XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

03/01/10

LASKER...Emanuel X LASKER , Edward , N Y 1924








Emanuel Lasker - Edward Lasker
N Y, 1924


Depois de considerar momentaneamente que abertura escolher, Emanuel Lasker começa a partida com o seu lance favorito e4. Sabia perfeitamente que se a minha resposta fosse e5, seria confrontado com a Ruy Lopez e as suas infindas subtilezas, nas quais Lasker tinha a experiência de trinta anos de lutas para o Campeonato do Mundo. Mas não havia muito por onde escolher. A Defesa Francesa, Siciliana ou Caro-Kann seriam talvez terra incógnita para o meu oponente, mas também o eram para mim. Numa Espanhola teria ao menos a vantagem de algum conhecimento de análises recentes do ataque que Marshall inventou. Curiosamente, uns dias antes tinha mostrado essas mesmas análises a Emanuel Lasker, mas de certeza que ele não tinha tido oportunidade de analisar todos os detalhes destas análises. De qualquer forma, não tive a coragem de tentar o Ataque Marshall...afinal uma duvidosa inovação, e preparei-me para jogar uma nova variante da defesa Tarrasch que tinha analisado antes do torneio com Maroczy. Então:


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4


Lasker hesitou um pouco antes de jogar o lance da partida e isso levou-me a pensar que a minha ideia de jogar o Ataque Marshall, o poderia induzir a jogar a sua velha e favorita variante de trocas, seguida de d4, com o objectivo de procurar um final favorável através da sua maioria de Peões no flanco de Rei. Verdade que Tarrasch afirmou que " antes do final , os deuses colocaram o meio-jogo", mas o que é certo é que perdeu com esta variante contra o mesmo Lasker na primeira partida do Campeonato do Mundo que disputaram. Não pude também deixar nesses breves momentos, de relembrar a belíssima partida que Emanuel Lasker ganhou a Capablanca no Torneio de S. Petersbursgo de 1914 e isso, obrigou-me a um esforço de memória para me lembrar que variante era a melhor para contestar à variante de Lasker, no entanto a minha preocupação desapareceu quando Lasker retirou o Bispo a a4.


4...Cf6 5.0–0 Be7


Por breves segundos considerei jogar Cxe4 em vez do lance da partida, já que Schlechter jogou esta variante com sucesso no seu math de 1910 contra Lasker, no único Campeonato do Mundo que terminou empatado.. Todavia, não conhecia em pormenor os meandros desta variante pelo que preferi afastar-me de complicações.


6.Te1 b5 7.Bb3 0–0


(...) Quando joguei 0–0, estava a fazer "bluff" e já tinha em mente jogar a variante Tarrasch, mesmo que o meu ilustre adversário jogasse 8.c3. Pensei todavia que Lasker pudesse temer as complicações deste ataque, nada fáceis de resolver no tempo limite da partida. Efectivamente Lasker gastou algum tempo do relógio antes de se decidir pelo lance da partida. Finalmente com um encolher de ombros, respondeu...


8.c3


A defesa Tarrasch da Espanhola desenhava-se no tabuleiro depois de eu ter desistido do ataque Marshall

8...d6 9.h3

um lance importante nesta variante, com o objectivo de evitar a pregagem Bg4, o que iria enfraquecer de forma significativa o planeado avanço do Peão de Dama


9...Ca5 10.Bc2 c5 11.d4 Dc7


até ao momento, a partida segue pelos caminhos mais trilhados nesta variante da Ruy Lopez


12.Cbd2 cxd4


Tarrasch jogou 12... Cc6 nesta posição. As Brancas ficam então com duas opções: oferecer temporariamente um Peão com 13.Cf1, ou jogar 13.d5, fechando o centro e apontar as baterias para um ataque no flanco de Rei. O plano que iniciei com 12...cxd4 ligado ao lance seguinte, pretende uma ocupação rápida da coluna c com uma das Torres, tirando partido de um certo atraso de desenvolvimento da Ala de Dama das Brancas. Esperava que esta linha de jogo pusesse mais dificuldades ao meu adversário do que qualquer outra variante que tivesse escolhido

13.cxd4 Bd7 14.Cf1 Tfc8


Pode parecer razoável usar a Torre de Rei nesta coluna e manter a Torre de Dama operacional para acções no flanco de Dama, conclui que a Toore de Rei talvez fosse mais útil no flanco de onde saiu.


15.Te2



Este lance surpreendeu-me. Esperava 15.Bd3, e pelo resultado de outra partida jogada com esta variante neste mesmo torneio, o lance parece ser o melhor. Talvez o lance de Lasker tenha dois objectivos: proteger a segunda linha e preparar uma futura dobragem das Torres em qualquer coluna que se proporcione. Procurei encontrar uma forma de tirar partido da posição algo artificial da Torre branca e o lance 15...Ch5 pareceu-me o mais adequado à minha análise da posição. O Cavalo negro poderia então atacar a Torre na csa f4 e, se as Brancas trocassem o seu Bispo de casas negras, o meu Peão em f4, controlaria e3 e g3, tirando liberdade de manobra ao cavalo branco de f1.Enquanto estudava as possíveis consequências do lance, vi que o mesmo envolvia o sacrifício de um peão, já que as Brancas podiam capturar duas vezes em e5; então se eu capturava o cavalo de e5 com a minha Dama, Lasker capturaria o meu Bispo de d7 com a sua. Mas...não poderia sacrificar o meu Bispo de casas brancas em h3 e ganhar um peão antes de capturar o cavalo de e5? Sim , mas antes as Brancas tomariam o meu peão de f7 com o seu cavalo.Céus! Eu não poderia tomar o cavalo! As Brancas dariam xeque com a Dama em d5 e se eu interpusesse o meu Bispo de casas brancas, tomaria o meu cavalo de h5 com xeque e ataque vitorioso.Não, tinha de haver alguma coisa escondida. Verifiquemos a variante outra vez: eu jogaria 15...Ch5 e seguir-se-ia 16.dxe5 - dxe5 17. Cxe5 - Bxh3 18. Cxf7. Mas porque não retirar o meu Bispo para e6, atacando o cavalo branco em e5 e defenfendo o xeque em d5? Lasker teria de jogar Cg5 e eu poderia jogar Bc4. A sua Torre não se poderia mover, porque quer se movesse para a casa d2 ou e3, cortaria a ligação do Bispo de casas negras que defendia o cavalo de g5. Restaria à Torre a casa e1, mas isso levaria à perda de uma peça, depois de trocar o meu Bispo de c4 pelo cavalo de f1 e tomar de seguida com a minha Dama o Bispo Branco de c2. Assim só restaria a Lasker uma solução, interpor o seu Bispo em d3 que eu pregaria com a minha Torre jogada a d8.Verifiquei toda a variante uma e outra vez e não encontrei nenhum erro nela. Pareceu-me que o ataque que obteria, valeria bem mais do que o Peão sacrificado.Assim nem hesitei:


15...Ch5 16.dxe5 dxe5 17.Cxe5 Bxh3 18.Cxf7



Be6 19.Cg5 Bc4 20.Bd3 Td8 21.Tc2!


Esta contra-pregagem humorística não foi considerada nas minhas análises. Ela permite às Brancas escaparem da pres21.Bxc4+são. O que eu tinha analisado antes deste lance de Lasker foi: 21.Bxc4+ -Dxc4 22.Dc2 - Dxc2 23. Txc2 - Td1 24.Cf3 - Cf4 e não encontro lance satisfatório para as Brancas, pois 25. Td2 - Td8 e as brancas não têm tempo para o lance libertador b3, pois a ocupação da casa d3 pelo meu cavalo teria efeitos devastadores.Também 25.b3 - Cd3! 25.g3 - Cd3 26.Rg2 (para jogar Ce3) Tf8! 27. Ce3? - Txf3 28. Rxf3 - Ce1+ . Se ao lance 27. C1d2 - Bg5!! 28.Cxg5? - Txf2 e mate em dois.As Brancas com a seu lance evitam todas estas complicações, mas eu continuo com vantagem na mobilidade das minhas peças e controlo a coluna de Dama, pelo que a minha superioridade posicional vale bem um peão. Encorajado pr todas estas considerações, continuei:


21...Cf4 22.Bxf4 Dxf4 23.Ch3 De5



As brancas ainda terão trabalho duro para me desalojar desta casa central dominante.


24.Bxc4+ Cxc4 25.De2 Td4 26.f3



As casas negras em volta do Rei Branco estão agora enfraquecidas, pelo que o meu Bispo de casas negras pode encontrar um fértil campo de acção. Como é óbvio primeiro terei de dobrar as Torres na coluna D para evitar as trocas na mesma coluna das Torres Brancas.


26...Tad8 27.Tac1

Agora as brancas estão preparadas para afastar o meu cavalo com b3 e depois começar a manobrar na coluna aberta , ameaçando entre outras coisas trocar torres em c8. Examinando a posição no sentido de encontrar uma boa casa para o meu cavalo, conclui que só em d2 ele estaria bem colocado.Em d6, a minha Dama seria desalojada da sua posição central com Tc5. Retirar o cavalo a b6, daria oportunidade à Torre Branca de fazer uma incursão no meu campo com Tc6 e, se punha a minha Torre em d6, ela jogaria a c5. Se colocar o meu cavalo em d2 ameaço a troca com o cavalo Branco de f1 e assim as casas negras em volta do Rei ficam sem o seu principal defensor e o meu Bispo pode aumentar o seu raio de acção. Para permitir a ida do meu cavalo a d2, tenho de jogar primeiro o meu Bispo a b4 e tenho de ter cuidado de não deixar cravar o mesmo cavalo na coluna, se as Brancas tentam iludir a troca pelo de f1.
Tinha apenas 5 minutos no relógio para completar o meu lance 30 e concluindo que o plano idealizado com Cd2, era o único à minha disposição, decidi entrar nele. Antes de jogar o Bispo a b4 e para ganhar tempo ao relógio, decidi jogá-lo primeiro a c5, encostando o Rei Branco ao canto do tabuleiro.


27...Bc5 28.Rh1 Bb4 29.b3 Cd2


Só me faltava um lance para o controlo.Pensei em dois lances que as Brancas poderiam jogar se quisessem evitar a troca de cavalos: quer 30.Ch2 ou 30.Ce3. Neste ultimo caso, porque não sacrificar o meu cavalo em e4 e depois recuperar a peça, aproveitando a pregagem do cavalo branco em e3? Confesso que não esperava que Lasker jogasse este lance. Mas acordei da minha crença com :

30.Ce3!?


Lasker atreveu-se, jogou mesmo o lance. Jogou-o para tornar a posição complicada e aproveitar o pouco tempo que me restava para calcular as consequências do sacrifício Cxe4?
Ou...haveria alguma falha nos meus cálculos? Num estado de grande agitação, retornei aos meus cálculos. O que podertia jogar Lasker depois do sacrifício 30...Cxe4 31.fxe4 - Txe4 ? Talvez...32.Tc8. Eu não poderia trocar torres, porque depois de Txc8 33.Txc8+ seguido de Df3+ estaria perdido.
Mas que se seguiria depois de retirar a minha torre para e8? 33...Te8? Isso não defenderia a minha primeira linha e não recuperaria à mesma o Cavalo pregado? Depois de trocar a Torre de c8 pela de e8 , as brancas não podem defender o Cavalo de e3, mas talvez dar o cavalo de e3 e jogar para um ataque perigoso com Dd3?
Tick, Tick, lembrava o relógio ao meu lado, a seta quase a cair, 15 segundos restantes...depois de Txe3 35 Dd5 + . E para quê tomar logo o cavalo de e3? Porque não jogar primeiro Dd6, ou simplesmente retirar o meu Rei para o canto?
Mas em vez de Dd3, se as Brancas retiram o seu Cavalo de h3 para g1 e respondem a Txe3 com Dg4 atacando o meu bispo em b4 ameaçando a sua ida de Torre a c8, obrigando-me a jogar Bf8... Três Segundos e a seta quase a cair! Tenho de jogar. Estava tão apurado pelo tempo que as peças começaram estranho bailado em frente dos meus olhos. Não haveria um lance que mantivesse as minhas ameaças e que não estragasse a posição neste escasso tempo que tenho para o realizar e só depois do controlo de tempo ultrapassado pensar nas consequências do sacrifício do Cavalo?
Ah! Achei Ba3 obrigando a sua Torre a mover-se...Depressa:

30...Ba3

Realizei esta jogada no exacto momento em que me preparava para perder por tempo, mas rapidamente me dei conta que tinha deitado por terra a possibilidade de vencer, pois...

31.Td1


Agora não há sacrifício em e4, pois a minha Torre de d8 está em "prise".
Estava esgotado pelos terríveis apuros de tempo e descroçoado, agora que lentamente poderia ir atrás e ver mais detalhadamente a variante do sacrifício do Cavalo e a minha retirada da Torre de d8 para e8.Uma análise detalhada da posição com próprio Emanuel Lasker no ano transacto, mostrou que se ele tivesse em vez de 30.Ce3 !?, jogado 30.Tc8, a partida poderia terminar em empate, o que me deixou mais consolado.30...Cxf1 31. Txd8+ - Txd8 32.Dxf1 - Bd6 33.f4 - Dxe4 seria a continuação mais plausível. Dificilmente as brancas poderioam manter o Peão com 33. Dg1 -Dg3! 34. Td1 -Tc8 35. Td5 - h6 e as negras ameaçam Tc3 e sacrificar em f3 depois de retirar o Bispo . Se as Brancas tentam parar esta ideia com 36. Td3 - Tc5! com a ideia de Th5 37.Te3 (para f4) Bf4 38.Cxf4 - Dxf4 e se 39. g4 - h5 39.De1 - Tc2. Alekhine nos seus comentários a esta partida considerou o meu lance com o cavalo em d2 como um acto de desespero e deu uma exclamação ao lance de Emanuel Lasker Ce3 , não se apercebendo de que o meu plano e o consequente sacrifício eram correctos, levando à derrota das brancas. Alekhine não analisou a possibilidade 32...Te8 em resposta a 32.Tc8. É uma pena que através deste erro conclua da ineficácia de toda a estatégia negra nesta excitante e interessante nova defesa que levou a um ataque feroz. Valeria a pena os leitores lerem o Livro do Torneio para verificarem as suas notas , agora sob um ângulo não distorcido pelo lapso de Alekhine.
Tinha que selar o meu lance, pois a partida iria ser adiada aré à sessão da noite. Depois do primeiro controlo de tempo ao fim de 30 lances, e com duas horas de intervalo, teria muito tempo para avaliar a situação no tabuleiro.Como não posso proteger o meu cavalo com 31...Dd6 devido a 32.Cf5, apenas me resta 31...Bb4 ou o sacrifício do cavalo 31...Cxe4 com chances de ataque, mas nada mais , porque o cavalo branco é impossível de recuperar. 31...Cxe4 32.fxe4 - Bd6 33. Cf1 - Txe4 34. Dd3? - Bc7 35. Df3 - Txd1 36. Dxd1 - Te1 e ganham. Tudo isto é um sonho, como rapidamente percebi. Ao lance 33. Cg4 - Txd1 34. Dxd1 - Dg3 35. e5 e não encontro nenhuma resposta satisfatória para as negras.Mas porque não uma combinação das duas ideias depois do meu lance 31...Bb4.? Parece evidente que as brancas irão expulsar o Bispo negro para ganhar o meu cavalo. Depois de 32.a3-Ba5 33. b4 - Bc7 ameaço mate, mas 34.f4 defende o mate e ameaça a minha Dama e Dd6 não pode ser jogado para defender o meu cavalo devido a Cf5 das Brancas. Assim a partida parecia perdida para mim, ou pelo menos daria essa sensação ao meu adversário...sonhava eu. Todavia o lance 34...Cxe4 seria o lance salvador e que até poderia virar a partida a meu favor!
Gastei quinze minutos a analisar variantes e subvariantes relacionadas com esta linha de jogo, pelo que fiquei com 45 minutos para os restantes 14 lances antes do segundo controlo. Tinha que me decidir. Decidi, e selei o lance.

31...Bb4


Quando a partida recomeçou duas horas depois, Emanuel Lasker jogou os lances esperados

32.a3 Ba5 33.b4 Bc7 34.f4



Evidentemente que as Brancas não podem defender o mate com 34. Cg4 ?- Cxe4 35. Txd4 - Cg3+ 36. Rh2 - Cxe2+ 37. Cxe5 - Bxe5+ e ganham.Lasker jogou 34. f4 com uma rapidez que me fez desconfiar, pois no intervalo para Jantar teve tempo suficiente para analisar detalhadamente a posição. . Mesmo assim analisei cuidadosamente a minha variante com Cxe4, para ver se não havia nada de errado nas minhas amálises anteriores.
Depois de 35. fxe5 - Cg3 + 36. Rh2 - Cxe2 37. Txc7 ( 37.Txd4??-Bxe5+ e ganham) Txd1 38. Cxd1 - Txd1 39. Cg5 - Td8 40. Ta7 - h6 41. Ce6 - Te8 seria talvez empate. Estava claramente desanimado pois era o que me restava depois do meu lance surpresa. Não havia mais nada a fazer e por isso joguei:

34...Cxe4


O meu adversário nem pensou muito...Penoso verificar que nem sequer considerei o seu lance que refuta a minha bela combinação.


35.Rh2!!


Aí está! O xeque em g3 está agora defendido, tenho de mover a minha Dama, mas de fortma a manter o Bispo de c7 defendido. Na resposta a Dd6, as brancas teriam simplesmente trocado as Torres e capturado o Bispo negro. De7 também era fraco devido a Cf5 . Nesta situação desesperada encontrei aquilo que julgava ser um brilhante recurso que me salvava a partida. Mas... a ideia é demasiado bonita para ser verdadeira.

35...Txd1!!


Se agora 36.fxe5 - Bxe5+ 37g3 - T1d2 ; Se 37. Cf4 -Bxf4+ 38. Rh3 - T1–d3!


36.Cxd1


Refuta toda a minha combinação. Agora a minha Dama deve mover-se e perco uma peça, ou Bispo ou Cavalo


36...De7 37.Txc7?



Um erro do tipo a que o antigo Campeão Russo Ossip Bernstein chamou de "Igualdade na Injustiça no Xadrez". Emanuel Lasker jogou este lance sem qualquer hesitação. Evidentemente que o tinha previsto de antemão, na altura em que elaborou a sua defesa com Rh2. Ele viu que ganhava a qualidade e não se preocupou em verificar outras possibilidades. Com 37. Cf2 ganhava uma peça e o jogo. 37...Td4 38. De3 - Bb6 39. Tc8+ -Rf7 40. Cxe4 - Txe4 41. dxe4 seguido do duplo ecom Cg5 + Depois de ter ganho Cavalo e Bispo por Torre as brancas não têm um final fácil. De facto é dividoso que o final se possa ganhar "per si". O seu peão fraco a , as Brancas devem jogar cuidadosamente evitando a troca de Damas, pois a Torre negra poderia deslocar-se ao longo de todo o tabuleiro ao contrário dos cavalos brancos. Lasker foge à troca de Damas e manobra de forma magistral de forma a conseguir um ataque ao Rei negro.


37...Dxc7 38.Dxe4 Dc4

Claro que Txd1 39.De8 Mate


39.De7 Dc8


Para impedir a aproximação dos cavalos. o Cavalo branco a e3 não pode ser jogado devido a Te8


40.Cdf2



[40.Cg5 Txd1 41.Df7+ Rh8 42.Dh5 h6 43.Dxd1 hxg5 44.Dh5+ Rg8 45.Dxg5 produziria um final de Damas bastante problemático de ganhar]

40...h6 41.Da7

o lance 41. Ce4 seria bastante desagradável, porque agora Te8 seria respondido com 42.Dc5. A troca de Damas nesta posição era-me desfavorável porque as brancas podiam capturar o peão a e embora eu pudesse capturar o a branco, o cavalo negro em d6 defenderia o peão b, o que me impossibilitaria a obtenção de um Peão passado

41...De6

Agora durante um pouco evito o cavalo em e4


42.Db7 Dd5 43.Db6





[43.Dxa6 Ta8 Cai o peão a branco e o b também estará ameaçado futuramente]


43...Td6 44.De3 Te6 45.Dc3 Dc4 46.Df3 Dc6 47.Dd3 Td6 48.Db3+ Dd5 49.Db1 Te6


Novamente prevenindo Ce4 e agora ameaço atacar o peão a branco com Te3

50.Cg4


[50.Cd3 Te2 51.Chf2 Ta2 52.Dc1 Dc4 e o peão cai. As Brancas decidem aproveitar e atacar sacrificando um cavalo em h6 para assim coilocar uma bateria de Dama, Cavalo restante e peões passados sobre o meu Rei.]


50...Te2



Permitindo o sacrifício e oferecendo o empate, já que as Brancas não terão dificuldade em forçar o xeque perpétuo. Todavia, psicologicamente eu penso que tenho chances práticas de vitória, porque as Brancas podem tentar ganhar com o Cavalo e dois peãos passados contra a minha Torre. Não tenho muito a temer desta tentativa, porque o Rei branco ficaria exposto depois do avanço dos peões. Poderia ter tentado 50...Te4 e só depois das Brancas jogarem o Cavalo a e5 é que jogaria a Torre a e2

51.Cxh6+



51...gxh6 52.Dg6+ Rf8 53.Dxh6+ Re8 54.Dg6+ Rd8



As Brancas poderiam agora empatar poor xeque perpétuo, começando com 55.Dd6+ e continuar a dar xeques na Oitava ou Sétima linhas at+e ur interpor Torre ou Dama, desfazendo a ameaça de mate em g2 . Então se as brancas se voltam para o meu peão a não teria nada de melhor do que renovar a ameaça de mate no mesmo ponto g2.As Brancas decidem prolongar a luta provavelmente convencidas que a possibilidade de xeque perpétuo se manteria e que uma possibilidade de vitória poderia nascer no caso de a minha Torre ou Dama se afastarem da luta capturando o seu peão a

55.Dg3



Agora descortinei uma possibilidade de evitar o xeque perpétuo, enquanto mantenho a ameaça de mate da mninha Torre na coluna g


55...Te8 56.Df2 Tg8 57.Db2 Dd6


Este lance protege o Rei contra xeques e ao mesmo tempo evita a aproximação do Cavalo pelo menos enquanto o peão de Bispo está desprotegido. Agora Emanuel Lasker manobra a sua Dama com grande subtileza no sentido de obter uma cooperação do Cavalo em g5. Entretanto a minha possibilidade passa por capturar o peão branco a, sem dar oportunidade de cheque perpétuo e tentar obter uma posição vitoriosa.


58.Dc3 Rd7 59.Df3 Rc7 60.De4 Tg7 61.Df5 Te7


Não consigo impedir o Cavalo de ocupar g5 e assim volto-me para o peão a.Aqui a partida foi adiada e as brancas selaram o seu lance. Uma terceira sessão de quatro horas estava a caminho, pois o final iria ser difícil para ambos os jogadores


62.Cg5 Te3 63.Ce4 De7!


Ameaçando mate em dois

64.Cf6 Rb8! 65.g3 Txa3 66.Rh3 Ta1



[66...Dxb4 67.De5+ Rb7 68.Dd5+ Perpétuo]


67.Cd5 Th1+



Por momentos considerei 67...Dh7+ 68. Dxh7 - Th1+ mas as brancas poderiam jogar ao lance 68. Rg4 e o seu Rei avancaria perigosamente. Com o lance do texto, o Rei deve retirar a g2 para não sofre duro ataque.

68.Rg2 Dh7



Troca obrigatória, porque a Dama Branca só disporia de um xeque e o seu Rei não poderia defender-se da acção concertada da Torre e Dama negras


69.Dxh7 Txh7 70.Rf3 Rb7 71.g4 Rc6 72.Re4 Th8


O meu plano era afastar primeiro o cavalo e só depois avançar o meu peão de torre, para assim abrir caminho ao peão b. Com o meu lance ameaço dar xeque em e8 e ganhar o cavalo, pelo que o mesmo vai ter de se retirar. Poderia ter conseguido o mesmo atacando o cavalo directamente da casa d7. Ao jogar o meu lance não me apercebi que a minha torre na oitava linha em vez de continuar na sétima, permitia ao meu adversário uma possibilidade escondida de empate. Com Td7, tudo era muito mais difícil para Lasker 72...Td7 73.Cf6 (73.g5 Txd5 74.g6 Td1; 73.Ce3 a5 74.bxa5 b4 75.g5 Rc5 76.Cc2 b3 77.Ca3 Rb4 78.Cb1 Td1) 73...Td8 74.g5 a5 75.bxa5 b4–+]

73.Ce3 Te8+ 74.Rd4 Td8+ 75.Re4


[75.Rc3 a5 76.bxa5 Rc5 77.g5 b4+ 78.Rc2 b3+ 79.Rb2 Td2+]



75...a5



76.bxa5 b4 77.a6!



[77.g5 b3 78.Cc4 Rc5 79.Cb2 Td2 80.Cd3+ Rc4 81.Ce5+ Rc3]



77...Rc5



Tivesse suspeitado que as Brancas tinham uma chance de empate como aludi atrás e teria prestado muito mais atenção ao avanço do meu peão b [77...b3 78.Cc4 Rb5 79.Cb2 Rxa6 80.Re3! Rb5 81.g5 Rb4 82.g6 Rc3 83.Ca4+ Rc2 84.f5 Te8+ 85.Rf3 a) 85.Rf2 Tf8 86.Rg3 Txf5 87.Rg4 Ta5! 88.Cb6 b2 89.g7 b1D 90.g8D Dg1+–+; b) 85.Rf4 Ta8 86.Cb6 b2 87.Cxa8 b1D 88.g7 Db8+ 89.Rg5 Dg3+ 90.Rf6 Dh4+ 91.Rg6 Dg4+ 92.Rh6 Rd3 93.f6 Re4 94.Rh7 (94.f7 De6+) 94...Df5+; 85...Te5 86.Rf4 Ta5 87.Cb6 (87.g7 Txa4+ 88.Rg5 Ta8 89.f6 b2 90.f7 b1D 91.f8D Ta5+ 92.Rg6 Rc3+ 93.Rf7 Df5+–+) 87...b2 88.g7 b1D 89.g8D Df1+ 90.Re4 Dd3+ 91.Rf4 Txf5+–+]

78.a7!!


Aqui está a surpresa que demonstra a importância da minha Torre estar na Sétima ou Oitava linha. Se a Torre tivesse sido jogada para d7 no lance 72, podia agora capturar o peão simplesmente. Agora tem de perder um tempo para isso e isso faz toda a diferença, pois permite a Emanuel Lasker o empate.


78...b3 79.Cd1 Ta8

[79...Rb6 80.Re3 Rxa7 81.Cb2 Rb6 82.f5 Rc5 83.f6 com final similar ao da partida]

80.g5 Txa7 81.g6 Td7 82.Cb2 Td2 83.Rf3! Td8


Não posso tomar o cavalo, mas posso ganhar ambos os peões e ter esperanças na vitória.


84.Re4 Td2 85.Rf3 Td8 86.Re4 Rd6 87.Rd4 Tc8 88.g7


Com o objectivo de forçar a Torre a afastar-se para o Rei se aproximar do meu Peão


88...Re6 89.g8D+ Txg8 90.Rc4 Tg3!


Este era o lance que eu pensava que ganhava, tal como outros participantes pensavam. Lembro-me que deixei a sala de jogo para descontrair um pouco e fui cumprimentado pela vitória por Bogoljuboff e outros que estavam na sala de imprensa vque me informaram que a história da partida estava feita. No entanto quando regressei ao tabuleiro, esperava-me um choque violento.


91.Ca4 Rf5 92.Rb4 Rxf4


Faltam três lances para as brancas capturarem o peão . Mas nesse momento o meu Rei atingiria a casa c5 e o cavalo estaria perdido devido à pregagem. Nunca passou pela minha cabeça que as Brancas não necessitam capturar o peão e ainda assim empatarem. Emanuel Lasker descobriu uma nova posição no final em que Torre e Peão não conseguem vencer o Cavalo. Esta posição tornou-se clássica. Por estranha coincidência, acontece que dois ou três anos depois num Torneio em Chicago, numa partida, um dois jogadores conhecia este final da minha Partida com Emanuel Lasker e salvou uma posição perdida, pois o outro jogador não conhecia a manobra de salvação.


93.Cb2!


Fiquei perplexo quando vi este lance, mas rapidamente percebi que não havia maneira de expulsar o Rei branco. Passar o meu Rei para a Terceira linha, expunha a captura do peão. A primeira coisa que fiz, foi dirigir-me à sala de Imprensa e dizer aos repórteres que deveriam desfazer a sua história da partida. Estava com medo que a já tivessem publicado, pois todos me atribuiam a vbitória. Depois retornei e analisei a posição. Se pudesse atingir d2 com o meu Rei, jogando-o por detrás da Torre podeeia ainda ganhar. Não custava nada tentar



93...Re4 94.Ca4 Rd4 95.Cb2 Tf3 96.Ca4 Te3 97.Cb2 Re4 98.Ca4 Rf3 99.Ra3


Isto destrói o meu plano.


99...Re4


[99...Re2 100.Rb2]


100.Rb4 Rd4 101.Cb2 Th3 102.Ca4 Rd3 103.Rxb3 Rd4+



EMPATE

Esta partida é geralmente considerada uma das mais emplogantes do Torneio. Claro que me senti algo decepcionado por ver a vitória fugir pelas minhas mãos depois de quase treze horas de uma dura luta. Mas quando a excitação passou, consegui olhar para esta partida como umas das melhores da minha carreira e semprte que me lembro dela, não posdo deixar de sorrir ao lembrar-me da "Igualdade na Injustiça do Xadrez" ½–½

"Edward Lasker, Chess For Fun, and Chess For Blood", Dover
(Tradução de AV)

PS: Só um aviso aos meus leitores: terão mais Lasker, Emanuel de certeza neste blogue, e mesmo de forma interessante...esperem para ver!

LASKER ...Emanuel e LASKER... Edward



Num comentário o meu grande amigo xadrezista Dinis Lameira (quem poderia ser?) questionou se eu conhecia o livro de Edward Lasker "Chess For Fun and Chess For Blood" em que este comenta a sua partida com Emanuel no Torneio de Nova Iorque 1924, em quase 30 páginas.

Claro que a resposta só pode ser: conheço e bem, porque este Livro de Edward Lasker é muito, muito bom, particularmente a forma incrivelmente emocionante, diria apaixonante, como comenta a citada partida. Mas o livro não vale só por isso, é também um excelente livro para qualquer xadrezista "pós-iniciação", escrito de uma forma didáctica, entretida, nada "maçudo" , diria naquele estilo muito americano que marcou época e gerações, na qual incluo nomes extraordinários e, repito, extraordinários ( porque agora existe uma cabotina maneira de os tentar achincalhar, apoucar por parte de alguns pseudo-críticos de xadrez), como Fred Reinfeld, Irving Chernev, Eugene A. Znosko Borovsky, Reuben Fine, e Edward Lasker.


Os poucos livros que Edward Lasker (não era profissional de Xadrez, era Engenheiro e Inventor) escreveu são na generalidade bons e gozaram de enorme popularidade nos EUA, vendendo-se ainda hoje, um ou outro , muito bem na Amazon, nas reedições da Dover.
O livro citado, mas também o "Chess Secrets I Learned From the Masters", ou "Chess Strategy", "The Adventure of Chess", são livros que aliam um profundo amor e conhecimento do xadrez, a uma forma clássica , pedagógica e instrutiva de escrever xadrez, coisa que sabemos, hoje vai rareando na literatura xadrezista, substituída pela preguiça militante, pela "Rybkalização" ou "Fritzdeira" de variantes a quilómetro, de futurologia do que nunca se pensou no tabuleiro, ou do que poderia ter acontecido! Quase ficção analítica! Dá dó ler alguns livros de xadrez actuais e, talvez por isso, esteja a acontecer fenómeno interessantíssimo: o revivalismo, a reedição dos Clássicos de Alekhine, de Botvinnik, de Lasker, ou os livros de Torneios históricos!


Junto as mãos, e se calhar os dez dedos não chegam para citar dez grandes autores de livros de Xadrez, opinião subjectiva como é óbvio, mas minha: Sosonko, Timman, Soltis, Marin, Crouch, Sthol, Dvoretsky, Agaard e...poucos mais. Claro que estou a citar autores de livros de xadrez, porque na Web o panorama não é mais animador, e aqui tiro o chapéu à forma excepcional como o Kevin Spraggett escreve sobre xadrez.

Assim, no livro "Chess for Fun and Chess For Blood," um respeito e admiração do Lasker Edward pelo Lasker Emanuel, que o leva a considerar o empate de NY 24, como uma das suas melhores partidas, mas sobretudo no comentário à partida, o fazer-nos estar presente nessa luta titânica, com os seus dramas, as suas dúvidas, os seus apuros de tempo, os volte-face no tabuleiro, em suma a essência de uma batalha árdua de 100 lances e quase treze horas de tabuleiro . Raramente vi uma partida tão "emocionalmente" comentada e tão "vividamente" escrita! Edward Lasker quase que nos faz acreditar sermos Edward Lasker a jogar contra Emanuel Lasker, acreditem!


Vou colocar esta partida aqui, com notação algébrica e tradução ( fraquinha certamente, que Inglês não é o meu forte) para verificarem se é ou não verdade o que afirmo. Quase que se poderá seguir sem tabuleiro, todavia o ideal era gastarem umas folhinhas e imprimirem-na , para estudo futuro, e estou agora a pensar nos meus jovens leitores ( acabei de soltar sonora gargalhada -Será que os tenho?) , porque sem estudo, já se sabe ...JXPQNVLN !


Vou manter os comentários de Edward Lasker, sem qualquer intromissão de outras análises, que posteriormente vieram trazer nova luz às suas e que repuseram "esquecimentos" em posições decisivas, ou falhas analíticas. Pode ser que num futuro artigo, faça essas correcções.


Ah! Ia-me esquecendo...a edição da Dover na Amazon fr, ou Amazon uk custa o preço espantoso de 8 Libras e se for "usado-novo" entre 2 e 5 Euros, uma fortuna! Um aviso: a notação é descritiva ou seja 1. P-4K -P-4K 2. Kt-KB3 etc.
Aguardem pois!



1ª edição do Livro ( retirado das "Chess Notes" de E. Winter)

11/11/09

LASKER...Outra vez

"Emanuel Lasker: Denker, Weltenbürger, Schachweltmeister"

Pois é. No próximo dia 20 deste mês, a Sociedade Lasker de Berlim, vai lançar em festividade na Herzog August Library em Wolfenbüttel, um livro sobre Lasker, que mais do que uma extensa biografia, será quase uma súmula definitiva sobre a vida e obra deste grande génio do tabuleiro.


Uma obra monumental que teve a colaboração de grandes nomes associados ao estudo de Lasker, mas também da História do Xadrez. A lista é realmente impressionante para quem sabe quem são Linder, Forster, Donaldson, Lisovsky ou Hilbert, a que devemos acrescentar GM como Huebner, Tischbierek, Korchnoi!


Prof. Dr. Wolfgang Angerstein, Ralf Juergen Binnewirtz, John W. Donaldson, Juergen Fleck, Dr Richard Forster, Prof Dr Bernd Gräfrath, Dr. Tony Gillam, John S. Hilbert, Robert Huebner, Peter de Jong, Karl Kadletz, Thomas Lemanczyk, Dr.Isaac M. Linder, Tomasz Lisovsky, Roberto Mayor, Egbert Meissen Castle, Dr. Michael Negele, Susanna Poldauf, Toni Preziuso, Prof. Dr. Joachim Rosenthal, Raj Tischbierek, Robert van de Velde, Hans-Christian Wohlfarth. Um prefácio de Paul Werner Wagner, o atestado de competência editorial de publicação de Richard Forster, Stefan Hansen e Richard Negele, e a chancela editorial de uma casa insuspeita como é a Excelsior Verlag de Berlim, sobre a supervisão da Sociedade Lasker, tudo preparado para uma obra que não diria definitiva, mas que se vai afirmar por longos e bons anos como um “Vademecum” para qualquer Laskeriano que se preze, ou para figurar "altaneira" em qualquer biblioteca de xadrez que seja digna desse nome.

Assim, qualquer coisa como um livro gigantesco de 28,5 cm X 22 cm, mais de 1097 páginas, 4 Kg de peso, e dentro, 700 partidas de xadrez, muitas comentadas por Huebner , Tischbierek, 500 gravuras, muitas delas inéditas e...por aí fora! O preço rondará os 115 Euros.


Claro que já adivinharam qual será a minha prenda do "menino jesus" no Natal Xadrezistico!? Depois...depois como tudo é em alemão, OCR para cima e Power Translator a trabalhar, que remédio!

Ah! Podem ir a este link e tirar em pdf um extracto do Livro, ou seja na Homepage da melhor loja europeia de venda de livros e material de xadrez, a alemã: Schachversand-Niggemann

www.schachversand.de/startneue.htm




10/11/09

LASKER...Um bocadinho da minha paixão

O que tenho de Lasker?

Bem...pouco e, tirando um caso ou outro, de qualidade sofrível.

Assim comecemos pelas BIOGRAFIAS:

Esta biografia de Hannak continua como das raras de Emanuel Lasker. Diga-se desde já, fraquinha e com alguns erros de monta sobre este genial jogador. Ficou célebre o prefácio de Einstein. Tabelas de alguns torneios e 100 partidas comentadas levemente segundo os livros de torneios ou jogadores da época, completam este livro. Dá para ter uma ideia do percurso xadrezistico de Lasker, nada mais. Sobre a personalidade, o estilo de jogo, o homem por detrás do génio de xadrez, podem esquecer.


Esta biografia de Lasker feita por Nepomuceno é simplesmente um "pastiche" monumental do livro de Hannak! Só isso. Que que desculpem os meus leitores de língua hispânica. Em certas passagens é mesmo tradução literal. Aliás, o autor acaba por confessar a sua quase "oração" ao livro do alemão. Não há absolutamente nada de novo em Nepomuceno. A mesma cópia de lugares comuns, de estereótipos, de um passar de torneio para torneio, que até cansa o leitor. Como tal, só para quem for preguiçoso da tradução inglesa , ou alemão original de Hannak.


COLECÇÕES DE PARTIDAS


A primeira colecção de partidas de Lasker que adquiri vai para umas boas dezenas de anos. 75 partidas, sendo a última Lasker-Marshall do torneio de S. Petesburgo 1914. Este projecto que primitivamente se chamava " Dr. Lasker Chess Career", seria a de dois volumes, mas por razões desconhecidas ( talvez a ascensão de Reuben Fine ao estrelato do Xadrez Mundial-Candidato, e o trabalho intenso e imenso na realização de outros livros por parte de Fred Reinfeld) ficou-se só pelo primeiro volume ( 1889-1914)
Os comentários dos anos 30, podem-se considerar excelentes para a época, misturando sabiamente o texto explicativo com variantes, nunca demasiado extensas, pesadas. Não se sabe, quem contribuiu com o quê, para este livro, ou seja, se ele é mais Fine, ou mais Reinfeld, contudo, tendo na minha biblioteca vários livros de Reinfeld, o estilo de comentários e a forma de escrita, levam-me a desconfiar que a contribuição de Reuben Fine para o livro teria sido bem menor, trazendo o seu nome ,já célebre, um certo prestígio ao livro.
Um bom livro, mas hoje claramente datado, quer no estilo, quer nas variantes apresentadas. Um bom guia para dar a conhecer algumas "gemas" da arte laskeriana, o que já não foi mau. Foi um livro com enorme sucesso de vendas nos EUA e um best- seller da Dover Publications.
Um pormenor engraçadissimo na capa que pouca gente descobriu, e que é uma monumental "gaffe" da prestigiada casa editora: olhem para a capa (cliquem), vê-se Lasker, vê-se o seu rival Capablanca e depois no lado esquerdo entre Capablanca, a violeta, Lasker sim senhor , mas não o Emanuel, mas sim o americano Edward Lasker o renomado autor de livros de xadrez e forte jogador.



Já me referi a esta colecção da Chess Stars. Dois volumes, quase todas as partidas Lasker comentadas estilo informator, com a ajuda de computadores dos anos 90 . Dirigida por Khalifman, o trabalho árduo foi realizado por jogadores MI ou MF, alguns hoje GM. As análises são boas e profundas e não será por acaso que Kasparov, ou Dmitry Plisetsky, no terceiro volume dos "Meus Grandes Predecessores" ( só aí, e depois de muitas críticas!!) citam estes dois volumes na bibliografia. Existem análises de partidas de Lasker no volume 2, do livro de Kasparov que indubitavelmente foram tiradas destes volumes.
Bons livros, mas do estilo árido, seco, informatizado, que sinceramente não aprecio. Úteis para comentar um partida, para buscar variantes numa posição mais complexa, mas que não acrescentam nada à beleza e complexidade do xadrez de Lasker.
De qualquer forma, livros a valer a pena adquirir.


De um grande apaixonado do Xadrez, de um grande Laskeriano, Ken Whyld. As partidas não são comentadas, mas é o mais completo repositório das partidas de Lasker. Limito-me a copiar o excelente texto do Lanier ( ele não leva a mal) no seu Al-Shatrandj "...contém 1390 !! partidas, muitissimas delas de simultaneas. Whyld passou anos a pesquisar em hemerotecas e collecionar partidas de Lasker - outros recolhidos só mostram as partidas do mestre em Torneio, o que são poucos. Lasker não tinha essa frenética actividade competitiva como por exemplo Alekhine, só jogou num punhado de torneios durante a sua vida. Cada partida vem com informações donde provêem, data, local, designaçâo conforme ECO. Há muitas ilustraçôes preto e branco, e além disso diagramas de partidas, tabelas de torneios - e todos problemas e estudos compostos pelo Lasker. Espantoso - a pobre encadernação e impressâo - feito na Chequia! - esconde um tesouro immensuravel!"




Um bom livro da editorial Sopena , bastante antigo, mas com comentários a preceito embora leves. Claramente um livro de divulgação aos xadrezistas sul-americanos das partidas de Lasker, mais precisamente 84, cobrindo os anos de 1894 a 1921. Lê-se com agrado, mas nada mais.


DIGITAL



Com o selo de qualidade da Chessbase, da série Monografias. Bom CD, com uma curta mas razoável biografia, algumas partidas excelentemente comentadas, algumas fotos (embora nenhuma novidade), informações de torneios e matchs do grande campeão, um ou outro vídeo com testemunhos de Hubner, Unzicker, Lilienthal, algumas tentativas tímidas de explicar auperioridade de Lasker sobre os seus adversários.
Um CD que todo o apaixonado de Lasker deve possuir, que não deslustra , mas também não deslumbra. FIca-se com a sensação que a ChessBase poderia ter feito muito mais, e que foi um trabalho realizado à pressa, lamento dizê-lo!
A ChessBase teria muito a aprender com essa obra prima extraodinária em forma digital de Sid Pickard "The Collected Works of William Steinitz", esse sim o melhor CD ROM que algum dia se realizou sobre um jogador de xadrez e Campeão do Mundo. Foi uma das homenagens mais belas que digitalmente uma editora prestou a um génio de Xadrez, neste caso Steinitz. O Lasker da ChessBase fica aquém e muito.



Da antiga Convekta estilo Chess Stars, mas sobre forma digital. Bio, e partidas comentadas tipo Informador. Interessante nada mais.


MISCELÂNEA



Claro. Kasparov sobre Lasker. E aqui a decepção. Excelentes e novos comentários com a ajuda do Friz a algumas partidas de Lasker, um ou outro lugar comum, aqui e ali "Chess Stars", correcções a um livro que irei citar mais à frente e se estavam à espera que Kasparov, explicasse ou penetrasse na essência do Jogo de Lasker, desencantem-se porque simplesmente não o faz. Apenas e só um punhado de partidas de Lasker (quase todas conhecidas) belissimamente comentadas e chega. Poucas páginas sobre Emnanuel e gostava de saber porquê! Fortes suspeitas que neste volume 1 (considerado o mais fraco da colecção) tirando as partidas, foi Dmitry Plisetsky, o autor de muito texto e infelizmente de alguns erros históricos incríveis denunciados por Winter ou Forster entre outros, para não falar das correcções "computadorizadas" feitas às análises de Kasparov pelo amador (?) Sorokin.
Portanto caros leitores, nada deslumbrado com o pouco Lasker de Kasparov, dos Meus Grandes Predecessores. Não foi uma desilusão, mas simplesmente o desânimo de continuar a ver o "meu" Lasker por explicar, ainda por cima, da parte de quem teria a obrigação de o fazer-Kasparov.



Uma Enciclopédia? Sim uma Enciclopédia! Para que todo o "xico-esperto" que escreve na Net sobre Xadrez não diga disparates, parvoíces e que mostre a sua ignorância mais alarve sobre a História do Xadrez! Para que um GM como Yermolinsky, levante o rabiosque e a consulte para não escrever no seu "The Road to Chess Improvement" a bestialidade de que Janowsky jogou dois matches com Lasker para o Campeonato do Mundo! É que o parolo acredita, quem sabe um bocadinho de xadrez, sabe que um GM apesar de o ser pode ser ignorante.
Depois, a Oxford é a melhor Enciclopédia de Xadrez do Mundo e tem sobre Lasker um belo resumo , curto mas sem asneiras! Esgotadíssimo este livro e quem ama o xadrez sabe porquê!


"GEMAS"



LASKER , O PENSADOR , de Boris Samoilovich VAINSHTEIN.

Um livro sensacional da célebre e excelente russa "Black Series". Kasparov, corrige aqui e ali akguns comentários ( variantes), mas Vainshtein tenta como ninguém até aí penetrar nos segredos do jogo de Lasker, fugindo das ideias feitas, dos lugares comuns, muitas vezes com uma argúcia e uma competência de análise formidável.
Admiram-se?
Vainshtein é o autor de um dos livros mais fascinantes e profundos do Século XX , uma autêntica preciosidade que passou despercebida: "DAVID BRONSTEIN : CHESS IMPROVISER". Que livro extraordinário ( a ele heio-de voltar noutro artigo) e que qualidade de escrita! Ao lê-lo percebi porque razão Bronstein, nunca tenha negado, chegando mesmo a assumir no fim da vida, que os comentários , os célebres comentários do "Zurich International Tournament 1953" eram de Vainshtein, sendo as analises da sua autoria! Aliás basta comparar a escrita dos dois livros para se perder muitas dúvidas!
Portanto, o Lasker do Vainshtein, o primeiro livro que me abriu as portas de um Lasker, até aí desconhecido. Porque razão este livro nunca teve uma tradução em Inglês, alemão ou espanhol? Mistérios insondáveis da edição xadrezistica! O lixo escaquístico vende mais! Existe sim uma versão em italiano da Prisma Editora " Lasker -Filosofia della Lotta", mas completamente esgotada.





Um Livro sobre a arte da defesa até hoje sem rival. Para já o autor Colin Crouch sem ser GM é um dos melhores autores de xadrez de há muitos anos para cá. O Seu "Hastings 1895-The Centenary Book" é um portento da recuperação de um dos maiores Torneios da História do Xadrez, o seu recente "The Great Attackers", que escreveu quase cego, é uma maravilha de livro com abordagens inovadoras e uma capacidade comunicar o motivo do livro como poucos. Este homem escreve sobre xadrez como raramente outros o fazem. Não é só a questão didáctica, é a cultura e profunda que Crouch tem do xadrez, o empenho o trabalho intenso, aliado à paixão que coloca no que escreve.
A Arte da Defesa é mais do que tudo uma análise de uma profundidade, de uma subtileza, de uma compreensão sobre Petrosian e Lasker, como raramente vi. As partidas que analisa e comenta de Lasker, a forma como tenta desvendar o pensamento defensivo do grande Emanuel, tornam este livro uma jóia.
Quando se acaba de ler e analisar o Lasker de Colin Crouch, nunca mais vemos Lasker da mesma forma, nunca mais Lasker se torma estranho. Tomamos quase uma familiaridade com o seu jogo. Um livro que para mim foi uma espécie de caixa de pandora sobre o jogo de Lasker. Na minha modesta opinião, "Obra-Prima" com certeza.




Soltis não sabe escrever maus livros de xadrez.Pelo contrário, muitas vezes o que escreve é tão brilhante que se torna intemporal e verdadeiras obras-primas da literatura xadrezistica. Basta dizer que o "Soviet Chess-1917-1991" da McFarland é um dos livros de xadrez do século XX!
O Lasker de Soltis é uma maravilha! Partidas pouco conhecidas, análise das partidas sobre efectivamente o que aconteceu no tabuleiro e não sobre "o que poderia ter acontecido se...", com análises onde são precisas e a preceito, mas sobretudo a explicação da força prática de Lasker, no seu jeito peculiar em situações difíceis em jogar para a "armadilha", o jogo deliberadamente confuso, em que a sua capacidade fenomenal de análise, de visão do tabuleiro lhe permitia o passe mágico de inverter a situação no tabuleiro. Soltis mostra essa técnica assombrosa de Lasker, a sua recusa da passividade e o dinamismo que imprimia às posições que mesmo parecendo inferiores lhe permitiam o contra-ataque inesperado, o contra-golpe adivinhado por ele, mas insuspeitado para o adversário. Lasker tinha um sentido posicional de uma profundidade ímpar, sabia ler o tabuleiro e tinha uma noção de dinâmica de luta, de prática, de sentido de "aqui e agora do que pede a posição", que o punham à frente, claramente à frente da sua época. Por isso, os seus contemporâneros tinham dificuldade em compreendê-lo, e apontavam-lhe "psicologismos" " gosto de posições quase perdidas", quando não uma espécie de bruxo do tabuleiro, ou um homem cheio de sorte.
O que Lasker era, era um jogador superlativo, um lutador, que partia para o tabuleiro cheio de ambição, de confiança em si, nos seus dotes extraordinários de concepção de jogo e visão táctica, para além de um domínio do final fabuloso. A cada situação de mudança nas 64 casas, este homem deixava esquemas mentais e adaptava-se de forma magistral às convulsões criadas, fosse através de uma espantosa capacidade de simplificação para um final, fosse através de uma grande ou "petit" combinação elegante que lhe trazia a vitória, fosse através de um férreo e lógico aproveitamento estratégico de debilidades estruturais na posição do seu adversário.
Um Campeão em toda a medida, em toda a linha!
Isto tudo, Soltis nos mostra, sem grande alarido, comentando 100 partidas de Lasker de tal forma que nos obriga a mergulhar de cabeça no segredo ( que afinal não existe!) do jogo de Lasker.
Um livro de companhia serena, segura e de alimento de paixão! Uma enormidade de livro.


LIVROS DE LASKER


Dizer o quê deste livro? Simplesmente um dos melhores de iniciação (?) ao Xadrez que já se escreveram. Tirando as linhas de abertura, tudo o resto é de um didactismo de uma capacidade de ensinança que tornam este livro imprescindível. Rio-me de no último Nacional por equipas em Gaia, na banca de livros do Lanier, o meu amigo Cadillon, quase meter este livro pelos olhos dentro de um seu amigo " o melhor livro de xadrez" que se escreveu para quem está nos inícios do xadrez. A pessoa lá comprou o Manual do Lasker!
Tenho pena, muita pena, que um treinador de miúdos iniciados no xadrez, ou mesmo aqueles que já entraram no campo competitivo, ou não conheça este livro, ou simplesmente não o aconselhe ou obrigue a ler aos seus pupilos! "malhas que o treino (?) de xadrez em Portugal vai tecendo"!


Ternura enorme por este livro, dos primeiros que li, depois do Xadrez Básico. As Conferências de Lasker, o Lasker Professor, Livro muito simples, mas bonito e didáctico. Lasker sabia ir ao essencial.



Comprado ao Lanier, no passado mês de Agosto. Tinha a versão antiga em anotação PK4, etc e a versão alemã. Esta versão é limpa e sem grande aparato, mas em notação descritiva.
É Lasker na sua forma típica de comentar partidas: minimalista, parco mas objectivo nos comentários. É um bom livro de Torneio, mas não o coloquem ao nível desses monumentos que são "Karlsbad 1907", "Teplitz Schonau 1922", "Karlsbad 1929", Zurique 53, etc.
Lasker, tal como Capablanca, nunca foi um grande comentador de partidas. A sua paixão era o jogo, a luta prática no tabuleiro. Quando essa paixão o consumia, quando extravasava para uma rotina, então Lasker partia para outros vôos, outras caminhadas de espírito, porque era um homem racional, prático, de uma cultura, de uma inteligência emocional como poucos. Lasker nunca foi vencido pelo Xadrez, venceu-o sempre, domou-o como cavalo amestrado. O Xadrez, uma parte significativa da sua vida, mas se calhar nem a mais significativa, nem aquela que lhe proporcionou as maiores alegrias interiores.
Um Campeão do Mundo único, ímpar.


Pronto caros leitores, o que tenho sobre Lasker, a minha paixão sobre Lasker.
Ah! Repito, isto são opiniões pessoais, gostos intestinos, por isso aberto a outras visões, outros gostos sobre Lasker.
É o que tenho e a mais não sou obrigado! Claro que vou aumentar a minha Laskeromania, com um bom velho-novo Lasker que apareça, porque isto de gosto por livros é como escanção de vinhos, com a diferença que não gosto de provar e deitar fora, gosto sim de os aconchegar bem ao alto na minha biblioteca.









LASKER...Finalmente


Finalmente!!


Encantado como menino com brinquedo novo. Já o afirmei neste blogue e repito: ao contrário de milhões de xadrezistas em todo o mundo, o meu ídolo de xadrez primacial, aquele que considero o maior jogador de todos os tempos e o Campeão do Mundo mais fascinante e ao mesmo tempo mais obscuro, estranho e ainda por estudar na sua plenitude, quer na sua concepção de jogo, quer no seu inclassificável estilo: Emanuel LASKER.


Este homem e este enorme jogador, nunca tinha até agora uma biografia à sua medida, uma colecção de partidas comentadas com a profundidade e dignidade merecidas e a razão desses lapsos está no próprio Lasker, na multiplicidade da sua vida, na sua enorme bagagem cultural, que nunca foi abundante nos Campeões do Mundo de Xadrez, na complexidade e estranheza do seu xadrez, que escondia uma profundidade visionária quase diria moderna, uma concepção muito actual do xadrez, uma capacidade de cálculo extraordinária, aliada a uma capacidade de luta prática no tabuleiro como poucos, muitas vezes isenta de concepções, de escolas, aceites na época.


Abandonava o xadrez prático quando queria, ou regressava quando entendia, mas absorvia como esponja as novas teorias, as novas ideias, estudava xadrez e o xadrez da sua época, analisava à lupa as partidas dos seus adversários no recanto do seu isolamento, sabia como ninguém, adaptar e adoptar o seu xadrez, quase anti – xadrez para o xadrez dos adversários que claramente muitas vezes não compreendiam o seu jogo, nem sequer como ferreamente Lasker conseguia impor a sua força no tabuleiro.


Uma técnica defensiva das mais perfeitas que algum dia se colocou num tabuleiro de xadrez, baseada sempre numa actividade latente, num contra-ataque sempre à espreita, numa espécie de “aranha” xadrezística que pacientemente tecia a teia onde o adversário muitas vezes se enredava. Uma capacidade de adaptação a situações novas e extremas surgidas no tabuleiro, muitas vezes por si provocadas, uma paciência de espera, muitas vezes concretizadas numa passagem para um final de jogo, onde Lasker foi praticamente inultrapassável (só Capa e Rubinstein com ele puderam rivalizar) aliada a uma capacidade de cálculo sintético notável tornaram este grande Campeão numa lenda.


Assim, não é de estranhar, o medo, o receio que foi tolhendo muitos autores de xadrez de se abalançarem numa análise do jogo de Lasker, do estilo de Lasker, das partidas de Lasker. Depois surgiu a “mitologia”, que surge normalmente na diferença, na estranheza, na não compreensão. O Lasker que propositadamente caía em situações difíceis no tabuleiro para confundir o seu adversário, o Lasker “jogador de Café”, o Lasker quase “hipnotizador”, e por aí fora.


Assim, Lasker o Campeão do Mundo mais maltratado pela literatura xadrezística quer em quantidade, quer em qualidade. E acredito hoje, como acreditava vai para anos, que tal facto se deve a esse temor que Lasker criava em quem procura estudar as suas partidas, em quem procurava uma lógica clara e cristalina Steinitziana nas suas partidas, uma tentativa de enquadramento hipermoderno noutras, quando Lasker, assimilando tudo isso, não era nada disso. Era LASKER, é o Grande LASKER.


Salvo erro em Janeiro de 2001, um grupo de apaixonados por Lasker resolveu criar a “ Emanuel Lasker Gesellschaft “, ou seja, a Sociedade Lasker de Berlim, com o objectivo de preservar todo o legado deste génio do xadrez. Começaram por recuperar a casa de Verão de Lasker em Thyrow e a partir de 2005, passaram a variadíssimas actividades desde conferências, passando pelo apoio à publicações de livros de e sobre Lasker. Esta Sociedade contra com nomes prestigiados do mundo do Xadrez, da História do Xadrez, e como não podia deixar de ser, com o nome daquele que no século XX, mais se aproximou pelo estilo de jogo e concepção do xadrez ( aliás, Lasker é também o seu ídolo do xadrez) , VIktor KORCHNOI.


Assim fiquei de esperanças, que desta instituição saísse algo que trouxesse Lasker ao mundo dos vivos, que repusesse este gigante no lugar que merece no mundo do Xadrez, principalmente ao nível da biografia, da iconografia, das partidas. Assim aconteceu para minha alegria: mais de 1000 páginas, um livro com 4 quilos, quase trinta colaboradores, mais de 100 Euros, o preço, em alemão (não se espera tradução) para minha tristeza e trabalho do Power Translator.


Mas vamos com calma. O que tenho sobre Lasker? Como fui alimentando o meu fascínio pelo Grande Emanuel?