XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

06/05/09

FISCHER-MUÑOZ - PARTIDA



Para imprimir, analisar, deixar-se impressionar quer pela força inspirada do jogo de Muñoz, quer pela debilidade do jogo de Fischer ( muito raro). Aliás como a raridade das fotos! Se quiserem e desejarem, as impressões serão calorosamente acolhidas, seja sobre a partida, sobre o formato do blogue.


Fischer,Robert James - Muñoz,Cesar [B77
]
Leipzig ol (Men) prel Leipzig (2), 18.10.1960 [Mednis, David Levy, Soloviev, Arlindo Vieira]

"Fischer foi um dos mais bem sucedidos domadores da Dragão de todos os tempos. Perdeu apenas uma partida contra esta abertura, esta, mas que partida! O não titulado equatoriano, foi claramente superior ao grande Bobby, nas complicações do meio-jogo. Psicologicamente, a derrota de Fischer pode ser explicada por duas razões: sobreavaliação da sua posição e subestimação do seu adversário..." ( Edmar Medinis- How To Beat Bobby Fischer)

1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 g6 6.Be3 Bg7 7.f3 0–0 8.Dd2 Cc6 9.Bc4 a6?!

Aqui está um exemplo como hoje se comentam partidas de xadrez em revistas ou sites Web! Claro que o lance de Muñoz desapareceu da moderna teoria a nível dos GM, substituído pelo 9...Bd7, e poderia aqui encher páginas e páginas de teoria de aberturas, de partidas e partidas exemplificativas do lance duvidoso a6, mas...para quê? Seria fastidioso, ridículo e sem qualquer substância xadrezistica, já que um interessado nesta variante pode ir a qualquer livro ou CD Rom, ou base de dados estudá-la! Como muito bem escreve Mednis " Na altura em que se jogou esta partida, esta variante ainda estava na sua infância, e o plano correcto para as negras ainda não estava dado como adquirido..."

10.Bb3 Da5 11.0–0–0 Bd7 12.Rb1 [12.h4! Tfc8 13.g4 Ce5 14.Bh6 Cc4 15.Bxc4 Txc4 16.Bxg7 Rxg7 17.h5‚ Mednis, Soloviev]

12...Tac8?! [12...Tfc8! "com a ideia lógica de:

a) O Rei tem uma casa de escape em f8;


b) As Negras podem responder a um Bh6, com um Bh
8;

c) A Torre de a8, poderá ter de realizar alguma tarefa na coluna b " ( Mednis)]

13.g4?!

[13.h4! " agora sabe-se que que o ataque branco pode começar de forma mais eficiente com este lance, até porque em muitos casos este peão poderá ser sacrificado em h5" ( Mednis)]

13...Ce5 14.Bh6?!



Esta lance duvidoso, e poderia mesmo levar um ?, não o é em si e "per si", mas simplesmente porque é o início de um mau plano de jogo, isto é , o prelúdio de uma série de lances que se encadeam numa ideia de ataque ao Rei negro. Só que Fischer ou não se apercebeu da manobra de centralização da Dama negra ao lance 16, ou se dele teve consciência, não o avaliou correctamente. Aqui a minha concordância com Mednis: este lance prova que Fischer claramente sobrestimou a sua posição, e talvez, porque não admiti-lo substimou a força de de jogo de Muñoz! [14.h4! Cc4 15.Bxc4 Txc4 16.Cb3 De5 17.Bd4]

14...Cc4 15.Bxc4 Txc4 16.Cb3?!

Fischer, demasiado confiante, deixa escapar duas var
iantes que lhe poderiam proporcionar vantagem, ou pelo menos, a manutenção da iniciativa [16.Cd5!? Dxd2 17.Cxe7+ Rh8 18.Bxg7+ Rxg7 19.Txd2 Te8 20.Cd5 Cxd5 21.exd5 Te5 22.b3 Tc8 23.c4± (Soloviev) 23...h5 24.h3 b5 25.Tc1 bxc4 26.bxc4 Te3 com vantagem branca;

16.Bxg7! parece ter passado despercebido a todos os comentadores desta partida! 16...Rxg7 17.g5 Ch5 18.e5 Te8 19.The1±]

16...De5!



"As negras têm muito bom jogo", escreveu David Levy , o que não será tão certo assim! Mednis mais certeiro, escreve que " devido a complicações tácticas , a Dama negra está segura em e5". Claro que poderíamos argumentar que este lance embora não sendo único, é aquele que na prática pode manter as negras em jogo, tal como se mostra na variante abaixo, com a retirada da Dama para d8. Todavia, e isto prova, que Muñoz era um excelente Jogador, não acredito que não tenha calculado as implicações da centralização da Dama, com variantes concretas. Aqui teria sido precioso ter os tempos anotados da partida, para verificar o tempo de reflexão do equatoriano.

Teria este lance de centralização da Dama impressionado de tal forma Fischer, que este em futuras partidas, realizaria a mesma manobra? Bent Larsen acha que sim, Elie Agur, sem ser tão radical, apresenta no seu livros exemplos curiosos de De5 em jogos do grande campeão americano. [16...Dd8 17.Bxg7 Rxg7 18.e5 Ce8 19.h4±]

17.h4 "o seguimento lógico do ataque" escreveu Mednis. Concordo. Fisher claramente pensou a sua posição como superior e que o av
anço do peão h traria o inevitável " abertura da coluna h e sac., sac...mate!

Claro que à capacidade analítica do jovem génio americano não deveriam ter escapado alguns golpes tácticos interessantes que apresentarei nas variantes a) e b).

O que me surpreende é que sendo Fischer conhecido pela clareza do seu jogo posicional, pelo gosto das posições claras e simples que permitiam a crescente solidificação da vantagem até ao ataque, ou destruição da defesa do adversário, repito, surpreende-me que não tenha visto, ou pelo menos posto de lado variantes que lhe poderiam trazer vantagem clara.

A ideia que Fischer teria da própria fraqueza da variante Dragão perante a variante Yugoslava, o acreditar piamente que o ataque correria por si, até porque o seu adversário era um não tiitulado e o facto de Fischer não ser ainda o Fischer que explodirá em pleno na sua genialidade a partir de 61, tudo isto pode explicar o lance, ou se quiserem a sucessão de lances que se incia com o lance 14. Bh6?! e a persistência num plano completamente equivocado.

Então o que poderia ter sido jogado aqui? Bem primeiro uma variante que todos os comentadores se limitaram a indicar, sem uma ou outra curiosidade, depois uma outra, também de valor duvidoso, mas novamente com outra subvariante curiosa que não é referida em nenhum livro.


A) 17.Bf4 De6 18.Cd4? Para quê e porquê? Haveria algum problema em jogar 18.De3, ou 18.Df2 ? 18...Cxe4! 19.Cxe6 Cxd2+ 20.Bxd2 fxe6 (20...Bxe6 21.Ce2 Tfc8 22.Bc3 T4c5 23.The1 Bd5 24.Bxg7 Rxg7 25.Td3 Bc4 26.Tdd1 b6 27.a3 e apesar da vantagem negra a posição branca joga-se) 21.Thf1 Bc6 22.f4 Tc8 Vantagem negra


B) 17.f4 Bxh6! (17...De6?! 18.f5? Porquê? (18.Bxg7! Rxg7 19.e5 Ce4 20.Cxe4 Txe4 21.exd6 exd6 22.f5 De5 23.Dxd6 Bc8 ligeira vantagem branca) 18...De5 19.Bf4 Dxc3 20.bxc3 Cxe4 21.De3 Cxc3+ 22.Rc1 Txf4 23.Dxe7 Cxa2+ 24.Rb1 Cc3+ 25.Rc1 Cxd1 26.Dxd7 Ce3: Soloviev, termina esta análise no lance 20, dando jogo confuso. Um bocadinho de Frtiz e a vantagem negra é clara!) 18.fxe5 Bxd2 19.Cxd2 Txc3 20.bxc3 Cxg4 21.exd6 Cf2 22.Cb3 Cxd1 23.Txd1 exd6 24.Txd6 Bc6 com ligeira vantagem negra



C) 17.Be3!? Jogada interessante de reconhecimento do impasse do ataque branco e que recoloca o bispo na possibilidade de "incomodar" a Dama negra


D) Esta variante é espantosa e deixa-me completamente abismado que não tenha sido considerada por Fischer, ou mesmo por qualquer comentador da partida. Vai para anos no meu livro de Mednis, a lápis, tinha escrito porque não " trocar os bispos , expulsar o cavalo negro do controlo da casa d5 e tentar jogar nessa casa com excelente domínio central do cavalo branco de c3?"

Bastou colocar a posição, e imediatamente o Fritz 11 dá esta variante como a principal e sempre vantajosa para as brancas.Porque razão os comentadores, Mednis, Soloviev, Wade e O'Connell, nem a mencionem, mas se aprestem todos a referir os fogos de artíficio da variante A, ou B?

Simples, ou talvez não. Nesta variante da Dragão, são, eram aos milhares as partidas que decorriam sob o signo do ataque ao Rei negro nos moldes clássicos, abertura da coluna h, ataque violento ao Rei com mate ao fuga deste pelo tabuleiro até à capitulação, por isso seria pouco cordato procurar uma vitória por meios posicionais numa variante de ataque puro! Por isso, por influência de um conhecimento ainda pouco aprofundado dos meandros da Dragão, muitos comentadores nem se preocupavam em verificar variantes que não passassem por jogar os peões g e h. Aqui talvez tenha a dizer que conhecedor de livros soviéticos e das suas excelentes análises, este tipo de subtilezas não costumavam escapar na análise de partidas.

Assim o plano de ocupação da casa d5, e as ideias escrevi acima, são aquelas que surgiriam no tabuleiro a um jogador "amador" na casa dos 1700–2000 (por exemplo), ou mesmo numa hipotética explicação de um treinador a um míudo que tivesse esta posição perante si. Vejamos então, sem pretensões de verdade absoluta, mas com lances "quase forçados":

17.Bxg7 Rxg7 18.g5 Ch5 19.Cd5 Te8 que melhor poderão jogar as negras? 20.The1 Rh8 21.f4 Dg7 22.f5! (22.e5!?) e as Brancas dominam clara
mente.

Claro que poderia pôr Rybka ou outro módulo a trabalhar horas nesta posição depois de 19.Cd5, poderia aumentar os ramos de variantes, e talvez até modificar para vantagem ligeira a vantagem Branca, de qualquer forma, é surpreendente que esta variante, sendo simples, de lances naturais, ofereça pelo menos um jogo muito mais claro e pressionante ao jogador das peças Brancas!)


17...Tfc8 18.Bf4?

Surpresa neste "descalabro" posicional de Bobby. Parece que o jogador Norte-americano perdeu nitidamente o "feeling" da posição e, pior ainda, o sentido de perigo. [18.Bxg7! Rxg7 19.h5 g5 20.h6+ Rh8 21.Cd4 com posição jogável e até de certa complexidade, com chances para ambos os lados.]

18...De6 19.h5 [19.Cd4? Cxe4!]


19...b5! 20.hxg6 fxg6 21.Bh6?!

eram bem melhores: [21.e5 dxe5 22.Bh6; 21.a3]

21...Bh8 22.e5?

escreve Mednis: " Este lance de café, é o factor definitivo da derrota das brancas. Fischer nem se deveria ter preocupado em analisar a respos
ta negra, por isso deveria ter equacionado os lances já citados 22. Tc1, ou 22.Th2.

Esperia Fischer que um jogador como Muñoz não visse o óbvio, ou seja duas armadilhas de um lance?

22...b4!

[22...dxe5?? 23.g5+-; 22...Dxe5 23.The1‚]

23.exf6

[23.Ce2 Dxe5 Esta era a melhor possiblidade para Bobby, apes
ar da vantagem negra. O lance do texto foi "suícida" escreveu Mednis]

23...bxc3 24.Dh2 Dxf6! As Brancas não têm absolutamente nada no flanco de Rei, enquanto o seu flanco de Dama está em "frangalhos", O jogo negro joga-se "sózinho" - um situação raríssima contra Bobby! " , escreveu e bem Edmar Mednis.

25.Bg5 Df7 26.De2 cxb2 27.Dxe7 Dxe7 28.Bxe7 Txc2 29.Txd6 Ba4 30.Bg5 Tf2! 31.Be3

[31.Txa6 Bc6!]

31...Txf3 32.Bd4 Bxb3 33.axb3 Bxd4 34.Txd4 Txb3 35.Td2 Tcb8 36.Td7 Ta3 0:1



poderia seguir-se :

37.Rc2 Ta2 38.Tb1 a5 39.Td2 a4 40.Rc3 a3 41.Tdd1 h5 42.gxh5 gxh5 43.Th1 Tb5 44.Rc2 Rf7



20/04/09

CESAR MUÑOZ e FISCHER

Duelo memorável...


Olhem com atenção para a fotografia acima (cliquem na imagem). Não é de uma qualidade apreciável, mas é de uma raridade, de um momento quase único na História do Xadrez ! Olharam bem? Repararam? É que muito raramente poderiam ver uma foto como esta, ou quando muito, poderiam ver 60 fotos semelhantes. Querem saber porquê? Simples: 61 partidas foram as partidas que Bobby Fischer perdeu em toda a sua a sua carreira de xadrez oficial competitivo ( sem contar com o match de Sveti Stefan, com Spassky).


Mas...olhem uma vez mais. 0-1. Alguns espectadores, parecem não quer sair daquele lugar onde deveria ter acontecido qualquer coisa de estranho. Especados perante um tabuleiro vazio. Mas...olhem outra vez. Uma garrafa-termo a meio e abandonada por alguém que deveria ter saído do tabuleiro como foguetão num estado de irritação extrema. Do outro lado, um copo de água vazio, de alguém que no calor da luta foi bebericando lentamente para aplacar a sede e o stress de uma batalha de xadrez. Olhem bem...nenhum dos dos jogadores fumava . O relógio inexorável do jogador das Brancas, marcava a hora em que o deveria ter parado, apertado a mão ao adversário e saído disparado daquela mesa depois de assinar a folha de partida.


Mas...reparem bem, na placa identificativa dos jogadores: Fischer-USA- Internationaler Grossmeister . Do outro lado, ECUADOR, Muñoz, Meister.


Imaginemos só que entravam naquele momento no pavilhão onde se tinhas disputado aquela partida e nada sabiam. Imaginemos que tinham acesso a zona de jogo. Qual seria a vossa tendência? Claro! Trocar as placas numéricas que tem o 1 e 0 , ou seja, árbitro, ou alguém da organização enganou-se! Vamos lá repor a verdade e por as placas como dever ser 1:0


Pois...mas em alemão, alguém repetia mais alto do que o permitido numa sala ampla de torneio, “Aufgegeben”, Ja Fischer!” que era traduzido com alegria em língua hispânica “ Fischer se rindió”, “ Perdió Fischer, Munõz lo mató!” enquanto alguém incrédulo questionava : “ You are joking with me? Who are that Muñoz guy?” . Não, as placas do resultado estavam correctas. O jovem génio americano tinha perdido com um jogador completamente desconhecido de um país sem qualquer tradição escaquística. E o “Meister” não poderia enganar quem andava no mundo do Xadrez. O tal Muñoz era Mestre nacional do Equador, sem qualquer título da FIDE. Afinal, o que tinha acontecido? Um erro crasso de Fischer? Um “dia não” do futuro grande campeão? Ou...qualquer outra coisa?


O Fischer que perdeu com Muñoz na 2ª Jornada das preliminares das Olimpíadas de Leipzig, já era um Fischer de renome, e à sua volta congregavam-se as atenções da imprensa xadrezística e dos aficionados. Campeão dos EUA em 57-58, 5º lugar no Torneio Interzonal de Portoroz, Campeão dos EUA em 58-59, 3º lugar em Mar del Plata, 4º em Santiago do Chile, 3º em Zurique atrás de Tal e Gligoric, 5º no Torneio Zonal Bled-Zagreb-Belgrado em 1959, Campeão dos EUA 59-60, 1º exequo com Spassky em Mar del Plata 1960, 14º no Torneio Internacional de Buenos Aires de 1960 ( o pior resultado de Fischer na sua carreira), 1º num pequeno torneio em Reykjavik em 1960.


Claramente uma estrela em ascensão e claramente um Fischer a merecer o 1º tabuleiro da selecção americana que se apresentou em Leipzig, aliás, o que motivou a raiva de Reshevsky, que se recusou a participar no evento como 2º tabuleiro. Um Fischer que começa a fase preliminar destas Olimpíadas “despachando” o forte jogador romeno Ghitescu em apenas 14 lances. Um Fischer que na segunda jornada irá jogar de brancas contra o tal desconhecido e não titulado Cesar Muñoz do Equador. Então o que se passou? O que aconteceu? Que poderá estar por detrás desta partida interessantíssima?



Proponho outro olhar atento: Olhemos esta outra fotografia dos primeiros lances deste encontro Fischer-Muñoz.


Olhem bem. Repararam? De um lado um jogador profundamente concentrado imerso desde cedo na luta que se avizinha, talvez sabendo de antemão a superioridade do seu adversário, do outro...Fischer que olha o seu adversário entre o despreocupado e o “animal” que mais cedo ou mais tarde sabe que conseguirá a sua presa. Os espectadores, e muitos eram, desta partida, esperavam certamente o óbvio: “a degola do inocente”, ou seja, mais uma daquelas partidas brilhantes, claras, que caracterizavam o já jovem americano, principalmente com a abertura que desenhava no tabuleiro.


Como iremos ver, nada disso se passou! O Jogador equatoriano continuou concentradissimo toda a partida e Fischer acabou por ter de se aplicar a fundo numa partida muito complicada que acabou por perder. Parece que com o desenrolar da partida, eram cada vez mais os espectadores e jogadores que se aproximavam da mesa, e o silêncio pesado, enquanto os dois jogadores nem reparavam nesta azáfama! Partida intensa, dramática, no relato de quem a presenciou! Fischer estava pálido de morte ao assinar a folha de registo da partida e Muñoz radiante! A garrafa-termo com sumo de laranja que costumava acompanhar Fischer por esta altura, ali ficou, prova de um abandono rápido e em força do GM americano no fim da partida.


Teria Fischer subestimado o seu adversário ? Talvez. Sejamos honestos, Muñoz não era ninguém no mundo do Xadrez, era apenas um Mestre Nacional equatoriano com poucos torneios jogados, principalmente com grande inexperiência de jogos com fortes jogadores. Ainda por cima era amador, jovem Engenheiro recém formado. Numa época em que não existiam bases de dados, Net, nem sequer ainda Informator, nem a circulação de revistas de xadrez fosse comum, é natural que Fischer desconhecesse duas interessantes partidas jogadas por Muñoz, onde este jogador bateu duas promessas do xadrez em ascensão: Bent Larsen e Olafsson e isso aconteceu no Campeonato Mundial Universitário por equipas disputado na Islândia em 1957. Porventura também não conhecia o empate conseguido contra Lombardy, nesta mesma competição. Digo é natural, mas poderia dizer é provável, porque Fischer era um estudioso louco de xadrez e, todos sabemos como aprendeu russo e servo-croata para devorar os segredos de muitas revistas de xadrez da Europa de Leste.


Outro dado curioso para avaliar esta partida: Fischer nunca tinha perdido contra uma Dragão, tendo de todos os seus adversários , apenas um obtido um empate, ainda com “Fischer-ciança”. De todas as vitórias contra esta abertura, talvez a mais célebre foi contra Larsen, no Interzonal de Portoroz de 1959, partida extensamente comentada no “My 60 Memorable Games” com o título dado por Larry Evans de “Slaying The Dragon”. E aqui um fenómeno curioso: Fischer mesmo comentando esta partida à posteriori da partida jogada com Muñoz, não pode deixar de mostrar um profundo desprezo, eu diria, quase incorrecção xadrezística por esta abertura, quase exorcizando a derrota que teve com a Dragão do jogador equatoriano.

Ainda mais curioso é que Fischer tinha uma memória fabulosa e sobretudo uma capacidade de aprender com as derrotas que só os grandes campeões têm, e mais tarde, como Elie Agur mostra, vai utilizar jogadas de centralização da Dama no tabuleiro, tal como fez Munoz na partida que estamos a discutir! Vejamos os comentários de Fischer no seu livro à partida com Larsen a um 16º lance seu : “...agora senti que a partida estava no bolso se não a “atamancasse”. Tive dezenas de partidas rápidas com esta posição e tornei-a quase numa regra científica : Abrir a coluna h, sac, sac...mate! “ Na partida com Muñoz não houve sac,sac...mate, mas sim “cf, cf...quase mate”, o que significa c file por parte das negras!


Portanto, Fischer perdeu, e numa luta gigante em que claramente um xadrezista amador e desconhecido o “limpou” do tabuleiro. Tentei encontrar respostas para o resultado neste artigo, mas falta colocar uma questão central, que raramente se faz , quando um grande jogador perde uma partida, com um jogador muito menos cotado: Afinal, que força tinha o jogo de Cesar Munoz. Seria o seu amadorismo, e inexperiência internacional , sinal de fraqueza de jogo prático a nível da concepção estratégica, ou visão táctica do Xadrez ? Claramente não. Recorrendo ao Chessmetrics de 2005 de Jeff Sonas, com tudo o que de falível e subjectivo que isso possa ter, Muñoz na altura do jogo com Fischer deveria ter uma força de jogo calculada num Elo de 2480, e pelo que conheço das poucas partidas deste jogador equatoriano, aponto exactamente para essa força de jogo, ou seja, Muñoz não era um jogador de Clube, de 1ª Categoria, da casa dos 2100-2200 e a partida com Fischer, principalmente a partir de determinada altura mostra claramente que sabia o que estava a fazer e que possuía belas capacidades de cálculo de variantes.


Como se referiu Cesar Muñoz Vicuña a esta partida, depois da sua bela vitória? Com esta simplicidade, apesar de se notar nas suas palavras alguma petulância –pudera-tinha vencido aquele que já na altura muitos prognosticavam como futuro Campeão do Mundo :

“Respecto a la partida con el Gran Maestro Bobby Fisher, Campeón de Estados Unidos, debo manifestar que se realizó en un plano eminentemente lógico, con gran tensión en las jugadas, ya que la posibilidad era sumamente complicada y con chances iguales. "El Niño Prodigio" cometió un error estratégico en la décima quinta jugada, error que lo aproveche de inmediato. Fui adquiriendo posición superior, materializándose, hasta que lo obligué a las 35 jugadas a una posición totalmente perdida. Así cayó el Campeón Americano."


Como veremos na análise que farei da partida num artigo posterior, o erro grave de Fischer não foi ao 15º mas ao 14ºlance, e sobretudo, a vantagem de Munõz materializou-se segura não ao lance que indica, mas com um erro grave de Fischer ao 18º lance.


Afinal que foi Cesar Muñoz Vicuña? Aqui uma "alegriazinha":a minha “bíblia” onde vou verificar todos os dados dos jogadores importantes das 64 casas, com milhares e milhares de entradas, tem uma falha! Não reconhece Cesar Muñoz, o jogador não existe! Finalmente uma falha nesta livro formidável ( só nomes, datas e títulos de cada xadrezista) de Jeremy Gaige “ Chess Personalia” , da McFarland.


Jogador equatoriano, nascido em 1929, Engenheiro Civil de profissão, teve uma carreira xadrezista relativamente curta , ou seja de 1951 a 1969, ano em que abandonou definitivamente o xadrez para se dedicar a outras actividades, nomeadamente Presidente da FEDENADOR-Federação Desportiva Nacional do Equador, e do Comité Olímpico Equatoriano, onde desenvolveu um trabalho excelente e reconhecido. Hoje, já falecido, é uma espécie de memória- figura de proa da nação equatoriana conhecido e amado pelo seu povo. Embora seja mais conhecido pelo seu papel no futebol, quando lembrado, bem sempre à baila a sua brilhante vitória sobre Fischer no campo do Xadrez.


Homem de pequena estatura, de carácter firme, algo arrogante , tinha uma fé enorme nas suas capacidades xadrezisticas, chegando numa entrevista depois da vitória sobre Fischer a afirmar que na época da Olimpíada de Leipzig, estava apto a defrontar qualquer grande jogador, até porque já tinha derrotado alguns ( não é verdade: tinha derrotado Larsen, Olafsson, e empatado com Lombardy, apenas!). Apesar de curta a sua carreira xadrezista teve momentos interessantes e as suas partidas demonstram que Muñoz era um forte jogador, que poderia ter ido mais além não fosse o seu amadorismo e a sua vida multifacetada. Vejamos a sua partida com Larsen sem comentários. Impressionante o ataque do equatoriano!

Larsen,Bent - Munoz,Cezar [A39] WchT U26 04th Reykjavik (2.1), 1957


1.Nf3 Nf6 2.c4 c5 3.g3 g6 4.Bg2 Nc6 5.0–0 Bg7 6.d4 cxd4 7.Nxd4 0–0 8.Nc3 a6 9.h3 d6 10.Be3 Bd7 11.c5 d5 12.Nb3 Qc7 13.Qc1 Rad8 14.Rd1 Bc8 15.Bf4 e5 16.Bg5 Ne7 17.Na4 Be6 18.Kh2 Rfe8 19.Nb6 Ne4 20.Bxe4 dxe4 21.Nd2 f6 22.Be3 f5 23.Bg5 h6 24.Bxe7 Rxe7 25.Qc2 Rf8 26.Nf1 f4 27.g4 e3 28.Rd6 e4 29.Qxe4 Bf7 30.Qd3 exf2 31.Nd7 f3 32.Ng3 fxe2 33.Nxf8 e1Q 34.Rd8 f1N+ 0–1

ao 26...f4


32...fxe2

f1=C+ e mate que se vai seguir



Algumas Gravuras de Cesar Muñoz











Não queria terminar este artigo sem o dedicar a um GM com que tive o prazer de jogar, de aprender uma lição de xadrez e sobretudo de uma humildade, simpatia e forma de estar no xadrez que muito me apraz registar: obviamente refiro-me ao GM FRANCO MATAMOROS do Equador. Aliás ele já escreveu umas linhas curtas sobre Cesar Muñoz. Se alguém o conseguir contactar, transmitam-lhe esta homenagem.
Obrigado.

(num próximo artigo a Partida Fischer- Muñoz, com comentários tirados de várias fontes)