XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

18/05/19

OS 79 ANOS DO MEU GXP

Foi hoje. Jantar , bolo e parabéns na nossa sede, torneio de rápidas, mas sobretudo o encontro, o convívio, o reencontro afetivo com xadrezistas que se encontravam afastados do xadrez e do Grupo de Xadrez do Porto vai para anos e refiro-me ao Carlos Prezado, Manuel Matos,  Vladimiro Miranda, e António Carlos.. Dois deles foram palestrantes bem memoriados num amena cavaqueira que envolveu o Mário Marques e as suas pesquisas sobre o Gencsi Dezso, o Dinis Ribeiro  e vários aspectos ligados a cultura, arte  e filosofia no xadrez . Vladimiro Miranda e Manuel Matos sócios do GXP de longa data, mas jogadores muito fortes do FCP em anos já bem idos, relembraram rivalidades, destilaram algumas histórias curiosas, bem como apelaram à união do Xadrez em geral e do nosso Clube em particular, sempre num estilo em que afeto e humor andaram lado a lado. Algumas intervenções de sócios, nomeadamente do Carlos Prezado acabaram por enriquecer esta mesa "quadrado" em que o G.X.P foi Rei.
Uma tarde bonita, bem passada, diria à Grupo de Xadrez do Porto.
A mim pediram-me para falar. Li um texto. Aqui deixo esse texto. Também assim se constrói a História de um Clube peculiar como disse o Matos, um Clube de convergências como afirmou o Vladimiro, ou um Clube primeiro para alguns e segundo de todos para os outros que jogam xadrez, como uma vez afirmou o Carlos Prezado.
Longa vida ao MEU GRUPO DE XADREZ DO PORTO.

Passei minutos largos a pensar no Grupo. 79 anos não se conseguem pesar em nenhuma balança de afeto. Pode-se olhar o Grupo de Xadrez do Porto de fora, ou pela parte de dentro. Pela parte de fora e solar talvez seja o mais fácil: a História, ou as Estórias, os troféus, a competição, o património e tudo o que foi o património material e imaterial do Grupo. Da parte de dentro, talvez a da chuva intima, e essa por sê-lo molha e cola-se ao silêncio de afeto, a esse túnel imponderável e insondável da memória, que mesmo doendo algumas vezes, talvez seja o que melhor vai resistindo à erosão dos sentimentos.


Comovo-me assim a leste de mim, lugar onde nunca faço férias de quem gosto e do que gosto, e comovo-me dessa torrente cascata de pensamentos que num gesto de alquimia transforma o ontem no agora, o banal no rico oiro do dia, o acontecimento fortuito na força motriz da vida de uma instituição. E comovo-me, nem que seja pelo riso, pela interior gargalhada sonora, pelo lampejo luminoso de uma recordação doce como algodão.
Paro o tempo, escolho de memória, mesmo do conhecimento, um tropel do passado e não é difícil, manejável, dócil, e reversível como é o tempo da memória, que o real, esse tique taque de relógio irreversível onde se perde sempre para o tempo.


Faz-se silêncio cá dentro e de súbito…descem as calças do Aristides para umas costureirinhas que não o sendo da Sé, mas de Passos Manuel, lá se ficaram de agulha na mão entre o ai jesus católico apostólico romano, ou quem sabe entre a visão mais ou menos celestial do visionado. Uma coisa é certa, ou pelos dotes artísticos e exponenciais do “Stripper Arestaides”, ou pelo pouco tempo do espetáculo, houve queixa às autoridades competentes, nomeadamente à provecta e honrada Direção do Grupo quem em douta reunião aplicou o respetivo esfriamento a sócio que tão acalorado andava. Que aprenda esta e futura direção: calças abaixo, punição adequada acima! Apesar de não gostar de ficheiros secretos, uma coisa me intriga ainda hoje neste momento sexual esquístico que nem o Blogue do Kevin consegue igualar: afinal, o que é isto? O Aristides baixou as calças, mas… não tinha cuecas!? Ou baixou as calças e as cuecas? É que uma coisa é uma coisa e outra são duas! Na investigação deste processo, não consegui resolver este mistério intrigante, e uma Direção que se prezou em julgar e atar este caso, deveria ter levado a investigação a este grau de perfeição antes da aplicação de pena. Comigo, com cuecas e tudo, duas semanas de castigo no Meco, só calças, obrigação de mostrar agora cabelos do peito a peixeiras do Bolhão!


Mais sério agora: vejo alguém a levar a mão à boca, meio grogue, e a encostar-se a um bilhar sem fazer como se diz no Porto “ dar a volta ao bilhar grande”, que por acaso era dos grandes e aquecidos onde o Ferraz até tinha caramboleado, mas grogue sim senhor, porque Mestre Mário Machado, na sua raiva ou de não ter sido convidado para uma sessão de boxe no Palácio de Cristal, ou de no xadrez não gostar de empatas, tinha acabado de pregar um autêntico “uppercut” num distinto senhor que lhe andava a aguilhoar o juízo e a dar cabo do Grupo. Disse uppercut, mas deveria antes dizer uma “pera fegatelliana” com molho de francesinha e  com mate K.O não sei em que round!

Silêncio agora, mas mesmo silêncio. Jogam duas venerandas e idosas figuras; uma daquelas partidas com resultados anotados, não estilo pauzinhos de sueca, mas naquele estilo ressentido e ronha de ontem f…hoje vou-te f.eu! Largo os olhos do meus Botvinnik, e reparo que a figura de costas, sub-repticiamente tenta meter no tabuleiro um peão que estava de fora, comido que tinha sido, mas com um mindinho habilidoso, lá tentava a arte da ressurreição da peonagem assassinada, mas qual o meu espanto, o de frente tentava com falatório distrativo para o seu adversário, rodar o manípulo do ponteiro do relógio, coisa de ratito, que o mindinho habilidoso, mas olhar de coruja, topou. E vociferou,  e ameaçou, e outro respondeu historiando outras “mindinhices” históricas, e o mindinho pediu ajuda aos colegas anelares, e polegares, e só não chamou os dos pés, porque sapateados, e pegou na muleta que estava no seu lado direito e ergueu-a bem alto, qual estandarte de Aljubarrota e o outro meio encolhido lá foi para trás da cadeira, qual trincheira defensiva e…eu a intervir como a crianças de infantário desavindas e a ameaçar de tau-tau e a explicar que tudo não tinha passado de um mal entendido, e que se calhar o mal entendido tinha sido apenas arranjar o relógio, e que o peão tinha sido no fragor da luta também sem querer arrastado para as 64 casas. vermelhos, quase babados, lá acalmaram. E foi numa partida ocasional daquelas ao início da tarde de um dia de semana.


Barulho outra vez, mas longínquo, cadenciado, ritmado, amaciado por borracha a bater em madeira. Fim da tarde, sala silenciosa. Contava, um..dois…três… quatro, infindáveis minutos, até que quase cem anos entram na sala e dois sóis de olhar irradiam felicidade, O barulho, eram as muletas que penosamente apoiavam um esforço hercúleo de subida de poucas escadas para alguém já muito debilitado. Sentava-se, olhava deliciado para as paredes, os móveis e mexia prazenteiramente as peças de madeira. De súbito e em contraste, passos apressados, de procura, angustiados, galgadas num ápice as velhas e carunchosas escadas. Entrada ofegante na sala e olhar de reprimenda para o velho ancião. As palavras sem maldade, mas a medo: outra vez Pai? Já lhe disse que não pode fazer isso, sair de casa sozinho, da maneira como está! Vamos lá para casa! Era. O Mestre Faria, fugia de casa com quase cem anos, apanhava transporte, e vinha para o Grupo de Xadrez do Porto, mesmo já com muitas dificuldades físicas. Percebi que queria levar o Grupo com ele na sua partida. Era tão dele o GXP, como o era o seu já fraco respirar. A tudo assisti, lume dos meus olhos, fulgor de coração que ficou para sempre Mestre Faria.

Ainda o silêncio, agora de ambiente de torneio. Aproximava-se o controlo de tempo. Um rapazito ainda adolescente parece manejar com facilidade da idade a angústia do levantar do ponteiro, o seu adversário, já quarentão, não. Branco, nervoso, agitado, olha com terror para o tempo que se esvaía, para o tabuleiro agora, outra vez para o relógio, outra vez para o tabuleiro e joga uma peça com velocidade vertiginosa, o seu adversário esboça um sorriso e com decisão próxima da arrogância, ganha uma peça. Caro de pavor absoluto, um olhar mais para o relógio, segundos a escoar, vai jogar…não joga, porque o seu adversário sonoramente avisa “caiu!”. Não há cumprimentos. O que perdeu (e sabia que ia perder, porque havia um complexo que o levava sempre a perder com este adversário) levanta-se lívido, branco da cor da gabardina que tinha na mão, quase autómato. Não sabe o que dizer ou fazer. Lia-se a frustração toda do mundo no rosto, na postura. O que ganhou sorri aberta e francamente, enquanto balbucia que teve sempre a partida ganha. O outro ouviu, irritou-se, disse algo que me pareceu “você não sabe ganhar, seja bem educado” e vestindo a gabardina de supetão, pega no seu livro de xadrez da Batsford e sai como um raio pela porta fora. Os seus passos de raiva, faziam ranger as escadas do GXP. Foram os duelos mais encarniçados e titânicos (talvez só igualados pelos a feijões” e estilo bisca lambida entre o Pinho e o Castro, ou os rapidinhas de rachar lenha entre o Silva e o Paulo Ferreira) que assisti na minha vida. E diga-se que o perdedor era dos jogadores mais corretos e afáveis que conheci, enquanto o ganhador era uma força de vida e gosto pelo xadrez. A ambos o destino foi cruel, ambos nos deixaram nesta crua e fria senda do quotidiano. Que saudades Sílvio Santos! Que ternura na minha saudade, caro Bernardino Passos.


Uma figura sorri para ninguém, abstrata no seu mundo interior. Fuma o cigarro numa forma muito característica de sofreguidão. Revira ligeiramente os olhos e continua a sorrir. Figura estranha. Alto, calças à rega milho, nariz com curvatura pronunciada, quase adunco, olhos nervosos, inquietos que fixam tudo no nada. Olha o tabuleiro, balbucia qualquer coisa enquanto o seu adversário medita. Impávido, o seu adversário medita,  no cansaço, tira os óculos, coloca-os fechados no lado contrário ao do relógio.   O outro continua a sorrir agora para os óculos, como se inertes fossem dois olhos vazios que o olhavam e, de súbito, levanta-se, pega nos óculos do seu adversário, coloca-os no chão e..salta, uma , duas vezes, desfazendo-os em bocados. Pega neles, coloca-os no sítio onde estavam, senta-se, coloca as mãos no rosto e começa a analisar a posição. O Gilbert, o Jaime cujo mundo impenetrável se tornou o seu castelo de rei de curto reinado. Tanto lhe deveu o Grupo em êxitos no tabuleiro.


E a calma, a ponderação, a suavidade luzidia como a sua calva do senhor Carvalho? E aquela voz melhor do que cantor do Metz em ópera de gala que mal me encarava me dava as boas tardes com aquele sorriso grande, aberto, de Homem-Bom e a célebre frase“ Então Amizade, ainda de corpinho aberto” ?  E um dos meus Mestres, o Machado? Aquele sorriso maroto de “quem a sabia toda”, de quem muito andou e muito para andar, de quem mais consegui sacar o sumo do amor à História do xadrez, do gosto pelos finais, das boas e ternas conversas, das análises de partidas de fim de tarde de sábado, das nossas discordâncias sobre os atributos não xadrezisticos da Kosteniuk, de ele achar o site do Kevin, bom, e eu, no xadrez sim, no resto nem por isso. Das raríssimas pessoas que ainda me conseguiu restituir um xadrez límpido, cristalino, puro, do antes das resmas de variantes e de conhecimento balofo, como o senti com 14, 15 anos no Palladium.

E o…”Pinho da Lixa” que há trincha ou brocha lá nos fazia ter saudades da parede suja antes das obras? E a ajuda entre o esburacada-desastrada do trolha Castro, que queria fazer das paredes da sala do Grupo queijo  suíço?  E homem dos andaimes? Tenham medo, muito medo andaimes que o Rogério vem aí! E o choque dos electrochoques na instalação da eletricidade da sala do Grupo- aquilo ou ia a bem ou a berbequim ou a car…, mas ia! A ele, ao Rogério até a eletricidade tem respeitinho. E melhor que o fazedor de milagres, o fazedor de tabuleiros do Grupo?

E na História do Grupo, as não poucas vezes que durante Assembleias Gerais, quando um ou dois sócios iam tomar café, quando voltavam, estavam nos órgãos dirigentes, mesmo sem estarem em lista ou quererem? Não havia, arranjava-se! E “ quem vai à guerra, cargo leva” ! Por isso aviso: nas Assembleias Gerais, não saia do seu lugar!
E o querido Velez Grilo que começava no Alekhine, passava pelo Kasparov e terminava na Faculdade de Engenharia e terminava na eletrificação da Ponte da Arrábida ?
E o Brandão, num programa televisão a deitar faladura da boa sobre o G.X.P, mas com um cenário que parecia a Televisão da Coreia do Norte?
E as vezes que o Grupo serviu para muita coisa e Vª Excª(s) não têm nada com isso, até para um rapaz entrar no GXP pelas três da tarde e ficar a dormir até ao dia seguinte com o seu computador portátil Kasparov?
 E o homem do anel dourado no dedo, que por vezes nos visitava pela tarde acompanhado da sua madame pompadour de ataque?
E alguém que tinha uma tara de roubar só uma peça de um jogo, ou a mola de um cinzeiro? E aquele som característico entre o afogado e o arrotado do autoclismo sanitário do Grupo? E aquela lâmpada diferente das outras num arremedo de “uma diferente todas iguais” o Grupo pela integração? E a cera de abelha que aumentou a produção devido a um tarado encerado? E los Romances do Grupo? Bem, estou a referir-me ao do Mário Marques…que pensavam?
E…tanta coisa.

Morro-me de tristeza, ressuscito de alegria. Como a vida do Grupo.


Para um tabuleiro de 79 casas

No coração queima ainda o lume,
Alado Cavalo no tabuleiro,
Salta, sonha inteiro
Da ambição suprema, o cume.


Vida longa, vastidão de horizontes,
Sólida Torre de esperança
Coluna, esteio, perseverança
Vida pouca, com tamanhas fontes


Peões de serviço, sem anseios de promoção
Vida, tabuleiro de lembranças
Movimentos, perdas, ganhos, esperanças
Estamos, vamos, outros continuarão


Reis assim seremos, esfarrapados,de joelhos
E habitados de sonho acreditado
Continuaremos o caminho continuado
Como o sol, nunca nos cansaremos de ser velhos

A.V






14/09/18

O PINHO...O meu Presidente



Amanhã, se tudo correr bem, o meu Clube de Xadrez, o Grupo de Xadrez do Porto, vai ter uma nova direção.
Digo se correr bem, porque mesmo não correndo, haverá sempre Direção do G.X.P. Quem conhece a história do Clube, sabe que em tempos bem passados e perante impasses, ou não aparecimento de candidatos a órgãos diretivos, durante Assembleias Gerais aqueles que se ausentavam para café ou apanhar ar fresco, quando chegavam, quase por magia, cafeína, ou oxigénio, estavam nos lugares que faltavam nas listas! Era assim e pronto e nem pestanejavam! Belas histórias estas de amor consentido ao Grupo de Xadrez do Porto.


Mas dizia, temos então órgãos dirigentes novos no Clube. Bem, novos não serão, quer pela idade, quer pelo facto de a maioria dos elementos transitar dos outros órgãos da Direção anterior. Digamos que não são bem novos, são uma espécie de novos sendo os mesmos, estilo “ lavados com Extra” – lembram-se?
Existe um elemento da anterior Direção que não vai fazer a transição. Resolveu que chegava e encostou “à boxe”, ou se quiserem, resolveu guardar os “cavalos à la Chigorin” que tanto gosta na caixa do sossego.


Um exercício: Olhem para esta foto. 


Reconhecem-no? Quase como num conto: jovem, cabelos no peito, bigode à Errol Flynn, decisão a capturar a peça do adversário, e…dinheiro no bolso da camisa (10, ou 100 euros?!). Uma estampa, um verdadeiro “espera aí que já te atendo” do tabuleiro.

Olham agora para esta foto intermédia com o nosso querido Velez Grilo. 


Os mesmos cabelos no peito, barba por fazer, e sem dinheiro no bolso da camisa, substituído por uma esferográfica para assinar o que der e vier, nem que sejam alguma dividazita do GXP.

Olhem agora para esta última. 



Apesar do meio sorriso, do peito para fora (e barriga também), os cabelos e barba branca, dos óculos de quem “ Já nem vos vejo bem”, nota-se qualquer coisa naquele rosto. Não notam nada? Mesmo nada?
Ou não amam o xadrez, ou não percebem onde eu quero chegar. Na última foto existe claramente na personagem mais do que a idade que avançou, o caminhar temporal do cansaço, os verdes anos que já eram, num futuro outro que há-de ser sem o dirigismo do xadrez. 

Pois é! O Joaquim Brandão Pinho, o meu Presidente, o nosso Presidente no antes e no quase agora adeus. Que chegava, por cansaço, por outros objetivos, por necessidade de renovação do plantel, porque isto de marcar golos de pontapé de bicicleta na Direção do Grupo e não ter direito a prémio nem gala, não compensa.


O Joaquim Brandão Pinho. Um dos melhores Presidentes de Direção na história do G.X.Porto. Obviamente sem negar mérito aos membros dos órgãos sociais das sucessivas direções que encabeçou, sem dúvida que ele foi o elemento agregador, o jogador ansioso de rápidas na resolução de problemas do Clube, mas também o estratega paciente à espera do golpe tático para obter o melhor para o GXP. Por vezes as dificuldades deveriam ter-lhe surgido com Torres intransponíveis, outras vezes teve que lidar com ziguezagueantes cavalos fossem políticos, dirigentes putativo-federativos, bem diferente dos nossos do tabuleiros que saltitam em L, quando não teve que aturar “bispos” sem dioceses, “reizinhos” e “damazinhas” que abundam no dirigismo do xadrez português e arredores. 

Assim, um excelente Presidente do meu GXP. E quem me conhece, sabe que sou parco de elogios no que diz respeito ao xadrez português. Mas não sou mal agradecido, nem falho de compreensão afetiva, quando alguém como o Pinho deu ao xadrez o que tinha e não tinha ( e a isso não era obrigado), com paixão, dedicação, entusiasmo, e sobretudo com um sentido de dignidade, de abnegação, de entrega , de amor ao Grupo de Xadrez do Porto como poucos. Costumo dizer que uma Direção, um Presidente conseguir manter um Clube como o G.X P vivo durante um mandato, já daria lugar no céu, mantê-lo por vários mandatos, nem pede para entrar… tem lugar cativo.


Não me interessa muito enumerar o que o Brandão Pinho fez pelo GXP, outros que o façam, mesmo com folha Excel. Bastava a nova sede para esta Direção e o seu Presidente ficarem na História do Clube. Podemos discordar de uma ou outra orientação, de uma ou outra opção tomada pela Direção cessante, mas uma coisa é certa: o Grupo de Xadrez do Porto está vivo, e continua. 

Continuando a ser um Clube “Robin dos Bosques”, um Clube cuja pobreza monetária sempre foi seu apanágio, mas de uma grandeza de ser e sentir o xadrez na sua essência apaixonada e intima, de uma História viva , mesmo com o passado presente, que o torna raro e quase único. Um Clube que mais do que físico, quando se ama, entranha-se na alma a ferro e fogo, quase como identitário da nossa personalidade. Um Clube onde não há “croquetes” xadrezísticos,  mas mais  “tripas à moda do Porto”, mais carrascão da “adega do Olho” que já não há. 

Assim o Meu G.X.P. E o meu Presidente, Joaquim Brandão Pinho, continuou esta saga, que não sendo das estrelas, certamente o pôs muitas vezes a ver das mesmas. Sei o que ele passou nestes anos. O que a família perdeu ( e dava para fazer uma tese sociológica com o título “ Coitadas das mulheres e filhos e netos dos xadrezistas” É que eles tem por amante outras damas e por filhos outros peões), o tempo que dedicou ao xadrez tirando-o do seu lazer, do seu descanso, da sua paz interior tão necessitados estamos dela nestes tempos que correm, das canseiras e moideiras que um Presidente mesmo de um pequeno Clube como o G.X.P deve ter tido para lhe assegurar o sangue vital da sua sobrevivência.


Depois…depois há o Joaquim Brandão Pinho, que para mim será o “Pinho da Lixa”, porque só a garrafas do verde de nome, eu, o Rogério e Ele conseguimos fazer as obras quem nem de Santa Engrácia da sede de Passos Manuel, ainda por cima agravados pelos buracos do Castro. Há o Pinho dos matches titânicos de rápidas, a apontar tipo sueca e tudo com o Castro, há o Brandão Pinho cujo sorriso desarmante…desarma, o Pinho e a sua bonomia, o Pinho e a sua simplicidade, a boa vontade, a incapacidade de se chatear a sério e eternamente com alguém, o Pinho que dá uns toques valentes no xadrez por correspondência e toques menos valentes no não por correspondência, o Pinho que ama o xadrez por aquilo que ele é e nada mais. 


Não sei se o Joaquim Brandão Pinho deu muito ou pouco ao xadrez nacional, ao meu GXP deu muito, mas muito mesmo. Sei que não precisa de homenagens, nem foi a vaidade, nem a ambição (apenas e só a de servir o GXP) que o moveu e conhecendo a sua simplicidade, quase que me apetecia citar-lhe um poema da Dickinson:


Não sou Ninguém! E tu és quem?
Ninguém - Também?
Então somos um par?
Não contes! Podem espalhar!

Que enfadonho ser – se Alguém!
Como uma rã- que passa o junho todo –
A dizer o seu nome – publicamente
A um admirador, o Lodo!

Assim, Amigo Joaquim Brandão Pinho o meu obrigado pelo que serviste o G.XP, e neste meu obrigado, penso que se revêm muitos sócios do GXP. Saímos todos bem na fotografia, Tu principalmente que conseguiste dar seguimento a uma História de um Clube de emoções, afetos, aflições, apertos, enganos/desenganos, alegrias,  mas uma História que há-de continuar para corrente vida e memória futura.

O resto? Vamos andando por aí, Caro Pinho para o quer der e vier do nosso G.X.Porto, seja uns escritos, uma rápidas, o xadrez por Correspondência, a cavaqueira ocasional de um ou outro sábado de tarde. Quem sabe se ainda te vais dedicar ao colecionismo de xadrez… quem sabe?! Pronto lá vai a tua família fazer-me em “francesinha à moda do Porto”, por esta ideia.
Abraço apertado e cheio de afeto xadrezístico
Do Arlindo
A foto que mais gosto da tua "carantona" e que tem direitos de autor, só para se saber, não vá alguém "faná-la" para alguma revista da FPX. O teu sorriso franco, desalmado, estilo Bolhão, é uma maravilha!



 

10/09/18

AO MEU MESTRE: ÁLVARO MACHADO








Abri  o correio eletrónico por voltas das duas da madrugada.
A notícia, como pedra no meu ser através de um mail do Presidente do GXP. O Mestre tinha falecido.
Nessa madrugada uma violentíssima trovoada daquelas das antigas. A minha esposa na sua dureza: O Mestre por tu não o teres visitado, e algumas vezes to pediu. Eu, quase a abençoar o tonitruar para esconder a minha dor, abafar o grito mudo que bramia cá dentro. Sabia que tinha de ser, que haveria de ser, mas…tinha de ser antes de eu ter tido com ele um último encontro?
Por isto, por aquilo, por nada, por medo de o ver muito enfraquecido, da tristeza por ter perdido a Sua Senhora ( conhecia-a, e que Grande senhora que era) esposa de uma vida, longe da jovialidade, daquele sorriso tão xadrezisticamente puro e apaixonado dos inícios da aprendizagem do xadrez, por não poder frequentar a nova sala do GXP devido às pernas que já não lhe obedeciam, no fundo por cobardia minha, por egoísmo afetivo, já que tinha guardado o Mestre Álvaro Machado num cofre tão profundo e aferrolhado de afeto onde guardo as coisas e pessoas ,  ou porque o sempre quis centenário ou um pouco além, ou talvez inconscientemente  talvez o começasse a achar imortal.



Quem Foi o Mestre Machado? O Que deu ele ao Xadrez? Qual o seu papel no Grupo de Xadrez do Porto?
Em 2011 escrevi neste meu blogue um longo artigo sobre o Mestre. Que dizer diferente do que lá escrevi? Sinceramente não sei mesurar o que o Mestre Álvaro Machado deu ao Xadrez Português, ou ao GXP, mas sei o que me transmitiu, o que com ele aprendi, as doses de humanidade, simpatia e amor ao xadrez que eu percecionava nos seus olhos, nas suas mãos quando mexiam uma peça, no sorriso sarcástico sem deixar de ser afetivo que exibia quando descobria uma nova variante numa análise, num final.


Ao Grupo de Xadrez do Porto deu muito, quer como jogador , como dirigente, como árbitro mas sobretudo como uma forma de ser e estar quase contínuo ao longo de anos e anos na nossa sala, na nossa maneira de ser GXP. Fui dirigente durante quatro anos e a presença do Mestre Álvaro Machado todos os sábados era religiosa. O seu carisma, a sua simpatia, a sua forma de olhar o xadrez e a realidade xadrezista eram para mim um lenitivo para continuar, para não desistir das dificuldades. Devo-lhe tanto. Como me lembro da sua alegria pela renovação da Sala do GXP de Passos Manuel, como lhe agradeço as sugestões de salvaguarda do Património do Grupo, como ternamente lhe agradeço os elogios com que mimoseava a mim e a Direção pelo trabalho realizado.


Deixou cedo a competição, hoje percebo porquê. Apaixonou-se por um outro tipo de xadrez, longe da competição, mas tão apaixonante como ela. A beleza da partida de outros, a análise, o amor muito particular a uma fase do jogo-o final, o ambiente de convívio do xadrez, o Grupo de Xadrez do Porto como entidade viva e interveniente no xadrez nacional. Tinha uma mágoa: o não ter sido campeão Nacional efetivo no título coletivo ganho pelo nosso clube, pois tinha sido suspenso do Grupo, porque já no Palladium já tinha aplicado uma "pera" bem atestada a um dirigente que queria destruir o Clube numa gestão ruinosa do Grupo. Ouvi-lhe  várias vezes esta história contada com um humor muito próprio “ à La Mestre Machado”, mas onde escondia essa mágoa de não ter ocupado o tabuleiro que lhe era devido nesse título de 53.
Que era um forte jogador não tenho dúvidas, até pelas partidas que dele fui conhecendo. Um Jogador de Categoria de Honra claramente, mas que por razões que aduzi, aliadas a outras, deixou o xadrez de competição cedo demais dedicando-se a outras atividades, desde organizador de torneios, passando a planos de desenvolvimento do xadrez para trabalhadores, ou mesmo a arbitragem – e relembro que foi árbitro do Zonal para o Campeonato do Mundo  de Xadrez disputado no Algarve em 69.

 Sempre presente e atento (Encontro internacional do GXP com jogadores/trabalhadores dos Correios Suíços)

Que amava o xadrez como poucos, disso é que não tenho dúvidas nenhumas. Já doente continuava a frequentar sites de xadrez, a acompanhar o xadrez internacional. Ainda Há poucos anos procurava manobrar o Chessbase, obter revistas eletrónicas, e lembro-me como gostava dos artigos do Nicolai Minev, ou do Seirawan, os os finais de Mednis. Quer a mim, quer a outros colegas, pedia frequentemente CD com material diversificado de xadrez, sendo os finais a grande paixão.
Tinha uma cultura xadrezística bastante forte, e a memória dos acontecimentos do xadrez português e do GXP muito ativa. 


Vai para 4 meses recebi um seu telefonema. Difícil a comunicação pelos problemas auditivos que tinha, mas lá veio a saudade e tristeza imensa pela perda da sua esposa, e o desabafo que as pernas lhe estavam a dar problemas, mas a confissão que o xadrez ainda era o seu passatempo, o seu passar dos dias e que me queria ver para ver uns finais comigo e tirar a dúvida se houve um ou dois campeonatos nacionais de juniores no Porto. Que tinha saudades minhas….depois de mais umas palavras quase gritadas, despedimo-nos. Como me senti , não conto, exceto o que me correu pelos olhos abaixo.


 (Estes olhos vivos que refletiam xadrez e sorriso inesquecível)
 
O Grupo de Xadrez do Porto deve ter algum elixir especial de amor ao xadrez que leva os nossos idosos jogadores a amarem de forma infinda o xadrez, mesmo no fim da vida: o Mestre continuava a ter o xadrez como companhia terapêutica no seu ocupar dos dias, o Mestree Faria fugia de casa sozinho já perto dos 100 anos para vir para a sede do Grupo em Passos Manuel, etc., etc.
Morreu o Mestre Álvaro Machado. Morreu alguém muito, muito especial no Xadrez do Grupo, do Porto e mesmo nacional. Morreu um Homem que amava o xadrez como raramente se ama um jogo, e que lhe dedicou muito de tempo e afeto e quem ama assim o xadrez só pode ter o céu por destino, nem que seja o céu de Caissa. O Grupo de Xadrez do Porto várias vezes mostrou o seu carinho, o seu agradecimento ao Mestre Machado pelo seu papel na vida do Grupo, mas mais do que isso, importa que o Grupo mantenha vivo aquilo que Mestre Machado personificava: a simpatia, a jovialidade, o acolhimento, a paixão de e pelo xadrez.
Morreu-me o Mestre Machado. No Xadrez muito do que hoje sou, do amor ao xadrez,  a ele o devo e por isso não tenho qualquer pejo em afirmar que ele foi para mim no xadrez uma espécie de Pai, de Companheiro de Paixão por estre bruxedo que se chama xadrez. E não chamo impunemente Pai ou Mestre a qualquer um, acreditem.


Caro Mestre Álvaro Machado, Não fui ao seu funeral. Não consegui. Também não foi preciso, porque não morre quem vivo em mim continua. E como já não tenho idade para novos Mestres, o Machado vai continuar a ser o meu Mestre no xadrez. Caro e Amigo Machado, fui buscar as minhas melhores peças e vou rever o final de Capablanca com Vidmar de Nova Iorque 1927, que você gostava tanto e no qual passamos horas no nosso GXP com o Machado a tentar várias vezes salvar o Vidmar com variantes que nem estavam no livro do Chernev, com aqueles olhos vivos e profundos, com aquele sorriso maroto, belo e poético.
Vou ter saudades suas, ai que não vou, mas enquanto por cá andar muita gente há-de saber quem foi o Mestre Machado. Já agora…reserve-me aí umas peças bonitas porque quando partir, tenho aqui um livro giríssimo do Dvoretsky em que ele mostra que muitos GM atuais de topo não “vêm um boi” de finais. Pronto… Lá lhe estou a ver esse sorriso desarmante do estilo “ eu bem lhe dizia, Arlindo!”.
Até já, Meu querido Amigo e Mestre, Álvaro Machado. Sei que está em paz, porque era um Homem bom!

 Duas lendas do GXP - O Meu Mestre e o Mestre Faria

Escrito no Facebook do GXP  e insctito cá dentro  para sempre.

20/06/18

1978-Fotografia e saudade

Escrevo tanto sobre outros no xadrez, que me esqueço de mim, bem…não será bem assim porque já mostrei neste blogue como fui um jogador fraquinho, já mostrei partidas minhas com o Ochoa, o Martinho, em que fui  literalmente reposto na horta do xadrez, onde não saí de nabo, e como no final de um nacional absoluto e único me apercebi que estava a perder tempo em demasia com o xadrez, numa ambição sem nexo, que sabia impossível atingir. Alguma coisa me dizia…fica-te por aqui, fica-te por aqui, aproveita o tempo que gastas no xadrez para outras coisas mais importantes que o xadrez. Assim fiz, recolhi-me ao templo de saber que não iria a lado nenhum, e curiosamente outro começou a surgir ligado a um lado pouco amado e conhecido do xadrez: o colecionismo. Templo de paixão que se mantêm intacto  vai para 40 anos.


Esta foto é simples e descobri-a há dias num caixa de plástico com muitos anos. Péssima qualidade, de uma daquelas Pocket 110 de  rolo, mas que me causou uma emoção profunda e conseguir por o lado memorialístico e emocional do meu cérebro a funcionar.
Reconheci-os logo: jovens que eram, jogadores de cartas de bisca lambida ( e ainda bem, porque as cartas vieram a destruir muitas vidas futuras de malta do xadrez, acreditem! Bem... parece que no passado também), percebi logo o local e porque ali estavam, estávamos.



Mata do Jamor – Centro de Estágio – Preliminar do Campeonato Nacional Absoluto de 1978 que se jogou nas instalações magníficas da Móbil Portuguesa em Lisboa de 6 a 15 de Agosto. O Centro de estágio era a casa de acolhimento do pessoal não “capitalizado” e não tive, nem tivemos razões de queixa.
Como não reconhece-los? O JOSÉ AZEVEDO (Espinho), o ANTÓNIO FERREIRA (Guarda), o LUÍS QUARESMA, O FERNANDO CASTRO , O NELSON SIMÕES ( Leiria, mas não tenho a certeza) e também sem certeza, o ANTÓNIO CAMPOS-ou FREDERICO FERREIRA

A todos o torneio correu muito mal, tal como correu ao Firmino, ao Rodolfo Lavrador, ao meu amigo de F.C.Porto – José Abrunhosa, ao Vítor Morais , mas por acaso ao António Ferreira e a mim correu-nos bem porque ocupamos o 10º e 11º lugar que por impossibilidade  do Palhares, de um dos Pereira dos Santos me levou à final do XXXIII campeonato Nacional disputado em S. João da Madeira de excecional organização e do qual já muito escrevi neste blogue.


Não joguei nada mal. Em 9 jornadas apenas perdi com quem haveria de ser…com o António Fernandes, no que poderia ter ficado para a minha história pessoal xadrezista: uma vitória arrasadora com quase mate e tudo, mas perdi…temos pena! Empatei numa partida interessantíssima com o Luís Santos, o vencedor, empatei com o António Ferreira e obtive algumas vitórias fruto da teoria, melhor de ter marrado montes de teoria. Antes desta preliminar, quase tinha devorado o Livro de Euwe sobre as defesas Indias, o do Cherta sobre a Paulsen, e andava doido com o a3 na Nimzoíndia. Tudo decorado a esmo, a martelo, sem compreensão de nada, com umas armadilhas pelo meio e tudo em que um ou outro meu adversário caiam e me davam a vitória quase de caras. Claro…valeu-me de um grosso esta metodologia no Nacional Absoluto, ou melhor valeu…batata de todo o tipo e feitio.



Que bom ter encontrado esta foto: Que bom hoje nos nossos cabelos brancos saber que já os tivemos escuros e que se calhar o xadrez e a paixão do xadrez continuam intactas como naquele Agosto de 78. Do Azevedo, do Castro, do António Ferreira sei que estão bem, e os outros? Quando olhei para a foto a ternura foi enorme, como enorme a prece de estarem vivos e de saúde. Devo tanto a esta miudagem da altura! Muita da minha construção como homem passou pela construção xadrezística que o contato humano me proporcionou, nem que fosse nas memórias longínquas, mas sempre afetivas de hoje. Obrigado, Amigos do Xadrez.