XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

26/02/13

VITOLINSH, ALVIS



Deveria ser em Letão "Vītoliņš", mas também aparece a forma "Vitolins". Não me interessa muito. Semanas com a leitura de Sosonko e, sobretudo com o livro  único ( Z. Lanka, Kengis, Klovans e Vitomskis)- editora de Carnikava) sobre este grande jogador que apenas conseguiu o título de MI!. Passei e repassei centenas de partidas de Vitolinsh e, algumas são de uma beleza fulgurante, de uma concepção de xadrez de puro deleite de ataque.
Também não me interessa mesmo nada uma biografia curta e simplista das que existem (poucas) na Net  ou repetir à exaustão o que tão bela e sentidamente escreveu Genadi Sosonko sobre Alvis no seu maravilhoso " Russian Silhouettes". Apenas divagar, apenas o que me foi surgindo num fim de tarde chuvosa num recôndito café vazio e esquinado do Porto. Durante horas estive numa ponte de caminho de ferro em Sigulda. Vislumbrei ao longe um drama de alguém que consumaria fisicamente a morte interior já assumida .
Não sei se é leitura fácil ou não, se isto interessa á celebérrima comunidade xadrezista portuguesa, e qual o grau de conhecimento sobre este enorme jogador letão e as suas formidáveis partidas de ataque. O prazer de revisitar as partidas de Vitolinsh comentadas magnificamente por ele ou por Zigurds Lanka, valem tudo.
No final, um vídeo que coloquei no You Tube.



Madrugada fria, gélida em Sigulda. No meio do esbranquiçado do dia a querer romper os primeiros raios de sol pediam permissão para entrar.


Resoluto, longilíneo de silhueta torre, bamboleante no seu andar característico começou a percorrer a ponte de caminho de fim. Num estado de semiconsciência caminhava para um ponto não definido algures a meio da ponte. Seria aí que se cumpriria o destino, que o relógio pararia, que o Rei tombaria sem estrépito num derradeiro "abandono".


Vazio, completamente vazio. Nem o desespero já o era. O nada absoluto de nada valer a pena. Um gelo interior inominável, mais frio que a massa branca que se vislumbrava nas alturas de precipício da ponte sobre o rio Gauja.


Tudo terminado. Ou não. Ainda faltavam aqueles metros finais até ao indefinido ponto onde tudo se consumaria. A seta do relógio da vida elevava-se perigosamente até ao nível onde o tempo de perda equivale à queda em baque surdo e ciciado de uma seta de um relógio de xadrez. Decisão de segundos, de presenças, de um estar para um partir de não estar sem retorno. Hálito quente de morte anunciada ainda em bafo de respiração.


O fora do corpo dele vazio no vazio do corpo adentro. Inerte, tudo inerte nele, quase já não ele. Cavalo bravio, galopante,  o seu cérebro era agora escoiceado por rápidas, fugidias, meteóricas passagens  em tumultuosa cascata.


A vida num relance, a cabeça já separada de um corpo in sentido. Os amados Pais, a sala do seu amado Clube em Riga onde passava dias e noites, o seu querido amigo e mágico "Misha", o seu primeiro treinador, e até na névoa, Karen Grigorian lhe parecia acenar. Parecia ver, mas sentia que não via. Teatro de sombras que se desenrolava nesse ligeiro caminho. Tudo presente mas sem os definidos, exatos contornos, como se à distância em não percetíveis manchas de cor.


O caminhar de olhos fixos de um olhar nimbado de um penetrante e insondável infinito. Olhos estupefactos de milionésimos de segundos de clarividência. Olhos de imagens mais velozes que luz sem brilho de impossível alcance, olhos de intensa avidez de um fulgor de vida a esvair-se.


Já não aqueles malditos medicamentos que o prostravam, que lhe tiravam a vontade de jogar as suas peças para b5 ou f7, que lhe tolhiam a emersão nesse lago sagrado da beleza do cálculo, da incerteza desta ou daquela variante. Já não aquela lassidão mortal que o transformava quase em estátua, quase em peça a mais fora do tabuleiro sem existir promoção. Já não aquele colete-de-forças que lhe manietava corpo e alma e lhe tirava o prazer, a agitação, o vulcão que sentia frente ao tabuleiro.


Desde o fim da adolescência a sensação de cão raivoso a moer-lhe o cérebro, a mastigar ossos-restos da sua dignidade. Que era louco, perigoso, desajustado, ouvia sem compreender. Impossível colocar açaimo no seu cão bravio. Era ele que lhe trazia a criatividade, aquela luz especial que sentia quando sacrificava peça sobre peça até ao abandono do Rei adversário, aquele estado hipnótico de dias e noites sem dormir no seu clube, na procura da verdade da sua variante. O absoluto, sempre essa alquímica procura de verdade no tabuleiro que ele acreditava alcançar pelo esgotamento de possibilidades. Diziam que era impossível, ele achava que não. Enquanto pudesse franquear porta a porta, lance a lance, noite a noite, sonho a sonho as sucessivas portas da verdade do xadrez, continuaria .


Mas agora, até isso o tinha abandonado. Tinha dado tanto ao Xadrez e o Xadrez tinha-lhe dado tão pouco. A miséria mais absoluta, a solidão mais canina, o desconhecimento mais abjeto. Nem o reconhecimento dos seus pares que apenas entreviam nele o "estranho", o inadaptado, o teórico. Nem Grande Mestre de Xadrez quando pressentia que muitas das suas partidas eram obras de arte capazes de emparelhar com as maiores da história do xadrez. Não culpava ninguém, porque todas as horas da vida que perdeu, tinhas por ganhas pela força da beleza da descoberta, do alvoroço de uma novidade, do coração latejante de um mate anunciado. Perdia também, e isso derrubava-o por dias, mas encontrava alento no chicote do erro, na dor dilacerada do não visto, no passar ao lado uma análise e recuperava com nova descoberta teórica, com nova esperança de uma ideia nova ideia numa abertura, numa nova partida para a imortalidade e que podia ser no próximo amigável no seu Clube. 

Tanto deu ao xadrez. Xadrezviveu na entrega completa a um amor ingrato, de um só lado. Deixou tudo para seguir a Mestra que lhe pagou com a mais completa indiferença. Caissa não ama todos por igual.


Mas agora, nem isso lhe assomava ao espírito. Nada disso já lhe interessava. Gelado completamente, soterrado daquela massa branca que nem sequer cobre já o desespero.

Um último arremedo de sépia fez-lhe vislumbrar a mãe que o embalava em frágil berço de madeira, senteo afago nos cabelos do Pai que lhe oferece  o seu primeiro jogo de peças de xadrez, sente que daqui a pouco os vai ganhar aos dois outra vez, ouve uma melodia que em melopeia ascendente beija os seus ouvidos :Dzīves ūdens, nāves ūdens/Daugavā satecēja,/Es pamērcu pirksta galu,/ Abus jūtu Dvēselē,”


Meteu a mão no casaco sujo, velho e rombo e apertou com força o seu amado Bispo que tinha tirado do seu jogo de xadrez. Ao longe um comboio anunciava a sua futura presença. Parou, aspirou profundamente o ar frio e gélido de Sigulda e com a mesma determinação com que colocava o seu Bispo em b5, saltou.

Um som cavo, fundo, de quebrado gelo por corpo quente ouviu-se em eco nas funduras do rio Gauja. Amanhecia em Sigulda.


Encontraram Alvis Vitolins horas depois. Na  lívida e enregelada mão longilínea encontraram um Bispo de b5 que se tinha recusado abandonar Alvis. Tinham selado um pacto com a eternidade.



23/02/13

NO REINO DE CAÌSSA ...MÀRIO MARQUES




O Meu Amigo Mário Marques escreveu um livro.

Um livro que tendo por pano de fundo o Xadrez, ultrapassa em muito as 64 casas do tabuleiro, sendo os lances-jogadas uma simbiose curiosa entre o jogo e a vida. E ao pensar no livro do Mário Marques, sorrio ao lembrar-me da ideia espatafúrdia conjunta minha e do Dinis Ribeiro no recente Encontro na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto sobre Xadrez e Ensino, em que lançamos a "farpa" de criar um outro congresso por nós organizado sobre o lado mais obscuro, sombrio e doentio do Xadrez. Ora, o livro do Mário de forma romanceada vem demonstrar o óbvio : que no xadrez e maioritariamente existe um normalidade de gente normal que consegue suportar o banal de uma sedução, de um enamoramento, do amor, tendo como abertura, meio-jogo e final a sala do meu querido Grupo de Xadrez do Porto.

Interessa pouco que se procure nas personagens do romance os colegas do meu Clube, até porque, só quem o frequenta habitualmente conseguirá identificá-los, mas os "Peões" e "Damas" que se movem na trama romanesca têm carácter bem definido, personalidades fortes mesmo na fraqueza da procura de si, ao mesmo tempo que tudo gira em torno da aprendizagem do xadrez, do tique-taque de um relógio de xadrez semelhante ao da vida, da complexidade -cumplicidade dos encontros - desencontros, tudo para além das 64 casas da madeira dos tabuleiros do G.X. Porto. 


Um romance de amor? Nem tanto! Um romance de xadrez? Tão pouco! E entre este "nem" e este "tão", um romance de vida, da vida comezinha, quotidiana como é preciso vivê-la. Há no Reino de Caíssa o comer , o beber, a cama, o processo criativo da sedução, a arqueologia interior das personagens que na diferença se vão descobrir amorosamente pela aproximação.


E o meu, o nosso Grupo de Xadrez do Porto lá. Entre as frinchas da história de Raquel e Vasco , o ranger das velhinhas escadas do Clube, o cheiro característico a madeira da nossa sala, as peças a serem jogadas mais ou menos energicamente nos tabuleiros, as vozes cruzadas entre as ciciadas e tonitruantes dos sócios, um ou outro palavrão disparado como peão de flanco, a conversa política, ou  os desabafos catárquicos de má língua sobre as misérias do xadrez português, mas e acima de tudo, o amor, a paixão com que neste Clube se vive o Xadrez. No romance do Mário, respira-se xadrez, porque a respiração do Grupo de Xadrez do Porto, está nele reflectido. 


O próprio autor no lançamento da obra o explicou: não é um livro para Nóbel, nem para Top de escaparate de livraria, mas um livro para ser lido por quem gosta de ler e  de xadrez. Para ler O Reino de Caissa não é preciso saber Xadrez, mas saber Xadrez pode ajudar na leitura.
Um livro muito, muito bem escrito com um Mário Marques de óptica afilada e clínica apurada a plasmar nas suas personagens as suas idiosincracias, os seus tiques, as suas fragilidades, complexos, mas também força, personalidade , no fundo, carradas de humanidade que torna esta escrita apelativa do virar de página arté ao fim.
Um romance que foca o xadrez, o que é raro na literatura portuguesa, um romance que partindo do particular da vida instestina de um Clube de Xadrez, passa para o geral de uma vida a ter de ser vivida por nossa. Não sei se isto é pouco ou muito, simplesmente É , e isso não deixa de ser já bem mais do que pouco!


Tive o privilégio de ser dos primeiros a ler o "rascunho" de parte do Reino de Caissa e logo pressenti a sua qualidade. O Mário não precisou do meu incentivo, pois quem o conhece sabe que projecto que nele nasça tem por norma continuidade, e o seu trabalho de dirigente no GXP, ou na AXP assim o demonstrou. Disse-lhe da minha opinião, depois calei-me porque tinha pressentido o final e o Mário Marques não é "gajo" para abandonar facilmente - eu que queria um fim com morte de alguém, porque nunca gostei de finais felizes!

Assim, alegria imensa por um dos meus, um dos nossos lançar um livro em que o GXP é focado. A mim foi-me lançado o repto da História do Clube, esquecendo-se quem mo lançou da minha profissão, que com uns "cabrões" europeus, uma coisa PM, um retardado mental financeiro, um ME "asnático" querem levar ao grau zero da dignidade com mais horas, mais turmas, mais cargos, mais burocracias, e, sobretudo, com trabalho até para aí aos 70!
Gostar, gostava e iria a brios com denodo e sinceridade a tal tarefa até porque amo a Tribo do Xadrez, sobretudo a do meu Grupo de Xadrez do Porto, mas uma outra Tribo, está acima de tudo, com lugar cativo, procedência cá dentro! Que se há-de fazer? Nunca o fiz, nunca o farei: nunca inverterei os tempos e as prioridades do Amor. 

Ah! Parece que a Raquel e o Vasco aparecem agora bem menos no meu GXP, não é verdade? Claro!

Um grande abraço para o Mário Marques e esperemos por novo romance que tenha por fundo uma nova sala do Clube para aí com 100 m2! Da pintura, eu, o Rogério,  o "Pinho da Lixa" , tratamos. Não deixem é o Castro tapar buracos, que o Clube um dia vem abaixo!


Certamente um mail para o GXP e qualquer pedido do livro será atendido.
Idem as livrarias Leitura Books & Living, no Porto, Apolo 70, em Lisboa, e ainda nas livrarias online Bertrand 

23/01/13

SISNIEGA, Marcel ...







Foi no dia 19 deste mês, de enfarte súbito, morreu relativamente jovem aos 53 anos. Era um GM de xadrez talentoso, mas retirado do xadrez de alta competição que nos meados dos anos 90 abandonou por não se rever nos meandros quase mafiosos, oportunistas e elitistas para os quais o xadrez de topo se encaminhava muito por culpa de uma FIDE desde o fim do mandato de Olafsson , (des) governada por gente de estatura ética e xadrezista  de duvidoso valor, mas também por jogadores de topo mais interessados nos seus proveitos e fama do que no xadrez em geral. Disse, abandono do xadrez de alto nível que não do xadrez, porque continuou até pouco tempo antes de morrer ligado à sua terra natal (Cuernavaca Morelos) e ao desenvolvimento e ensino do xadrez no México.


Jovem, bem parecido, de forte personalidade, elevado sentido ético, e sobretudo de um nível cultural elevado num meio onde apesar de títulos e normas, a burrice ensimesmada, a incultura gritante, os atavismos psicanalíticos mais entranhados e doentios proliferavam e proliferam, não admira que Marcel Sisniega Campbell mostrasse outros poderosos talentos que não só os do xadrez, nomeadamente no cinema e na escrita. Tornou-se um novelista de mérito reconhecido e sobretudo um, cineasta de renome no contexto do cinema mexicano em particular e da América do Sul em geral.



Morreu pois um GM ( título adquirido em 1992- ainda os títulos não se obtinham de aviário) que muito deu ao xadrez mexicano e que se agora prova era altamente reconhecido em determinadas zonas do xadrez que não as comuns de blogues, ou da Juvenália do xadrez atual de velocidade arrepiante de novidade teórica, mas também de esquecimento sónico do passado do xadrez, das pessoas de que é nutrido o xadrez.

Pela própria personalidade/nível pessoal de Sisniega, por influência de um livro de Gabriel Velasco, e pelas referências do MI Raul Ocampo, vai para muitos anos que me interessei por este jogador e GM mexicano. Segui alguns dos seus inúmeros e belos artigos  de xadrez no jornal mexicano “El Universal” e que podem ler e descarregar em :


repassei no tabuleiro belas e variadíssimas partidas de Marcel, segui aqui ou ali a sua carreira cinematográfica, embora nunca tenha visto um filme completo da sua lavra, descobri um grande livro de xadrez da sua autoria.


Assim, morreu Marcel Sisniega, e o xadrez Americano ficou mais pobre. Um xadrez onde a tragicidade tem atacado em demasia pela ceifa de jogadores talentosos e, estou-me a lembrar do  GM argentino Gerardo BARBERO desaparecido em 2001 apenas com 39 anos de idade, ou desse grande jogador cubano que foi Guilermo GARCIA que desapareceu deste mundo num estúpido acidente rodoviário em 1990  aos 47 anos.



Que escrever sobre Sisniega GM de xadrez que não fosse já escrito? Como fazer para não repercutir o mesmo que vai enxameando os blogues com as mesmas notícias ? Talvez deixando Sisniega falar de Xadrez e Marcel era um excelente professor de xadrez, para além de grande jogador. De escrita simples, fluente, essencial, com raras capacidades de comunicar xadrez, conseguia no que escrevia quer no Jornal, quer no livro que nos legou, traduzir a paixão, o entusiasmo, a competitividade ligada às emoções sentidas durante uma partida.



Deixemos pois falar Sisniega, mas antes quero aqui colocar uma foto, rara, embora fraca qualidade. Esta foto não deve trazer grandes recordações ao Kevin Spraggett , apesar de a sua recordação do seu enquadramento ser das mais aprazíveis da sua carreira, já que para além do título de GM, conquistou um lugar nos Candidatos neste Torneio. E a partida não lhe deve trazer gratas recordações, pois foi a única que o Kevin perdeu em TAXCO no ano de 1985 num torneio brilhante, onde só foi superado por Timann, Nogueiras e Tal! Que Xadrez magnífico jogava Kevin Spraggett nesta altura!



Nesta foto a cara de Spraggett diz tudo. Estávamos no lance 41 e o seu adversário o cubano Jesus Nogueiras ( As partidas entre Spraggett e Nogueiras foram quase sempre de grande luta no tabuleiro e saudável rivalidade- basta vê-las numa base de dados!) tinha acabado de realizar um 40...Ba3 a que Kevin respondeu com 41.g4 e a partida salvo erro foi adiada. O par de Bispos de Nogueiras irá impor-se sem dificuldades dez lances depois. O árbito sela o envelope, Tal parece interessado em algo que não na posição do adiamento, Kevin cofia o bigode (?), quase certo do inevitável, e alguém de mãos nos bolsos observa interessado mas também percebendo o futuro do final das Brancas- nem mais… SISNIEGA .



E Sisniega sobre Taxco 85 escreveu um livro magnífico sobre a sua própria participação ronda a ronda em perpassa toda a sua humanidade, as suas alegrias, as suas deceções, as suas dúvidas, as suas análises, erros, derrotas e vitórias, em suma um livro de torneio em gente, em carne-viva como raramente se vê num livro de torneio, ou num livro de um GM que sabe amar o xadrez. 

Talvez o seu livro fosse terapêutico, pelo falhanço neste torneio de Sisniega, ele que tinha no mesmo grandes esperanças e expetativas senão no apuramento, pelo menos no título de GM ( era simplesmente na altura MI) ,sendo para mais um Interzonal na sua Pátria, talvez, ou talvez haja nele algo de justificativo num ato de enorme humanidade. Excelentes comentários verbais, certeira escrita de estados de espírito durante a partida, variantes que chegam sem nos sufocar "de poderia ter sido", ou "em vez disto e daquilo, outra coisa",  com dezenas de outras variantes que ramificam em outras dezenas de saubvariantes, mas sim no equilíbrio quase perfeito entre análise e texto, tudo junto numa linguagem xadrezista elegante, formalmente apelativa e de grande nível intelectual (tão diferentes de broncos e grunhos que escrevem para revistas especializadas!).  Sobretudo um livro de xadrez como poucos, que em muitos pontos que Marcel conhecia e bem a literatura do xadrez, e sobretudo o Tal de 61, ou o Bronstein de Zurique 53. 




Vejamos como Marcel Sisniega analisa a sua partida da sessão catorze com Spraggett, sem rede, isto é, sem informática. E sem Fritz, ou Houdini, ou afins (que fácil era mostrar isto ou aquilo para armar ao agora é que se joga e analisa!!) vou deixar falar o GM mexicano. E como fala Sisniega! Como se exprime Sisniega!  Ele que me perdoe lá no Reino de Caissa a minha tradução um pouco atamancada do seu texto.



Sisniega,Marcel (2470) - Spraggett,Kevin (2560) [B44]
Taxco Interzonal Taxco (14), 1985
[Marcel SISNIEGA]
Cada partida de xadrez tem uma vida própria, uma carateristica que nos envolve mas também ultrapassa. Quantas vezes ao penoso desgaste dos exércitos em terra, surge uma força desconhecida que nos coloca de sobreaviso negando-nos a manobra que iriamos fatalmente empreender? Explico: uma coisa é o impulso, outra o pressentimento. Aquele nasce à superfície, chama débil de uma mal assumida facilidade. O  pressentimento é diferente, nasce do medo e obedece a a uma iprofunda intuição. Sem sabermos explicar a sua génese, aparece rapidamente à mente do xadrezista concentrado na sua tarefa. Para nossa infelicidade, estes lampejos de lucidez passam de forma fugaz e voláteis como um deus grego e só apercebemos da sua parábola ao decantar as impressões da memória.Era a minha oportunidade de abrir fogo com as peças Brancas. as voltas do sorteio fizeram Kevin Spraggett tomar uma decisão fora do comum. Na ronda inaugural quase teve Timman nas cordas. Agora, com a classificação quase conseguida, resolveria a arisca Defesa Siciliana. Prepara-te para um grande duelo-disse Victor ( Frias). Logo acrescentou: O estado de espírito de Spraggett é precisamente o necessário. Vejo-o entrar no teu jogo.  

1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cc6  

Esta ordem de lances permite às negras evitar4 o ataque Keres, em troca de se acreditar firmemente na formação "ouriço"  

5.Cb5 d6 6.c4 Cf6 7.C1c3 a6 8.Ca3 Ae7 9.Ae2 0–0 10.0–0 b6 11.Ae3  

No passado aceitava-se de bom grado que esta formação de Maroczy oferecia às Brancas um pressão duradoura. Hoje estas ideias modificaram-se e este esquema das negras mantêm uma igualdade teóirica com as ameaças de rupturas em b5 ou d5  

11...Ce5  

Alguns podem preferir 11...Bb7 12.Db3  Cd7. Em ambos os casos estaremos perante uma guerra de trincheiras. A estratérgia será moldada por manobras laboriosas e jogo de peças e ligeiras provocações. [11...Ab7 12.Db3 Cd7]  

12.Db3 Ced7 13.Tfd1 Ab7 14.f3 Te8 15.Tac1 Tc8  

Afastando-se de 15...Ta7 como jogou Alonso Zapata contra Eric Lobron em 1984, e de 15...Dc7 a preferida de Romanishin. Em principio achei que a jogada do canadiano debilitava o peão b6, embora tivesse de estar atento a um eventual e oportuno d5 da sua parte. Nesta posição vale mais o peão lateral ou o Rei?  

16.Ca4 d5 



17.e5 Acreditei ser necessário impedir qualquer ação à Torre negra cem e8. Quando bem realizada, a estratégia é o justo contrapeso da tática.  

17...Cxe5 

Infatigável mastigador de chiclete, Kevin Sporaggett entra serenamente nas complicações 

18.Cxb6  
[18.Axb6 Dd7 19.c5 deixava o meu Bispo fora de ação]  

18...Tb8 19.c5 Dc7 

 O reagrupamento das Negras obedece a vàrios motivos: desde a saída tática CC6-De5 , até ao contrajogo  no centro 20. Rh1 C5d7 21.Cd7 Cd7 22.Dc2 Tfc8  23.B4 e5. De momento decidi virare as baterias para o peãozito de a6. Discutivel? Como se verá, não o podia saber.  

20.Da4 Cc6 21.Axa6  

Toda a minha fé estava concentrada na captura deste peão. Sentia-me inteiro. Lúcido. Atraído pela força das peças. Inclusivamente sentia uma energia desconcertante. Como explicar? Avizinham-se complicações; tinha calculado com alguma precisão e  dei-me conta dos perigos que advinham da captura do peão de Torre, estar de estar plenamente convencido do correto da  minha decisão. Nenhum remorso, nenhuma dúvida constituias entrave à minha visão. Talvez pensasse que Fisher e Alekhine deveriam ter essa fé cega em  cada uma das suas partidas.Razões para a minha surpresa quando mais tarde na sala de análises descobrimos possibilidades excelentes:21. Rh1 De5 22.Bf4 Db2  23.Tc2  ou21.b4 De5  22.Cc2 d4? 23.Cc4 Isto levou-me a pensar que  uma energia levada ao extremo por vezes canaliza os acontecimentos. Por outras palavras, uima vontade forte, insistente, poderosa vai-se impondo durante a partida. Poderia em minha defesa, trazer a terreiro uma legião inteira de grandes jogadores  sucessivanente desfeiteados pelos Campeões do Mundo. [21.Rh1 De5 22.Af4 Dxb2 23.Tc2; 21.b4 De5 22.Cc2 d4 23.Cc4] 

21...Ta8 22.Cb5 De5 23.Af4 Txa6 


 [23...Dxb2 24.Cc7 Axc5+ 25.Txc5 Dxb6 26.Db5 Txa6 27.Cxa6 Com ganho de qualidade] 

24.Axe5 Txa4 25.Axf6  

Inesperadamente apercebi-me de: [25...Txa2 26.Axe7 (26.Cc7 Axf6 27.Cxe8 Axb2 com situação confusa. Talvez fosse satisfatória (27...Ad4+ 28.Rh1 Txb2) 28.Tb1 Ad4+ 29.Rh1) 26...Txb2  
 Apercebi-me no entanto que Spraggett retrocedeu a Torre]

25...Ta5   


26.Cc7  
Esta jugada intermédia estava nos meus cálculos 

26...Axc5+ 27.Txc5 Txc5 28.Cxe8 gxf6 29.Cxf6+ Rg7 30.Ce8+ Rg6 31.Td2  


Spragget estava muito apurado de tempo. Ao contrário do que tinha acontecido com Prandstétter, senti que o canadiano não me escaparia.  

31...Tc1+ 32.Rf2 d4 33.b4! e5 

 Em apuros de tempo, o meu adversário não quis averiguar se existia mate depois de 33. ....Cb4  34.Td4 e 35.Tg4+ 

34.Cd6! Cd8 35.Cd7?  


Um jogador de técnica não muito apurada sabe que deve manter os peões unidos. Ganhava: [35.a4 Tb1 (35...Rf6 36.a5 Re6 (36...Ta1 37.f4!) 37.Cxb7 Cxb7 38.a6) 36.b5 Ta1 37.Cdc4 Tb1 38.Tb2]  

35...f6 36.b5 

 [36.Cc5 Ad5 37.a4 Cc6 Com incerteza no resultado; 36.Cxb7 Cxb7 37.a4 Cd6 38.b5 Cc4 Inclusive as pretas estariam melhor]  

36...Ad5 37.a4? 

 a iluminação de quinze jogadas antes transforma-se agora em vulgar ansiedade. O que me impedia de situar a Torre atrás do Peão passado? 

37...Ta1 38.Tb2 

 Finalmente! Como era possível que Kevin Spraggett em situação evidente de inferioridade no tabuleiro, com a bandeira do relógio prestes a cair, mantivesse esse ar , essa postura imperturbável? Eu, gastava os meus últimos minutos em cálculos laboriosos e ao ver que ganhava uma peça , escolhi essa variante  

38...Txa4 39.b6 d3! 



 Depois da partida Spraggett sugeriu outra variante, mas inferior [39...Ae6 40.b7 Cxb7 41.Cf8+ e Cb7]  

40.b7 Cxb7 
 respirei de alívio.Uma peça é uma peça. Não tinha sentido esconder o meu próximo lance e assim  realizei-o à vista de Spraggett. Depois de guardar a folha de partida no envelope, fui-me encontrar com o eufórico Victor Frias  

41.Cxb7 Td4 42.Re1 
 Forçado  

42...e4 uma simplificação inquietante. 

43.Cf8+  
[43.fxe4 Txe4+ 44.Rd1 Te2! E o meu Cavalo de b7 só merece um tiro na cabeça.] 

43...Rg7 
 [43...Rf7? 44.Cd6+ Rxf8 45.Tb8+ seguido de 46.Cf5]  

44.Cd6 d2+ 45.Txd2 Txd2  




Bonito. Uma peça a mais e bem poderia tranquilamente propôr empate sem adiamento!Lavei a cara com água fria. Outro meio ponto desperdiçado por água abaixo.Que fazer? Tirariamos mais jugadas da gaveta. E se nos equivocamos? Esperança! Mas essa não tem lugar no tabuleiro.Empate





Que descanse em paz.