XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

08/07/09

WALTER TARIRA ...Ainda e Sempre




Uma emoção forte ao ler na Luso Xadrez o formidável texto do Walter que o Russo recuperou de 2004 ( e que teve a amabilidade e generosidade do mo colocar mos comentários ao meu post). Nele, depois do seu belíssimo texto O Walter agradece as minhas palavras sobre o que se tinha passado no Hall do Novotel em Gaia em Gaia, nesse Nacional da 1ª Divisão por equipas. E o que se tinha passado, foi muito simples: um dirigente de um Clube presente na competição, nosso companheiro de cavaqueira naquele momento, acabara de confessar numa angústia enorme a dor que o inundava depois da morte da esposa, ainda mulher relativamente jovem, uns dias ou semanas antes. O Walter foi inexcedível nas palavras de conforto e incentivo ao colega, sempre numa serenidade e percepção terna da vida como raramente presenciei. Depois, na Luso Xadrez, fiz um relato do Torneio em que afirmei que nessa competição só duas coisas valeram a pena: a dor do colega e o xadrez como conforto e o ter conhecido o Walter Tarira em pessoa. O que escrevi sobre o Walter mantêm-se mais premente do que nunca. Ficarei sempre dele com a imagem que dele retirei, a minha imagem, o "meu" Walter Tarira.

" Nada disto tem importância, tão ligeiro, tão humana e fragilmente fugaz que não tem importância, que me faz sorrir depois da tempestade da irritação passageira! Um jogo, simplesmente um jogo ( sempre as palavras do Bronstein) a ecoar nos meus ouvidos, e nós a querermos fazer disto uma vida, a vida! Portanto esqueçam o que escrevi! Perdoem-me o meu escrevinhar, o meu humano desabafo, porque como de costume aí estou eu a perder-me do essencial deste post! E o essencial para mim deste Campeonato foram duas coisas simples, simplíssimas! Juro! Não, não foi jogar com três GM! Coitado de mim! Já com “glórias vãs não me iludo”!


Ao fim de muitos anos de xadrez… Conheci um “fauno” pleno de jovialidade, de “sagesse”, de categoria de saber pensar com inteligência - sensibilidade. Talvez dos raras personagens de xadrez que conheci que alia a não seriedade à seriedade das coisas da vida e do mundo, como elas devem ser encaradas! O sério no não-sério! Regalava-me com muitos dos seus escritos na Luso Xadrez”, regalei-me com hora e tal de conversa com o “fauno”! Tão humano, tão deliciosamente humano, que com quase 50 anos de vida e fascinar-me com uma pessoa, é obra! Não digo quem… digamos que é um tal WT (porra, parecem as iniciais de um automóvel!), raçado de deus (naquilo que um deus de letra minúscula tem de terreno) e humano (naquilo que um Humano com letra maiúscula, tem de deus). Uma dúvida: teriam os faunos grisalha barba? Uma dúdiva: Os óculos aumentam-lhe a visão humorística do mundo?



E ainda, o mais importante! Apetecia-me “borrar” toda a borrada que escrevi antes do penúltimo parágrafo! Nada tem importância, nada para mim conta, porque senti a dor de um Homem do Xadrez. Juro-vos pela minha alma ( e isto escrito, perde o que sinto e como tal se calhar não o deveria escrever) que estou triste , profundamente triste! O meu lado a Oeste de mim está comovido sem remissão, porque alguém do xadrez, naquela sala ,naquela confusão, naquele burburinho, naquele cadinho de emoções aos quadradinhos, estava a sofrer terrivelmente com um drama pessoal terrível, trágico e doloroso. Surgiu natural de uma conversa em trio, a notícia, o “murro de boxeur” na boca do estômago, o ficar sem fôlego perante o sofrimento em gente! Eu e o WT, sem estratégia que nos valesse! Algumas palavras belíssimas de conforto do WT, mas a dor aferrada no olhar, nos gestos, na alma da nossa terceira personagem! Ali, um Homem, um Colega de Profissão, um Xadrezista, dor em gente e nós nus de palavras, porque supérfluas. Ali sim o que interessava, nada mais! Separamo-nos, o WT, para o seu destino quilométrico a esperar, eu para os meus head-phones e o reconforto do “Blue” da Joni Mitchell. Deu-me os parabéns, que escrevia bem, mas saberei eu ser? Terei eu lugar neste individualismo estratégico xadrezístico, onde por vezes se tratam pessoas como peças de xadrez, e se quer alcandorar um jogo à qualidade e essência da vida? Não o conhecia pessoalmente, não tive a coragem daquele abraço solidário invasivo daquela dor solitária. Não interessa quem é, nem ele quereria que se soubesse! Aconteceu tudo numa breve hora de uma jornada final de um Nacional por equipas, num qualquer hotel de Gaia. (...)


Escrito pela madrugada dentro, comovido a Oeste, pacificado a Este de Mim no dia 11 de Agosto de 2004 "


Foto ( das melhores do Walter) "roubada", ele não se importará certamente, ao belo Blogue do João Fernandes Santos "Fotografia e Xadrez"



07/07/09

WALTER TARIRA



Uma tristeza sem fim que cá dentro se anichou. Mais um amigo do Xadrez que se foi. Partiu, sem partir, porque parte quem eu deixo e ao Walter não deixo. Bastaram umas horas num hall de hotel em Gaia, para perceber a excelência de quem tinha pela frente. Amava o xadrez profundamente, amava a vida de uma forma completa e poética. A poesia do convívio, do diálogo franco, da gargalhada fraterna, do ir direito ao assunto sem rodeios, mas quase sempre numa atenção solidária e empática com o outro. De humor fino e cortante, de grande generosidade e simpatia o Walter era figura querida e sempre bem-vinda em qualquer torneio que participava ou aparecia.

Amava o Xadrez, o Brasil, a boa mesa, os Amigos, a cavaqueira, o filosofar da vida, Os Alverca dos Peões, em que mais do que Rei, ele era, ele queria ser mais um peão, a alma, a verdadeira alma do xadrez naquele Clube. Segui sempre o que escrevia (e que bela escrita contida, a do Walter Tarira!) sobre o xadrez, ou sobre o não xadrez, e em tudo que escrevia havia sempre uma poética emergente, um sentido profundo das coisas e da vida.

Gostava do Walter, pronto! Uma figura daquelas que valeu a pena, que vale a pena ter conhecido no Xadrez Português. Neste manicómio global em que vamos atolando, nesta mediocridade e imbecilidade generalizada, o Walter era um Bom, um ser culto e sensível de pegada segura no que tinha vindo aqui fazer.

Para e até sempre Walter! Acabaste de carregar no teu lado do relógio da vida, agora o tempo vai-se escoando para nós, naquele tic-tac inexorável e escultórico. Pareces sorrir, naquele teu riso matreiro e brincalhão! Pudera! Vais ter tempo...vai preparando as pecitas e tabuleiro aí no reino de Caissa, que isto não vai ficar assim...

(nesta homenagem, um grande e belíssimo texto de 2005 do Walter sobre a Vida e o Xadrez, publicado no Blogue Peões de Alverca)

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005

CURIOSIDADES

Tabuleiro da “vida”



Depois de ouvir muitas pessoas nas faixas etárias dos “5 aos 20 anos”, dos “21 aos 35 anos” dos “36 aos 50 anos” dos “51 aos 70 anos” e, finalmente, dos 70 anos em diante, constatei o que passo a descrever:

Dos “5 aos 20 anos” o homem só vê e pensa sobre o presente – o passado ainda é muito recente – e o futuro fica no infinito! Não lhe diz respeito.

Dos “21 aos 35 anos” o homem concentra as suas atenções no presente procurando por vezes prever o futuro mas raramente mergulha no seu passado; acaba assim por ver um futuro distorcido da realidade que o espera.

Dos “36 aos 50” o homem já começa a ir ao seu passado mas continua concentrado no seu presente porém, nesta fase da sua vida já pensa em alguns aspectos do seu futuro com alguma realidade.

Dos “50 aos 70” o homem começa finalmente a gastar mais tempo evocando o seu passado mas ainda se concentra no presente, pensando desta forma prever melhor o seu futuro.

A partir dos “71” o homem já só olha o presente e o passado para tentar justificar o futuro que o aguarda. Fica quase com a totalidade das suas atenções concentradas no seu próprio fim, que por intuição começa a adivinhar – a sua própria morte – o fim do ciclo.

Tabuleiro de “Xadrez”


Neste tabuleiro, o “iniciado” quando é alertado para a importância dos diversos finais que podem surgir-lhe ao longo da sua partida, começa sempre por estudar as aberturas, não dando a importância devida aos finais. Claro que este método raramente o leva a um final e, ainda, quando isso acontece, normalmente perde-o.

Alguns jogadores aperceberam-se já muito tarde da importância dos finais e estudaram-nos com muito afinco mas mesmo esses não escaparam – foi só uma questão de tempo – acabaram por levar mate, sem defesa e imparável!!!

Posso assegurar “temporariamente” que, em ambos os tabuleiros, o da vida e o de xadrez, o “mate” não tem mesmo defesa! Sejam ricos ou pobres, GMs ou iniciados, todos têm o seu mate garantido; melhor ainda! O homem quando nasce já tem a sua partida perdida e por mate!!! Assim sendo, o que é que leva o homem e manter-se permanentemente em jogo?!

22/06/09

XADREZ DE MÃO

Algumas fotos minhas e recentes sobre Xadrez e fundamentalmente as mãos no Xadrez. A mão leve , a mão ansiosa, a mão ameaçadora, a mão de afago das peças de xadrez. Como primeira foto: a Imponência de umas peças de xadrez, como última : "O Meu reino por um Cavalo", que pode ser um dos de Chigorin.

(Todas as peças são da minha colecção ; Clique na foto para aumentar)

29/05/09

78... Memórias de Um Campeonato Nacional

Para ler com paciência, para clicar nas fotos e se calhar guardar ( as fotos são da RPX, aproximadamente da época do acontecimento relatado e por mim trabalhadas).



Participante em vários Nacionais de Juniores, em preliminares de Nacionais Absolutos, e apenas num Campeonato Absoluto, posso afirmar que de toda a minha carreira xadrezística de 37 anos de xadrez, sem dúvida o Nacional Absoluto de 1978, marcou-me de uma forma indelével. Não foi por ser um absoluto, não foi pela minha classificação, 12º e último lugar, não foi pela excepcional qualidade das instalações, ou material de jogo (jogou-se na Escola Preparatória de S. João da Madeira em salas de aulas adaptadas e com uma das primeiras versões das malfadadas, anémicas e horrorosas peças plásticas da FPX), ou mesmo do Hotel de instalação ( que não existiu, mas simplesmente uma “pensão-residencial”, por sinal bem humilde e simpática).


Então, o que foi tão forte que passados 31 anos passados tenha gravado a buril no meu lado bom do coração esta competição?


É-me difícil explicar este turbilhão de lembranças, este calcorrear pela memória afectiva e boa das coisas xadrezistas, porque como diz a canção, uma das mais extraordinárias da música portuguesa, deveria ter a sensatez de nunca voltar ao lugar “onde já foste feliz/por muito que o coração diga/não faças o que ele diz”; “ por grande tentação/que te crie a saudade/não mates a recordação/que lembra a felicidade” . Mas não, claramente não devo possuir a sensatez adequada! Um nostálgico incorrigível, sem remissão, mesmo que seja em legítima defesa.


Assim, um simples Campeonato Nacional Absoluto, jogado a partir da 2ª semana de Setembro em S. João da Madeira. E a questão que não me abandona, desde que decidi escrever este artigo, é a seguinte: seria possível hoje ter numa competição deste calibre, o ambiente, o clima, o grau de quase fraternidade, de “irmandade xadrezista” que se gerou nesse ido ano de 1978? Estou a exagerar? Isso não é possível numa competição de xadrez e logo pelo título máximo, ainda por cima num jogo claramente de cariz individualista. E então a mitologia associada aos jogadores de xadrez, ás suas excentricidades, aos seus particularismos, aos seus “desert islands” quadriculados onde gostam de se espraiar? Seria possível quase durante 15 dias, jogadores de xadrez empenhados numa mesma competição, jogar xadrez, mas ao mesmo tempo conviverem extra tabuleiro aplacando as suas idiossincrasias, aprendendo e reaprendendo a arte do diálogo, do jogo a feijões, da boa mesa? Não seria, foi!


Antes de tudo, uma organização, para a qual ainda hoje não encontro palavras adequadas para a classificar. Do que encontrei de melhor ao longo da minha vida xadrezista. Amadores de um profissionalismo, de uma dedicação de uma simpatia, e sobretudo animados de um espírito de Caissa como poucos! O pessoal da Secção de Xadrez do Clube de Campismo de S. João da Madeira, foi simplesmente “xadrezial”, um mistura óbvia de xadrez e bestial. Com medo de me esquecer de alguém e socorrendo-me do “vade-mécum” (o boletim,) aí vai a minha sentida ternura e lembrança, já algo esfumada para o J. Pinho, A. Pinho, F. Pinho, o Lima, o Esteves, o Amorim, o F. Duarte, o J. António, a Marina Graça. Que gente fabulosa!


Chegaram até aqui? Leram bem? Então, não se surpreendam, quando no dia 24 de Setembro de 1978, TODOS os jogadores e o Zé Oliveira, o árbitro do Campeonato, assinaram e forçaram a organização a inserir no seu boletim:


“OS JOGADORES PARTICIPANTES NESTE EXCELENTE XXXIV CAMPEONATO NACIONAL INDIVIDUAL DE XADREZ, CONGRATULAM-SE PELA DINÂMICA E ORGANIZAÇÃO DO MESMO, LEVADA A CABO PELOS LABORIOSOS ELEMENTOS DO CLUBE DE CAMPISMO DE S. J. MADEIRA, ESPERANDO QUE TAL INICIATIVA SEJA UM TRAMPOLIM PARA FUTURAS REALIZAÇÕES TÃO BRILHANTES COMO ESTAS”
Orgulho-me de ter sido juntamente com o Rui Silva Pereira e o Fernando Sequeira, um dos promotores desta iniciativa, bem como o “soprador” de serviço para algumas palavras do texto. Mas leram bem? Eles não queriam colocar no boletim, e só pela ameaça de deixar a sede do Clube de Campismo, numa barraca de acampamento é que os “artistas” publicaram e mesmo assim com: “ POR INSISTÊNCIA DOS JOGADORES O Pirilampo transcreve ( hei-de explicar esse trabalho inacreditável de azáfama, de amor ao xadrez que foi o Pirilampo...).


O Rui Silva Pereira na sua maravilhosa e humorada forma de escrever, (e por onde andará este excelente jogador,dos mais educados, corteses e simpáticos que encontrei no tabuleiro?) não teve problemas em afirmar na Revista Portuguesa de Xadrez, nº 19, II série de Outubro de 1978 , com o subtítulo de “ OS RAPAZES ( E RAPARIGAS) DO TRAPÉZIO VOADOR” :


“Quando falámos de revelação, poderá o leitor ter pensado em António Ferreira. Não nos referíamos no entanto a qualquer jogador, nem o experiente árbitro José Oliveira poderia constituir mais que uma confirmação. Revelação foi a excelente organização deste campeonato por parte do Clube de Campismo de S. João da Madeira. Contra aqueles que de início afirmaram que "estes rapazes esmeram-se, mas não têm experiência de organização", surgiu-nos a máquina impecável, de eficiência levada ao pormenor. O abaixo-assinado dos jogadores e árbitro, elogiando a organização, não traduz nem poderia traduzir completamente a qualidade organizativa do torneio. Foi inultrapassável no aspecto técnico, e ainda mais, se possível, no aspecto humano. Os perigos, os exercícios de equilíbrio necessários para contentar um grupo de pessoas tão susceptíveis e instáveis como o dos jogadores, assim como uma conhecida canção que andou na berra durante o Torneio, justificam o subtítulo. (Estamos certos que esta "troupe" é a melhor equipa de organização do país. A única coisa menos perfeita no torneio é que incompreensivelmente fomos obrigados a jogar xadrez certo que alguns conseguiram ultrapassar esse contratempo em algumas sessões, seria preferível que para a próxima essa ridícula formalidade não fosse burocraticamente exigida).Chamamos à atenção para o anúncio aqui publicado (de organização de torneios). Àqueles que possam achar os preços demasiado altos, garantimos que são uma autêntica pechincha. É como comprar uma genuína rede de trapezista por cem paus!”

O próprio árbitro, o José Oliveira (grande, grande arbitragem , num misto de luva de afago numa mão, e usado a preceito, “pau de marmeleiro” na outra) escreveu na mesma revista:


“Quem teve o privilégio de acompanhar este XXXI V Campeonato Nacional Individual cometeria grave injustiça se deixasse de referir que a organização ultrapassou em muito aquilo a que estamos habituados. A montagem da sala de jogo e dos serviços de informação e propaganda de vendas de material didáctico e de bar esteve impecável. As actividades paralelas (ensino de xadrez, encontro com o GM Tseshkovsky, simultâneas e torneio de rápidas, este organizado em colaboração com a A-X-Aveiro) tiveram o mérito de atrair muitos antigos e novos praticantes. Finalmente, o apoio que em todas as circunstâncias foi prestado aos jogadores e árbitro, e o excelente convívio que constitui nota dominante desta iniciativa são dignos dos maiores aplausos. Por tudo isto estão de parabéns os vinte e muitos elementos do Clube de Campismo de S. João da Madeira que tornaram possível o Campeonato. No fim da prova, os participantes remeteram à organização um voto de louvor pelo trabalho realizado. “

Assim uma organização esmerada que mereceu o louvor de todos, e que ainda se deu ao luxo de usar da ironia, do humor, de humilde e sadiamente brincar com as laudas que lhes demos, com a publicação de um anúncio hilariante (o mesmo a que se refere o Rui Silva Pereira) que abaixo publico.


Uma organização, que começou um Nacional com uma reunião com todos os jogadores, disponibilizando-se a todos os esclarecimentos e aceitando sugestões. Uma organização que não teve qualquer problema depois de consultar os jogadores e estes concordarem por unanimidade, em autorizar quando isso fosse necessário, o 2º adiamento na Vila da Feira onde estavam hospedados a maioria dos jogadores, conseguindo para isso a cedência de uma sala do Orfeão da Vila da Feira. Uma organização que nos brindou com jantaradas pantagruélicas, que à noite abria as portas da Sede do Clube de Campismo de S. J Madeira, onde entre carradas de rápidas, de jogos de cartas acirrados, ainda havia tempo para com um tabuleiro pela frente, ambos os jogadores que se tinham defrontado horas antes, analisarem em conjunto a sua partida, perante a caneta lampeira de alguém da organização, que anotava essas análises, para certamente noite dentro, e máquina de escrever ritmada, publicar as partidas do dia, algumas comentadas, nesse “órgão do comité dos amantes do xadrez” que era “ O PIRILAMPO” . Não, não era o tempo dos FTITZ, RYBKA depois das partidas, era o tempo do mexer nas pecinhas de plástico de colocar umas frases ou variantes sacadas à pressa, e a fita matraqueada da máquina de escrever a sulcar papel para memória futura. Até o António Fernandes ainda jovem mancebo se iniciou no Jornalismo de Xadrez, quando pouco dado a cartadas e bebidas era cooptado para detectar gralhas no boletim do Torneio!


Uma organização que conseguiu a par do Campeonato, organizar simultâneas com Jaime Gilbert, Vladimiro Miranda e Jorge Liberato, que conseguiu trazer embora por horas, um dos melhores jogadores mundiais à altura, Vitaly Tseshkovsky, a S. J. Da Madeira, e com quem tive o prazer de ser trucidado para aí umas 12 vezes no mínimo ( tinha perdido com o Ochoa, em 16 lances e, o GM, achou piada jogar com um “meco” jogador do Nacional –Ele sempre com 3 minutos contra os 5 meus; aproveitei, enquanto a fila dos consagrados não foi crescendo para serem trucidados à mesma!).


Um aparte sobre Tseshkovsky: Esteve para aí 6 horas em S. João da Madeira, joguei com ele rápidas, estive na mesma mesa do Restaurante onde jantou antes de ir para Lisboa e praticamente não lhe ouvi uma palavra! Sempre sério, sempre com aqueles olhos fixos em grossos e enormes aros de tartaruga, raramente se observava um esgar no seu rosto! Uma esfinge! Nas partidas rápidas jogadas comigo, um hábito curioso: jogava com uma rapidez inacreditável, mas com uma calma impressionante e colocando as peças mesmo no centro dos quadrados do tabuleiro. Outro ainda e para minha surpresa: depois de cada partida ganha, gostava de pegar nas minhas peças de derrotado e colocá-las rapidamente nas posições iniciais, quase como a sugerir-me: “mais uma, vamos a outra que esta não teve piada”. Durante as rápidas não olhava uma vez para o adversário, os seus olhos mexiam-se a uma velocidade incrível esquerda-direita, direita-esquerda, piscando-os sucessivamente: pareciam olhos de ave de rapina! Nas rápidas com o saudoso Sílvio Santos, este a tentar aplicar ao GM, o mesmo truque que gostava de fazer nas rápidas amistosas: derrubar umas pecitas, no tempo do adversário, para ganhar um tempito, enquanto este as compunha, ou mesmo as apanhava: puro deleite o que vi: Sempre que o Sílvio fazia “a graça” o Tseshkovsky com uma rapidez assombrosa, pegava no relógio, puxava-o para o seu lado, parava-o, e sem uma palavra esticava o dedo para o tabuleiro, indicando ao meu saudoso companheiro, que tinha que pôr a posição como ela estava antes do “desastre”! Vi isto no mínimo três vezes e era engraçadíssimo ver o Sílvio aos papéis, a colocar as peças no lugar onde estavam, e a mão sapuda do GM a corrigir um peão, ou uma peça! Só depois o relógio “roubado” voltava ao lado do tabuleiro. Como partilhava com ele o quarto na residencial, o que gozei o Sílvio, só podem imaginar. Sorte minha que o Sílvio era uma jóia de um rapaz e estava tão fascinado como eu com a força de jogo e capacidade de visão do Vitaly.




Uma organização que até pôs os jogadores a jogar com os pés, ou com outras peças desportivas que não as de xadrez. Eles bem “ameaçaram” no dia anterior ao descanso: “


Aproveitando o dia de descanso deste Campeonato Nacional de Xadrez, foi estabelecido m programa em que se exclui (será?) o Xadrez, mas por outro lado será aproveitado para fazer actividades dentro dum vasto leque. Assim, cerca das 10h50 da manha, jogadores, árbitro e organizadores do Torneio deslocar-se-ão para a praia do Furadouro, onde se praticará um pouco de ténis e voleibol nos respectivos recintos existentes no Parque de Campismo do C.C.S.J.M. e ainda natação em pleno oceano. Alem do referido, e que está a atrair mais as atenções gerais, é um desafio de futebol entre os elementos da organização e os titulares do xadrez. À hora de encerrarmos o PIRILAMPO tentamos saber as respectivas formações de equipe, mas estas mantêm-se nos “Segredos dos Deuses»., os TÉCNICOS lá saberão.., Enquadrado neste dia de descanso, teremos ainda, e como não poderia deixar do ser, um almoço com toda a gente, onde os visitantes poderão saborear a famosa caldeirada e o afamado VERDE da região!! (bom lance? comentário da responsabilidade dos redactores). Julgamos que ainda será possível assistir a una sessão de música já que alguns dos jogadores demonstraram ter queda...-"


Um grande encontro entre os Jogadores de Xadrez e a Organização, do qual só não gostei do resultado, porque perdemos 11-7. Bem remei contra a maré, empunhando a batuta de ter treinado quando miúdo no Boavista no velhinho Estádio do Lima com Joaquim Meirim e o sr. Garcia, usando também alguma acutilância e “bocas” quanto bastasse para empertigar os colegas e enervar os adversários, sem sucesso! Impossível! Imaginam o António Ferreira com aquele porte atlético à baliza? Não ? Eu também não! Já viram, tirando alguns jogadores do Benfica, rematar com o pé que tem mais à mão? Não? Eu vi o Ochoa, que não acertava um chuto! Podem pensar sequer no Rui Silva Pereira que jogava em bicos de pés, a saltar, ou a dar uma peitaça no adversário? Nem eu! Aquilo era um passador, defesa “moulinex”! Acreditam que o Luís Santos, que até dava um jeito no futebol, andava fascinado com o Borg, vai daí encafua-se no Ténis, e só quando já estávamos enterrados, é que resolveu apiedar-se dos colegas, sair da condição de suplente, por “estouro físico”, e marcar um golo à Maradona? E o José Oliveira, que em vez de jogar a bola, sentia mais apetência para a arbitragem, e como não lhe deram apito, amuou: Assim, só eu, o Sequeira e o Fernandes, a jogar futebol de luxo! Mas 3 contra 7 da organização, vá lá, 6, porque o J. Pinho, era mais do estilo “ponta quieta”, era impossível fazer melhor! Ah! No fim do encontro, quando o banho apetecia, alguém reparou que...não existia sabonete! Nem se sentiu o cheiro, porque os odores foram todos para uma caldeirada divinal, regada a Verde que colocou o Martinho a “fadunchar”, enquanto outros mostravam que entre o piar , o grasnar, e o cacarejar, não existe tanta diferença assim. Felizmente que uma volta pela Ria, veio serenar gargantas e aligeirar vapores.

Assim um Nacional com um convívio franco, um espírito de grupo, como raramente encontrei em competições de xadrez. Um Nacional que até poderia ter começado “torcido”, quando salvo erro, o Durão, o F. Silva, o Luís Santos e o Ochoa chegaram atrasados à Vila da Feira e a estalagem onde estávamos hospedados, não tinha quartos disponíveis. Foi um chinfrim incrível, com o Fernando Silva a exibir pergaminhos de ser o Campeão Nacional e ter direito a suite real, o Durão como decano, a vociferar que “a velhice era um posto”, e eu feito “camelo” solícito a pegar na mala do Fernando Silva, que parecia trazer grossas vigas de ferro da Siderurgia Nacional, mas que depois vim a descobrir serem livros de xadrez, nomeadamente os Informadores! Mais de 20m naquela balbúrdia e, o cansaço e um sorteio, vieram aplacar ânimos, apesar de os rostos se manterem fechados. Era o que havia: ou arranjem-se, ou por esta noite tem de ser assim! E foi! O Durão e o Luís Santos ficaram num quarto que reservado, dado o adiantado da hora, não deveria ser reclamado, o Ochoa, ficou com uma cama articulada numas espécie de arrecadação de arrumos e o Fernando Silva, dormiu no quarto de um dos criados (e não na cama com o criado, como escreveu no gozo o Zé Oliveira na revista da FPX, até porque se fosse a criada, eu cederia de bom grado o meu quarto ao Fernando Silva, juro!).




Não , caros leitores, nada disto é invenção. Aconteceu mesmo! E no dia seguinte. tudo se resolveu a contento de todos .



Um Nacional, onde um grupo de “jovens guerrilheiros” gostava de atacar a janela do quarto do Durão com bolas de papel higiénico ensopadas, estragando-lhes os cálculos complicadíssimos do Totobola, no exacto momento em que ele sonhava, agora é que vou ser rico! Um Nacional em que os meus camaradas guerrilheiros, se deixaram comprar ou seduzir pelo Mestre Durão e se preparavam para num complot quase generalizado, a coberto do sono, me cortar um apêndice que era a minha “trademark” desde a adolescência: ( Ah! Ah! malandrice...) o meu querido, amado e bem tratado bigode! Não imaginavam eles porém a minha rede de informadores naquela estalagem, e a minha argúcia de menino da Sé do Porto! Consegui esconder uma pequena tesoura arma do crime, pertencente ao Durão e ameaçar de insónia perpétua quem ousasse tocar na minha sagrada relíquia! Aliás de bigodes-relíquias, só o meu e o do Fernando Silva. Não queiram saber o que foi a nossa partida, depois de ambos cofiarmos as respectivas bigodaças, que era vício arreigado em quem possuía o apêndice: eram tantos pelos de bigode como peças de xadrez nos quadrados do tabuleiro!

Um Nacional, onde percebi a enorme cultura xadrezística do F. Silva, onde entendi a diferença abismal entre o pessoal de Lisboa, e o do Porto, no que dizia respeito à forma de levar o xadrez de competição a sério, no estudo do Xadrez, na preparação teórica! Contra tudo o que se diz, tive a felicidade de ver a organização de trabalho do Joaquim Durão, como ele tinha os artigos teóricos da Europa Échecs ou Jaque, todos policopiados, ordenados em pastas por aberturas, ou como escrevia anotações, ou como marcava livros e Informadores! Tive a grata surpresa de ver o Renato Pereira, não ter qualquer problema em mostrar-me revistas teóricas alemãs, salvo erro da Schach-Echo, ou durante mais de uma hora analisar comigo a Benoni. Foi um regalo puder analisar a partida com o Fernando Silva, e ver a sua satisfação por um jovem jogador se interessar por uma sua partida recente que ele tinha vencido brilhantemente em Cuba, contra Carrion. Pude constar mais uma vez, alguns dos belíssimos livros que tinha o Fernando Sequeira, ou como o António Ferreira já tratava a Enciclopédia por tu, de tal forma que Apanhou o F. Silva numa variante lateral da Siciliana, na partida que disputaram. Foi agradável constatar a humildade do Rui Silva Pereira, ao reconhecer no nosso empate que estava bem pior posicionalmente, ou ver como o Sílvio Santos aceitou, primeiro renitente, depois, conformado a punição de dez minutos no relógio aplicada pelo José Oliveira, simplesmente porque em plena partida e aprontando-se os apuros de tempo, resolveu encetar “alegre cavaqueira” com o António Fernandes. Ri-me até às lágrimas, quando um dia o Renato Pereira, resolveu imitar o Durão, o Luís Santos (o Renato a imitar o Luís Santos a apartar o cabelo, quase que me fez urinar!), o Jaime Gilbert ( igualzinho!), ou o Mestre António Rocha! Talento extraordinário de alguém com apurado sentido de observação! Quando o Renato pediu para alguém imitar a sua pessoa,, ninguém ousou , claro! E eu, ali, com livros do Pachman , do Pedro Cherta, e do Euwe, e com algumas fotocópias da Europe-Échecs de artigos do Zinser e do Gligoric!? Como sobreviver competitivamente aquelas “trutas” ? Mas também o que interessava isso?


Soube aproveitar esse Nacional e “sacar” dele, o que dele não pensava extrair: humanidade, gosto pelo convívio do xadrez, contacto com pessoas que respeitava imenso como jogadores, sem os conhecer pessoalmente, casos do Durão, do Fernando Silva , do Renato, e que ainda hoje respeito! Conheci gente de uma simpatia maravilhosa como foi o caso do Rui Silva Pereira, ou o Martinho Lopes, e pessoas que ou desinteressadamente amavam o Xadrez, ou loucamente o amavam para organizarem da forma que organizaram esse Nacional.


Devo imenso a toda esta gente, o que hoje vou pulsando xadrez, o que hoje amo xadrez, porque estes quase quinze dias, foi um dos períodos que mais contribuíram para a percepção de um xadrez que até aí me era desconhecido. Talvez neste Nacional Absoluto de 1978 tenha percebido o lema “Gens una sumus” da FIDE, aplicado a um campo mais restrito.



Bem Hajam! Que todos estejam de perfeita saúde o meu sincero desejo! A minha sentida ternura da memória neste artigo.


(O meu saudoso e querido amigo Sílvio Santos, já por mim foi objecto de “memorial” na antiga Luso Xadrez).