XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

08/04/12

SOVIET CHESS SETS 7 PEÇAS DE XADREZ SOVIÉTICAS 7






Não posso afirmar com toda a certeza que relativamente a determinado estilo de peças de xadrez soviéticas exista uma espécie de “estilo regional”, ou seja, em determinada república da ex URSS se preferir um determinado estilo de peças em detrimento de outras, independentemente das peças quase oficiais que eram usadas em Moscovo ou S. Petersburgo, ou mesmo nos Campeonatos Nacionais absolutos. Tenho reparado através de fotos que determinados jogos eram usados com mais frequência nas Ex Repúblicas bálticas, e menos, bastante menos nos torneios da capital ou Leninegrado, só para dar um exemplo. 

É o caso destas minhas peças, que curiosamente aparecem em dezenas e dezenas de fotos relacionadas com escolas, torneios e jogadores da Letónia. Aliás, curiosidade ou não, ainda hoje nos leilões Ebay, quando aparecem estas peças, os vendedores são na sua maioria da Letónia, tal como o que me vendeu as peças aqui mostradas. 

 
Anatoli Karpov em criança




São peças curiosas, não pela madeira que como em todas as peças soviéticas é "pobre" não pelas carapuças de cor cruzada nos Reis e Damas também, comum em muitos jogos da ex URSS, mas sim pela forma das peças, o seu estilo "esguio", "magro" apesar de um Rei de quase 10cm de altura. Apesar de não serem "chumbadas" na base, é curioso que sendo umas peças leves, como apresentam bases generosas, isso cria estabilidade no jogo, mesmo para partidas rápidas. É um jogo elegante, esteticamente muito bonito e mais uma vez seguindo os padrões que já enunciei para outras peças russas: simplicidade no fabrico, sem grandes pormenores nas peças, fruto de necessidade de fabrico em série e a preços de custo acessíveis.










 




Duas fotos de Mikhail Tal na Letónia









 Alvis Vitolins



04/04/12

SOVIET CHESS SETS 6 - PEÇAS DE XADREZ SOVIÉTICAS 6



Um "colecionador" de peças de xadrez que se preze tem obrigatoriamente de ser um arqueólogo de fotografias de xadrez. É através delas que consegue muitas vezes descobrir as peças que faltam na sua coleção, identificar um Satunton, ou outro tipo de peças,  ou mesmo fazer uma datação aproximada do jogo que possui. Talvez por isso tenho um arquivo de fotos de xadrez interessante, umas digitalizadas de livros meus de xadrez , principalmente biografias e torneios, outras tiradas de tudo o que aparece na Net, relativo ao passado xadrezistico. Neste último caso, até é relativamente pouco porque a fotografia não tinha a popularidade que tem hoje, nem ter uma máquina era acessível a qualquer um, para não referir as fotos que desapareceram na voragem do tempo. Daí existirem tão poucas fotos dos Campeonatos do Mundo, ou mesmo de Grandes Torneios até 1950-60. Tudo muito escasso. O que existe em fotografia do Torneio de S. Petersburgo de 1909 ou 1914, ou Carlsbad 1907, ou Semmering, etc., muito pouco para pena da História do Xadrez.

 
Diga-se em abono da verdade que o contrário também, é possível : descobrir uma data, um torneio, ou até um jogador se olharmos para as peças que estão no tabuleiro! As maravilhosas Coffehouse austríacas identificam imediatamente Carslabad 1929, Semmering Baden 1926, ou as Torres belíssimas do Staunton de Sevilha lembram imediatamente Karpov-Kasparov 1987.


Assim vai para uns bons 6 anos ao adquirir na Ebay um Jogo que estava descrito como alemão, rapidamente me apercebi através das fotos que estava perante uma peças soviéticas muito comuns nos anos 50-60, (apesar do verniz moderno forçado a castanho patinado antigo!). Com ligeiras modificações, o formato do Rei e Dama, o cavalo enorme (outra característica das peças soviéticas) os Peões, e sobretudo o estilo esguio das peças, a sua elegância no tabuleiro, permitiram-me datá-las aproximadamente dos anos 50, pois nessa altura eram rainhas nos Campeonatos Soviéticos e nos Clubes de Xadrez, antes de serem preteridas pelas Peças que chamo de “Grande – Mestre” e que se mostraram já no Campeonato do Mundo Tal – Botvinnik no inicio do anos 60. Depois foi o vasculhar de imensas fotos soviéticas desses anos e a dúvida foi-se dissipando. 

Não sei se as fotos darão razão à beleza destas peças que são de uma elegância, de uma suavidade ao toque, e sobretudo de uma estética simplista adequada ao jogo, sem distrações supérfluas, ou enfeites desnecessários, mesmo sem serem feitas em madeira nobre.
Nas primeiras fotos o tabuleiro é soviético, de abrir ao meio, tipo caixa de dobra, e como se pode verificar as peças perdem liberdade, ficam asfixiadas, anafadas, tornando a visibilidade confusa, com as peças quase em cima umas das outras.







Resolvi então, dar "respiração"às peças, colocá-las nos quadrados a que têm direito, e num tabuleiro da RF (Rechapados Ferrer – dos melhores tabuleiros de xadrez do Mundo!) de 5,5 de quadrado, as peças ganham outro desenho, outra visibilidade. Para realçar a cor das mesmas peças e a beleza do jogo, resolvi por fim colocá-las num outro tabuleiro da mesma firma, mas agora verde e branco e brilho semi-mate que  faz ressaltar e contrastar as brancas e negras.









Todo o Jogador de Xadrez minimamente informado conhece a História: Estamos em 1957, um jovenzito de 14 anos tinha acabado de ganhar o Campeonato Aberto dos EUA, tinha ganho um match ao Campeão Juvenil das Filipinas Tan Cardoso e, como se não bastasse, resolve mostrar ao mundo do xadrez, que estava ali um génio a despontar: ganha o Campeonato Absoluto dos EUA, sem qualquer derrota e com um ponto de diferença sobre a lenda Reshevsky.

O programa de Televisão "I' ve Got a Secret" apadrinhou uma visita de duas semanas a Moscovo para Bobby Fischer e a sua irmã Joan, e esta viagem irá ter um impacto decisivo em Fischer, mas também e sobretudo nos russos. O resto da História também é conhecida e está documentada nos arquivos soviéticos e em algumas fotos: No Clube Central de Moscovo, Bobby Fischer ia "aviando" em partidas rápidas tudo o que lhe aparecia pela frente fosse jogador de Clube, ou Mestre consagrado , de tal forma que alguém teve de fazer um telefonema aflito no intuito de Tigran Petrosian se chegar à frente e travar a arrogância do "miúdo maravilha" americano. Parece que conseguiu, mas Fischer ganhou algumas partidas, apesar de Petrosian ser um maravilhoso jogador de rápidas. Fischer 15 anos depois ainda conseguia reproduzir uma partida rápida que tinha jogado neste Clube Central de Moscovo com Vasiukov !



As peças que eram utilizadas no Clube, e mesmo numa foto de Fischer em Moscovo, mostram as suas parecenças com as que aqui coloco. Como parecidas são as peças usadas na Olimpíada de Moscovo de 1956 – Ver foto da partida Milev-Bronstein, ou do Campeonato Absoluto da URSS de 1957 – ver fotos de Tal-Korchnoi, ou Boleslavsky – Taimanov.






 




  


  

 

Que a origem do estilo destas peças pode estar nos anos 30, é uma hipótese, pois um  um Zoom às peças do match Flor – Botvinnik de 1933, mostra-o.

 
 


Também uma foto do Jovem Petrosian dos anos 40, mostra que este estilo de peças já seria popular mesmo antes de 1950.




 
Curiosidade: Prokofiev um apaixonado do Xadrez, parece jogar com o mesmo estilo de peças.






 Damsky(?)


 Botvinnik











29/03/12

SOVIET CHESS SETS 5 - PEÇAS DE XADREZ SOVIÉTICAS 5




Um Jogo relativamente popular na ex URSS. Pequeno, com Rei de 8 cm, quase de certeza usado muitas vezes com jogo de análise ou de viagem. As características são as já apontadas no artigo anterior, só que aqui os Bispos já vão tomando a forma de carapuça lancetada tão comum das peças soviéticos, onde a mesma peça não era encimada com a tal carapuça de cor contrária. Os cavalos neste jogo são mesmo de madeira mas pouco trabalhados. Pelo estilo nota-se que é um jogo de "trabalho", para uso sistemático.


O relógio que aparece nas peças é o célebre Jantar ou Yantar, enorme (27x17cm!). feito em diversos locais da URSS e quase presença obrigatória em todos os torneios desde 1950 a 1970 (depois começou a ser trocado pelo da mesma marca, mas de muito mais fraca qualidade e sobretudo de um mau plástico -  estes chegaram a ser comprados pela FPX, salvo erro através da Associação Portugal - URSS, e usados em Portugal em torneios nos anos 80. Poucos sobreviveram.





Curiosa a foto de "Devik" Bronstein. Informal, sem relógio ou folha de partida, parece estar na sua "datcha" e este jogo ser um seu tabuleiro privado. Sei que as suas peças favoritas eram a réplica do jogo usado em 72 em Reiquiavique 72 entre Fischer e Spassky (artigo da New in Chess). 


Curiosa a outra  foto: um Torneio na ex URSS num Clube local por identificar, em que estas peças são usadas. Mais uma vez o tal "pecado" que nunca consegui, nem ninguém me consegue explicar: reparem no tamanho minúsculo do tabuleiro dobrável para as peças apresentadas! Não há "respiração" das peças cuja base parece ocupar todo o quadrado! Como conseguia aquela gente ter visão geral do tabuleiro e não se atrapalhar na partida, confesso que me surpreende.



25/03/12

SOVIET CHESS SETS 4 - PEÇAS XADREZ SOVIÉTICAS 4



Como informa a caixa de cartão na minha pobre tradução:

Fabricadas na Fábrica Borodino (e) na região de Moscovo, com a aprovação do Ministério Superior das Indústrias e Direção Geral de Comércio, estas minhas pequenas e deliciosas peças soviéticas que a olho nu e pela minha 
experiência andarão no seu fabrico pelos anos 50-60.


Apresentam já as características tão comuns das peças de xadrez soviéticas : as cores cruzadas das “carapuças” plásticas  nas Damas e nos “espigões” que encimam os Reis.

Os Bispos são curiosos, porque ainda não apresentam qualquer “carapuça”, nem sequer aquilo que mais tarde será outra característica desta peça Russa, a “mitra” lancetada, quase aguçada, mas sim têm uma “cabeça” arredondada ( não é comum nas peças soviéticas a existência daquela fenda tão característica no topo dos Bispos das peças ocidentais).



Os Cavalos já apresentam aquilo que se vai tornar quase um ex-libris das peças soviéticas, principalmente daquelas conhecidas como “Peças Grande – Mestre” : a cabeça da peça é feita de plástico rígido, claramente moldado, mas quando bem feita e pintada, quase não se distingue da base da peça que é de madeira. Só posso explicar este facto pela dificuldade que representaria numa produção em massa, o entalhe em madeira de uma peça complicadas como o cavalo, sendo muito mais fácil, rápido e rentável a fabricação em plástico de molde.

Digo, massificação, porque as peças usadas em muitas finais de Campeonatos da URSS, ou as usadas nos Campeonatos do Mundo, por exemplo Botvinnik – Tal, Petrosian – Botvinnik, ou mesmo o 1º e 2º encontro Karpov-Kasparov, eram especiais, de uma beleza ímpar, em que os cavalos eram finamente talhados - esculpidos em madeira e como tal, hoje uma raridade mesmo na própria Rússia, e muito caras em leilões. 


Aliás, posso informar que as peças do 1º e 2º encontro Karpov - Kasparov que estavam guardadas em museu foram roubadas e hoje devem estar nas mãos de alguns desses abutres – colecionadores que não olham a meios para conseguir os seus fins. O que se encontra hoje no museu em Moscovo na mesa de jogo desses matches, é uma réplica miserável das verdadeiras.