Assim comecemos com a poetisa Maria Pimental Montenegro (1925-1970), que neste poema joga o jogo das peças do tabuleiro como jogo da vida
Fui pião e cavaleiro
deste jogo de xadrez.
Percorri o tabuleiro
em jeito diagonal
pela mão da fantasia,
Mas surgiu a dama preta
mais o bispo transversal,
e perdi a minha vez.
Já dei xeque-mate ao rei
e desde então até agora
(por meu bem ou por meu mal)
sou torre de pedra branca,
firme, erecta e vertical.
deste jogo de xadrez.
Percorri o tabuleiro
em jeito diagonal
pela mão da fantasia,
Mas surgiu a dama preta
mais o bispo transversal,
e perdi a minha vez.
Já dei xeque-mate ao rei
e desde então até agora
(por meu bem ou por meu mal)
sou torre de pedra branca,
firme, erecta e vertical.
Fernando Grade, escritor e poeta, artista plástico, crítico de arte, numa parábola à necessidade, engenho e "paciência" de pensar, refere-se a peças do xadrez
Tanto faz que os cavalos
sejam afogados no pântano dos peões
ou no labirinto da rainha.
Sócrates pensava devagar.
Reinaldo Ferreira (1922-1959) ( já citado em Ala-de-Rei), um belíssimo poeta, morto prematuramente (autor por exemplo de poemas das canções " Menina dos Olhos Tristes", ou " Uma Casa Portuguesa", e cantado por Zeca, Adriano, Fausto, Amália, entre outros) liga vida e xadrez, xadrez e vida neste poema
Na vida somos iguais
Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.
Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.
Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
Pedro Alvim autor de um livro de poemas " Os Jogadores de Xadrez" ,opõe a alegria e o encontro à tristeza e demissão (retirado da Ala-de-Rei, a 1ªparte, a que acrescento mais um extracto do livro
em futuras empresas de segredo
E tão depressa o esqueço como aprendo
Xadrez Roleta Bolsa Qual o jogo
em que tudo tão sôfrego se troca
E ao longe brilha o brilho de uma faca
Joga Canção o jogo desta faca
Jogado no segredo é sempre ganho
se aprendo que o não-ser pelo ser se troca
Daniel Filipe, outro enorme poeta desaparecido cedo desta vida, refere-se ao xadrez como paciência e espera numa analogia com o tempo do Fascismo em Portugal
aqui ainda podemos gostar de futebol
Inês Sarre, no poema "Cegonhas do Campo", se refere ao Xadrez
Xeque-mate, chá-mate: jogo de dois: ou três:
Já: sol: posto. Calada, a ave. Mal: arrastado:
Entre as árvores: estátuas: montadas: pela noite:
Segura, a rédea: a mão, envergonhada. Lê a lei- aleijada:
Cavalga: de si: cifrada: desaloja: a crueza da pedra,
Lírico Homero: de rasgos: e remendos. Pobre,
Aleijado e sem fazenda. De rastos, só: o moço.
Também nossa, pela senda: a pele: e o osso.
Traz a coroa. E é de flores: ao pescoço.
Fernando Guerreiro, inspirando-se num quadro onde o xadrez era o tema, escreveu
ao longe e por contraste
a profundidade do quadro.
Deste modo o que os dois homens antes de mais
num primeiro plano jogam
é o arbitrário,
o que serve de suporte
a todo o edifício, do quadro.
Ao moverem o tabuleiro
os dois homens fixam a própria sorte
e o acaso (agora parado)
da jogada.
Para terminar, e para os que chegaram até aqui. Tudo este post se baseou : dois poemas insertos no Blogue do Francisco Vieira, Ala-de-Rei e num pequeno livro delicioso ( que anda aí nas feiras de livro usado a 1, 2 Euros) "O Desporto na Poesia Portuguesa" do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1989, com pesquisa, selecção e notas de jOsé do Carmo Francisco.
É que isto de autorias e coisas afins, tem muito que se lhe diga...e é bonito ver numa capa da recente nado-morta, Revista da FPX, um belo relógio antigo, que por acaso é do Grupo de Xadrez do Porto, e não por acaso, fotografado por mim, e na "revistinha", nem uma palavra , nem da proveniência da foto,(site do GXP) nem do autor. Ou melhor...tem, mas por decoro não comento!
Abaixo, capa do livro e índice geral ( clicar nas imagens para aumentar)
Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.
Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.
Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
Pedro Alvim autor de um livro de poemas " Os Jogadores de Xadrez" ,opõe a alegria e o encontro à tristeza e demissão (retirado da Ala-de-Rei, a 1ªparte, a que acrescento mais um extracto do livro
Apóstrofo (*)
Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p’lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos – e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçuras buscavam nos peões – sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali o néctar; ora, o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando… Assim tudo era – e ‘té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhadas, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos – e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado.
(*) Poema em forma de texto, integrado no livro de poesia, Os Jogadores de Xadrez, publicado pelos Livros Horizonte (na colecção Horizonte de Poesia) em 1986.
Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p’lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos – e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçuras buscavam nos peões – sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali o néctar; ora, o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando… Assim tudo era – e ‘té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhadas, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos – e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado.
(*) Poema em forma de texto, integrado no livro de poesia, Os Jogadores de Xadrez, publicado pelos Livros Horizonte (na colecção Horizonte de Poesia) em 1986.
...Já os Cavalos pelo pátio se quedaram em sua pedra última. As folhas suspenderam as verdes sombras pêlos ombros de tudo — e os cotovelos não são o início já do movimento da mão pelo Xadrez. «Sessenta e quatro casas» — conta um jogador. «Oito a raiz quadrada» — busca o outro ainda. Numa esquina algures Agosto acena ao voo das abelhas ora ido — e as uvas de Setembro sê-lo-ão em seu maduro tempo uma a uma. Entram os jogadores a porta intima no fundo do pátio tão parada — e eis passo a passo o corredor, as paredes, os quadros, os armários. Tudo agora está e se não vai, tudo ora se conta como hábito: eis a lâmina da barba, as [contas na cozinha, a botija do gás, a lâmpada sobre a mesa, os livros, os jornais, a mosca pela cal — e súbito o ruído do autoclismo. Ah, um copo de água! «Penélope, eis-nos chegados!» — e no ritmo dos corpos eis nos ficamos assim pêlos lençóis tão descobertos. Quase, e só quase, é a nossa condição, e quase como nós o foram outros, e sempre nós e outrem, outrem e nós, nos fomos contando pela vida os números impossíveis de contar. O silêncio depois, voo nenhum, a noite lá fora, a volta só da chave — ó loiça doméstica! nunca o bico do bule, nunca a asa da chávena, um dia, um dia só! um dia foram ave!
O grande Poeta David Mourão Ferreira, também não deixa de tocar o jogo de xadrez, como paralelismo da "vertigem do jogo do Amor"
O grande Poeta David Mourão Ferreira, também não deixa de tocar o jogo de xadrez, como paralelismo da "vertigem do jogo do Amor"
E investe-se de novo a perda o ganho
em futuras empresas de segredo
E tão depressa o esqueço como aprendo
Xadrez Roleta Bolsa Qual o jogo
em que tudo tão sôfrego se troca
E ao longe brilha o brilho de uma faca
Joga Canção o jogo desta faca
Jogado no segredo é sempre ganho
se aprendo que o não-ser pelo ser se troca
Daniel Filipe, outro enorme poeta desaparecido cedo desta vida, refere-se ao xadrez como paciência e espera numa analogia com o tempo do Fascismo em Portugal
aqui ainda podemos jogar obcessívamente o xadrez.
aqui ainda podemos gostar de futebol
Inês Sarre, no poema "Cegonhas do Campo", se refere ao Xadrez
Cresce: o chá. Joga-se: o xadrez.
Xeque-mate, chá-mate: jogo de dois: ou três:
Já: sol: posto. Calada, a ave. Mal: arrastado:
Entre as árvores: estátuas: montadas: pela noite:
Segura, a rédea: a mão, envergonhada. Lê a lei- aleijada:
Cavalga: de si: cifrada: desaloja: a crueza da pedra,
Lírico Homero: de rasgos: e remendos. Pobre,
Aleijado e sem fazenda. De rastos, só: o moço.
Também nossa, pela senda: a pele: e o osso.
Traz a coroa. E é de flores: ao pescoço.
Fernando Guerreiro, inspirando-se num quadro onde o xadrez era o tema, escreveu
Escuro o primeiro plano mais evidente se torna
ao longe e por contraste
a profundidade do quadro.
Deste modo o que os dois homens antes de mais
num primeiro plano jogam
é o arbitrário,
o que serve de suporte
a todo o edifício, do quadro.
Ao moverem o tabuleiro
os dois homens fixam a própria sorte
e o acaso (agora parado)
da jogada.
Para terminar, e para os que chegaram até aqui. Tudo este post se baseou : dois poemas insertos no Blogue do Francisco Vieira, Ala-de-Rei e num pequeno livro delicioso ( que anda aí nas feiras de livro usado a 1, 2 Euros) "O Desporto na Poesia Portuguesa" do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1989, com pesquisa, selecção e notas de jOsé do Carmo Francisco.
É que isto de autorias e coisas afins, tem muito que se lhe diga...e é bonito ver numa capa da recente nado-morta, Revista da FPX, um belo relógio antigo, que por acaso é do Grupo de Xadrez do Porto, e não por acaso, fotografado por mim, e na "revistinha", nem uma palavra , nem da proveniência da foto,(site do GXP) nem do autor. Ou melhor...tem, mas por decoro não comento!
Abaixo, capa do livro e índice geral ( clicar nas imagens para aumentar)