Para
começar, a primeira farpa: Os Jogadores de Xadrez, principalmente em Portugal,
são de um desleixo, de uma "faltinha de gosto" impressionante! Não,
não estou a referir-me à roupa, aos tiques, às atitudes, estou-me sim a referir
a uma coisa muito simples, sem a qual não existe xadrez: O MATERIAL!!
Sabem uma coisa? Badminton,
Ténis-de-Mesa , Bilhar, Pesca Desportiva, Canoagem, Ténis, etc.etc.etc, Nunca
vi uma modalidade desportiva, onde os atletas, ou praticantes,
não se preocupassem com o material que usam!! Só no Xadrez!! Conversa
fiada! Não é! Jogador federado que fui durante anos de Ténis-de-Mesa no CDUP, e
Badminton no Águas Santas, posso testemunhar, o cuidado com as raquetes, os
volantes, as Varna ou as Joola, da
maioria dos jogadores! Sim, caros leitores! Aprendíamos à nossa custa que uma
raquete de alumínio, não era a mesma coisa que uma de Carbono ou Boro, que
determinado encordoamento e tensão na raquete, podia fazer
a diferença entre andar a "apanhar bonés", ou não ter ao fim de um
set toneladas nos braços!
No Ténis-de - Mesa era ver o
cuidado com as borrachas Sriver, Tackiness, ou com as madeiras e colas das borrachas. E os avanços
na cor das bolas, ou na cor das mesas, para melhorar as performances, segundo estudos
científicos? E os sujeitos do
Bilhar de competição, o cuidado, o amor que tem pelo taco, pelo estojo? Como se
poupa para arranjar um taco de madeira nobre,
etc, etc. E a variedade e
complexidade do material de Ténis?
E os
xadrezistas? Bem,
os Xadrezistas têm tão mau gosto, que até dizem que "empurram a madeira",
quando sabem que a maioria das vezes empurram o plástico! Não, nós devemos
ser os praticantes da única modalidade, em que vale tudo, jogar com tudo, empurrar tudo e, com a
alegre convicção que isso não interessa! Ainda nos recentes nacionais de Jovens
na Amadora, pega-se nos jovens e "pegai lá plástico", ainda por cima
péssimo plástico! Mesas e cadeiras do mesmo, tabuleiros de algo parecido, e não
querem jovens plastificados! É das maiores indignidades que conheço, hoje em
pleno século XXI, um Campeonato Nacional , seja de que
escalão for, ser jogado com as miseráveis, anãs e mal feitas chamadas " peças
da Federação ". Não dá bom nome à Federação, nem felicidade ao jogador que
as tem de manusear!
Claro
que toda a minha vida Xadrezística de competição foi realizada com as tais
peças referidas, que se não estou enganado já tiveram três versões! Será aquilo
a que chamo " burrice ao cubo " ! Mas não, nós jogadores
habituamo-nos a elas, quase que sentimos falta delas, quase sentimos raiva se não as vemos "
tortinhas" "sujinhas", " amarelinhas " se possível
em cima de tabuleiros ainda mais sujos de verde derrota em vez de verde
esperança! Certa vez, num defunto Fórum dirigindo-me aos jovens, descrevi as condições de jogo que muitas vezes
fui obrigado a suportar. Querem rever o que escrevi? Aí vai!
"
Vamos às peças e tabuleiros! As vossas mesas e cadeiras são cadeirões e mesas
do palácio real de Sintra! Comparado às condições de jogo que tenho encontrado
ao longo dos meus trinta anos de xadrez, a vossa situação...Um Luxo!
Provas? Olhem lá "terna chavalada", já joguei em tabuleiros engraçadíssimos ...eram de platex ( contraplacado) da
Direcção Geral dos Desportos e sabem o que acontecia? Não querem saber? Pronto
então eu conto! Os
tabuleiros com a humidade ficavam ovais e acontecia uma coisa extraordinária,
bastava tocar e jogar uma peça e o tabuleiro "dançava" e se o lance
era feito de forma mais apressada, o tabuleiro rodava, ou seja, o
"gajo" que estava de brancas passava subitamente a jogar de negras!!
Pensem
bem, numa época em que não
havia Fritz, ou Chess Base, ou Rebel, nem sequer computadores de xadrez,
tínhamos o hoje moderno FLIP BOARD, dos programas de xadrez!
Sabem
que já joguei em tabuleiros atuais verdes e brancos de vinil, em que a sujidade,
as marcas do verde tinto, do café e bagaço, era tanta, tanta, tanta...que Oh
fenómeno da natureza, os quadrados eram "verdes-porco" e
"branco-ordinariamente sujo"! E
sabem que os tabuleiros do meu próprio clube durante anos, o glorioso F.C.Porto
eram azuis mas feios? Mas
que cheguei a jogar com peças vermelhas e tabuleiros vermelhos?
E que jogos
houve, ao longo da minha vida de xadrez, que para surpresa minha a diferença
entre REI e DAMA era quase nenhuma, porque a cruz do rei tinha desaparecido, e
a coroa da dama estava tão gasta, que para distinguir as peças
só havia uma solução " espreitar por debaixo da cuequinha da dama"?
E cavalos desdentados,
esventrados, desorelhados, desafocinhados, coxos, etc, etc? E torres, tão sem
ameias, que pareciam sanitas públicas? E peças com defeito em que o
plástico estava tão torto, tão torto, deformado, que a peça
pendia para um dos lados, o que me obrigava a atacar no flanco, para onde o
plástico estivesse virado? E "peões cabrões" uns ou dois centímetros
mais pequenos do que outros, e que se perdiam escondidos no meio das peças! Se
calhar eram os peões para dar de gambito! Às vezes dava-os de borla, só
para não ver os
"raquíticos", que para "caga-tacos", basto eu Arlindo
Vieira!
E
sabem que joguei em bares, com mesas daquelas do "tipo" bar do Cais
do Sodré?, mesas redondas de 50 cm de alturas com bancos tipo "puf",
próprios para o engate, mas...porra, eram gajos os meus adversários!
E
mesas em que não havia espaço para colocar os cotovelos, o
que me obrigava a pôr as mãos no
" Abono de família ", vulgo órgãos sexuais, e a escrever os lances na
folha
de partida, junta a uma tabuinha nos joelhos! Imaginam os apuros de tempo? E se
eu me enganava com a caneta? Olhem poderia não ter mais crianças, o que significava,
dar cabo do tal abono de família!
Mas
há mais! Joguei xadrez não em mesas, mas em tábuas de madeira de todas as
qualidades e feitios! Sou um especialista de carpintaria, devido ao xadrez,
juro!!! Joguei em tábuas tão grossas que se no final da partida desse um murro
na mesa depois de uma derrota, lá iria a mão para o "caraças", mas também em tábuas
tão finas, que um pequeno toque de um joelho
fazia as peças e tabuleiro
elevar-se qual "Space Shutlle" na atmosfera?
E
salas com jogos de bilhar snooker ou livre a decorrer, durante os jogos?
E salas
tão velhas, tão degradadas, que se via o andar de baixo pelos buracos no
soalho? E salas em que chovia lá dentro? E salas "alpinistas" em que
se tinham de subir para aí 200 escadas? E jogar em cozinhas?
E
jogar em condições "esquimóticas" em que o simples levantar a peça
levava ao congelamento imediato da mãozinha que o
fazia? E salas de sauna, em que a falta de ar, a transpiração era tanta, que até
as peças suavam? "
Foi
isto que escrevi! Hoje, continuo a dizer que pouco mudou! A FIDE tem recomendações para a utilização
das peças de xadrez e tabuleiros, aconselhando
As peças Staunton nº 5 ou 6 e tabuleiros de 5, 5 de quadrado! Continuamos com as peças pseudo-Stauton 4 feias,
minúsculas, sem graça, "pau para toda a colher" e que até Clubes de
xadrez prestigiados como o meu G.X.Porto se converteu, vai para anos! É uma
luta que tenho perdido! No meu saudoso F.C.Porto, tínhamos os tais tabuleiros
azuis e cinzentos, mas recebíamos em nossa casa, as equipas com as
nossas peças Staunton espanholas de madeira,!
Estas
peças de plástico, principalmente as primeiras, tenho uma vaga ideia como
apareceram, agora o que é incompreensível e continua a sê-lo, é o molde
miserável em que estas peças foram e são moldadas! Já nos finais dos anos 70 a
Majora tinha modelos de peças lindíssimas, de madeira-modelo alemão, ( tenho
um! ) e plásticas , modelo inglês, ( também tenho ) igualzinho aquele com que
se fez a massificação do xadrez nos anos 70 e 80 nas Ilhas Britânicas, peças
grandes, quase um Stauton 6 .
Mas
não , depois de uma primeiras peças anémicas, esguias, com peões raquíticos,
surge uma 2ª versão, sempre pequenina, enfezada, com peças amareladas com
cavalos desconfiados quase a relinchar de medo, depois uma 3ª versão em que as
peças estavam melhor alimentadas, o Cavalo tinha melhor cara, e a um bispo
esquelético das primeiras, sucedeu, um bispo, gorducho, bem encarapuçado! Agora existe uma 4ª versão, novamente anã, das peças plásticas em Portugal, esta
"políticamente correcta" do estilo " não comprometer", nem
são como as primeiras, nem como as segundas, são digamos "intermédio da
tal ponte de tédio" que sinto a olhar para elas! Então os cavalos
senhores, têm um focinho baixo, envergonhado, quase que a assumirem a sua
inferioridade em relação ao par de bispos! Feias! Feias! Feias a valer! Quem
compra disto, devia ir para " a plastificação que o plastificou" !
E
depois, que tem isso a ver? Isso interessa alguma coisa? Ouçam lá ! Vocês julgam que um Grande Mestre,
ou mesmo um MI, jogam com uma "merdaça" destas num torneio
Internacional? Provem-me! Mostrem-me revistas, imagens onde: A- GM joguem com
plástico B- Torneios
Internacionais onde se jogue com peças Staunton 4.
Uma
história verdadeira: Vai para anos num Zonal no Algarve, onde estavam vários
Gm da ex-Jugoslávia como o Ljubojevic, o Ivkov, o Velimirovic, entre outros,
estes recusaram-se terminantemente a jogar com as peças plásticas da Federação,
e o Ljubojevic, segundo parece, até quis atirar com um
tabuleiro e peças pela janela fora! Nesse Torneio a Federação teve de se
desunhar e ir a Espanha comprar umas peças de plástico a imitar madeira, mas um
Staunton enorme e bonito tamanho 6 ! Hoje nos nacionais e em torneios
internacionais a Federação já vai apresentando tabuleiros e peças modelo
espanhol.
E já
agora uma pergunta: Com que material recebem nas vossas Salas as equipas
adversárias? Certamente com plástico? Não acham que é tempo de receber os
adversários com umas belas peças e tabuleiros de madeira? Estou louco? São caríssimas!
Resposta: É MENTIRA! Sabem o que me apetecia escrever aqui - e vou escrever :
" diz-me que peças de xadrez tens na tua sala, dir-te-ei que Clube és!
" !
Algum
dia posso conceber ou imaginar, um Clube como o G.X.Alekhine, ou Um Ateneu
Comercial de Lisboa, ou o meu G.X.Porto com peças da Federação em cima das
mesas?
Não
me venham falar de progresso, na inevitabilidade das coisas! Jogar num bom
tabuleiro de madeira com peças de madeira, não é a mesma coisa do que jogar
naquela "mixórdia" das peças plásticas e tabuleiros plásticos! Quando estiverem num torneio, façam a
experiência: sentem-se em frente de dois destes tabuleiros e digam-me que é a
mesma coisa: não é!
Abaixo
o plástico xadrezistico. Pela dignidade da madeira e do "empurrar madeira"!