XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

16/04/17

LIVROS DE XADREZ...





Não, não vou dar nenhum! Quer dizer, qualquer dia dou os de Aberturas ( não os do Pachman que são afetivos), mas as porcarias inglesas que fui comprando só para ver como eram escritos e a honestidade de quem os escrevia.



“O subtítulo diz um pouco mais, não dizendo completamente tudo. Será um blogue, o Meu blogue de xadrez, mas com os quase 40 anos de experiência na modalidade, sem qualquer tipo de dúvidas que o será de “canteiro”, de nicho se quiserem, “para muitos poucos”, para um grupo restrito de xadrezistas nacionais e, se calhar, alguns de língua portuguesa espalhados pelo mundo que se interessam por um tipo de xadrez que anda praticamente arredio da Web, das revistas, das discussões comuns dos jogadores de xadrez, ou seja, os livros e a crítica de livros de xadrez, as peças de xadrez, a História do Xadrez, as estórias, a fotografia, os grandes jogadores de xadrez de canto de enciclopédia, as curiosidades do xadrez, as memórias afectivas de um determinado xadrez português. Só isso nada mais!”


Foi assim que me apresentei em 16 de abril de 2009, ou seja quase há 8 anos, tantos como os de vida do Xadrez Memória. Nada retiro, nada tenho a lamentar. De tudo o prometido, muito cumprido. Posso afirmar que a ideia inicial passava por um peso muito especial nos livros de xadrez, na crítica aos livros de xadrez, todavia desde muito cedo percebi que se ia por aí, nem de canteiro seria o Xadrez Memória. Livros de xadrez? Que se comprava, que se compra de literatura xadrezista em Portugal, o que se lia, e se lê no que diz respeito a livros de xadrez no que diz respeito ao jogador de xadrez português? Que paixão existe pela leitura de livros de xadrez? Pela experiência dos jogadores do meu Clube de Xadrez, e pela completa secura sobre o tema nas poucas páginas Web de xadrez, não me foi difícil percecionar o óbvio: o quase grau zero de leitura, a inépcia vazia das estantes com livros de xadrez dos Clubes, e dos próprios jogadores. Corrijo: alguns livros existirão sobretudo ligados à competição, sejam Informator, Yearbook, Aberturas, fossem das editoras da moda: Everyman, Gambit, etc (passe a publicidade), ou revistas espanholas, uma ou outra Europe Échecs, e num outro ou outro jogador mais “cultivado” a New in Chess”, todavia desde muito cedo percebi que com o advento fortíssimo da Informática e dos produtos informatizados, principalmente dessa grande empresa “que deve dar de comer a muita gente ”a ChessBase” faria a delícia não só do jovem aspirante a GM, como do patzer xadrezista que sonha deixar de o ser no xadrez nacional, e como tal escrever sobre livros de xadrez que ninguém compra, que ninguém lê, seria como escrever sobre gelo dentro de um frigorífico. 

Claro que cheguei a comprar ( e a fazer download)  de alguns livros de aberturas das editoras citadas, de GM de mais ou menos aviário, ou nomes sonantes, mas bastou folheá-los para perceber quão inúteis eram, quão “engana papalvo” a quem se destinavam, com que frivolidade se escreviam, como que pasmo se passavam bases de dados/reportório para papel, com apreciações de “engines”, como se fossem análises próprias e como rapidamente se desatualizavam. Percebe-se que sabendo trabalhar com ChessBase ou Chess Assistant, se pode construir um Reportório de aberturas e atualizá-lo, e como uma grande parte de livros de aberturas se tornam dispensáveis, e como o “marketing” poderoso e insinuante das editoras junto dos jogadores de xadrez os fazem quase “Bíblia” para se ser alguém no Clube ou na competição. Com capas por vezes a roçar o abjeto, com títulos entre o estúpido e o cabotino “ Smash”, “Killing”,” Winning”, com autores a prometer o paraíso-ganho com e4, para depois prometerem o mesmo ao contrário com e5, com escrevinhadores a escreverem livros como eu tomo cafés, a literatura de aberturas transformou-se num “maná” , ou talvez não, porque os saldos mostram o que em armazém vai ficando, um filão de prometer paraíso, e que perde gente jovem e carteiras.


Não, o meu galho em livros de xadrez é outro, outro mesmo. Digamos como este blogue, um canteiro, um nicho, uma biblioteca rigorosamente selecionada segundo preferências temáticas é certo, mas também pela qualidade, categoria dos autores ou crítica avalizada de quem a sabe fazer -e no mundo do xadrez, poucos, muito poucos mesmo sabem fazer crítica de xadrez – ou por descoberta ocasional, ou sugestão de amigos estrangeiros.

Perante o que afirmei, percebe-se que as Biografias, as Coleções de Partidas, Os Torneios de Xadrez, os “Clássicos”, a História, ocupam parte das estantes da minha biblioteca, que não sendo gigantesca, ( bem pobre em número de  volumes , diga-se) nem atrita a edições raras, ou caras ( nem tenho dinheiro, nem me interessa!), é minha por escolha e paixão. E como gostava de partilhar ideias, críticas, gostos sobre livros de xadrez! Com quem? Em Portugal? Onde, quando? Quem tem a coragem de escrever sobre o Livro de Paul Keres recentemente editado em Inglês ( Só agora!!!) World Chess Championship 1948”, quem me pode informar sobre a reedição aumentada e em algébrico do Livro de Rudolf Spielmann The Art of Sacrifice in Chess”?  Já sei, bem posso esperar sentado! Se calhar mais de 90% de jogadores portugueses nem sabem a que me estou a referir, quanto mais descobrir uma página Web, um blogue, um site onde o meu sonho se concretizasse!?


Escrever sobre livros de xadrez para quem e porquê, se pouca gente lê, se quase ninguém se interessa por livros de xadrez com as temáticas que apontei, se miúdos, menos miúdos e até graúdos se acham os maiores do mundo, que estudar Capablanca, ou as partidas de Lasker, Alekhine, Rubinstein ou o Torneio de Karlsbad 1907 nãos serve para nada, não interessa nada, não contribui para o progresso xadrezístico, quando ainda por cima, nem sequer vão ser emparceirados “com esses gajos” que não jogavam a “ponta dum corno” e que hoje até perdiam na “boa com um maduro de 2200..ou menos”!? Pois…acho que sim! Há ganza mais barata, lá isso há!


Assim, a primitiva ideia de escrever sobre livros de xadrez quando iniciei este blogue. E tive bons mestres quando comecei a compor a minha biblioteca xadrezista. Foram eles que avivaram de alguma forma este gosto sempre crescente pela boa literatura de xadrez. Edward Winter e a sua implacabilidade sobre os falsos autores e livros mentirosos sobre xadrez e história do xadrez,  John Watson, Jeremy Silman, Donaldson, o Kevin Spraggett e o seu velhinho site canadiano com as suas sugestões de “Clássicos”, Alex Dunne e o seu “Great Chess Books of the Twentieth Century in Elglish”, todos eles ( e mais alguns)  foram os causadores de alegrias de coincidências de gostos, descobertas e claro…menos dinheiro na já pobre carteira de professor português.


Preparem-se pois…tenham medo, muito medo, porque hei-de escrever sobre livros de xadrez! Quer dizer, dos poucos que me leem sabem que já escrevi sobre livros de xadrez relacionados com Fisher, Lasker, Second Piatigorsky 66, etc, , mas retornarei à carga! 

Por falar em livros de xadrez, em cultura de xadrez: não se esqueçam do recente e excelente trabalho de ensino de xadrez na BMP, acompanhado de não menos excelente trabalho de paixão e pesquisa de personagens gradas do xadrez nacional que começou com a figura ímpar de cultura xadrezista ( e não só) do Mestre Rui Nascimento - " A Arte da Composição em Xadrez" - Breve antologia  de autores portugueses" , que o Daniel Quintã está a realizar. Bem haja!





11/04/17

LUIÍS OCHÔA 2






Já passaram dois anos do seu falecimento. No artigo que lhe dediquei lamentava não existir nenhuma foto decente do  Ochôa  como jogador de xadrez. Coloquei a minha partida da 4ª sessão do Campeonato Nacional Absoluto de 1978, jogado em S. João da Madeira, onde era visível a diferença de força xadrezista entre um primeira categoria e alguém que era um bocadinho mais do que isso, e nem preciso de identificar quem é quem, porque o resultado diz tudo.  Depois…depois, os amigos do costume, aqueles raros que se vão interessando senão pela História do xadrez Português, muito mais pelas memórias afetivas que sobrevivam a qualquer tabuleiro e peças de xadrez. O Cordovil, claro, envia-me a última partida jogada pela Ochôa e que a custo e com dedicatória conseguiu do mesmo, jogada  em simultânea com o Spassky no IV Festival Xadrez de Lisboa no dia 20 de novembro de 1999. Empate por proposta de Spassky, que  de cordial ou combinado teve nada, pois foi partida dura e bem jogada, mostrando o ditado “ quem sabe nunca esquece” aplicado ao Luís Ochôa.





Depois, uma emoção fortíssima quando o meu amigo, e outro apaixonado do xadrez, me resolve presentear por mail com uma foto inacreditável que nem sabia que existia. Exatamente o Ochoa na partida comigo desse Nacional de 1978. Esconder para quê? Uma lágrima rebelde quis sair e eu deixei quando no ecrã do computador me aparece o Ochôa pouco preocupado com a posição que já sentia muito vantajosa e parecia entretido com algo que não descortino ( talvez preparar um cigarro?) e eu, sempre com aquele ar “ciganão” morenaço de farta bigodeira , concentrado ou ensismemado na “pinga” que ia levar com a posição quase desesperada das Negras. Como éramos novos! Como eu amava ainda o Xadrez competitivo, como ainda tinha ilusões de não ser tão “piço”, tão nabo na modalidade, como nos anos oitenta me apercebi. Como acalentava a paixão por um xadrez que ainda não suspeitava que ia morrendo aos poucos, para qual Fénix, renascer noutro, que sendo o mesmo, não era aquele.

Porquê só agora isto no Xadrez Memória ? E Porque isto no Xadrez Memória? Que têm V. Excª, dos poucos que aqui vêm clicar com gosto, dos outros poucos que nem com gosto vêm, só enfado, que não existe aqui variantes, nem árvores de análises, nem Komodo, nem Fritz, nem “ChessBasesantacasadamesiricórdia” nem nada, digo, que têm com as minhas memórias, emoções, se muitos nem sabem quem foi o Ochôa, ou se sabem, querem lá saber?! 

Pois…mas eu quero. Finalmente uma foto do Ochôa como deve ser como xadrezista na Web! Não sei se é muito ou pouco. É. Um passado, um colega de modalidade, um forte jogador, uma boa pessoa que conheci ( e hoje não é fácil encontrar pessoas boas!), um fractal da História do Xadrez Português. Que seja. Para memória presente e futura.
Como sempre, do lado bom do coração onde guardo os afetos, um agradecimento ao Mestre Cordovil e ao Fernando Pinho.

Ah! Já agora nesse artigo referi-me ao Marino Ferreira!Agora que partiu, para quando alguém que o conheceu,  que saiba escrever e goste da memória afetiva, consiga dedicar uns minutos a contar o quanto o xadrez egitanense e português lhe deve?


07/03/17

João de Moura 2

Com a preciosa e sempre por mim agradecida ajuda do Mestre Cordovil, aí vão as páginas que a revista "Xadrez Actualidades, Cruzadismo Bridge" no seu nº1 dedicou a João de Moura. Aliás esta excelente revista teve uma vida curta, apesar das suas excelentes intenções e colaboradores, no que infelizmente não desmereceu de muitas outras e louváveis tentativas editoriais ligadas ao xadrez português, quase todas de perene fenecimento. A entrevista foi conduzida por Álvaro Pereira e Ana Diniz (no concerne ao Bridge). Acreditem que vale a pena ainda hoje refletir sobre algumas verdades intemporais do xadrez português, tão certeiramente apontadas por João de Moura.

 






 




Uma Notícia de Vasco Santos na Revista Stadium sobre a sua vitória no Torneio de Mestres


E talvez aquela que seja a sua melhor partida: a vitória sobre Pomar no Torneio Internacional do Estoril em 1950 





23/11/16

JOÃO DE MOURA e UMA TAÇA



Um troféu. Uma simplicíssima e pequena taça. O ano estampado na quase identificável gravura que a identificava. Vi-a num destes leilões online quase dada e foi logo enamoramento. O anúncio só dizia taça de xadrez. Pelo zoom  da fotografia, e antes de uma limpeza, percebi que tinha a ver com FEDA (Federacion Española de Ajedrez). Depois sem surpresa , o ano longínquo de 1950, o Torneio Ibérico de Xadrez, a taça correspondente ao 4º lugar. Por acréscimo, a perceção de jogadores portugueses presentes, mas mesmo uma rápida pesquisa em sites espanhóis, nada. Bastou virar a cabeça para a estante de xadrez e pegar no livro que tinha comprado vai para anos sobre Pomar ( bela homenagem, diga-se, num belo livro “ Arturito Pomar , Una Vida Dedicada al Ajedrez”, de Antonio Manzano e Joan Vila, PaidoTribo), para ler que o referido Torneio vinha referido na sua  página 109, juntamente com uma partida entre Pomar e Lupi. Pelos participantes e classificação, fácil perceber a quem pertenceu a taça que agora na minha posse. Num torneio ganho por Medina com 5,5 pontos João de Moura tinha ficado em 4º lugar com Francisco Perez no 5º e como tal, seu este troféu. Os outros jogadores foram Pomar e Fuentes (2º e 3º), João Mário Ribeiro, 6º , Lupi, 7º e Jimeno 8º.




Resolvido o enigma. Caminhos ínvios e misteriosos estes ligados a pormenores da História do Xadrez Português a que sou conduzido por improváveis desígnios e cintilações surpreendentes. Outros me tem acontecido.
Como este pequeno troféu chegou às minhas mãos, qual o seu percurso de 66 anos até acabar num leilão online por menos de 10 Euros, daria outra crónica aliciante sobre a forma como em Portugal se desperdiça o património histórico xadrezistico português, seja por desinteresse, incúria familiar, seja pela arte de falcoaria patrimonial escaquística levada a cabo por falcoeiros-mor em determinados clubes de grande tradição no xadrez português (para só falar nesses). O que foi delapidado, desviado,“gamado”, “fanado”, “emprestadado”  em bibliotecas e afins de clubes, por passarinhos e passarocos, abutres e falcões mostra que de “feios-porcos e maus”, não se pode gabar só o Scola. 

Assim este pequeno artigozito de testemunho relativo a um bem forte jogador português , Campeão Nacional por três vezes ( 1940, 1951, 1952) , que alternava períodos de atividade com outros de completo afastamento do tabuleiro, que começou no Grupo de Xadrez de Lisboa, passou pelo Benfica para depois jogar no Grupo Desportivo da Costa do Sol ( e mais não sei, confesso…perdi as revistas da FPX a partir de 44), e sobre quem nunca vi (ou desconheço) um artigo de fundo, uma homenagem como deve ser pelo seu contributo para o Xadrez Nacional ( seja lá o que isso for!).
Assim aí vai, com fotos generosas para guardar, imprimir. O João de  Moura bem merece. Se alguém tiver algo mais sobre Ele (principalmente das RPX, ou outras publicações) agradeço contacto através deste blogue (para lhe enviar o meu mail). Desde já agradecido.









                                                      No G X Porto nos anos 50

                                                               Torneio de Mestres 44

                                                Simultânea no G X PORTO anos 50

                                                                          Da RPX 




 

09/03/16

PROCURA -SE

Sei que foram as peças do Zonal do Algarve, sei que foram as peças do Campeonato Nacional disputado em Ilhavo, sei que foram as peças de Campeonatos de Espanha e de alguns torneios internacionais em Espanha nos anos 70-80.

Alguém tem estas peças ou sabe quem foi o fabricante espanhol? Que são espanholas não tenho dúvidas! Que alguns fabricantes de peças de plástico espanhóis são ou foram : Maxims, Loefer, Geyper, Marigo ou Soler, como sei que as peças , tirando os cavalos são quase uma cópia plástica das Indajesa de madeira.

Dão-se alvíssaras por informações.Obrigado!








09/02/16

RUI ALMEIDA ...outra vez com foto rara

Rui, sabia que ia encontrar. A foto que emoldurava o excelente artigo do Rui Pereira no Expresso de 2000 sobre o Grupo de Xadrez do Porto, os seus então 60 anos e o seu Torneio Internacional.
Estás ali, o terceiro da esquerda. Jogas de pretas com outra pessoa especial, o Pedro Quaresma. Não sei o resultado nem me interessa. O Fernando Cleto, o António Silva e em último plano o José Rodrigues todos do meu GXP ladeiam-te. Boa Companhia, claro. Primeiras mesas do Torneio, só podia. Sempre esse rosto gaiato e sério, sempre. Esse que guardo, esse que fica naquilo pouco de afetivo que fui tirando como me foi  dado pelo xadrez.



16/01/16

RUI ALMEIDA

                                          (foto generosamente "roubada" ao site da FPX)



Não te zangues Rui, porque isto do Xadrez Memória, nem sequer é lido.


“ Eu vinha para a vida e dão-me dias” Ruy Belo, Homem de palavras



Rápido e rude como quem é atacado de garras na garganta.

Neste sudário de tristes dias, a dispensável notícia em amargos olhos de minutos.

Foi para mim proibido amanhecer.

Aqui no quase único café da minha adolescência onde ainda penso, escrevo, sonho, choro, longe da “gunagem” citadina que me estala os nervos, longe dessa praga turisteira que me faz odiar a minha cidade, penso-te Rui. Aqui, onde ainda consigo lamber as minhas feridas do dia, misturando-as com o sal amargo das horas, recordo-te.

Era escusado, Rui, perfeitamente escusado, Rui Almeida a tua partida. Assim não , assim não! Já lá estava no reino de Caissa gente que chegava para um “fechado” de categoria de ternura e, agora tu!? Assim não Rui, assim começa a existir gente xadrezista portuguesa suficiente para um “Aberto” ! Vai para muitos anos foi o Rui Marques, depois o Torcato, o Mesquita, o Carlos Quaresma, o Mamede, o Parcerias, o Durão, e outros de esquecimento e agora Tu!? Gente a mais!

Matrona, cada vez mais invejosa, demasiado portuguesa está a ficar Caissa.

Procurei noite adentro retrato teu na memória fria de discos rígidos, mas não encontrei. Só megas de memória cá dentro da tua pessoa. Teve que ser a foto da FPX. Prova provada que não gostavas de te expor, de te mostrar, de aparecer. Desde miúdo que acho que eras assim. Lembras-te ainda miúdo quando te conheci no Torneio do do Viana Taurino ? Tantos anos Rui! Miúdo, “chavalito” ainda, acanhado, tímido, era o teu pai que falava por ti. Mais tarde, em sala de torneio, numa ou outra partida que contigo joguei e perdi, sempre essa reserva, essa calada maneira de ser, essa calma em azul que te distinguia da verborreia estafada de muita gente do xadrez, ou dos fala-barato de variantes e subvariantes, ou mesmo dos ignorantes do xadrez que eram os maiores da sua rua quando não estava lá ninguém!

Gravei-te assim, impressões digitais da minha memória. Jogavas xadrez e bem, ficaste naquele número fatal do Elo da passagem dos 200 para os 300, porque isto é Portugal e porque pressinto que isso nunca foi tua preocupação. Amavas demasiado o Xadrez para perceberes que talvez atrás do tabuleiro da competição, haveria um outro d’amor d’Ele. Deixaste de competir, de aparecer nos salões de grandeza de coisa nenhuma, começaste outra vida de dádiva, de ensino, de um outro xadrez. Nunca deixaste de amar a coisa amada, disso tenho a certeza.

Poucas palavras trocamos ao longo dos anos, dos nossos encontros no tabuleiro, ou em sala de torneio, todavia as que sussurramos foram sempre de voz doce, generosa, suave, delicada da tua parte. Rui, convenço-me que eras mesmo assim. E sabias de xadrez, mesmo muito de xadrez, para além do repositório bacoco e mirrado de variantes e mais variantes, mas sim do Xadrez, da cultura do xadrez, que como sabias, não era apanágio de muito “rambo” do tabuleiro.

Assim, partiste. Eu para aqui como imagem de remo fixo em águas paradas. Reflexos da imagem de ti, nas peças Staunton, no tabuleiro verde e branco que as suportam, imagem desse teu rosto de miúdo que nunca perdeste, dessa face de “putti” deslumbrada pelo bruxedo do xadrez como a percepcionei em Viana, vai para muitos anos.

Foste, mas recuso aceitar a perda, mesmo que seja pela persistência da errância luminosa de curtas imagens e fugidios pensamentos. Ao escrever-te, vou perdendo um vazio que nunca o foi porque alguma coisa sempre esteve cá.

Já agora, avisa a velha e invejosa matrona Caissa que não comece o “Aberto” sem mim!

Abraço fortíssimo. Ah! Havemos de resolver um dia esse problema do 1.e4-ç6 2.ç4 com que me ganhaste numa noite fria e chuvosa na sala da Escola Profissional de Gaia. Hoje talvez não jogasse o g6 ! O que achas!? Para de rir com esse rosto suavemente gaiato, Rui! Afinal quase 20 anos de diferença merecem respeito, ou não?