XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

08/05/09

Filip, Miroslav Filip

Desde os meus inícios no Xadrez que o seu nome não me foi estranho, e as suas partidas eram presença constante nas revistas que ia folheando, primeiro no F. C. Porto, depois no G X Porto. Depois, deixei de lhe seguir o rasto, porque ele também não o permitia, porque as suas partidas publicadas tornaram-se raras. A partir dos inícios dos anos 90, deixou o Xadrez de competição, embora nunca abandonasse a modalidade, noutros campos.

Jogou uma partida que sempre me fascinou , desde que nos anos 70 comprei o livro da Escaques “ La defensa Paulsen” de Cherta, e ela aparecia como o exemplo típico de conduzir um contra-ataque negro nesta Variante da Siciliana que era a minha nos torneios que jogava. È a célebre partida jogada em Couracao 62, em que Tal foi derrotado como raramente o era!

Depois graças ao meu querido e velho Amigo, Mestre Álvaro Machado, fiquei a conhecer melhor este jogador, porque participante no Zonal da Praia da Rocha de 1969 (que ganhou juntamente com Minic e Gligoric) e sendo Mestre Machado um dos árbitros dessa competição, melhor do que ninguém para me dar algumas informações sobre a força de jogo e um pouco da personalidade deste GM Checo.


Com os seus para cima de 2 metros de altura, Miroslav Filip impunha-se pela sua presença em qualquer sala de Torneio. As fotografias mostram-no cuidadoso a debruçar-se sobre o tabuleiro, não fosse parte do seu corpo ocupar a metade destinada ao seu adversário. Não era uma personalidade muito expansiva, mas era de uma correcção e de uma simpatia apreciável. Profissional do Xadrez, levava o xadrez a sério.

Jogador típico da Inglesa, levava frequentemente o seu jogo por caminhos posicionais e o seu forte sentido de posição, permitia-lhe vitórias “fáceis” com adversários menos cotados. Não era um jogador táctico por excelência, como se pode comprovar pelas suas partidas e claramente não era um jogador de “Negras” , tendo alguns reveses importantes contra jogadores da elite da época, com a sua Siciliana. O seu reportório com Negras, principalmente contra 1.e4, não era o mais apropriado, variando algumas vezes de defesa, sem grande resultado.

Seguro, difícil de bater na batalha prática do tabuleiro, Filip, conseguiu muitos empates contra fortes jogadores. Digamos que MIroslav Filip se enquadrou naquele grupo fortíssimo de GM da antiga Europa de Leste, uma espécie de “força de 2ª linha”dos quais destaco, Vlastimil Hort, Wolfgang Ullmann, Ludek Pachman, Jan Smejkal, Istvan Csom, Istvan Bilek, Laszlo Szabo, Vorislav Ivkov, entre outros. Nesta lista não refiro, Lajos Portisch, nem Svetozar Gligoric, porque na minha modesta opinião, jogadores de topo do Xadrez mundial, ouseja, de 1ª linha.

Faleceu aos 80 anos Miroslav Filip, no pretérito dia 27 de Abril. Não conheço livro das suas partidas para o poder adquirir, mas valha-nos que alguns sites de xadrez noticiaram a sua morte e homenagearam-no com breves biografias, ou mesmo a publicação da sua célebre vitória sobre Tal. Assim seria uma redundância repetir aqui o que está ainda nas primeiras páginas dos ditos sites ou blogues.

Assim... a minha homenagem a este forte GM Checo , que muito honrou a tradição do Xadrez Checo, há quem lhe chame “escola de Praga” numa linha que começou com esse Grande Jogador, e meu ídolo , inserido na imagem de apresentação do meu blogue: Oldrich DURAS ( isto sem entrar em debates histórico-particulares sobre Steinitz, ou Reti) !



Homenagem com 3 partidas que Miroslav Filip Ganhou a jogadores Portugueses( ganhou mais uma em 63 a Durão- conhecem mais alguma partida de Filip contra jogadores portugueses?) : Joaquim Durão, João Cordovil (estas duas no Zonal da Praia da Rocha em 69) e nas Olímpiadas de Siegen 1970 contra o meu conterrâneo do GXP prematuramente falecido, Jaime Gilbert, e uma outra belissimamente jogada em que derrota o “ Botvinnik Húngaro”, Portisch, esta comentada pelo GM russo Chekhov, em estilo figurativo.


Por último fotos de Miroslav Filip. Uma ou outra conhecida, outras raras, principalmente duas que por serem do boletim do Zt da Praia da Rocha, ou fotos particulares, aqui vão dar a “world premiére” . Nunca fui invesojo!



Razão tem o Alexandre Monteiro: que benefícios trariam para o Xadrez Porrtuguês, a História, as memórias, se o Durão e o Cordovil resolvessem “abrir o livro” e escrever sobre acontecimentos e personalidades que conheceram! Querem um exemplo? Na Olimpíada de Leipzig-1960 , a tal de Fischer-Muñoz, Portugal jogou com a URSS: Durão jogou com Tal, o João Mário Ribeiro jogou com Keres ( bela resistência) ; António Cardoso perde com Petrosian e Daniel Oliveira consegue um sensacional empate com Korchnoi. Reparem a minha ignorância: Quem foi este jogador Português que ofereceu resistência apreciável a Petrosian, António Cardoso? Quem foi Daniel Oliveira que pela partida com Korchnoi, mostra uma força de jogo apreciável ? Não, não basta ir às Revistas portuguesas da época!

Filip,Miroslav - Portisch,Lajos [E14] Alekhine mem Moscow (3), 1959 [Chekhov]


1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cf3 b6 4.e3 Bb7 5.Bd3 c5 6.0–0 Be7 7.b3 cxd4 8.exd4 d5 9.Bb2 0–0 10.De2 [10.Cbd2 Cc6 11.Tc1 Te8 12.Te1 Tc8 13.a3 Bf8÷]

10...Cc6 11.Cbd2 Tc8 [11...Cb4 12.Bb1 Tc8 13.a3 Cc6 14.Bd3 Ca5÷ Trifunovic/; 11...a5 12.a3 Te8 13.Tf e1 Bd6 14.Ce5 Ce7 15.Cdf3 h6= Langeweg,K-Spassky,B/Beverwijk/ 1967/; 11...Te8!? 12.Tfd1 Tc8 13.Tac1 Bf8 14.De3 g6 15.h3 Ch5 (15...Ce7!?) 16.Cf 1 Dd6 17.C1h2 Bg7 18.Ce5² Keres,P-Taimanov,M/Tallinn/1975/]

12.Tac1 Tc7 [12...Te8!?]

13.a3 dxc4?! 14.bxc4 Te8 15.Tfd1 Bd6?! [15...B f8!?]

16.Ce4 Cxe4
[16...Be7 17.d5! exd5 18.Cxf6+ (1 8.cxd5!? Cxd5 19.Bc4 Ca5 20.Bxd5 Txc1 21.Bxf7+ Rxf7 22.Bxc1) 18...Bxf6 19.Bxf6 gxf6 20.Bxh7+ Rxh7 21.Dc2+ Rg7 22.cxd5]

17.Dxe4 g6 18.De3 Bf8 19.Be4 Ca5 [19...Bg 7 20.d5 exd5 21.cxd5 Bxb2 22.dxc6 Bxc1 (22...De7 23.cxb7 Bxc1 24.Txc1+-) 23.Txd8+-]

20.Bxb7 Cxb7 21.d5 Bg7?! [21...exd5 22.Dd4 f6 23.cxd5 Txc1 24.Txc1 Bc5 25.Dxf6 Dxf6 26.Bxf6 Te2 27.Bd4]

22.dxe6 De7 23.Bxg7 Rxg7 24.De5+! [24.exf7 Dxe3 25.fxe3 Rxf7÷]

24...f6 25.Dg3 Td8 26.Cd4 Rf8 27.h4 Tc5 28.D f3 Ca5 29.De4 [29.Df4!? Rg7 30.Te1]

29...Te5?! [29...Txc4 30.Txc4 Cxc4 31.h5±]

30.Df4 Rg7 31.Td3 Dc5 [31...h5 32.Tg3]

32.h5! Txh5 33.e7+ - Dxe7 34.Ce6+ Dxe6 35.Txd8 Te5 36.Dd2 [36. Dd2 Cc6 37.Td6 De8 38.Td1] 1–0



Filip,Miroslav - Du rao,Joaquim [E66] Praia da Rocha zt Praia da Rocha (11), 1969


1.c4 g6 2.Cc3 c5 3.g3 Bg7 4.Bg2 Cc6 5.Cf3 Cf6 6.0–0 0–0 7.d4 d6 8.d5 Ca5 9.Cd2 e5 10.Dc2 Cg4 11.e4 f5 12.exf5 gxf5 13.h3 Ch6 14.a3 b6 15.b4 Cb7 16.Bb2 Bd7 17.b5 Dg5 18.Ta e1 Tae8 19.Ce2 f4 20.g4 Bxg4 21.hxg4 Cxg4 22.Dc3 Tf5 23.Dh3 Bh6 24.C e4 Dg6 25.Bf3 Ce3+ 26.Rh2 Cxf1+ 27.Txf1 Bg7 28.Tg1 Df7 29.Bg4 Tf8 30.Bxf5 Dxf5 31.Df3 Rh8 32.Tg 5 Df7 33.Th5 Bf6 34.Dh3 Be7 35.Th6 Ca5 36.Cxd6 Bxd6 37.Txd6 Cxc4 38 .Td7 Df5 39.Dxf5 Txf5 40.Bc3 Cxa3 41.Te7 Rg8 42.d6 1–0



Filip,Miroslav - Co rdovil,Joao Maria [A29] Praia da Rocha zt Praia da Rocha (7), 1969


1.c4 e5 2.g3 Cf6 3.Bg2 d5 4.cxd5 Cxd5 5.Cc3 Be6 6.Cf3 Cc6 7.0–0 Be7 8. d4 exd4 9.Cxd4 Cxd4 10.Dxd4 Bf6 11.Da4+ c6 12.Cxd5 Bxd5 13.Td1 b5 14.Dc2 Dc8 15.Bxd5 cxd5 16.Db3 0–0 17.Txd5 a6 18.Bf4 Te8 19.Td2 Ta7 20.Tad1 Tae7 21. Df3 Te4 22.b3 h6 23.Bxh6 Dh3 24.Bf4 T8e6 25.e3 g6 26.Bc7 Be7 27.B d6 f5 28.Bxe7 Txe7 29.Td8+ Rg7 30.T8d7 Rf7 31.Txe7+ Txe7 32.Dd5+ 1–0



Filip,Miroslav (2510) - Gilbert [E92] Siegen ol (Men) qual-E Siegen (2), 05.09.1970


1.d4 Cf6 2.c4 g6 3. Cc3 Bg7 4.e4 d6 5.Be2 0–0 6.Cf3 e5 7.Be3 Cc6 8.d5 Ce7 9.Cd2 Cd7 10.b4 f 5 11.f3 fxe4 12.fxe4 a5 13.bxa5 Txa5 14.Cb3 Ta8 15.Bf3 b6 16.0–0 Cc5 17.Cxc5 dxc5 18.a4 Bd7 1 9.a5 Cc8 20.d6 Be6 21.dxc7 Dxc7 22.Cd5 Db7 23.axb6 Txa1 24.Dxa1 B xd5 25.cxd5 Dxb6 26.Dc3 1–0



Zonal da Praia da Rocha 1969 - Filip concentrado perante o olhar atento do árbitro e meu Grande Amigo, Mestre Álvaro Machado ( a ele devo várias fotos aqui colocados-Cordovil, Gligoric, e estas duas últimas, todas desse Torneio Internacional no Algarve-desfeito o mistério)


Outra foto curiosissima e histórica desse Zonal. Não digo quem é Miroslav Filip, porque se estiveram atentos ao que escrevi,os seus 2,05 m traem-no! Reparem nos presentes nas mãos do Gligoric! Não , não era o "Champomix" passe a publicidade!





Xadrez...Relativização de Culturas?

Gostava imenso que os meus parcos leitores olhassem atentamente para as fotos abaixo.Fotos normais de jogadores de xadrez, num torneio de xadrez. Gostava que olhassem mesmo atentamente e descobrissem o que têm em comum? O que há de estranho, ou se quiserem, de padrão em todas elas? (cliquem em cima da foto para aumentar)

REPAREM NOS REIS


Curiosidade:

todos os jogadores árabes?

Coincidência? ( bastava ir ao site do torneio para verem que não é!)

Será legal pelas regras da FIDE ?

Um desafio: Quantos de vocês aceitariam jogar nessas condições? Resposta individual e subjectiva como é evidente: Jamais jogaria nestas condições, porque para mim, onde em cima de um tabuleiro entrem fanatismos de qualquer espécie, um jogo será, Xadrez, nem pensar! Ah! dirão alguns na sua pretensa neutralidade: " O que tem? Qual o problema? É assim nos países árabes! " Não é! É neste Torneio vai para anos!

Já agora uma brincadeira: o que virá nos anos vindouros neste torneio? Chess Queen with "bourka" ? Há coisas que mesmo com o meu melhor espírito libertário me incomodam sinceramente, e sobretudo a passividade, quase inconsciência dos jogadores de xadrez que pretensamente deveriam "usar a cabeça" !

FISCHER...Dura tarefa a da aprendizagem



AFINAL, O QUE É UM GRANDE CAMPEÃO de XADREZ?

Sem procurar grandes definições e cingindo-me ao que interessa: Um grande campeão é aquele que apesar da sua genialidade nas 64 casas, aprende sempre com as derrotas. Teria Fischer aprendido com Muñoz ?

Questão curiosa. Teria a manobra de centralização da Dama do jogador equatoriano, “marcado” Fischer, e determinada concepção posicional no que diz respeito à manobra da Dama branca, mesmo que em determinadas situações ela não fosse a mais aconselhada? Para além da fabulosa memória dos grandes Campeões mundiais, existirá quase uma exorcização psicanalítica de determinadas derrotas que os leva a adoptar ideias com as quais foram derrotados? Descansem que não vou fazer “mestrado” ou “doutoramento” sobre isso!

Vou-me servir desse fabuloso “vademecum” (apesar do “meco” do Hübner) livro-jóia sobre o xadrez de Bobby que é o livro de Elie Agur “Bobby Fischer: His Approach To CHess” ou versão “french” “Bobby Fischer: une étude de son approche des échecs “ – Ver minha bibliografia comentada.

Bent Larsen- Bobby Fischer , Denver (match)2ª, 1971

Depois de 17.b4 , Fischer jogou 17...De5.

Larsen comentando esta partida em “Chess Canada”, Setembro 197
1, escreveu: “Lance arriscado, mas o único bom na posição. Fischer tem relações muito especiais com esta manobra Da5-e5. Valeu-lhe graves problemas na sua partida com Naranja no Interzonal. Talvez ela tenha a ver com a partida que perdeu em 1960 com Muñoz na Olímpíada de Leipzig, onde o jogador equatoriano o surpreendeu com a mesma manobra “

A partida prosseguiu:

18.Tae1 Bc6 19. Bf4 Ce4 20. Ce4 De4 21. Bd3 Dd4+ e a Dama está fora de perigo.

Escreve Agur : Sem querer entrar em profundas explicações p
sicológicas do mesmo estilo das que propõe Larsen, digamos que esta partida contra o jogador equatoriano Muñoz foi a primeira da carreira xadrezista de Fischer onde esta manobra apareceu. Foi das partidas mais dramáticas que o jogador americano perdeu.

Renato Naranja-Bobby Fischer, Palma Maiorca,1970

Voltemos agora á partida Renato Naranja-Fischer, Palma 1970, a que Larsen se refere no artigo de Chess Canada, ainda com os comentários de Elie Agur:

“ O jogador filipino acaba de jogar 13.b4 e Fischer “joga 13...Df5, convidando o lance 14.e4 , a que Naranja não se fez rogado. Fischer não viu que as Brancas não precisam de jogar o errado 15.Bb2, que seria respondido com 15...g5!, mas sim com o lance forte e lógico que foi jogado 15. Tb3! Agora as negras têm que fazer frente a uma ameaça muito desagradável 16.f4 capturando a Dama negra centralizada, por isso Fischer teve que se resignar a 15....Bd7 16.f4 De6 17. f5! gf5 18. ef5 Df5 e Naranja deixou escapar 19.Cd5! que lhe daria vantagem clara.”

3º exemplo

Svetozar Gligoric-Bobby Fischer , Palma de Maiorca,1970


Agora com Gligoric, no mesmo torneio de Palma de Maiorca, 1970

“.Estamos na penúltima jornada..Fischer jogou 17...De5 18.Rh1 Dd4, assumindo riscos que certamente a posição não justificava. Depois de 19.f
3 Ch5 20. Cb5? ab5 21.Bb5 De5!

Simplesmente 20.Cd1! forçaria as negras a abandonar todo o seu plano de manter a Dama em e5, ficando as brancas com posição superior” Agur

Algumas imagens:


Gligoric, numa foto muito rara, que salvo erro nunca apareceu em revistas. Onde a arranjei e onde foi tirada? Dão-se alvíssaras! Uma ajuda: no mesmo sítio da do João Cordovil que coloquei uns posts atrás.