XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

31/03/13

VITOLINSH Alvis (Partidas)








Vitolinsh,Alvis - Suba,Mihai ]
Yerevan Yerevan (15), 1980

[Z. Lanka]
Esta receita contra a variante Scheveningen usou-a Vitolinsh pela primeira vez numa partida do campeonato por equipas da Letónia contra Eric Priednieku.Fi sempre fiel a esta popular variante que lhe trouxe vitórias importantes, não por ser um virtuoso , mas porque dominava os meandros da mesma como ninguém. As estatísticas provam-no.


1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 Cf6 4.Cc3 cxd4 5.Cxd4 e6 6.Bb5+ 



[6.g4 h6 7.h4 Be7 8.Bb5+ Vitolinsh já tinha esta ideia  no ataque Keres como o provou em duas partidas jogadas 25 anos antes contra Alexander Yermolinski.]


6...Cbd7

deixando a discussão de 6...Bd7 para uma próxima partida


7.Bg5

 [7.f4 a6 8.Bxd7+ Bxd7 9.0–0 Dc7 10.Dd3 Be7 11.b3 0–0 12.Bb2 com a ideia de  Tae1 e e5 talvez fosse mais apropriado, escreveu depois.]

7...a6

[7...Be7 8.De2 a6 9.Bxd7+ Bxd7 10.f4 h6 11.Bxf6 (11.Bh4 Cxe4!) 11...Bxf6 12.0–0–0 Dc7 13.The1 0–0–0! 14.Rb1 g6 15.Td3 Rb8 16.Ted1 Be7 17.g3 Tc8 18.h4 Vitolinsh - Kapengut Minsk 1978 - As negras depois de 18...h5 parecem ter jogo nivelado]



8.Bxd7+ Bxd7 9.f4 h6 10.Bh4 Db6?! 


Jogo ativo , mas um desafio arriscado [10...Be7 11.Df3 0–0 12.0–0–0 b5 13.a3 Tb8 seguido de b4 com contrajogo adequado]


11.0–0 Dxb2 

 [Mau era 11...e5? 12.Bxf6 gxf6 13.Cd5 Da7 14.Cxf6+ Re7 15.fxe5 dxe5 16.Cxd7+-]


12.Tf3 Db6 13.Rh1 g5!? 



14.fxg5 hxg5 15.Bg3?!

 mais forte e natural era [15.Bxg5 Cg4 16.h3 Bg7 17.Cce2² segundo Vitolinsh(17.Txf7 Rxf7 (17...Cf2+ 18.Txf2 Bxd4 19.Tf3²) 18.Dxg4 Rg8! (18...Dxd4 19.Tf1+ Re8 20.Df3+-) 19.Cd5 exd5 20.Dxd7 Dxd4 21.De6+ Rh7 22.Df5+ com perpétuo) ]


15...Cg4 16.Tb1 Dc5?! 


Suba mostra elevado espírito combativo, todavia era mais seguro e avisado não permitir a entrada da Torre branca na sétima horizontal com 16...Dc7

17.Txb7 Ce5?!

Vitolinsh estaria praparado para : [17...Cxh2!? 18.Bxh2 g4 19.Td3 (19.Txf7!? lance insidioso pela surpresa 19...Txh2+ 20.Rxh2 Dh5+ 21.Rg1 Dxf7 22.Dxg4 Bg7 com jogo muito complicado de consequências pouco claras) 19...Bg7 20.Cce2²]

18.Cb3 Dc8 19.Bxe5 dxe5 20.Ca5!

20...Tb8?

lance que leva imediatamente ao desastre [20...Bc5 21.Cd5! exd5 22.Dxd5 Be6 23.Dxe5 com ataque demolidor; 20...Be7 21.Cd5 exd5 22.Dxd5 f6 23.Txd7 Dxd7 24.Dxa8+ Rf7 25.Dd5+ Dxd5 26.exd5²]

21.Dxd7+! 


Dxd7 22.Txb8+ Re7 23.Tb7 Dxb7 24.Cxb7


As Negras poderiam abandonar aqui

24...g4 25.Td3 Bh6 26.Ca4 Tc8 27.Tc3 Txc3 28.Cxc3 Bd2 29.Ca4 f5 30.Rg1 1–0




Lev Gutman nunca teve muita sorte com Alvis, sendo em algumas partidas literalmente varrido do tabuleiro, principalmente quando arriscava discussões tóricas na variante Najdorf da Siciliana com Bg5 por parte das Brancas. O primeiro desastre foi este em Riga no ano de 67:
























Vitolinsh,A - Gutman,L [B97
]Riga 3/525, 1967

[Yudovich sr.,M]

1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 a6 6.Bg5 e6 7.f4 Db6 8.Dd2 Dxb2 9.Tb1 Da3 10.f5 Cc6 11.fxe6 fxe6 12.Cxc6 bxc6 13.e5 dxe5?! 14.Bxf6 gxf6 15.Ce4 Be7 16.Be2 0–0 17.Tb3 Da4 18.c4 Tf7? [18...Rh8] 19.0–0 f5 20.Tg3+ Rh8 21.Dc3! Bf8 22.Dxe5+ Bg7 23.Cd6 Te7 24.Txf5! 1–0


A segunda vitória de Alvis foi mais refinada com vários artifícios pirotécnicos no tabuleiro que mostram todo o poder combinatório e cálculo do jogador letão


Vitolinsh,A - Gutman,L

USSR 16/477, 1973

[Gipslis,A]

1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 a6 6.Bg5 e6 7.f4 Cbd7 8.Df3 Dc7 9.0–0–0 b5 10.Bxb5



Novidade teórica à altura [10.Bd3; 10.g4]  



10...axb5 11.Cdxb5 Db8 12.The1 h6 



 [12...e5 13.Dd3 Ta6 14.Dc4 Cc5 15.Bxf6 vantagem branca]  



13.Bh4 Bb7  



[13...Txa2!?] 


14.Dd3 Cc5 15.Dc4

 [15.Cxd6+? Bxd6 16.Dxd6 Dxd6 17.Txd6 Cfxe4 vantagem negra] 

15...Cfd7? 

 [15...Be7!]  

16.b4! Ca6 17.Cd5! g5 18.fxg5 exd5 19.exd5+ Ce5 

 [19...Be7 20.g6+-]  

20.Txe5+! dxe5 21.d6+- hxg5 22.d7+ 

 [22.Cc7+ Cxc7 23.dxc7 Dc8 24.Bxg5+-]

22...Rd8  

[22...Re7 23.Bxg5+ f6 24.Bxf6+! Rxf6 25.Tf1+ Re7   (25...Rg5 26.h4+!+- Rh5 27.Tf5+ Rh6 28.Df7) 26.Df7+ Rd8 27.De8# )  

23.Dxf7 1–0





26/02/13

VITOLINSH, ALVIS



Deveria ser em Letão "Vītoliņš", mas também aparece a forma "Vitolins". Não me interessa muito. Semanas com a leitura de Sosonko e, sobretudo com o livro  único ( Z. Lanka, Kengis, Klovans e Vitomskis)- editora de Carnikava) sobre este grande jogador que apenas conseguiu o título de MI!. Passei e repassei centenas de partidas de Vitolinsh e, algumas são de uma beleza fulgurante, de uma concepção de xadrez de puro deleite de ataque.
Também não me interessa mesmo nada uma biografia curta e simplista das que existem (poucas) na Net  ou repetir à exaustão o que tão bela e sentidamente escreveu Genadi Sosonko sobre Alvis no seu maravilhoso " Russian Silhouettes". Apenas divagar, apenas o que me foi surgindo num fim de tarde chuvosa num recôndito café vazio e esquinado do Porto. Durante horas estive numa ponte de caminho de ferro em Sigulda. Vislumbrei ao longe um drama de alguém que consumaria fisicamente a morte interior já assumida .
Não sei se é leitura fácil ou não, se isto interessa á celebérrima comunidade xadrezista portuguesa, e qual o grau de conhecimento sobre este enorme jogador letão e as suas formidáveis partidas de ataque. O prazer de revisitar as partidas de Vitolinsh comentadas magnificamente por ele ou por Zigurds Lanka, valem tudo.
No final, um vídeo que coloquei no You Tube.



Madrugada fria, gélida em Sigulda. No meio do esbranquiçado do dia a querer romper os primeiros raios de sol pediam permissão para entrar.


Resoluto, longilíneo de silhueta torre, bamboleante no seu andar característico começou a percorrer a ponte de caminho de fim. Num estado de semiconsciência caminhava para um ponto não definido algures a meio da ponte. Seria aí que se cumpriria o destino, que o relógio pararia, que o Rei tombaria sem estrépito num derradeiro "abandono".


Vazio, completamente vazio. Nem o desespero já o era. O nada absoluto de nada valer a pena. Um gelo interior inominável, mais frio que a massa branca que se vislumbrava nas alturas de precipício da ponte sobre o rio Gauja.


Tudo terminado. Ou não. Ainda faltavam aqueles metros finais até ao indefinido ponto onde tudo se consumaria. A seta do relógio da vida elevava-se perigosamente até ao nível onde o tempo de perda equivale à queda em baque surdo e ciciado de uma seta de um relógio de xadrez. Decisão de segundos, de presenças, de um estar para um partir de não estar sem retorno. Hálito quente de morte anunciada ainda em bafo de respiração.


O fora do corpo dele vazio no vazio do corpo adentro. Inerte, tudo inerte nele, quase já não ele. Cavalo bravio, galopante,  o seu cérebro era agora escoiceado por rápidas, fugidias, meteóricas passagens  em tumultuosa cascata.


A vida num relance, a cabeça já separada de um corpo in sentido. Os amados Pais, a sala do seu amado Clube em Riga onde passava dias e noites, o seu querido amigo e mágico "Misha", o seu primeiro treinador, e até na névoa, Karen Grigorian lhe parecia acenar. Parecia ver, mas sentia que não via. Teatro de sombras que se desenrolava nesse ligeiro caminho. Tudo presente mas sem os definidos, exatos contornos, como se à distância em não percetíveis manchas de cor.


O caminhar de olhos fixos de um olhar nimbado de um penetrante e insondável infinito. Olhos estupefactos de milionésimos de segundos de clarividência. Olhos de imagens mais velozes que luz sem brilho de impossível alcance, olhos de intensa avidez de um fulgor de vida a esvair-se.


Já não aqueles malditos medicamentos que o prostravam, que lhe tiravam a vontade de jogar as suas peças para b5 ou f7, que lhe tolhiam a emersão nesse lago sagrado da beleza do cálculo, da incerteza desta ou daquela variante. Já não aquela lassidão mortal que o transformava quase em estátua, quase em peça a mais fora do tabuleiro sem existir promoção. Já não aquele colete-de-forças que lhe manietava corpo e alma e lhe tirava o prazer, a agitação, o vulcão que sentia frente ao tabuleiro.


Desde o fim da adolescência a sensação de cão raivoso a moer-lhe o cérebro, a mastigar ossos-restos da sua dignidade. Que era louco, perigoso, desajustado, ouvia sem compreender. Impossível colocar açaimo no seu cão bravio. Era ele que lhe trazia a criatividade, aquela luz especial que sentia quando sacrificava peça sobre peça até ao abandono do Rei adversário, aquele estado hipnótico de dias e noites sem dormir no seu clube, na procura da verdade da sua variante. O absoluto, sempre essa alquímica procura de verdade no tabuleiro que ele acreditava alcançar pelo esgotamento de possibilidades. Diziam que era impossível, ele achava que não. Enquanto pudesse franquear porta a porta, lance a lance, noite a noite, sonho a sonho as sucessivas portas da verdade do xadrez, continuaria .


Mas agora, até isso o tinha abandonado. Tinha dado tanto ao Xadrez e o Xadrez tinha-lhe dado tão pouco. A miséria mais absoluta, a solidão mais canina, o desconhecimento mais abjeto. Nem o reconhecimento dos seus pares que apenas entreviam nele o "estranho", o inadaptado, o teórico. Nem Grande Mestre de Xadrez quando pressentia que muitas das suas partidas eram obras de arte capazes de emparelhar com as maiores da história do xadrez. Não culpava ninguém, porque todas as horas da vida que perdeu, tinhas por ganhas pela força da beleza da descoberta, do alvoroço de uma novidade, do coração latejante de um mate anunciado. Perdia também, e isso derrubava-o por dias, mas encontrava alento no chicote do erro, na dor dilacerada do não visto, no passar ao lado uma análise e recuperava com nova descoberta teórica, com nova esperança de uma ideia nova ideia numa abertura, numa nova partida para a imortalidade e que podia ser no próximo amigável no seu Clube. 

Tanto deu ao xadrez. Xadrezviveu na entrega completa a um amor ingrato, de um só lado. Deixou tudo para seguir a Mestra que lhe pagou com a mais completa indiferença. Caissa não ama todos por igual.


Mas agora, nem isso lhe assomava ao espírito. Nada disso já lhe interessava. Gelado completamente, soterrado daquela massa branca que nem sequer cobre já o desespero.

Um último arremedo de sépia fez-lhe vislumbrar a mãe que o embalava em frágil berço de madeira, senteo afago nos cabelos do Pai que lhe oferece  o seu primeiro jogo de peças de xadrez, sente que daqui a pouco os vai ganhar aos dois outra vez, ouve uma melodia que em melopeia ascendente beija os seus ouvidos :Dzīves ūdens, nāves ūdens/Daugavā satecēja,/Es pamērcu pirksta galu,/ Abus jūtu Dvēselē,”


Meteu a mão no casaco sujo, velho e rombo e apertou com força o seu amado Bispo que tinha tirado do seu jogo de xadrez. Ao longe um comboio anunciava a sua futura presença. Parou, aspirou profundamente o ar frio e gélido de Sigulda e com a mesma determinação com que colocava o seu Bispo em b5, saltou.

Um som cavo, fundo, de quebrado gelo por corpo quente ouviu-se em eco nas funduras do rio Gauja. Amanhecia em Sigulda.


Encontraram Alvis Vitolins horas depois. Na  lívida e enregelada mão longilínea encontraram um Bispo de b5 que se tinha recusado abandonar Alvis. Tinham selado um pacto com a eternidade.