…já começou a corrida, ou não?
Sim! “ Todavia o manguito será por muito tempo
O mais económico dos gestos!

(Pedido de empréstimo a três grandes poetas portugueses, com acrescentos meus)




O xadrezinho português…Penso Eu de Que!





O xadrezinho português!
Gosto do xadrezinho português!



Da figura, da figurinha, do figurão,
Do cágado, lebre e papão
Do tarado, parado, celerado, pato-bravo e cagão.



Do dirigente alado, montado, coroado,
Que de tanta ambição, à primeira dificuldade
Borra-se no chão… Estatelado.



O xadrezinho da… Quezília,
da guerrinha de bairro, de rua,
Da polémica anémica,
da procura imberbe
Da…” a minha é maior do que a tua!” .





Das federações, associações, e outras congregações
Que democraticamente nos governam,
amorosamente Por nós zelam…
Como bêbados aos tropeções.



Dos ditos conselhos fiscais, Jurisdicionais e
Outros que t (ais!),
Contem lá , para que servis,
que vos move Adoráveis serviçais?



O xadrezinho português



Dos dirigentinhos, dirigentecos, dirigentões,
Miminho, malandreco, sargentão,
Que de tanto fervor, eficácia, devoção
Mais parecem detergente sempre-à –mão!
Quem vos deu carta de condução?



O xadrezinho português



Dos planos de fomento, fumento, fumo, fumeiro,

Presunto serrano, salpicão de talha,
Que a mama vai dando pr’a quem calha.



Da mama, da maminha, do mamão
De todos aqueles,
Que de tanto se habituarem à teta
Acabaram com problemas de… Dentição.



Do crítico mordaz, catrapuz, catrapraz,
Aprendiz de Eça, Ramalho e Fialho,
A esconder a intelectual impotência a…
Pílulas de alho.



Do sacaninha encartado
em anjinho transformado
Pulha assumido, que de tão ridículo, se torna…
Bobo consentido.



Dos caluniadores de serviço,
difamadores crocodilórios
Que de tanto abanarem a cabeça, de tanto ir ser,
disseram-se, parece que…
Sai-lhes areia do toutiço.




Dos apocalípticos e desintegrados
Que de tanto apregoarem o “fim do mundo”
Quando ele chegar, vão ficar todos…
Cágados.



Da copofonia militante,
do orgulho da jogada de garrafa
do jibóiar olímpicamente em…
imensa ressaca.




Dos GM,MI,MF, mercedes benz, ferraris
e outros títulos sonantes de campeão,
sou do Povo, Confesso-vos uma coisa… néctar,
só… De garrafão.


O xadrezinho português



Do clube de tasca,
Clube pirata, Clube fantasma,
Aparecer, aparecem…
pr’a taça ou Massa!



Das antecipações, adiamentos,
faltas de comparência Demência,
falta de decência Excrescências,
minudências, dependências.



Dos regulamentos são pr’a jumentos,
Elasticidade, compreensão, amor e carinho, precisa-se.
Tanto regulamento, cansa!
Desculpe…a menina dança?
Regulamentos da fide, federação? Porque não os meus?!
Viva o xadrez português! Tudo a monte e fé em deus!



O xadrezinho português



Do jovem talento, portento,
momento…
Sonolento,
Menino intuição, ilusão
Menino adiado, menino mimado.
Hás-de ser titulado, vais longe, longe…
mas Velhinho na tua funcional repartição.




Do paizinho babado, empinado,
Com tal geniozinho rebento,
Que de tão cego, tão cego,
Não consegue distinguir …
Um nabozinho de um talento.




Do “piço”- “neca” que nada jogas,
Mas que no teu clube és o maior,
quando ele está vazio,
Que passas horas infindas a desfazer os pobres relógios de vez
Numa contabilidade livresca de rápidas, rapidinhas, rapidez…
Viva o xadrez tântrico! Abaixo os camarinhas do xadrez !



Dos treinadores, habilitados, desabilitados, cursados, encartados
Diplomados, sóis tão mal tratados!
Podeis não perceber nada de xadrez
Mas o desvelo e carinho demonstrado,
Não merecia o vosso xadrezístico olho
que dos treinados em vez de jogador.. Saísse repolho.




Dos árbitros , coitadinhos, tão compenetrados,
Horas e Horas a ler regulamentos,
Minutos a minutos os interpretais, Revoltem-se!
Do que vocês precisam é de…
Apitos e cacetes letais.




Dos da metáfora, metafórica, arredondada, escrita conteúdo oco, “ Menino Deus em metáfora doce” , cú empinado barroco,
De tanto vos ler, fico com fome imensa,
Procuro carne suculenta, sai-me…
O osso.




E tu, Arlindo Vieira, escriba e bloguer de Memória Xadrez
Porque não te pões no mercado?
Podia ser por sms, ou por cabo!
Para quê tanta miserável rima e verborreia?
O que pretendes com tanta camioneta de areia ?
O que te traz, tu que és daqueles que…
Nada faz?!
Poso confessar-te uma coisa?
Apenas e só porque quero desfazer-me ...
desta diarreia!




02/11/09

PEÇAS - TABULEIRO HAVANA 66



Fidel num tabuleiro e peças da Olimpíada de Havana 66



O Kevin Spraggett no seu maravilhoso blogue “Spraggett on Chess”,colocou ontem um post sobre o Durão e as Olimpíadas de Havana de 1966, com a particularidade de o Durão lhe ter enviado e permitido publicar duas fotos inéditas. Uma, sobre a recepção na embaixada Portuguesa em Havana onde Fischer resolveu comparecer devido ao excelente relacionamento com Durão, e outra, o cumprimento de Fidel ao nosso capitão no Jantar de Gala das mesmas Olimpíadas. Não percam for favor estas fotos únicas e históricas!


No mesmo post, Spraggett é informado pelo Durão que cada capitão de equipa foi agraciado com um presente extraordinário: As peças e mesa articulada com o tabuleiro incrustado usadas na Olimpíada e que ainda possui esta preciosidade .



Aqui entro eu!


Não tenho dúvidas que este conjunto Peças e mesa é talvez neste momento o jogo mais valioso e mais belo existente em Portugal e, sem sombra de dúvidas, dos mais belos conjuntos Staunton de todo o mundo.




Vai para uns bons anos, Pavilhão Carlos Lopes aquando da vinda do Karpov a Portugal. Uma conversa informal com o velho amigo Durão a questioná-lo se ele conhecia a forma de eu adquirir um jogo Staunton soviético típico para a minha colecção, e ele a informar-me que tinha um, bem como outros jogos interessantes, entre eles o tal conjunto de Havana, embora me desse logo a entender que não era para venda, tal a afectividade que por esse jogo nutria. Brinquei com ele e conclui que o Durão não sabia o tesouro que guardava em casa, e mesmo depois de lhe dizer que umas semanas antes um mesmo conjunto tinha sido vendido na Sotheby’s ou Christie’s, por mais de mil contos, o Durão não pareceu lá muito convencido.




É efectivamente uma raridade que só umas dezenas de privilegiados em todo o mundo possuem e refiro-me ao conjunto completo. È um jogo de uma beleza magnífica, de um equilíbrio perfeito peças-tabuleiro como poucos na História do Xadrez. Inspirado nas lindas peças clássicas Jaques Staunton, o rei deve ter entre 4 e 4,4 polegadas e o quadrado do tabuleiro de 6 cm, num verde-escuro marmoreado e branco que se enquadra ás mil maravilhas com o amarelo das peças Brancas e o negro ébano das Pretas. Não tenho dúvidas que Bobby Fischer ficou tão marcado por este Jogo de Havana, que exigiu no seu match com Spassky de 72, uma peças e tabuleiro quase igual (verde também) embora em tamanho mais pequeno.




Hans Ree, o conceituado comentador da New In Chess no seu nº3 de 97, a propósito do livro do match Karpov-Kamsky de Karpov e Ron Henley “Elista Diaries” afirma categórico e não sem uma certa razão que quando um livro o fascina, quando um livro de xadrez merece a pena, então tira as peças da caixa e abre o tabuleiro de Havana para jogar as partidas desse livro!


Quanto valerá actualmente este conjunto peças - tabuleiro de Havana? Seguramente poderá atingir uma pequena fortuna numa das casas de leilões que referi. Apostava entre os 10 mil e os 20 mil Euros !


Parabéns ao Durão! Vejam a maravilha que o Durão possui!


Uma série de imagens deste esplendoroso jogo, neste caso de um grande coleccionador turco, salvo erro, Suer.

06/09/09

MAMEDE DIOGO


(Foto retirada do sítio da SECÇÃO DE XADREZ da A. E. F. C. R. Penichense)
Aqui feito autómato, de trás para a frente, de frente para trás Tristeza sem fim nos passeios da minha rua. Uma lágrima mais rebelde quer assomar nas minhas janelas...

Mais um amigo do xadrez e tinhas logo de ser Tu, caro Mamede Diogo?

O do sorriso largo, o da voz musical e profunda, o do abraço - afago que se sente verdadeiro porque aquece? Tu, que tinhas exactamente a minha idade? Tu, que encontrei nos Nacionais de Jovens, no Grande Torneio dos 50 Anos FPX, em78, em Preliminares do Nacional , que nunca me conseguiste vencer, porque empatamos sempre, desde que a uma proposta tua sorridente de “empatamos?” num Nacional de Jovens, eu fiz outra sorridente no torneio FPX e Tu respondeste: “Claro!” e rimos os dois e aproveitamos o tempo para falar de xadrez e da vida de jovens que éramos.

Tu, cujo aperto de mão no início ou fim de partida, era aperto de xadrezista, forte convicto solidário, e não de obrigação, fastio, superioridade ou raiva.

Tu, baixote como eu, tinhas a altura grandeza dos justos , dos puros, daqueles que exigindo de si, não exigem muito à vida.


Tu de olhos meigos que assomavam vivos aos vitrais dos teus óculos.

Tu, que fui perdendo com o tempo, por preguiça , por esquecimento, por afastamento, por dor de um xadrez que continuaste a amar.

Tu suave e meigo, avesso a confusões xadrezistas, mas brincalhão e pleno de boa disposição, quando a disponibilizavas.

Tu, na arca dos riquíssimos e raros tesouros xadrezisticos que vou guardando no lado bom do coração.

Vou sentir a tua falta, principalmente daquele reencontro e abraço que te deveria ter dado e não to dei, por te perder no tempo. Sei que apesar da doença, me sorririas, mas desta vez, eu cúmplice sorrir-te-ia na exacta medida, e ambos diríamos “empatamos?”.


Vou caminhar mais um bocadinho e decididamente deixar que esta lágrima cumpra o seu destino.

Diogo ,Mamede - Silva,José
Nacional Absoluto (9), 21.01.1977


Arlindo Vieira


1.e4 d6 2.d4 Cf6 3.Cc3 g6 4.Bg5 Bg7 5.f4 Bg4 6.Dd2 h6 7.Bh4 c6 8.h3 Bd7 9.e5 dxe5 10.dxe5 Ch7 11.Bc4 b5 12.Bb3 Dc7 13.0–0–0 g5?


Nestas posições, o tempo é factor a ter em conta, por isso, as negras deveriam contra atacar no flanco de dama, para onde o rei branco se refugiou pelo roque: exe: [13...a5 14.a3 (14.a4) 14...a4 15.Ba2 b4 16.axb4 a3 17.bxa3 Txa3 18.Cge2 jogo complicado]

14.Bg3 gxf4 15.Dxf4 Cg5 16.Cf3 Ce6 17.Bxe6?! O jogo das Negras é muito difícil, com um Rei no Centro, má coordenação das peças e atraso no desenvolvimento. A Troca de peças por parte do Mamede, alivia um pouco a posição do defensor.

Talvez manter o ataque com:
[17.Dg4 h5 (17...Tg8 18.Cd4 Cxd4 19.Bxf7+) 18.Df5] fosse mais forte

17...Bxe6 18.Cd4 Bd7!? [18...Dc8 19.Thf1]

19.Df3?! Novamente o Mamede Diogo deixa escapar uma posição de ataque que dificilmente daria esperança às negras com:



[19.Thf1! 19...0–0 (19...Tf8 20.Ccxb5 cxb5 21.Df3 Bxe5 22.Bxe5 Dxe5 23.Dxa8 Tg8 24.g4 Rf8 25.Rb1 Dc7) 20.Dh4 b4 21.e6 Db7 22.Ce4 Bxd4 23.Dg4+ Rh7 24.exd7 Be3+ 25.Rb1 Ca6 26.Be5 Vantagem decisiva
19...Bxe5 [19...Dc8 20.Ce4] 20.Cdxb5



cxb5 21.Txd7?!

1) 21.Cd5 Dd6 22.Bxe5 Dxe5 23.The1 Dg5+ 24.Rb1 2) 21.Bxe5 Dxe5 22.Dxa8 b4 23.Db7 bxc3 24.Txd7 cxb2+ 25.Rb1


21...Rxd7?!
As Negras deixam escapar nos seus cálculos uma variante que lhes daria melhor possibilidade de defesa (sempre difícil) no final:
[21...Cxd7 22.Bxe5 Dxe5 23.Dxa8+ Db8 24.Dxb8+ Cxb8 25.Cxb5±]


22.Bxe5 Dxe5 23.Dxa8 a6?

[23...Td8 24.Dxa7+ Re8 25.Rb1 Cc6 26.Db6±]

24.Db7+ Re6 25.Db6+ Dd6 26.Te1+ Rf5 27.Db7 Te8? Era bem melhor, embora o desfecho da luta, dificilmente se inverteria.
[27...Rg6 28.g4 Te8 29.Df3 Rg7 30.Ce4±]


28.De4+ Rf6 29.Dg4 Dc6 30.Tf1+ Re5 31.Tf5+ Rd6 32.Dd4+ Re6 33.Te5+ 1–0





11/08/09

Cavaleiros, Cavalos... Eduardo Monteiro

Não o quis publicar antes de aparecer no "site" do GXP, onde deveria aparecer em primeiro lugar. É um texto notável, de um grande Grupo Xadrezista que muito deu ao Clube como jogador e dirigente., o Engº Eduardo Monteiro.Agora demonstra os seus belíssimos dotes de escrita com um a história fantástica, surpreendente como é a História do Grupo de Xadrez do Porto, e sobretudo de um grande amor ao Xadrez.
Sempre me surpreendeu o porquê de no GXP, determinadas peças terem cavalos de metal, pesadíssimos e que faziam um barulho medonho nas mãos pouco graciosas de alguns jogadores mais emotivos do nosso Clube. Agora percebo! Mas há um mistério que nem o Eduardo Monteiro conseguiu resolver: Existem dois tipos de cavalo de metal no GXP. Um mais aparentado às peças "Jaques" de origem inglesa, outro enorme, alto, muito parecido com cavalos de peças russas do início do século. Porque teria o Sr. Oliveira feito dois tipos de cavalos? Onde foi buscar o molde para os realizar? Realmente o que teria levado alguém a roubar os cavalos de jogos de peças?! Seria o "tal" que os alimentava, ou algum sócio com um espírito encarnado de Chigorin? Aí vai o belíssimo texto do Engº Eduardo Monteiro, com as fotos dos cavalos referidos no mesmo, mais o tal de estilo "Chigoriniano". Por última uma foto deliciosa com uma equipa de luxo do GXP, campeã Nacional da 2ª Divisão, onde aparece o autor deste delicioso texto(o último da direita), bem como o Bernardino Passos, O Jaime Gilbert e o João Andersen.

Cavaleiros , cavalos, livro, pinha e parafusos


No final da década de cinquenta ou início dos anos sessenta, era possível observar um equídeo castanho , luxuosamente brilhante, montado por Cavaleiro vestido com facto nobre, onde nem faltava o apropriado chapéu .


O cavalo num passo bailado levantava geometricamente as patas fazendo a minha delícia de adolescência. Era vulgar vê-lo em Stª Catarina ou na avenida dos Aliados no meio do transito, então muito mais denso que hoje mercê do baixíssimo custo da gasolina .


Por interessante casualidade, nesse tempo faltaram quatro cavalos num jogo do Grupo!!!!!

Alguém os teria levado, logicamente não por lhe fazerem falta no seu jogo domestico…

Seria por influência psicológica deste cavaleiro que orgulhosamente se troteava nas principais ruas da cidade do Porto?



Seja pelo que for, nunca soubemos do destino dos cavalos e duvido que se tenham adaptado a uma nova vida separada dos Bispos e das Torres. Mas, quem sou eu para julgar a amizade dos cavalos pelos bispos?

A falta dos cavalos foi resolvida. Luis Oliveira, senhor dos seus quarenta e tantos anos, de estatura frágil e usando um bigodinho graciosamente aparado, propôs-se completar o jogo sacrilegamente mutilado.

Fez uns cavalos exactamente iguais aos faltosos mas, e isto é muito importante, sem utilizar madeira!

Os novos cavalos eram de liga metálica pretos e brancos. Hoje estão exibidos numa prateleira do Grupo !!! São pesados e brilhantes como o cavalo do misterioso Cavaleiro da cidade.

Os cavalos do senhor Oliveira, pelo seu peso, motivavam que os sócios só pegassem nesse jogo quando todos os outros estivessem ao serviço.

Logicamente, a recusa era feita procurando não ferir a boa intencionalidade do Sr Oliveira.



Tempos depois o distinto Cavaleiro foi julgado no Tribunal dos Pequenos Delitos, com notícia bem divulgada no Jornal de Notícias…e acabaram, na cidade do Porto, em pleno século XX os passeios do século XIX.

O Senhor Oliveira também algum tempo depois mudava de cidade e nunca mais voltou. Suponho que foi para os lados de Leiria.

Antes, o Sr Oliveira havia emprestado a Bernardino Passos um livro de xadrez e este repetidas vezes prometia devolvê-lo…mas sempre se esquecia de o trazer!!

O Sr Oliveira, em certa ocasião, entendeu que era abusiva a atitude do Passos e falou-lhe em tom mais agressivo, dizendo que necessitava do livro para se preparar para um torneio. O argumento era pouco lógico porque não era esse livro que daria a força escaquista que faltava ao Sr Oliveira. O Passos ainda tentou responder, mas, educadamente saiu com passo apressado, nervosamente.

Talvez uma hora depois, entrou de novo no Grupo, com o mesmo passo apressado e nervosamente estendeu a mão com um livro e disse :

--Aqui está o seu livro….

E completou o acto com umas palavras intensas de agressividade que nunca mais me esqueceram :

-- O SEU LIVRO NÃO ME ENSINOU NADA.


Quando o Presidente Kennedy foi assassinado,em Novembro de 1963, estava eu em Coimbra.

Tinha convencido os meus pais da verdade, que em Coimbra o 3º ano de engenharia era mais fácil.

Joguei muitas vezes xadrez no Convívio da Associação Académica e no convívio de colegas senti-me rei sentado no trono dos escaques.

Na Associação, informaram-me de um estudante que tinha 4 cavalos de xadrez e todos os dias os limpava e lhes dava aveia!!!

Os 4 Cavalos constituíam, por assim dizer, a razão de ser da sua vida.

É ele…, pensei para comigo mesmo, é ele o ladrão dos cavalos do Grupo.

Resolvi procurá-lo com desejos de vingança, qual pistoleiro do Far West eu tinha que meter duas balas no toutiço do ladrão de cavalos.

Rapidamente, porém, a minha moina foi dando voltas e acabei pensando filosoficamente, porque afinal, por intermédio do sr Oliveira, o Grupo já estava ressarcido:


Qual o motivo que faria um estudante dos últimos anos de Direito roubar cavalos para ter o trabalho de os lavar e limpar, pondo-lhes o brilho do cavalo que passeava nas ruas do Porto? Ainda mais… dar de comer a bichos de pau?!!!!

Não, para mim o rapaz não funcionava bem da pinha. Então, entendi que era importante analisar a sua psicologia. Quem sabe se eu, futuro engenheiro, não teria entre mãos uma nova teoria psiquiátrica?



Dirigi-me à REAL REPUBLICA DO BOTA ABAIXO para conhecer tão importante criatura que alegremente tratava cuidadosamente os cavalos furtados ao GRUPO.

Foi para mim uma enorme tristeza quando, à porta da REAL REPUBLICA , um habitante me informou que era de facto verdade, só que esse estudante tinha terminado o Curso e já não estava em Coimbra.

Subitamente, senti em mim a mágoa de ter perdido o rasto do ladrão que…se calhar…até não era o ladrão dos cavalos. Nesse momento, eu já era seu grande amigo…e de longa data.

Será que estas minhas metamorfoses mentais estão incluídas no pensamento de outro

ex-associado, dr João Andressen, a viver em Guimarães, segundo creio:

-- Só joga xadrez quem não tem os parafusos todos.





Cá por mim sou feliz por ser o maluquinho do xadrez, muito embora lamente que os meus anos estejam a atenuar-me a loucura.


O Passos faleceu prematuramente

na década de oitenta. Ele também era um maluquinho do xadrez, como, afinal, todos nós.



Ao Passos e a todos os já falecidos a minha sentida Homenagem.

(Eduardo Monteiro)


Jaime Gilbert; Bernardino Passos; João Andersen; Eduardo Monteiro



08/07/09

WALTER TARIRA ...Ainda e Sempre




Uma emoção forte ao ler na Luso Xadrez o formidável texto do Walter que o Russo recuperou de 2004 ( e que teve a amabilidade e generosidade do mo colocar mos comentários ao meu post). Nele, depois do seu belíssimo texto O Walter agradece as minhas palavras sobre o que se tinha passado no Hall do Novotel em Gaia em Gaia, nesse Nacional da 1ª Divisão por equipas. E o que se tinha passado, foi muito simples: um dirigente de um Clube presente na competição, nosso companheiro de cavaqueira naquele momento, acabara de confessar numa angústia enorme a dor que o inundava depois da morte da esposa, ainda mulher relativamente jovem, uns dias ou semanas antes. O Walter foi inexcedível nas palavras de conforto e incentivo ao colega, sempre numa serenidade e percepção terna da vida como raramente presenciei. Depois, na Luso Xadrez, fiz um relato do Torneio em que afirmei que nessa competição só duas coisas valeram a pena: a dor do colega e o xadrez como conforto e o ter conhecido o Walter Tarira em pessoa. O que escrevi sobre o Walter mantêm-se mais premente do que nunca. Ficarei sempre dele com a imagem que dele retirei, a minha imagem, o "meu" Walter Tarira.

" Nada disto tem importância, tão ligeiro, tão humana e fragilmente fugaz que não tem importância, que me faz sorrir depois da tempestade da irritação passageira! Um jogo, simplesmente um jogo ( sempre as palavras do Bronstein) a ecoar nos meus ouvidos, e nós a querermos fazer disto uma vida, a vida! Portanto esqueçam o que escrevi! Perdoem-me o meu escrevinhar, o meu humano desabafo, porque como de costume aí estou eu a perder-me do essencial deste post! E o essencial para mim deste Campeonato foram duas coisas simples, simplíssimas! Juro! Não, não foi jogar com três GM! Coitado de mim! Já com “glórias vãs não me iludo”!


Ao fim de muitos anos de xadrez… Conheci um “fauno” pleno de jovialidade, de “sagesse”, de categoria de saber pensar com inteligência - sensibilidade. Talvez dos raras personagens de xadrez que conheci que alia a não seriedade à seriedade das coisas da vida e do mundo, como elas devem ser encaradas! O sério no não-sério! Regalava-me com muitos dos seus escritos na Luso Xadrez”, regalei-me com hora e tal de conversa com o “fauno”! Tão humano, tão deliciosamente humano, que com quase 50 anos de vida e fascinar-me com uma pessoa, é obra! Não digo quem… digamos que é um tal WT (porra, parecem as iniciais de um automóvel!), raçado de deus (naquilo que um deus de letra minúscula tem de terreno) e humano (naquilo que um Humano com letra maiúscula, tem de deus). Uma dúvida: teriam os faunos grisalha barba? Uma dúdiva: Os óculos aumentam-lhe a visão humorística do mundo?



E ainda, o mais importante! Apetecia-me “borrar” toda a borrada que escrevi antes do penúltimo parágrafo! Nada tem importância, nada para mim conta, porque senti a dor de um Homem do Xadrez. Juro-vos pela minha alma ( e isto escrito, perde o que sinto e como tal se calhar não o deveria escrever) que estou triste , profundamente triste! O meu lado a Oeste de mim está comovido sem remissão, porque alguém do xadrez, naquela sala ,naquela confusão, naquele burburinho, naquele cadinho de emoções aos quadradinhos, estava a sofrer terrivelmente com um drama pessoal terrível, trágico e doloroso. Surgiu natural de uma conversa em trio, a notícia, o “murro de boxeur” na boca do estômago, o ficar sem fôlego perante o sofrimento em gente! Eu e o WT, sem estratégia que nos valesse! Algumas palavras belíssimas de conforto do WT, mas a dor aferrada no olhar, nos gestos, na alma da nossa terceira personagem! Ali, um Homem, um Colega de Profissão, um Xadrezista, dor em gente e nós nus de palavras, porque supérfluas. Ali sim o que interessava, nada mais! Separamo-nos, o WT, para o seu destino quilométrico a esperar, eu para os meus head-phones e o reconforto do “Blue” da Joni Mitchell. Deu-me os parabéns, que escrevia bem, mas saberei eu ser? Terei eu lugar neste individualismo estratégico xadrezístico, onde por vezes se tratam pessoas como peças de xadrez, e se quer alcandorar um jogo à qualidade e essência da vida? Não o conhecia pessoalmente, não tive a coragem daquele abraço solidário invasivo daquela dor solitária. Não interessa quem é, nem ele quereria que se soubesse! Aconteceu tudo numa breve hora de uma jornada final de um Nacional por equipas, num qualquer hotel de Gaia. (...)


Escrito pela madrugada dentro, comovido a Oeste, pacificado a Este de Mim no dia 11 de Agosto de 2004 "


Foto ( das melhores do Walter) "roubada", ele não se importará certamente, ao belo Blogue do João Fernandes Santos "Fotografia e Xadrez"



07/07/09

WALTER TARIRA


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Uma tristeza sem fim que cá dentro se anichou. Mais um amigo do Xadrez que se foi. Partiu, sem partir, porque parte quem eu deixo e ao Walter não deixo. Bastaram umas horas num hall de hotel em Gaia, para perceber a excelência de quem tinha pela frente. Amava o xadrez profundamente, amava a vida de uma forma completa e poética. A poesia do convívio, do diálogo franco, da gargalhada fraterna, do ir direito ao assunto sem rodeios, mas quase sempre numa atenção solidária e empática com o outro. De humor fino e cortante, de grande generosidade e simpatia o Walter era figura querida e sempre bem-vinda em qualquer torneio que participava ou aparecia.

Amava o Xadrez, o Brasil, a boa mesa, os Amigos, a cavaqueira, o filosofar da vida, Os Alverca dos Peões, em que mais do que Rei, ele era, ele queria ser mais um peão, a alma, a verdadeira alma do xadrez naquele Clube. Segui sempre o que escrevia (e que bela escrita contida, a do Walter Tarira!) sobre o xadrez, ou sobre o não xadrez, e em tudo que escrevia havia sempre uma poética emergente, um sentido profundo das coisas e da vida.

Gostava do Walter, pronto! Uma figura daquelas que valeu a pena, que vale a pena ter conhecido no Xadrez Português. Neste manicómio global em que vamos atolando, nesta mediocridade e imbecilidade generalizada, o Walter era um Bom, um ser culto e sensível de pegada segura no que tinha vindo aqui fazer.

Para e até sempre Walter! Acabaste de carregar no teu lado do relógio da vida, agora o tempo vai-se escoando para nós, naquele tic-tac inexorável e escultórico. Pareces sorrir, naquele teu riso matreiro e brincalhão! Pudera! Vais ter tempo...vai preparando as pecitas e tabuleiro aí no reino de Caissa, que isto não vai ficar assim...

(nesta homenagem, um grande e belíssimo texto de 2005 do Walter sobre a Vida e o Xadrez, publicado no Blogue Peões de Alverca)

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005

CURIOSIDADES

Tabuleiro da “vida”



Depois de ouvir muitas pessoas nas faixas etárias dos “5 aos 20 anos”, dos “21 aos 35 anos” dos “36 aos 50 anos” dos “51 aos 70 anos” e, finalmente, dos 70 anos em diante, constatei o que passo a descrever:

Dos “5 aos 20 anos” o homem só vê e pensa sobre o presente – o passado ainda é muito recente – e o futuro fica no infinito! Não lhe diz respeito.

Dos “21 aos 35 anos” o homem concentra as suas atenções no presente procurando por vezes prever o futuro mas raramente mergulha no seu passado; acaba assim por ver um futuro distorcido da realidade que o espera.

Dos “36 aos 50” o homem já começa a ir ao seu passado mas continua concentrado no seu presente porém, nesta fase da sua vida já pensa em alguns aspectos do seu futuro com alguma realidade.

Dos “50 aos 70” o homem começa finalmente a gastar mais tempo evocando o seu passado mas ainda se concentra no presente, pensando desta forma prever melhor o seu futuro.

A partir dos “71” o homem já só olha o presente e o passado para tentar justificar o futuro que o aguarda. Fica quase com a totalidade das suas atenções concentradas no seu próprio fim, que por intuição começa a adivinhar – a sua própria morte – o fim do ciclo.

Tabuleiro de “Xadrez”


Neste tabuleiro, o “iniciado” quando é alertado para a importância dos diversos finais que podem surgir-lhe ao longo da sua partida, começa sempre por estudar as aberturas, não dando a importância devida aos finais. Claro que este método raramente o leva a um final e, ainda, quando isso acontece, normalmente perde-o.

Alguns jogadores aperceberam-se já muito tarde da importância dos finais e estudaram-nos com muito afinco mas mesmo esses não escaparam – foi só uma questão de tempo – acabaram por levar mate, sem defesa e imparável!!!

Posso assegurar “temporariamente” que, em ambos os tabuleiros, o da vida e o de xadrez, o “mate” não tem mesmo defesa! Sejam ricos ou pobres, GMs ou iniciados, todos têm o seu mate garantido; melhor ainda! O homem quando nasce já tem a sua partida perdida e por mate!!! Assim sendo, o que é que leva o homem e manter-se permanentemente em jogo?!

22/06/09

XADREZ DE MÃO

Algumas fotos minhas e recentes sobre Xadrez e fundamentalmente as mãos no Xadrez. A mão leve , a mão ansiosa, a mão ameaçadora, a mão de afago das peças de xadrez. Como primeira foto: a Imponência de umas peças de xadrez, como última : "O Meu reino por um Cavalo", que pode ser um dos de Chigorin.

(Todas as peças são da minha colecção ; Clique na foto para aumentar)

29/05/09

78... Memórias de Um Campeonato Nacional

Para ler com paciência, para clicar nas fotos e se calhar guardar ( as fotos são da RPX, aproximadamente da época do acontecimento relatado e por mim trabalhadas).



Participante em vários Nacionais de Juniores, em preliminares de Nacionais Absolutos, e apenas num Campeonato Absoluto, posso afirmar que de toda a minha carreira xadrezística de 37 anos de xadrez, sem dúvida o Nacional Absoluto de 1978, marcou-me de uma forma indelével. Não foi por ser um absoluto, não foi pela minha classificação, 12º e último lugar, não foi pela excepcional qualidade das instalações, ou material de jogo (jogou-se na Escola Preparatória de S. João da Madeira em salas de aulas adaptadas e com uma das primeiras versões das malfadadas, anémicas e horrorosas peças plásticas da FPX), ou mesmo do Hotel de instalação ( que não existiu, mas simplesmente uma “pensão-residencial”, por sinal bem humilde e simpática).


Então, o que foi tão forte que passados 31 anos passados tenha gravado a buril no meu lado bom do coração esta competição?


É-me difícil explicar este turbilhão de lembranças, este calcorrear pela memória afectiva e boa das coisas xadrezistas, porque como diz a canção, uma das mais extraordinárias da música portuguesa, deveria ter a sensatez de nunca voltar ao lugar “onde já foste feliz/por muito que o coração diga/não faças o que ele diz”; “ por grande tentação/que te crie a saudade/não mates a recordação/que lembra a felicidade” . Mas não, claramente não devo possuir a sensatez adequada! Um nostálgico incorrigível, sem remissão, mesmo que seja em legítima defesa.


Assim, um simples Campeonato Nacional Absoluto, jogado a partir da 2ª semana de Setembro em S. João da Madeira. E a questão que não me abandona, desde que decidi escrever este artigo, é a seguinte: seria possível hoje ter numa competição deste calibre, o ambiente, o clima, o grau de quase fraternidade, de “irmandade xadrezista” que se gerou nesse ido ano de 1978? Estou a exagerar? Isso não é possível numa competição de xadrez e logo pelo título máximo, ainda por cima num jogo claramente de cariz individualista. E então a mitologia associada aos jogadores de xadrez, ás suas excentricidades, aos seus particularismos, aos seus “desert islands” quadriculados onde gostam de se espraiar? Seria possível quase durante 15 dias, jogadores de xadrez empenhados numa mesma competição, jogar xadrez, mas ao mesmo tempo conviverem extra tabuleiro aplacando as suas idiossincrasias, aprendendo e reaprendendo a arte do diálogo, do jogo a feijões, da boa mesa? Não seria, foi!


Antes de tudo, uma organização, para a qual ainda hoje não encontro palavras adequadas para a classificar. Do que encontrei de melhor ao longo da minha vida xadrezista. Amadores de um profissionalismo, de uma dedicação de uma simpatia, e sobretudo animados de um espírito de Caissa como poucos! O pessoal da Secção de Xadrez do Clube de Campismo de S. João da Madeira, foi simplesmente “xadrezial”, um mistura óbvia de xadrez e bestial. Com medo de me esquecer de alguém e socorrendo-me do “vade-mécum” (o boletim,) aí vai a minha sentida ternura e lembrança, já algo esfumada para o J. Pinho, A. Pinho, F. Pinho, o Lima, o Esteves, o Amorim, o F. Duarte, o J. António, a Marina Graça. Que gente fabulosa!


Chegaram até aqui? Leram bem? Então, não se surpreendam, quando no dia 24 de Setembro de 1978, TODOS os jogadores e o Zé Oliveira, o árbitro do Campeonato, assinaram e forçaram a organização a inserir no seu boletim:


“OS JOGADORES PARTICIPANTES NESTE EXCELENTE XXXIV CAMPEONATO NACIONAL INDIVIDUAL DE XADREZ, CONGRATULAM-SE PELA DINÂMICA E ORGANIZAÇÃO DO MESMO, LEVADA A CABO PELOS LABORIOSOS ELEMENTOS DO CLUBE DE CAMPISMO DE S. J. MADEIRA, ESPERANDO QUE TAL INICIATIVA SEJA UM TRAMPOLIM PARA FUTURAS REALIZAÇÕES TÃO BRILHANTES COMO ESTAS”
Orgulho-me de ter sido juntamente com o Rui Silva Pereira e o Fernando Sequeira, um dos promotores desta iniciativa, bem como o “soprador” de serviço para algumas palavras do texto. Mas leram bem? Eles não queriam colocar no boletim, e só pela ameaça de deixar a sede do Clube de Campismo, numa barraca de acampamento é que os “artistas” publicaram e mesmo assim com: “ POR INSISTÊNCIA DOS JOGADORES O Pirilampo transcreve ( hei-de explicar esse trabalho inacreditável de azáfama, de amor ao xadrez que foi o Pirilampo...).


O Rui Silva Pereira na sua maravilhosa e humorada forma de escrever, (e por onde andará este excelente jogador,dos mais educados, corteses e simpáticos que encontrei no tabuleiro?) não teve problemas em afirmar na Revista Portuguesa de Xadrez, nº 19, II série de Outubro de 1978 , com o subtítulo de “ OS RAPAZES ( E RAPARIGAS) DO TRAPÉZIO VOADOR” :


“Quando falámos de revelação, poderá o leitor ter pensado em António Ferreira. Não nos referíamos no entanto a qualquer jogador, nem o experiente árbitro José Oliveira poderia constituir mais que uma confirmação. Revelação foi a excelente organização deste campeonato por parte do Clube de Campismo de S. João da Madeira. Contra aqueles que de início afirmaram que "estes rapazes esmeram-se, mas não têm experiência de organização", surgiu-nos a máquina impecável, de eficiência levada ao pormenor. O abaixo-assinado dos jogadores e árbitro, elogiando a organização, não traduz nem poderia traduzir completamente a qualidade organizativa do torneio. Foi inultrapassável no aspecto técnico, e ainda mais, se possível, no aspecto humano. Os perigos, os exercícios de equilíbrio necessários para contentar um grupo de pessoas tão susceptíveis e instáveis como o dos jogadores, assim como uma conhecida canção que andou na berra durante o Torneio, justificam o subtítulo. (Estamos certos que esta "troupe" é a melhor equipa de organização do país. A única coisa menos perfeita no torneio é que incompreensivelmente fomos obrigados a jogar xadrez certo que alguns conseguiram ultrapassar esse contratempo em algumas sessões, seria preferível que para a próxima essa ridícula formalidade não fosse burocraticamente exigida).Chamamos à atenção para o anúncio aqui publicado (de organização de torneios). Àqueles que possam achar os preços demasiado altos, garantimos que são uma autêntica pechincha. É como comprar uma genuína rede de trapezista por cem paus!”

O próprio árbitro, o José Oliveira (grande, grande arbitragem , num misto de luva de afago numa mão, e usado a preceito, “pau de marmeleiro” na outra) escreveu na mesma revista:


“Quem teve o privilégio de acompanhar este XXXI V Campeonato Nacional Individual cometeria grave injustiça se deixasse de referir que a organização ultrapassou em muito aquilo a que estamos habituados. A montagem da sala de jogo e dos serviços de informação e propaganda de vendas de material didáctico e de bar esteve impecável. As actividades paralelas (ensino de xadrez, encontro com o GM Tseshkovsky, simultâneas e torneio de rápidas, este organizado em colaboração com a A-X-Aveiro) tiveram o mérito de atrair muitos antigos e novos praticantes. Finalmente, o apoio que em todas as circunstâncias foi prestado aos jogadores e árbitro, e o excelente convívio que constitui nota dominante desta iniciativa são dignos dos maiores aplausos. Por tudo isto estão de parabéns os vinte e muitos elementos do Clube de Campismo de S. João da Madeira que tornaram possível o Campeonato. No fim da prova, os participantes remeteram à organização um voto de louvor pelo trabalho realizado. “

Assim uma organização esmerada que mereceu o louvor de todos, e que ainda se deu ao luxo de usar da ironia, do humor, de humilde e sadiamente brincar com as laudas que lhes demos, com a publicação de um anúncio hilariante (o mesmo a que se refere o Rui Silva Pereira) que abaixo publico.


Uma organização, que começou um Nacional com uma reunião com todos os jogadores, disponibilizando-se a todos os esclarecimentos e aceitando sugestões. Uma organização que não teve qualquer problema depois de consultar os jogadores e estes concordarem por unanimidade, em autorizar quando isso fosse necessário, o 2º adiamento na Vila da Feira onde estavam hospedados a maioria dos jogadores, conseguindo para isso a cedência de uma sala do Orfeão da Vila da Feira. Uma organização que nos brindou com jantaradas pantagruélicas, que à noite abria as portas da Sede do Clube de Campismo de S. J Madeira, onde entre carradas de rápidas, de jogos de cartas acirrados, ainda havia tempo para com um tabuleiro pela frente, ambos os jogadores que se tinham defrontado horas antes, analisarem em conjunto a sua partida, perante a caneta lampeira de alguém da organização, que anotava essas análises, para certamente noite dentro, e máquina de escrever ritmada, publicar as partidas do dia, algumas comentadas, nesse “órgão do comité dos amantes do xadrez” que era “ O PIRILAMPO” . Não, não era o tempo dos FTITZ, RYBKA depois das partidas, era o tempo do mexer nas pecinhas de plástico de colocar umas frases ou variantes sacadas à pressa, e a fita matraqueada da máquina de escrever a sulcar papel para memória futura. Até o António Fernandes ainda jovem mancebo se iniciou no Jornalismo de Xadrez, quando pouco dado a cartadas e bebidas era cooptado para detectar gralhas no boletim do Torneio!


Uma organização que conseguiu a par do Campeonato, organizar simultâneas com Jaime Gilbert, Vladimiro Miranda e Jorge Liberato, que conseguiu trazer embora por horas, um dos melhores jogadores mundiais à altura, Vitaly Tseshkovsky, a S. J. Da Madeira, e com quem tive o prazer de ser trucidado para aí umas 12 vezes no mínimo ( tinha perdido com o Ochoa, em 16 lances e, o GM, achou piada jogar com um “meco” jogador do Nacional –Ele sempre com 3 minutos contra os 5 meus; aproveitei, enquanto a fila dos consagrados não foi crescendo para serem trucidados à mesma!).


Um aparte sobre Tseshkovsky: Esteve para aí 6 horas em S. João da Madeira, joguei com ele rápidas, estive na mesma mesa do Restaurante onde jantou antes de ir para Lisboa e praticamente não lhe ouvi uma palavra! Sempre sério, sempre com aqueles olhos fixos em grossos e enormes aros de tartaruga, raramente se observava um esgar no seu rosto! Uma esfinge! Nas partidas rápidas jogadas comigo, um hábito curioso: jogava com uma rapidez inacreditável, mas com uma calma impressionante e colocando as peças mesmo no centro dos quadrados do tabuleiro. Outro ainda e para minha surpresa: depois de cada partida ganha, gostava de pegar nas minhas peças de derrotado e colocá-las rapidamente nas posições iniciais, quase como a sugerir-me: “mais uma, vamos a outra que esta não teve piada”. Durante as rápidas não olhava uma vez para o adversário, os seus olhos mexiam-se a uma velocidade incrível esquerda-direita, direita-esquerda, piscando-os sucessivamente: pareciam olhos de ave de rapina! Nas rápidas com o saudoso Sílvio Santos, este a tentar aplicar ao GM, o mesmo truque que gostava de fazer nas rápidas amistosas: derrubar umas pecitas, no tempo do adversário, para ganhar um tempito, enquanto este as compunha, ou mesmo as apanhava: puro deleite o que vi: Sempre que o Sílvio fazia “a graça” o Tseshkovsky com uma rapidez assombrosa, pegava no relógio, puxava-o para o seu lado, parava-o, e sem uma palavra esticava o dedo para o tabuleiro, indicando ao meu saudoso companheiro, que tinha que pôr a posição como ela estava antes do “desastre”! Vi isto no mínimo três vezes e era engraçadíssimo ver o Sílvio aos papéis, a colocar as peças no lugar onde estavam, e a mão sapuda do GM a corrigir um peão, ou uma peça! Só depois o relógio “roubado” voltava ao lado do tabuleiro. Como partilhava com ele o quarto na residencial, o que gozei o Sílvio, só podem imaginar. Sorte minha que o Sílvio era uma jóia de um rapaz e estava tão fascinado como eu com a força de jogo e capacidade de visão do Vitaly.




Uma organização que até pôs os jogadores a jogar com os pés, ou com outras peças desportivas que não as de xadrez. Eles bem “ameaçaram” no dia anterior ao descanso: “


Aproveitando o dia de descanso deste Campeonato Nacional de Xadrez, foi estabelecido m programa em que se exclui (será?) o Xadrez, mas por outro lado será aproveitado para fazer actividades dentro dum vasto leque. Assim, cerca das 10h50 da manha, jogadores, árbitro e organizadores do Torneio deslocar-se-ão para a praia do Furadouro, onde se praticará um pouco de ténis e voleibol nos respectivos recintos existentes no Parque de Campismo do C.C.S.J.M. e ainda natação em pleno oceano. Alem do referido, e que está a atrair mais as atenções gerais, é um desafio de futebol entre os elementos da organização e os titulares do xadrez. À hora de encerrarmos o PIRILAMPO tentamos saber as respectivas formações de equipe, mas estas mantêm-se nos “Segredos dos Deuses»., os TÉCNICOS lá saberão.., Enquadrado neste dia de descanso, teremos ainda, e como não poderia deixar do ser, um almoço com toda a gente, onde os visitantes poderão saborear a famosa caldeirada e o afamado VERDE da região!! (bom lance? comentário da responsabilidade dos redactores). Julgamos que ainda será possível assistir a una sessão de música já que alguns dos jogadores demonstraram ter queda...-"


Um grande encontro entre os Jogadores de Xadrez e a Organização, do qual só não gostei do resultado, porque perdemos 11-7. Bem remei contra a maré, empunhando a batuta de ter treinado quando miúdo no Boavista no velhinho Estádio do Lima com Joaquim Meirim e o sr. Garcia, usando também alguma acutilância e “bocas” quanto bastasse para empertigar os colegas e enervar os adversários, sem sucesso! Impossível! Imaginam o António Ferreira com aquele porte atlético à baliza? Não ? Eu também não! Já viram, tirando alguns jogadores do Benfica, rematar com o pé que tem mais à mão? Não? Eu vi o Ochoa, que não acertava um chuto! Podem pensar sequer no Rui Silva Pereira que jogava em bicos de pés, a saltar, ou a dar uma peitaça no adversário? Nem eu! Aquilo era um passador, defesa “moulinex”! Acreditam que o Luís Santos, que até dava um jeito no futebol, andava fascinado com o Borg, vai daí encafua-se no Ténis, e só quando já estávamos enterrados, é que resolveu apiedar-se dos colegas, sair da condição de suplente, por “estouro físico”, e marcar um golo à Maradona? E o José Oliveira, que em vez de jogar a bola, sentia mais apetência para a arbitragem, e como não lhe deram apito, amuou: Assim, só eu, o Sequeira e o Fernandes, a jogar futebol de luxo! Mas 3 contra 7 da organização, vá lá, 6, porque o J. Pinho, era mais do estilo “ponta quieta”, era impossível fazer melhor! Ah! No fim do encontro, quando o banho apetecia, alguém reparou que...não existia sabonete! Nem se sentiu o cheiro, porque os odores foram todos para uma caldeirada divinal, regada a Verde que colocou o Martinho a “fadunchar”, enquanto outros mostravam que entre o piar , o grasnar, e o cacarejar, não existe tanta diferença assim. Felizmente que uma volta pela Ria, veio serenar gargantas e aligeirar vapores.

Assim um Nacional com um convívio franco, um espírito de grupo, como raramente encontrei em competições de xadrez. Um Nacional que até poderia ter começado “torcido”, quando salvo erro, o Durão, o F. Silva, o Luís Santos e o Ochoa chegaram atrasados à Vila da Feira e a estalagem onde estávamos hospedados, não tinha quartos disponíveis. Foi um chinfrim incrível, com o Fernando Silva a exibir pergaminhos de ser o Campeão Nacional e ter direito a suite real, o Durão como decano, a vociferar que “a velhice era um posto”, e eu feito “camelo” solícito a pegar na mala do Fernando Silva, que parecia trazer grossas vigas de ferro da Siderurgia Nacional, mas que depois vim a descobrir serem livros de xadrez, nomeadamente os Informadores! Mais de 20m naquela balbúrdia e, o cansaço e um sorteio, vieram aplacar ânimos, apesar de os rostos se manterem fechados. Era o que havia: ou arranjem-se, ou por esta noite tem de ser assim! E foi! O Durão e o Luís Santos ficaram num quarto que reservado, dado o adiantado da hora, não deveria ser reclamado, o Ochoa, ficou com uma cama articulada numas espécie de arrecadação de arrumos e o Fernando Silva, dormiu no quarto de um dos criados (e não na cama com o criado, como escreveu no gozo o Zé Oliveira na revista da FPX, até porque se fosse a criada, eu cederia de bom grado o meu quarto ao Fernando Silva, juro!).




Não , caros leitores, nada disto é invenção. Aconteceu mesmo! E no dia seguinte. tudo se resolveu a contento de todos .



Um Nacional, onde um grupo de “jovens guerrilheiros” gostava de atacar a janela do quarto do Durão com bolas de papel higiénico ensopadas, estragando-lhes os cálculos complicadíssimos do Totobola, no exacto momento em que ele sonhava, agora é que vou ser rico! Um Nacional em que os meus camaradas guerrilheiros, se deixaram comprar ou seduzir pelo Mestre Durão e se preparavam para num complot quase generalizado, a coberto do sono, me cortar um apêndice que era a minha “trademark” desde a adolescência: ( Ah! Ah! malandrice...) o meu querido, amado e bem tratado bigode! Não imaginavam eles porém a minha rede de informadores naquela estalagem, e a minha argúcia de menino da Sé do Porto! Consegui esconder uma pequena tesoura arma do crime, pertencente ao Durão e ameaçar de insónia perpétua quem ousasse tocar na minha sagrada relíquia! Aliás de bigodes-relíquias, só o meu e o do Fernando Silva. Não queiram saber o que foi a nossa partida, depois de ambos cofiarmos as respectivas bigodaças, que era vício arreigado em quem possuía o apêndice: eram tantos pelos de bigode como peças de xadrez nos quadrados do tabuleiro!

Um Nacional, onde percebi a enorme cultura xadrezística do F. Silva, onde entendi a diferença abismal entre o pessoal de Lisboa, e o do Porto, no que dizia respeito à forma de levar o xadrez de competição a sério, no estudo do Xadrez, na preparação teórica! Contra tudo o que se diz, tive a felicidade de ver a organização de trabalho do Joaquim Durão, como ele tinha os artigos teóricos da Europa Échecs ou Jaque, todos policopiados, ordenados em pastas por aberturas, ou como escrevia anotações, ou como marcava livros e Informadores! Tive a grata surpresa de ver o Renato Pereira, não ter qualquer problema em mostrar-me revistas teóricas alemãs, salvo erro da Schach-Echo, ou durante mais de uma hora analisar comigo a Benoni. Foi um regalo puder analisar a partida com o Fernando Silva, e ver a sua satisfação por um jovem jogador se interessar por uma sua partida recente que ele tinha vencido brilhantemente em Cuba, contra Carrion. Pude constar mais uma vez, alguns dos belíssimos livros que tinha o Fernando Sequeira, ou como o António Ferreira já tratava a Enciclopédia por tu, de tal forma que Apanhou o F. Silva numa variante lateral da Siciliana, na partida que disputaram. Foi agradável constatar a humildade do Rui Silva Pereira, ao reconhecer no nosso empate que estava bem pior posicionalmente, ou ver como o Sílvio Santos aceitou, primeiro renitente, depois, conformado a punição de dez minutos no relógio aplicada pelo José Oliveira, simplesmente porque em plena partida e aprontando-se os apuros de tempo, resolveu encetar “alegre cavaqueira” com o António Fernandes. Ri-me até às lágrimas, quando um dia o Renato Pereira, resolveu imitar o Durão, o Luís Santos (o Renato a imitar o Luís Santos a apartar o cabelo, quase que me fez urinar!), o Jaime Gilbert ( igualzinho!), ou o Mestre António Rocha! Talento extraordinário de alguém com apurado sentido de observação! Quando o Renato pediu para alguém imitar a sua pessoa,, ninguém ousou , claro! E eu, ali, com livros do Pachman , do Pedro Cherta, e do Euwe, e com algumas fotocópias da Europe-Échecs de artigos do Zinser e do Gligoric!? Como sobreviver competitivamente aquelas “trutas” ? Mas também o que interessava isso?


Soube aproveitar esse Nacional e “sacar” dele, o que dele não pensava extrair: humanidade, gosto pelo convívio do xadrez, contacto com pessoas que respeitava imenso como jogadores, sem os conhecer pessoalmente, casos do Durão, do Fernando Silva , do Renato, e que ainda hoje respeito! Conheci gente de uma simpatia maravilhosa como foi o caso do Rui Silva Pereira, ou o Martinho Lopes, e pessoas que ou desinteressadamente amavam o Xadrez, ou loucamente o amavam para organizarem da forma que organizaram esse Nacional.


Devo imenso a toda esta gente, o que hoje vou pulsando xadrez, o que hoje amo xadrez, porque estes quase quinze dias, foi um dos períodos que mais contribuíram para a percepção de um xadrez que até aí me era desconhecido. Talvez neste Nacional Absoluto de 1978 tenha percebido o lema “Gens una sumus” da FIDE, aplicado a um campo mais restrito.



Bem Hajam! Que todos estejam de perfeita saúde o meu sincero desejo! A minha sentida ternura da memória neste artigo.


(O meu saudoso e querido amigo Sílvio Santos, já por mim foi objecto de “memorial” na antiga Luso Xadrez).

26/05/09

Martinho Lopes


Não, não era a altura que nele impressionava. Era qualquer coisa indefinível que passava pelo seu ar “maciço”, pesado, pelo seu andar pausado mas decidido, e sobretudo pela abundante e negra barba que quase lhe escondia a cara. Uma barba, negra, cerrada, florestal que lhe dava um aspecto épico, prometeico, assustador e, se a isto juntarmos uns centímetros acima, cobrindo uns olhos vivos, inquisidores, umas grossas lentes enquadradas por largas armações, teremos um retrato ténue do que na Escola Preparatória de S. João da Madeira vislumbrei no dia 19 de Setembro.

Esta a personagem que se me arribou frente a um tabuleiro de xadrez na 5ª sessão de um distante Campeonato Nacional de Xadrez no ano de 1978.

31 Anos passados, recordo nitidamente o MARTINHO LOPES, retenho-o numa espécie de “vi claramente visto” fotográfico para sempre. O Homem impunha respeito aos meus 21 anos da altura, embora o seu ser mais velho, mais parecia do que era efectivamente.

Esperei calmamente que chegasse e realizasse o seu lance inicial e confesso que quando se aproximou do tabuleiro, pareceu-me ver dois, não porque o Martinho Lopes tivesse o dom da ubiquidade, mas porque os 39,5 de febre com que amanheci, confirmado no boletim do torneio, faziam-me ver um pouco a dobrar, e como tal, não favoreceram nem a visão nem o entendimento do Xadrez, que não era famoso, diga-se.


Não, não foi por isso que perdi com esta fantástica personagem. Perdi, porque tinha de perder, perdi simplesmente porque era pior jogador do que o Martinho, perdi, aliás, porque como indica o meu último lugar neste Nacional, era sem dúvida o pior jogador, aquele que estava prestes a descobrir o óbvio: não tinha capacidade, nem vontade, de ir mais além no Xadrez de competição. Daria pouco mais do que aquilo que ali tinha mostrado. Sabia muita teoria decorada, muito lance pendurado numa espécie de tabuada pré-definida, e entendia muito pouco de xadrez. Acho que foi a partir desse momento que comecei a entender o xadrez, a amar um outro tipo de xadrez, a perceber a beleza escondida por detrás de um xadrez competitivo de tabuleiro.

Claramente o Martinho Lopes era melhor jogador do que eu, não na proporção de me ganhar no número de lances que ganhou, mas simplesmente porque era competitivo até dizer basta. O seu lugar nesse Campeonato Nacional Absoluto de 1978, assim o diz: 6º lugar, apenas com uma derrota! Um jogador que ao longo de 11 sessões de um duro campeonato, e com jogadores do topo, só inclina o rei uma vez, não podia ser um jogador qualquer...e não era! Um jogador de xadrez na verdadeira acepção da palavra, como constatei ao longo do torneio. “Esmagou” os dois fracotes, perdeu com aquele que era à data o Campeão Nacional, Fernando Silva, e empatou com todos ou outros jogadores, entre eles com aquele que seria neste torneio consagrado o novo campeão nacional, Luís Santos. Diga-se desde já que em algumas partidas, Martinho Lopes teve clara vantagem, deixando aqui ou ali, fugir a vitória.

Agressivo, ou de contra-ataque perigoso numas partidas, noutras, mostrava uma solidez de jogo que não permitia aos consagrados tirar qualquer partido da sua pretensa superioridade. Gostava de afirmar que não ligava nada à teoria, mas se estudarmos as suas partidas deste Nacional de S. João da Madeira, verificamos que era uma “blague”, porque o Martinho sabia teoria e não era pouca, veja-se a título de exemplo a sua partida com Ochoa e o ataque Fegatello ou a sua “Ruy Lopez-Chigorin-Keres “ de brancas contra o António Fernandes.

O Martinho Lopes e a sua negra barba à “captain Edward Thatch” impressionava, mas o que mais me impressionou quando se aproximou do tabuleiro para a “abordagem” à nossa partida, foi a sua voz de baixo profunda, rouca, cavernosa , no cumprimento da praxe e aperto de mão inicial “ Martinho Lopes – Santarém” !
O Martinho que fui observando ao longo das sessões e fora deles. Um Martinho pretensamente rude, distante invólucro de um outro Martinho sensível, brincalhão, de frase afiada e sentido de humor apreciável. Bom garfo, óptimo copo, o Martinho adorava a “charla” brincalhona, o dichote, o humor corrosivo e não raro a ironia quando falava de xadrez. Claro que não contamos com ele nas fileiras da equipa de futebol dos jogadores que defrontou a organização no dia livre, pois o nosso querido Martinho Lopes era daqueles que não tinha a cabeça onde nós nesse dia teríamos os pés, preferindo outros jogos, e depois... a finta à caldeirada sumptuosa oferecida pela maravilhosa organização.


Bem verdade o que o jogador Rui Silva Pereira e o árbitro José Oliveira, escreveram do Martinho na Revista Portuguesa de Xadrez, II Série nº 19 de Outubro de 1978 (e de que forma maravilhosa se escrevia sobre e de xadrez, nesta altura!).

screveu Silva Pereira: “ Martinho Lopes fecha a 1ª metade da tabela. Considerações sobre o estilo deste autêntico pirata do tabuleiro poderão ser encontradas no artigo de José Oliveira. Tal jogador ( que usa uma espessa barba negra) é sempre o terror do torneio, chegando a povoar os pesadelos dos seus potenciais adversários “.

O “Zé Oliveira” do apito Sanjoanino escreveu “ O Martinho Lopes foi das figuras mais típicas ( “castiças” diz-se em S. João) do Campeonato. Para além dos dotes fadísticos, oratórios, e no campo da futurologia, impressionou o seu estilo de jogo descontraído: “ Aquilo está ganho, pá. Sacrifico duas peças, entro com a torre na sétima e dou mate”. “Hoje - dizia ele entre duas fumaças - vou derreter o Luís Santos. Senão o Campeonato está resolvido”. E gerou-se uma certa expectativa à volta da partida. Ninguém contava era que o Luís aparecesse com um casaco novo, ao que parece revestido de amianto, assim conseguindo escapar in extremis ao maçarico do Martinho”.

“ A minha partida com o Sílvio estava ganha - dizia o Martinho Lopes, enquanto pousava a beata no cinzeiro – o pior é que levava duzentos anos a acabar” . E puxando de outro cigarro: “ Amanhã jogo com o Renato. Da última vez, eh!...ia com a dama, lá no fundo e ameaçava cinco peças ao mesmo tempo. Desfiz o tipo, mas estava à rasca porque tinha de ir apanhar o comboio, e propus empate”
.

Era assim o Martinho Lopes, explosivo, de mar largo, de onda bravia, mas também de um enorme coração, de uma franqueza, de uma simpatia que cativava. Um senhor do Xadrez, um Senhor que nunca mais tive o privilégio de ver, porque ao que parece, depois deste Campeonato Nacional o Martinho Lopes resolveu tirar umas longas férias de dezenas de anos do Xadrez, quando muito poderia ter dado ao xadrez. Talvez aquilo que em tempos escrevi: quem ama muito a coisa amada, por vezes necessita dela desprender-se para melhor a amar, ou no mínimo amar a memória da beleza dela.


Por isso, uma enorme emoção, quando nesse excelente Blogue que é a “CASA DO XADREZ” num poste de 3 de Fevereiro deste ano, vi fotos do Martinho Lopes, a jogar xadrez no café "Solbar" em Santarém. Como confessou o fotógrafo, difícil de fotografar o Manuel Martinho Lopes, talvez por isso, as fotos não estejam famosas, mas mesmo de cabelos brancos e barbeado, reconheci o Martinho, na forma como se concentra, como se move decidido na realização de um lance, naquele olhar maroto de eterno apaixonado de Caissa!

Fez-me bem recordá-lo, fez-me bem mergulhar ma memória afectiva mais profunda relacionada com o xadrez, com um Xadrez, com um Campeonato de Xadrez, que suspeito ter sido “para hoje nunca mais”, pelo convívio, pela relação entre os jogadores, pela extraordinária organização, pelo puro prazer que era jogar xadrez e estar no xadrez apesar da competição.

Hei-de escrever sobre este Nacional.

( que me desculpe o Pessoal da Casa de Xadrez, mas...vou roubar do seu blogue uma ou duas fotos do Martinho...espero não ser processado). Bem, dedico este artigo ao Martinho Lopes e à Casa do Xadrez que é mesmo uma “habitação familiar” de xadrez!



Lopes,Martinho - Vieira,Arlindo [B33]
Campeonato Nacional S. João da Madeira (5) 09.1978 [Arlindo Vieira] B33: Siciliana:

1.e4 c5 2.Cf3 Cc6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 Db6 6.Cxc6 bxc6 7.Bd3 e5 8.0–0 Be7 9.Rh1 0–0 10.Tb1!?

Durante a partida esperei pelo lance lógico 10.f4, mas o lance do Martinho Lopes, parecendo uma "jogada de cafè", acaba por ter uma ideia clara, libertar o Bispo de c1 e tentar não permitir às negras a libertação do seu jogo com d5

10...d5?!
Se conhecesse o Martinho Lopes, teria jogado o mais calmo e expectante [10...d6!?]

11.Bg5 Be6

Não é que este lance seja mau, todavia, deslumbrado com a minha posição e com a frase feita lida não sei algures " Na Siciliana se as negras jogam d5, sem problemas, ficam com excelente jogo", continuei a desenvolver as peças calmamente , procurando que as Torres entrassem em jogo , pressionando o centro. Claro que vi o avanço de d4, mas a possibilidade de ficar com um peão isolado em c6 não me agradou. Um mau juízo posicional, pois esta debilidade seria mais aparente que real, devido à actividade das minhas peças.
[ por exemplo: 11...d4 12.Ca4 Dc7 13.Bxf6 Bxf6 14.c3 dxc3 15.Cxc3 Be7 16.Dc2 Dd6 17.Tbd1 Dg6 com igualdade]

12.f4!

Bom e típico lance "à Martinho Lopes". Ele não fica a esperar para ver e inicia um ataque no flanco de Rei.

12...dxe4?

Mau lance e típico do fraco jogador que era. Abandonar a tensão central para quê e porquê? Depois abrir vias e avenidas de ataque ao Rei negro com que objectivos? [12...Dd4!?; 12...Tae8!?]

13.Bxf6

[ ainda era melhor 13.fxe5! Cg4 14.Cxe4 Tfe8±]

13...Bxf6

se tivesse estudado como deveria ter estudado na altura partidas do Fischer e o seu célebre " Castling into it", então não teria sido difícil descobrir que defensivamente a abertura do Roque era o mais aconselhado! [13...gxf6 14.Bxe4 f5 15.Dh5 fxe4 16.f5 Bxa2 17.Cxa2 Rh8 18.f6 Bd6 19.Dg4 Tg8 20.Dxe4 Tad8 21.b4 Tg6 ]

14.Cxe4 Dd8??

Cegueira e completo desnorte na análise da posição. Digo análise e não houve nenhuma, simplesmente um lance mecânico que surgiu na ideia e que na altura me pareceu que defendia tudo. É exactamente neste tipo de posições que um jogador tem de se aplicar na análise profunda da posição, isto é, na altura em que tem de reconhecer que da igualdade passou para uma posição claramente inferior, e como tal arranjar um plano defensivo adequado, ou pelo menos, uma série de jogadas que ponham problemas ao ataque do adversário.14...Bd8 impunha-se para uma defesa difícil. [14...Bd8!? 15.f5 (15...Bxa2 16.f6 De3 17.fxg7 Rxg7 18.Dg4+ Rh8 19.Tbe1 Dd4 20.Dh3 f5 21.b3 Ba5 22.Cg5)
(15...Bd5 16.f6 Dd4 17.fxg7 Rxg7 18.c3 De3 19.Dg4+ Rh8 20.Tf3 Dh6 21.Td1 Bb6)
]

15.fxe5+- Bxe5??

Sentindo a posição perdida, joguei ao correr da mão, nem sequer pensando na retirada do Bispo para e7, ou para g5, que não salvando a partida, ofereceriam mais resistência
1) 15...Be7 16.Cf6+ Bxf6 17.exf6 g6 18.Dd2 Rh8 19.Tbd1 Tg8 20.Dc3 Db6
2) 15...Bg5 16.Dh5 h6 17.Tbd1 De7 18.Cxg5 Dxg5 19.Dxg5 hxg5 20.Be4 Tab8 21.b3 Tb5 22.c4 Txe5 23.Bxc6

16.Dh5
( por exemplo: 16...Te8 17.Cg5 Bf6 18.Cxe6 Txe6 19.Dxh7+ Rf8 20.Bc4+-)

1–0





Lopes,Martinho - Ferreira,António [B40]
Camp Nac. S.J. Madeira (1), 09.1978

1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Bd3 Cc6 6.Cxc6 bxc6 7.0–0 d5 8.Cc3 Be7 9.f4 0–0 10.e5 Cd7 11.Bd2 f5 12.Rh1 Cc5 13.Tf3 d4 14.Ce2 Ce4 15.Cg3 Cxd2 16.Dxd2 c5 17.Bc4 Dd7 18.Dd3 Bb7 19.Db3 Bd5 20.Bxd5 exd5 21.Dd3 De6 22.Td1 g6 23.b3 Bd8 24.Ce2 Bb6 25.b4 c4 26.Dd2 a5 27.b5 a4 28.Cxd4 Bxd4 29.Dxd4 Tfd8 30.Tf2 Tab8 31.Dc5 Db6 32.Dxb6 Txb6 33.h3 Txb5 34.c3 Rf7 35.Tfd2 Re6 36.Td4 Td7 37.T4d2 a3 38.Rg1 Tb2 39.Txb2 axb2 40.Tb1 Tb7 41.Rf2 d4 42.Re2 dxc3 43.Rd1 Rd5 44.Rc2 Re4 45.Rxc3 Rxf4 46.Txb2 Txb2 47.Rxb2 Rxe5 48.Rc3 Rd5 49.a4 Rc5 50.a5 Rb5 51.a6 Rxa6 52.Rxc4 Rb6 53.Rd5 Rb5 ½–½



Sequeira,Fernando - Lopes,Martinho [A05]
Cam Nac S. J. Madeira,(2) 09.1978
1.Cf3 Cf6 2.g3 e6 3.Bg2 Be7 4.d3 0–0 5.0–0 d6 6.e4 e5 7.Cbd2 Cc6 8.c3 Tb8 9.a4 Bd7 10.Dc2 Dc8 11.Te1 Cg4 12.h3 Ch6 13.Rh2 f6 14.Cc4 Cf7 15.De2 De8 16.Bd2 Ccd8 17.a5 Ch8 18.Ce3 c6 19.b4 Cdf7 20.Tf1 Ch6 21.Cg1 Cg6 22.Cc4 f5 23.Bxh6 gxh6 24.Cf3 f4 25.g4 Df7 26.d4 Be6 27.Cb2 Df6 28.Tad1 Tbd8 29.c4 Rh8 30.Tg1 Ch4 31.Dd2 Cxf3+ 32.Bxf3 Dh4 33.Tg2 Tg8 34.d5 Bd7 35.De2 Tg5 36.Th1 cxd5 37.exd5 b5 38.Dc2 Dxh3+ 39.Rg1 0–1