Fidel num tabuleiro e peças da Olimpíada de Havana 66
O Kevin Spraggett no seu maravilhoso blogue “Spraggett on Chess”,colocou ontem um post sobre o Durão e as Olimpíadas de Havana de 1966, com a particularidade de o Durão lhe ter enviado e permitido publicar duas fotos inéditas. Uma, sobre a recepção na embaixada Portuguesa em Havana onde Fischer resolveu comparecer devido ao excelente relacionamento com Durão, e outra, o cumprimento de Fidel ao nosso capitão no Jantar de Gala das mesmas Olimpíadas. Não percam for favor estas fotos únicas e históricas!
No mesmo post, Spraggett é informado pelo Durão que cada capitão de equipa foi agraciado com um presente extraordinário: As peças e mesa articulada com o tabuleiro incrustado usadas na Olimpíada e que ainda possui esta preciosidade .
Aqui entro eu!
Não tenho dúvidas que este conjunto Peças e mesa é talvez neste momento o jogo mais valioso e mais belo existente em Portugal e, sem sombra de dúvidas, dos mais belos conjuntos Staunton de todo o mundo.
Vai para uns bons anos, Pavilhão Carlos Lopes aquando da vinda do Karpov a Portugal. Uma conversa informal com o velho amigo Durão a questioná-lo se ele conhecia a forma de eu adquirir um jogo Staunton soviético típico para a minha colecção, e ele a informar-me que tinha um, bem como outros jogos interessantes, entre eles o tal conjunto de Havana, embora me desse logo a entender que não era para venda, tal a afectividade que por esse jogo nutria. Brinquei com ele e conclui que o Durão não sabia o tesouro que guardava em casa, e mesmo depois de lhe dizer que umas semanas antes um mesmo conjunto tinha sido vendido na Sotheby’s ou Christie’s, por mais de mil contos, o Durão não pareceu lá muito convencido.
É efectivamente uma raridade que só umas dezenas de privilegiados em todo o mundo possuem e refiro-me ao conjunto completo. È um jogo de uma beleza magnífica, de um equilíbrio perfeito peças-tabuleiro como poucos na História do Xadrez. Inspirado nas lindas peças clássicas Jaques Staunton, o rei deve ter entre 4 e 4,4 polegadas e o quadrado do tabuleiro de 6 cm, num verde-escuro marmoreado e branco que se enquadra ás mil maravilhas com o amarelo das peças Brancas e o negro ébano das Pretas. Não tenho dúvidas que Bobby Fischer ficou tão marcado por este Jogo de Havana, que exigiu no seu match com Spassky de 72, uma peças e tabuleiro quase igual (verde também) embora em tamanho mais pequeno.
Hans Ree, o conceituado comentador da New In Chess no seu nº3 de 97, a propósito do livro do match Karpov-Kamsky de Karpov e Ron Henley “Elista Diaries” afirma categórico e não sem uma certa razão que quando um livro o fascina, quando um livro de xadrez merece a pena, então tira as peças da caixa e abre o tabuleiro de Havana para jogar as partidas desse livro!
Quanto valerá actualmente este conjunto peças - tabuleiro de Havana? Seguramente poderá atingir uma pequena fortuna numa das casas de leilões que referi. Apostava entre os 10 mil e os 20 mil Euros !
Parabéns ao Durão! Vejam a maravilha que o Durão possui!
Uma série de imagens deste esplendoroso jogo, neste caso de um grande coleccionador turco, salvo erro, Suer.
(Foto retirada do sítio da SECÇÃO DE XADREZ da A. E. F. C. R. Penichense)
Aqui feito autómato, de trás para a frente, de frente para trás Tristeza sem fim nos passeios da minha rua. Uma lágrima mais rebelde quer assomar nas minhas janelas...
Mais um amigo do xadrez e tinhas logo de ser Tu, caro Mamede Diogo?
O do sorriso largo, o da voz musical e profunda, o do abraço - afago que se sente verdadeiro porque aquece? Tu, que tinhas exactamente a minha idade? Tu, que encontrei nos Nacionais de Jovens, no Grande Torneio dos 50 Anos FPX, em78, em Preliminares do Nacional , que nunca me conseguiste vencer, porque empatamos sempre, desde que a uma proposta tua sorridente de “empatamos?” num Nacional de Jovens, eu fiz outra sorridente no torneio FPX e Tu respondeste: “Claro!” e rimos os dois e aproveitamos o tempo para falar de xadrez e da vida de jovens que éramos.
Tu, cujo aperto de mão no início ou fim de partida, era aperto de xadrezista, forte convicto solidário, e não de obrigação, fastio, superioridade ou raiva.
Tu, baixote como eu, tinhas a altura grandeza dos justos , dos puros, daqueles que exigindo de si, não exigem muito à vida.
Tu de olhos meigos que assomavam vivos aos vitrais dos teus óculos.
Tu, que fui perdendo com o tempo, por preguiça , por esquecimento, por afastamento, por dor de um xadrez que continuaste a amar.
Tu suave e meigo, avesso a confusões xadrezistas, mas brincalhão e pleno de boa disposição, quando a disponibilizavas.
Tu, na arca dos riquíssimos e raros tesouros xadrezisticos que vou guardando no lado bom do coração.
Vou sentir a tua falta, principalmente daquele reencontro e abraço que te deveria ter dado e não to dei, por te perder no tempo. Sei que apesar da doença, me sorririas, mas desta vez, eu cúmplice sorrir-te-ia na exacta medida, e ambos diríamos “empatamos?”.
Vou caminhar mais um bocadinho e decididamente deixar que esta lágrima cumpra o seu destino.
Diogo ,Mamede - Silva,José
Nacional Absoluto (9), 21.01.1977
Nestas posições, o tempo é factor a ter em conta, por isso, as negras deveriam contra atacar no flanco de dama, para onde o rei branco se refugiou pelo roque: exe: [13...a5 14.a3 (14.a4) 14...a4 15.Ba2 b4 16.axb4 a3 17.bxa3 Txa3 18.Cge2 jogo complicado]
14.Bg3 gxf4 15.Dxf4 Cg5 16.Cf3 Ce6 17.Bxe6?! O jogo das Negras é muito difícil, com um Rei no Centro, má coordenação das peças e atraso no desenvolvimento. A Troca de peças por parte do Mamede, alivia um pouco a posição do defensor.
Talvez manter o ataque com:
[17.Dg4 h5 (17...Tg8 18.Cd4 Cxd4 19.Bxf7+) 18.Df5] fosse mais forte
17...Bxe6 18.Cd4 Bd7!? [18...Dc8 19.Thf1]
19.Df3?! Novamente o Mamede Diogo deixa escapar uma posição de ataque que dificilmente daria esperança às negras com:
21...Rxd7?! As Negras deixam escapar nos seus cálculos uma variante que lhes daria melhor possibilidade de defesa (sempre difícil) no final:
[21...Cxd7 22.Bxe5 Dxe5 23.Dxa8+ Db8 24.Dxb8+ Cxb8 25.Cxb5±]
22.Bxe5 Dxe5 23.Dxa8 a6?
[23...Td8 24.Dxa7+ Re8 25.Rb1 Cc6 26.Db6±]
24.Db7+ Re6 25.Db6+ Dd6 26.Te1+ Rf5 27.Db7 Te8? Era bem melhor, embora o desfecho da luta, dificilmente se inverteria.
[27...Rg6 28.g4 Te8 29.Df3 Rg7 30.Ce4±]
Não o quis publicar antes de aparecer no "site" do GXP, onde deveria aparecer em primeiro lugar. É um texto notável, de um grande Grupo Xadrezista que muito deu ao Clube como jogador e dirigente., o Engº Eduardo Monteiro.Agora demonstra os seus belíssimos dotes de escrita com um a história fantástica, surpreendente como é a História do Grupo de Xadrez do Porto, e sobretudo de um grande amor ao Xadrez.
Sempre me surpreendeu o porquê de no GXP, determinadas peças terem cavalos de metal, pesadíssimos e que faziam um barulho medonho nas mãos pouco graciosas de alguns jogadores mais emotivos do nosso Clube. Agora percebo! Mas há um mistério que nem o Eduardo Monteiro conseguiu resolver: Existem dois tipos de cavalo de metal no GXP. Um mais aparentado às peças "Jaques" de origem inglesa, outro enorme, alto, muito parecido com cavalos de peças russas do início do século. Porque teria o Sr. Oliveira feito dois tipos de cavalos? Onde foi buscar o molde para os realizar? Realmente o que teria levado alguém a roubar os cavalos de jogos de peças?! Seria o "tal" que os alimentava, ou algum sócio com um espírito encarnado de Chigorin?Aí vai o belíssimo texto do Engº Eduardo Monteiro, com as fotos dos cavalos referidos no mesmo, mais o tal de estilo "Chigoriniano". Por última uma foto deliciosa com uma equipa de luxo do GXP, campeã Nacional da 2ª Divisão, onde aparece o autor deste delicioso texto(o último da direita), bem como o Bernardino Passos, O Jaime Gilbert e o João Andersen.
Cavaleiros , cavalos, livro, pinha e parafusos
No final da década de cinquenta ou início dos anos sessenta, era possível observar um equídeo castanho , luxuosamente brilhante, montado por Cavaleiro vestido com facto nobre, onde nem faltava o apropriado chapéu .
O cavalo num passo bailado levantava geometricamente as patasfazendo a minha delícia de adolescência. Era vulgar vê-lo em Stª Catarina ou na avenida dos Aliados no meio do transito, então muito mais denso que hoje mercê do baixíssimo custo da gasolina .
Por interessante casualidade, nesse tempo faltaram quatro cavalos num jogo do Grupo!!!!!
Alguém os teria levado, logicamente não por lhe fazerem falta no seu jogo domestico…
Seria por influência psicológica deste cavaleiro que orgulhosamente se troteava nas principais ruas da cidade do Porto?
Seja pelo que for, nunca soubemos do destino dos cavalos e duvido que se tenhamadaptado a uma nova vida separada dos Bispos e das Torres. Mas, quem sou eu para julgar a amizade dos cavalos pelos bispos?
A falta dos cavalos foi resolvida.Luis Oliveira, senhor dos seus quarenta e tantos anos, de estatura frágile usando um bigodinho graciosamente aparado, propôs-se completar o jogo sacrilegamente mutilado.
Fez uns cavalos exactamente iguais aos faltosos mas, e isto é muito importante, sem utilizar madeira!
Os novos cavalos eram de ligametálica pretos e brancos.Hoje estão exibidos numa prateleira do Grupo !!! São pesados e brilhantes como o cavalo do misterioso Cavaleiro da cidade.
Os cavalos do senhor Oliveira, pelo seu peso, motivavam que os sócios só pegassem nesse jogo quando todos os outros estivessem ao serviço.
Logicamente, a recusa era feita procurando não ferir a boa intencionalidade do Sr Oliveira.
Tempos depois o distinto Cavaleiro foi julgado no Tribunal dos Pequenos Delitos, com notícia bem divulgada no Jornal de Notícias…e acabaram, na cidade do Porto, em pleno século XX os passeios do século XIX.
O Senhor Oliveira também algum tempo depois mudava de cidade e nunca mais voltou. Suponho que foi para os lados de Leiria.
Antes, o Sr Oliveira havia emprestado a Bernardino Passos um livro de xadrez e este repetidas vezes prometia devolvê-lo…mas sempre se esquecia de o trazer!!
O Sr Oliveira, em certa ocasião, entendeu que era abusiva a atitude do Passos e falou-lhe em tom mais agressivo, dizendo que necessitava do livro para se preparar para um torneio. O argumento era pouco lógico porque não era esse livro que daria a força escaquista que faltava ao Sr Oliveira. O Passos ainda tentou responder, mas, educadamente saiu com passo apressado, nervosamente.
Talvez uma hora depois, entrou de novo no Grupo, com o mesmo passo apressado e nervosamente estendeu a mão com um livro e disse :
--Aqui está o seu livro….
E completou o acto com umas palavras intensas de agressividade que nunca mais me esqueceram :
-- O SEU LIVRO NÃO ME ENSINOU NADA.
Quando o Presidente Kennedy foi assassinado,em Novembro de 1963, estava eu em Coimbra.
Tinha convencido os meus pais da verdade, que em Coimbra o 3º ano de engenharia era mais fácil.
Joguei muitas vezes xadrez no Convívio da Associação Académica e no convívio de colegas senti-me rei sentado no trono dos escaques.
Na Associação, informaram-me de um estudante que tinha 4 cavalos de xadrez e todos os dias os limpava e lhes dava aveia!!!
Os 4 Cavalos constituíam, por assim dizer, a razão de ser da sua vida.
É ele…, pensei para comigo mesmo, é ele o ladrão dos cavalos do Grupo.
Resolvi procurá-lo com desejos de vingança, qual pistoleiro do Far Westeu tinha que meter duas balas no toutiço do ladrão de cavalos.
Rapidamente, porém, a minha moina foi dando voltas e acabei pensando filosoficamente, porque afinal, por intermédio do sr Oliveira, o Grupo já estava ressarcido:
Qual o motivo que faria um estudante dos últimos anos de Direito roubar cavalos para ter o trabalho de os lavar e limpar, pondo-lhes o brilho do cavalo que passeava nas ruas do Porto? Aindamais… dar de comer a bichos de pau?!!!!
Não, para mim o rapaz não funcionava bem da pinha. Então, entendi que era importante analisar a sua psicologia. Quem sabe se eu, futuro engenheiro, não teria entre mãos uma nova teoria psiquiátrica?
Dirigi-me à REAL REPUBLICA DO BOTA ABAIXO para conhecer tão importante criatura que alegremente tratava cuidadosamente os cavalos furtados ao GRUPO.
Foi para mim uma enorme tristeza quando,à porta da REAL REPUBLICA , um habitante me informou que era de facto verdade, só que esse estudante tinha terminado o Curso e já não estava em Coimbra.
Subitamente, sentiem mim a mágoa de ter perdido o rasto do ladrãoque…se calhar…até não era o ladrão dos cavalos. Nesse momento, eu já era seu grande amigo…e de longa data.
Será que estas minhas metamorfoses mentais estão incluídas no pensamento de outro
ex-associado, dr João Andressen, a viver em Guimarães, segundo creio:
-- Só joga xadrez quem não tem os parafusos todos.
Cá por mim sou feliz por ser o maluquinho do xadrez, muito embora lamente que os meusanos estejam a atenuar-me a loucura.
O Passos faleceu prematuramente
na década de oitenta. Ele também era um maluquinho do xadrez, como, afinal, todos nós.
Ao Passos e a todos os já falecidos a minha sentida Homenagem.
(Eduardo Monteiro)
Jaime Gilbert; Bernardino Passos; João Andersen; Eduardo Monteiro