XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

09/04/14

XADREZ, SURREALISMO, LITERATURA, MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

Um dos grandes nomes do surrealismo português. Injusta e estupidamente esquecido. Muitos dos seus contos nada, mas mesmo nada inferiores ao vate Herberto Helder ( claro, claro, sou blasfemo). Os seus livros começam a rarear, mesmo em alfarrabistas, principalmente os "Contos do Gin Tónico"  e os "Novos Contos do Gin ". De um humor fino, mordaz, de uma agudeza desconcertante, de uma forma de riso que se transforma em sorriso desmaiado para burgueses anafados, idiotas militantes, ou amantes de badalhoca e triste stand-up comedy de muito e triste e badalhoco pseudo humorista nacional, os Contos de Mário Henrique Leiria estão e se não estão ainda, hão-de estar entre jóias cimeiras da literatura portuguesa. 
Dois desses contos referem indiretamente o xadrez. E que contos! Apreciem. E, se não perceberem, paciência, que isto não é propriamente revista do Sá da Bandeira ou Parque Mayer. Temos pena!




XEQUE-MATE

   _ Vai um judeu num comboio...

- Essa já conheço. Nem calcula como conheço as de judeus! Todas.


Então o meu vizinho mudou logo para as de escoceses.

Eram esplêndidas.


Aquilo acontecera na oferta de um cigarro public-relations, enquanto íamos a caminho de ainda outra cidade. Como o compartimento não tinha mais ninguém, a relação sociável dera-se inevitavelmente.
Expansivo e muito viajado, ao que parecia, contou-me tudo, excepto o que não contou, claro. Depois foi a ternura amiga, com anedotas a chegar em sucessão rápida.

 Acabaram os escoceses. Realmente óptimos.


- Joga xadrez?


- às vezes, com dúvidas.


- Não faz mal. A dúvida é o que nos ensina. Se quiser...

—e puxou do tabuleirinho portátil, encadernado em couro autêntico, próprio para todas as viagens.


Quis, não tive outro remédio.


Passaram pelo corredor a tocar sino. Jantar. Primeira série.


Deu-me uma certa fome, mas tinha que aguentar um bispo que se preparava para me roubar   o cavalo e sabe-se lá que mais.


Estava o meu vizinho explicando as excelências do xadrez, a sua história e os seus santos, enquanto jogava mais uma torre inesperada, quando rugiu a segunda série pelos espaços pasmosos do corredor.


Quanto a mim, não tinha mais nada a perder. Fora-se tudo. Possuía o rei escondido a um canto, dois peões apavorados e, perdido na incerteza, o último bispo envergonhado. Cedi, logo ali.


O sorriso do meu vizinho eficiente foi magnífico.

- Agora um jantarzinho, ein!

Pois claro. Lá fomos, atravessando ao contrário o caminho feito, até chegarmos às mesas  trepidantes. 
Comida de Ia reverendíssima patada, diria Juanito de Cuernavaca, se estivéssemos em Cuernavaca com Juanito.
 
Entre a sopa e a parede ouvi tudo. Tudo o que faltava.


Café, conhaque e voltámos, a oscilar.


Já não faltava mais nada.


Logo ao lado da discreta privada das carruagens em viagem, há uma porta de emergência como sabem, fácil, é só levantar a alavanca. São as emergências das viagens que a puseram ali. Levantei a alavanca e deu-me um desequilíbrio de ombro muito súbito auxiliado com um jeito de perna. O meu vizinho estava a explicar como se devem resolver os problemas da deliquência pré-juvenil.


O resto da explicação hei-de perguntar um dia destes à Erika que sabe tudo de kindergarten, de deliquências e ainda mais coisas.


Vai um judeu num comboio... lembrei-me de repente da história toda. É bem divertida, gostava de lhes contar, se tivesse tempo.                                              
                                                                




JANTAR DE AMIGOS


- A. vida é um problema complicado — decretou Armindo o corrector, enquanto cortava com precisão mais um pedaço do rosbife à sua frente. A !uz discretamente tamisada do QUATRO ASES fazia realçar a transparência do vinho no copo alto, junto ao prato.

- Não mais complicado do que qualquer outro—retorquiu Guiihermino o xadrezista que, no !ado oposto da mesa, se limitava a um puré de legumes e queijo de soja. Era vegetariano. E também Grande Mestre.


- Desculpem-me a interrupção — permitiu-se dizer o maître com uma leve inclinação, aparecendo junto à mesa. - Mas creio dever informar os senhores que, por um engano inesperado, o chefe da cozinha deitou no rosbife a estricnina que tínhamos para usar nas ratoeiras. É lamentável. Podem crer que a casa está sinceramente penalizada com o acontecimento. -  Com um sorriso discreto e compreensivo, retirou-se deslizando e desapareceu entre o ruído animado da sala.


Armindo estremeceu contra vontade. O rosto mudou-lhe um pouco. Para verde. E arrotou. Então teve um movimento em que parecia retorcer-se e começou a inclinar-se para o prato.


- Realmente não mais complicado do que qualquer outro — insistiu Guilhermino, enquanto desviava o copo para que o corrector não lhe acertasse com a cabeça. Levou à boca um pouco mais de puré de legumes. Com prazer.


- Queiram desculpar-me ainda mais esta interrupção — disse o 'maître', reaparecendo-lhes ao lado e inclinando-se levemente. — Parece-me ser de minha obrigação informar os senhores que, por engano realmente impróprio, o chefe da cozinha deitou no puré de legumes o arsénico que estava destinado aos cães vadios. Permito-me afirmar que a casa lamenta e que isto não voltará a acontecer tão cedo. — Com o sorriso discreto retirou-se, deslizando até desaparecer entre as mesas murmurantes.


Guilhermino o xadrezista ficou a olhar o espaço. Apenas a imaginar como conseguiria, só com um copo, o paliteiro e o saleiro, dar xeque à garrafa de Armindo o corrector. Então sentiu a dor que, fulgurante, lhe subia dos intestinos.


Pelo chão alcatifado começavam a estrebuchar clientes.

(Este conto maravilhoso de MHL dedico-o aos muitos Guilherminos do Xadrez nacional e internacional, sejam jogadores, dirigentes, e outros  "inos" que tais) A. V


07/04/14

XADREZ, RESISTÊNCIA, TERAPIA

Um lado do xadrez muito pouco conhecido. A Resistência na adversidade, a Terapêutica na dor ou agústia  (talvez no futuro escreva mais sobre este assunto - só eu sei como o xadrez, o lado evasivo e terapêutico do xadrez me ajudou em determinada fase da minha vida). 
Conhecia-os desse formidável documentário da Susana de Sousa Dias "48" sobre a PIDE e os seus métodos de atuação ( inacreditavelmente ou não, e a meu conhecimento, o único sério e a sério sobre a polícia política do Estado Novo-inacreditável este meu pobre Portugal do esquecimento!), sabia-os companheiros de luta e de vida, por isso não me surpreendi com os seus depoimentos na Revista do Público do dia 6 de Abril. O que desconhecia era as referências ao Xadrez de Domingos Abrantes. Leiam. Quem seria o campeão húngaro? Portisch? Bilek, Barcza, Csom, Adórjan, Sax?


Domingos Abrantes e Conceição Matos Entrevista Público-Revista 6 Abril 2014

Também ocupava o tempo jogando xadrez. Era um exercício de inteligência ou um entretém?

DOMINGOS — Eu era um grande apaixonado pelo xadrez. Aprendi a jogar em Caxias. Deixei de jogar xadrez porque perdia muito tempo. O meu futuro não era jogar xadrez. Um dia fui à Hungria passar férias.
CONCEIÇÃO — Fomos.
DOMINGOS — Apareceu no hotel o campeão da Hungria a fazer umas simultâneas. E eu ganhei!
CONCEIÇÃO — Não digas isso na entrevista.
DOMINGOS — Foi uma bomba. O campeão mandou-me uns emissários, queria a desforra. Nunca mais me largaram. [gargalhada] Lá se foi a glória! Nunca mais lhe ganhei.

Quais são as características que o xadrez exige?
DOMINGOS — Ponderação, sobretudo.


11/03/14

TSEITLIN, Mark






Europeus de Veteranos no Porto. Não passei por lá. Não me interessa passar por lá. Apesar das laudas federativas sobre record de nacionalidades e afins, sejamos realistas: este Europeu é muito fraquinho a nível de nomes sonantes do xadrez, principalmente no de mais de 50 anos. Comparar com os nomes do Europeu do ano transato ( Vasioukov, Sveshnikov, Ermenkov, etc, etc) é um exercício fastidioso para mostrar o óbvio.


Zurab Sturua, Butnoris, Suba, a lenda Nona Gaprindashvili,  a vária vezes candidata Nino Gurieli e aquele que é objeto do meu artigo: Mark Tseitlin são, foram nomes de relevo no xadrez mundial.

Deste naipe de jogadores tenho um respeito muito especial e uma admiração da sua força de jogo nos anos 70 por Tseitlin. Conheço-lhe muitas partidas que aprendi a gostar desde o tempo do Informator jugoslavo. Um jogador de enorme categoria que merecia não ficar num rodapé da história do xadrez. 




Como se não bastasse ser quatro vezes campeão europeu de veteranos, o último no ano transato, o vencedor de Polanica Zdroj ( Memorial Rubinstein)  em 1978, como se fosse preciso apregoar o treinador de excelência que também o é, o autor de livros de xadrez, Mark Tseitlin, hoje Israelita, foi um grande jogador da Ex URSS nos finais dos anos 60 e princípios dos anos 70. 




Só quem é ignorante da história do xadrez pode deixar passar em claro o que era para um jogador chegar a uma final de um Campeonato absoluto, a força xadrezista de que era preciso ser dotado, o talento, trabalho e criatividade que subjazia a um percurso que começava nas preliminares e galgava os duros degraus do Olimpo até a uma fase final, onde competia muitas vezes a fina flor do xadrez soviético. E Tseitlin jogou três finais deste supertorneio!




Hoje, numa época de GM de aviário, custa a crer que jogadores do talento de Tseitlin, ou de Igor Platonov, ou  Orestes Averkin, ou Nezhmetdinov, Vitolins, ou Lukin,  entre outros, tivessem passado ao lado de uma grande carreira, obtendo alguns o título de GM tardiamente, outros nem isso, e Tseitlin só obteve o de MI em 1978 ( aos 35 anos!) e o de GM em 1997 ( aos 54 anos!), o que prova a injustiça de um sistema xadrezistico que para além de fabricar GM de topo “por cm2”, ainda por cima secava a via criativa de muitos outros, grandes jogadores que não do topo, pela impossibilidade   de saída ao estrangeiro, e como tal, contato internacional e consequente obtenção de normas e título. 




Assim, Mark Tseitlin, um jogador de enorme craveira, de jogo inventivo, de “Jogo quentinho” como o apelidou Mikhail Tal, com um fraco pelos ataques ao Rei, os sacrifícios, que se lhe deram belíssimas partidas e vitórias, também lhe trouxeram bastantes zeros nas tabelas classificativas.




Logo em 1967 em Kharkov, na Ucrânica, nos dos raros Campeonatos soviéticos em sistema suíço, Tseitlin, mostrou entre 130 jogadores a sua classe, classificando-se nos lugares entre 27-40 com companhias de classe como Nezhmetdinov, Tseshkovsky, Sosonko, ou o jovem Kuzmin.

                                       Tseitlin -Yerenkov


Depois, em Riga, 1970, o penúltimo lugar, com um jogo de fio de navalha, que lhe deu vitórias sobre Averbach e Vaganian, mas toda uma série de derrotas por recusar o jogo sólido ou mais defensivo. Neste campeonato absoluto, os empates com Leonid Stein, Korchnoi e o já mais do esperança Anatoli Karpov, mostram a força de jogo de Mark Tseitlin.


         (Era o que faltava dizer com quem Tseitlin joga!!)

Em 1971, no 39º Campeonato em Leninegrado, Tseitlin ocupou o último lugar. Um jogo com o apelo do risco, a recusa do empate fácil, as ousadias na abertura valeram-lhe os oito pontos com 6 vitórias e apenas quatro empates, o que prova o lado combativo e descomprometido deste jogador. Neste torneio, “Polu”,  Leonid Shamkovich,  Rafael Vaganian e Igor Platonov foram algumas das suas vítimas.


Assim, a minha singela homenagem a este grande jogador. Sugiro que consultem os “Informadores” ou uma boa base de dados, ou se forem mais argutos, os boletins-livros dos Torneios dos Campeonatos Soviéticos onde Tseitlin jogou e reproduzam as suas partidas, Vale bem a pena, pois Mark foi e ainda é um espírito indomável do tabuleiro, um jogador que ama o xadrez como poucos, um daqueles a quem chamo “um glorioso maluco do tabuleiro voador”, tal como um “Nezh”, um  Viktor Kupreichik ( de quem escrevi longamente aqui) ou Alvis Vitolins (idem), ou Shamkovich, ou Lutikov.

 Que geração de grandes jogadores! Tseitlin é facilmente identificado! Os outros: Tal, Bagirov, Katalimov, Karasev, etc, etc


Algumas partidas de Mark Tseitlin de que gosto particularmente com comentários dos livros soviéticos. Algumas fotos tiradas daqui e dali, algumas raras, plasticamente muito belas de acentuado valor histórico.



Sinceramente…era uma alegria que Tseitlin ganhasse o 5º Título europeu de veteranos. Talvez o Suba não deixe!