XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

03/08/10

CECÍLIA MEIRELES,XADREZ, OUTROS...

Como ninguém respondeu, da postagem anterior : " Fritz Lang " Man Hunt" , ou se quiserem : ""Caça ao Homem", ou " O Homem que quis matar Hitler".


Em reposição de 2004, um artigo meu na Luso Xadrez.



Gosto da cultura brasileira. Gosto pronto!

Desde o fim da minha adolescência que a cultura brasileira entrou nos meus gostos comuns, no meu plano de “crescer e não morrer estúpido”. Clarifico…gosto da cultura brasileira, mas de determinado “Brasil” muito meu, muito interior, “asa de imaginação”, porque nunca tive oportunidade de o abraçar na realidade física e corpórea.


Talvez como na “boutade” poética de Pessoa acredite que “viajar é perder países”, resta-me a consolação da viagem interior ao coração de determinados ternos aspectos de um Brasil muito,muito restrito e redutor, mas, muito intimo que só por leve pudor o confesso!


E torno a clarificar…nunca me interessou muito essa conversa fiada de “irmãos”, e “cassete gravada” das relações Portugal – Brasil! Não sou político, nem tenciono vir a ser, não sou cantor em futura tournée no Brasil, ou actor à procura de um espaçozinho em telenovela, nem sequer empresário à procura de oportunidade de mercado imenso, ou agente de futebolista interessado em vender perneta de segunda a Presidente de 5ª categoria de clube de 4ª .


Clarifico mais ainda…Nunca me interessou muito determinado Brasil que embora sabendo real, fica aquém da imensidão humana e cultural de uma nação imensa. Por outras palavras, Não morro de amores pelo Samba, nem me lambuzo “São Bernardo” pelas mulatas e menos mulatas de belos corpos esculturais (“siliconais” muitos?) a abanar-se freneticamente no sambodramo, e admirem-se, nem sequer me excitam particularmente os “fios dentais” em grandes ou menos grandes “bundas” de imagem de praia de Copacabana.


Não sou particularmente fanático, nem sequer palrador de telenovelas, não deliro com o futebol brasileiro actual, embora consiga ver e ver e ver como as pilhas duracel, imagens desse fantástico Pelé, ou dessa equipa intergaláctica do Mundial do México, não tomo “charope para a tosse” delicodoce de determinada música popular brasileira actual, quase fotocópia de belo embrulho de grandes nomes do passado mais presente.


Resumindo: não gosto muito, nunca gostei, dos “postais” ilustrados turísticos que os países gostam de apresentar, dos fogos fátuos promocionais, do efémero temporal em vez do sólido histórico. Eu sei que é polémico, pois é, mas que se há-de fazer? Há mais de 30 anos que penso assim em relação à cultura brasileira e hoje como se costuma dizer “ burro velho não muda”! Sou uma espécie de “velha meretriz”, muito de velhas, apaixonadas e se quiserem desdentadas e babosas paixões e amores em relação à cultura brasileira.


Olhem, por exemplo…gosto dos teólogos de libertação como Leonardo Boff, no ensino, as leituras de Paulo Freire foram um factor de crescimento na minha profissão de Professor, Ziraldo vai-me mostrando que humor e criança andam de mão dada, por obrigação paternal, habituei-me a adorar a Turma da Mónica na B.D., na música não dispenso da minha vida os clássicos: sim, o Rei Roberto, Jobim, o Chico Buarque, Caetano, O Toquinho, o Baden Powel, o “Sor” Alceu Valença, mas também a gigantesca Elis, a Bethânia, a Gal, a Nara, ou esses desconhecidos “chorinhos” de uma “Chquinha” Gonzaga ,de um Sivuca, ou essa Bossa Nova de um Luiz Bonfá, entre muitos outros! Na Pintura, gosto de despoluir o meu olhar nas gravuras de Portinari, Segall, di Cavalcanti, ou Emeric Marcier; No cinema o Glauber, no Xadrez, claro, esse Mequinho genial, ou as crónicas deliciosas dos Câmaras, ou alguns problemas de Valadão Monteiro e claro, essa minha primeira terna e para sempre “Bíblia” de aprendizagem xadrezística, que tal como o foi o “porquinho-da Índia” para o Bandeira, foi a minha primeira namorada, o “Xadrez Básico”. Na literatura, continuo a reler e sempre em constante descoberta os Grandes Mestres em poesia, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Quintana, Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murillo Mendes, Vinicius de Morais, Jorge De Lima, Cabral Neto, ou esses maravilhosos cavalgadores de sonho e fantasia romanesca que foram essa única e irrepetível Clarice Lispector, esse portento da língua brasileira Guimarães Rosa, esse sensível Erico Veríssimo, esse arqueólogo de paisagens interiores José Mauro de Vasconcelos, ou que são, como esse pitoresco contador Ubaldo Ribeiro.


Blasfemo, gritarão alguns! Primário! Esquecido! Berrarão outros! Vulgar, fóssil e empedernido! Vociferarão, outros tantos! Mas…paciência meus caros! De amores não me aparto, nem com ilusões vãs me iludo já! Gosto, adoro e ninguém tem nada com isso!


Mas isto tudo a propósito de quê? Ah! Ia-me esquecendo! Nas minhas releituras poéticas brasileiras, acabei por deparar com um poema de uma grande e excelentíssima poetisa, cuja obra é um dos meus manjares interiores desde o fim da adolescência. Diria mais, depois de José Mauro de Vasconcelos e “O Meu Pé de Laranja Lima”, e do “Olhai os Lírios do Campo” do Erico Veríssimo, foi através de CECÍLIA MEIRELES que entrei no mundo, nesse fantástico e frondoso mundo da poesia brasileira.


“ Conheci” Cecília Meireles através de um belo e inocente livro infantil, comprado num alfarrabista, “Criança Meu Amor”. Depois, aqui e ali ao longo dos anos, uma procura sistemática, um conhecimento lento mas íntimo da sua obra, tão magnificamente burilada, tão humildemente sensível, leve, subtil, mas humanamente profunda. Hoje, nas canseiras obrigacionistas do dia - a dia, não raras vezes o meu espírito faz férias em alguns serenos ou inquietos, melancólicos ou esperançosos, poemas desta grande mulher e poeta.


Afinal quem foi Cecília Meireles? Nasce em 7 de Novembro de 1901 na Tijuca no Rio de Janeiro, filha de um funcionário bancário e de uma professora. O seu nascimento é marcado por um cunho trágico: não só Cecília, foi a única sobrevivente de quatro filhos do casal, como o pai faleceu três meses antes do seu nascimento, seguindo-se o falecimento da mãe ainda a nossa poetisa não tinha 3 anos. Foi criada pela avó Jacinta. Toda esta tragicidade ligada à sua vida marcará as suas ideias, a sua sensibilidade, a sua obra. Ela própria afirmará que estes acontecimentos lhe deram desde pequena “ uma tal intimidade com a Morte, que docemente aprendi essas relações entre o Efémero e o Eterno”. Afirmará também que a sua solidão infantil, lhe deu duas coisas no seu entender positivas: “silêncio e solidão”, dois pilares da sua vida e trave mestra da sua obra. Em 1927, diplomada pela Escola Normal, passa a exercer o cargo de Professora Primária em escolas oficiais, ao mesmo tempo que começa a escrever artigos de carácter educativo em Jornais diários. Incansável, cria a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, ao dirigir o Centro Infantil, de curta duração. Durante dois anos, de 36 a 38, lecciona na Universidade do Distrito Federal. Viaja, fazendo diversas conferências sobre temáticas que sempre a apaixonaram, Literatura, Educação, Folclore. Recebe o Diploma Honoris Causa da Universidade de Deli na Índia. Colabora em jornais e revistas, torna-se directora escolar, participa em programas culturais radiofónicos Casa duas vezes, recebe vários prémios literários. Tem salas e ruas com o seu nome. A sua obra poética é vasta, destacando-se “Vaga Música”, “Mar Absoluto e Outros Poemas”, “Retrato Natural” , “ Romanceiro da Inconfidência” , entre outras. Não deixou de escrever prosa, seja de temática educativa, seja folclórica, de viagens, crónicas. Escreveu também livros para crianças. Morre no mesmo mês do seu nascimento, Novembro, no ano de 1964. Mas que poema é esse? É um poema de uma simplicidade e, de uma beleza formal notável.


Um dos grandes poemas de Cecília Meireles. Bem, um poema chamado precisamente “ XADREZ”. O poema, objecto deste artigo, faz parte do livro “ Mar Absoluto e Outros Poemas” e, se na sua temática foca o xadrez, a sua essência vai muito mais além do nosso nobre jogo. O Xadrez, o movimento das peças de xadrez, serve de pretexto para um belíssimo poema sobre a vida, o tempo, sobre a transitoriedade das coisas, sobre a solidão. No xadrez da Vida o xadrez interior da cada um na perenidade do nosso ser “Rei da nossa Babilónia”. Saibamos saboreá-lo, tacteá-lo interiormente, sentir-lhe a exacta medida, o seu peso etéreo e verdadeiro, pois como nos velhinhos e branquinhos livros da Ática, no aforismo poético de Novalis: “ Quanto mais poético, mais verdadeiro.”.


Xadrez

Leva-me o tempo para a frente

Certo de sua direção
Pausado passo indiferente
(Peão.)

Que ímpeto me vem de repente

e se esforça por contrariá-lo?
Ó nervosa crina, asa ardente!
(Cavalo.)

Talvez meu poder aumente,

e o tempo invicto alcance e toque...
Como, porém, mudar-lhe a ação?
(Roque.)

Leva-me o tempo para a frente,

dizendo passo a passo: "És minha!"
"Rainha!"

E apenas digo, debilmente

Como quem sonha e se persuade
Tua, apenas tua serei...
"Rei!"








02/08/10

CINEMA E XADREZ ....Outro desafio

Também não é muito comum nos sites e blogues que citam o xadrez no cinema, todavia pertence a um filme poderosíssimo de um Grande Mestre da História do cinema.
Alguém é capaz de o identificar? Filme e realizador?






27/07/10

Bergman-SOMMARLEK -Cartier Bresson-CINEASTA

Férias, outras actividades xadrezistas a imporem-se, ou mesmo a dificuldade da identificação, e nem uma resposta, apesar de vários xadrezistas terem vindo aqui espreitar.

Pois aí vai.

As primeiras duas gravuras são de:

Sommarlek, um dos mais belos filmes de toda a história do cinema. A cena em que Henrik apresenta o seu amor, Marie, a Elisabeth sua tia, quando esta joga xadrez com o padre.





As quatro outras:

Henri Cartier Bresson, não foi só, na minha opinião, subjectiva como tal, um dos maiores, senão o maior fotógrafo de todos os tempos, foi também cineasta, realizando vários filmes -documentários interessantes e visualmente muito bonitos.


“Victoire de La Vie” de 1937, produzido pela Centrale Sanitaire Internationale, sobre o lado médico e sanitário da Guerra Civil Espanhola-Republicanos , “ L’Espagne Vivra” de 1938, “Le Retour” de 1944-45, ou “Impressions de California” de 1969-70, e “Southern Exposures” de 1969-70, são alguns desses filmes que realizou.


As fotos colocadas no blogue, pertencem ao primeiro filme-documentário “ Victoire de La Vie” , quando soldados republicanos feridos da guerra-civil, jogam xadrez na enfermaria.


Já agora, se puderem, vejam esses filmes de Cartier Bresson que foram editados em 2 DVD conjuntamente com o Bresson fotógrafo, numa belíssima edição da Fundação HCB.



19/07/10

XADREZ e CINEMA -Desafio

Sei que alguns xadrezistas são verdadeiros amantes-"experts" de cinema. Os blogues e sites sobre o xadrez e o cinema também não são novidade e ainda vai para poucas semanas respondi a um interessante desafio do Francisco Vieira.
Pois, aí vai. Identifiquem filme e realizador das imagens que se seguem. Se no primeiro filme ainda acredito que cheguem lá ( é referido salvo erro num site), o outro é muito muito difícil, e é tão tão raro, que nunca visualizei quaisquer imagens deste filme em blogues de xadrez e cinema. Talvez por isso coloque quatro fotos que correspondem a uma sequência.
Vamos lá apurar as vistas para este quebra cabeças!

1º Filme ( 2 fotos)




2º Filme ( 4 fotos)




Vá lá pessoal...eu sei que isto vai um bocadinho além do Bond, do 2001, do Thomas Crown Afair, ou da Tabuleiro de Flandres, mas tentem!
Mesmo malta do meu Clube que parece ser entendida em cinema...afinfem-se!

Quase que dava um prémio se alguém acertar nos dois!

19/06/10

Uma Oferta...Um Senhor do Xadrez...Um Obrigado




Depois de caloroso cumprimento e porque em equipa desfalcada, o quarto tabuleiro exigia concentração apurada numa eliminatória de uma Taça de Portugal:

- Arlindo, tenho uma coisa para te oferecer, guardada pr'aí há dois anos! Espero que não tenhas!

Não tinha. E sem jeito, os olhos brilharam-me de alegria. Como criança com brinquedo novo, apeteceu-me um daqueles "Yes" de braço curvado, como os meus adolescentes perante positiva em teste, não fosse perturbar o silêncio do jogo na sala do Meu GXP.

Assim, dois anos de espera para me dar uma prenda que segundo o "ofertante" encaixava no que sabia da minha adoração do xadrez. Assim os Amigos! Assim aquilo que sei vai para muitos anos no xadrez português.



Há de tudo :Os ambiciosos e muito, o aprendiz de carreirista, o "rapidinhas" do Clube, o parvo xadrezista não vicentino, o analfaxadrezista, o equídeo nem de plástico nem de madeira que faz concorrência aos quatro outros, o dirigente ditador-tasqueiro, o imberbe, o que julga que joga muito e não passa de "piço" , o Jovem que é o JXPQNVLN e ...



OS QUE AMAM verdadeiramente o xadrez de coisa amada, os verdadeiros amadores, aqueles para quem o xadrez além da competição, é uma "festa" de amizade, de cultura xadrezista, de amor à causa, seja um blogue, uma simples sala de um clube, um respirar cada vez mais ofegante e difícil para manter aquilo que é a verdadeira riqueza do xadrez nacional-Os Clubes!

Assim o Sirgado, o Meu Amigo, Carlos Sirgado que me enlevou com a oferenda.E que oferenda!

Não tinha o livro, adorei-o! Não sei a data, nem a edição. Não quero saber! Tem a data de bondade para mo dar, e a edição da amizade , categoria intelectual e cultural-xadrezista de quem mo ofertou!

Caro Sirgado...Tenho dois anos para pensar na retribuição, embora saiba que ele nem sonhada a pensou!

Na Minha Biblioteca em lugar visível de destaque - O PHILIDOR , do Carlos Sirgado!

PS: o GXP passou a eliminatória, mas curiosamente não me senti muito empolgado. Semanas antes no excelente site do Ginásio " Há Xadrez em Odivelas", tinha escrito:

"Claro que não vos desejo a vitória, mas também não sei explicar porquê… a derrota, porque o GCO é um dos Clubes mais decentes e simpáticos do xadrez nacional (e se calhar “pobre” que acaba por ser rico -já somos dois!)".

Claro que reencontrar o António Pereira dos Santos, foi outras das minhas alegrias. Perdeu, mas a sua postura de cavalheiro e senhor do Xadrez, é como o "Constantino", vem de longe!



02/06/10

CONCURSO...


Who's That Guy?

And...What's happening?

Crazy things....for crazy chessplayer?

Later the answer.