XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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23/11/14

ANTÓNIO TORCATO




António, talvez agora seja o tempo. Porquê? Não sei. Talvez porque vou sabendo aceitar a visitação silenciosa da ternura. Instala-se. Nada diz. Acabo por a perceber perfeitamente...

Ou por outra razão difícil de explicar, uma espécie de rumor interior de beleza comovida que regressa sempre ao lugar de partida de um momento, de momentos, das coisas guardadas no lado bom do coração que não sei bem onde fica.

Ou talvez nem seja nada disto e esteja a ficar "parvolírico" típico da velhice, dos mimos da velhice, com todos os vícios inerentes a esse inevitável pé ante pé ir no suave declive. Mas é meu, silencioso das coisas e pessoas pegadas para sempre em mim. Tem lá paciência António.

Assim António Torcato, uma homenagem e um torneio de xadrez, numa espécie de dois em um te querem fazer, te queremos fazer no CPN que foi sempre o teu.

Pronto, conheço-te António! Aí onde estás, junto de Caíssa, vejo o tua gargalhada tão típica e o teu não menos conhecido gesto de simples mão aberta alisares para trás o cabelo de risca ao meio  , estupefacto com a novidade. Sei o que pensas:
Um torneio de xadrez com aquela malta já entradote, uns já "urinaparaochão", outros trelharoucos a colocar volante ao lada da Torre e a insistir para jogar com a "Torrante", outros a pedir encarecidamente "onde está a rede, a rede - sem rede não jogo!", outros, pior ainda, a entrar no salão do CPN e a perguntar se é ali o tal campeonato de sueca, ou bisca lambida. António, estou com medo, juro-te! Medo, acredita, porque nem eu sei bem onde me enquadrar neste nova coleção dos velhos cromos Victória.

E tu a rires, eu sei! Sinto o teu riso aberto a bandeiras despregadas, estilo Gambito de Rei. E todavia, sei que vou ver-te, que vais andar por lá, vestido com o teu celebérrimo casaco de couro castanho, a alindar de mão aberta o teu cabelo de risca ao meio, a pesquisar as asneiras, o assassínio às espanholas, à escocesa, berlinesa, à italiana, nós que te perdemos num gambito, nós a quem nos ficou sempre o sabor amargo de faltar sempre mais um bocadinho no xadrez e na vida depois de te apaixonares por essa deusa desgraçada que te quis perto dela. Vais andar por ali, de mesa em mesa, de respiração em respiração, de mão em mão nestes teus amigos e pobres empurradores de plástico em tabuleiro encardido. 


E vejo-te. Como te rias a fundo perdido do meu medo automóvel, como te escangalhavas às gargalhadas com a minha reprovação pelo facto de trataram jovem mancebo-nubento a casamento com o jogo, abaixo de "peskito" recém chegado de fresco ao CPN. Assim, o peixinho chegado do mercado, era metido no aquário envidraçado da sala de xadrez, era escamadinho que nem peixeira do Bolhão com mates estilo Bc2-Dd3 mate em h7, ou Torre g3, Dd4 para mate em g7, mas muitas vezes com olhar disfarçado de franciscano-descalço para o lado contrário ao do mate, ou seja, a ala de Dama. Claro que o Júlio Rei do Mambo, era Grande Mestre neste arte, embora tu António, chegasses a Mestre Internacional. E rias, rias muito do teu dichote, perante a minha indignação e certeza que o "peskito" não mais nadaria naquele aquário, havendo até o perigo de se dedicar à caça! "Arlindo, é fo...agora, que daqui a uns meses estão ele a fo...nos!", e rias com aquele belo sorriso rouco tão à António Torcato.


Tive sempre enorme respeito xadrezistico por Ti, António, por isso, mete lá uma cunha a Caíssa para mim daqui a uns bons e longos anos. Jogamos várias vezes oficialmente, ganhei-te uma vez porque te distraíste e a sessão de cinema não podia esperar, empatamos muitas, mas tiveste sempre no tabuleiro aquilo que sempre apreciei num jogador de xadrez – ser amador de xadrez: amar o xadrez para além da competição no xadrez.


Nunca quiseste a mestria no xadrez, porque o teu lema era o Xadrez Sem Mestre. Acho que leste o Xadrez Básico do Agostini (malta do CPN...não, não é o do Planeta do mesmo), alguns Pachman, um ou outro "Escaques" e pronto. Literatura esquística a mais e suficiente para chegares a uma categoria que tendo-a não precisavas de a ter, até porque nunca te vi muito preocupado com os tais números que parecem medida de "gaja”", e que tem o nome de Elo. Podia chamar-se outra coisa, como "liga", "espartilho", ou sei lá! Já reparaste António qualquer coisa como Arlindo Vieira 1950 "espartilhado", António Torcato 1900 "ligado"?! Podia ser Vicks Vapourub, mas é Elo, Arpard do mesmo, Arpard Elo, quase nome de loção de barbear ou xarope para a tosse o que ficou e o que pretende medir a potência de um maduro no tabuleiro e que põe ufano e contente muito xadrezista que quer subir "Piço...elo".

Talvez fosse por isso que adorávamos o Badminton onde não há "Picelo" mas Categorias! Dá mais griffe à coisa, distinção sem paralelo. Assim, fomos reis em Terceiras categorias: Eu, o Matias, Tu e o Júlio Rei do Mambo-meu irmão. Mas António, o que queríamos? "Homens a empurrar uma peninha para cá e para lá" como dizia o meu querido pai com certo desdém, um desporto entre o "maricas e o mata-moscas" só Categorias para enobrecer a coisa, embora o topo da modalidade fosse "Honras" para desonrar as categorias!

Assim o xadrez uma das tuas paixões...ou não! Talvez fosse mais pelos amigos, pelos dichotes, as piadas durante as partidas, por um xadrez que no CPN se jurava não ter sido inventado por mudos, nem no oriente, nem em lado nenhum, mas ali, naquele aquário ao som cavo das bolhas de bilhar, discussões quase de pera afocinhada, cheiro de bifana "siciliana" , cachorro à "benoni" , cerveja à  l' échiquier, ou brandy "caro-kan", versão cara ou coroa, sempre tudo com entra e sai, com "caralhadas" que não sendo assadas, eram medianamente cozidas, e tudo sempre atapetado por uma enorme amizade, um forte sentido de camaradagem, que nem o nojo da politiquice, ou o submundo futebolístico estragava.


Isso era Xadrez, e do bom , carago! Daquele que se gosta, do estilo: bifana do lado de Rei e mate a seguir! Assim António, impregnado daqueles sons, daqueles cheiros, daquelas "tangas" vocabulares e sobretudo da tua gargalhada franca, cortês, mas ao mesmo tempo cortante quando necessário. Nunca fui muito de participação, porque nunca cepenista do fundo d'alma, já que o meu lado de xadrez andou sempre pelo FCP e GXP, mas gostava de sociologicamente de vos observar, de te observar António. Aqui e ali, servindo-te dos teus superiores conhecimentos teóricos lá abifanavas um "GM chesscromo" com ganho de peça, lá davas um mate que mais do que pastor, era rebanho e tudo, mas por vezes lá perdias e nunca esquecerei aquele teu gesto tão típico de "braços abertas e punhos cerrados" em tremelique à António Torcato Teixeira, quando perdias uma peça, ou mostravas o teu desalento pela perda da partida. Apesar de teres uma filosofia própria sobre o xadrez, não gostavas de perder nem a feijões, corrijo, peões! 

Alguns dos matches com o Julinho Rei do Mambo eram extraordinários, ficaram célebres nos anais da modalidade, só superados pelos imorredoiros encontros nos grandes "open" da modalidade de Badmínton entre o Diomar e o Joãozinho, esses sim na história do desporto português - tanto pavilhão depenado!


Mas António, a memória galopa-me em vagas azuis quando te penso. Existiu outro António para mim que sendo o mesmo era um outro. Nem sei se fui teu amigo, ou alguma vez me consideraste como tal, nem me importa mesmo nada, já que os amigos não se dizem, estão onde são, mas ainda hoje acho que nunca partiste porque quem está permanece, oblíquo, vertical, gravado a ferro e fogo da ternura está. 


Percebi a importância para mim de um outro António para além do xadrez, numa noite em que te vi, aprumado, dignatário sim , mas já muito debilitado, no Centro Comercial Brasília. Saudamo-nos com as respetivas e tive de fugir apressado para um banco do Jardim da Boavista, onde não pude conter a represalágrimas de uma tristeza infinda que sabia ir perder um amigo que pelo nível intelectual, cultural e humano tanto me tinha marcado desde o fim da minha adolescência.


Mas foi assim, António. Lutador infindo de primeira vaga, não resististe à segunda. Um dia resolveste frágil gota já, ir embora. E foste de mistério que ainda não compreendo.

Será que te promoveste para além da casa 8 no Reino do nunca mais atraído pela belíssima deusa Caíssa ?

Será que num serviço longo, ele foi tão, tão longo que foste com volante e tudo até te esqueceres que o jogo terminava aos 21?

Não sei António. Sei que nunca mais fui o mesmo. O que contigo aprendi, o que te devo está, estará sempre guardado, ou não seja eu colecionador de xadrez e de alguns afetos.

Nunca mais o esquecimento do ouvir-te sobre o Marxismo, ou sobre o Fellini do Navio, que eu não gostava e que adoravas à força de me tentar convencer da minha azelhice, ou sobre o Cinema Novo francês, ou sobre um romance que andavas a ler. 

Sempre argumentativo, sempre convincente, mas nunca do estilo "Sartana Perdoa, eu Não", ou de "sacar primeiro", era preciso dar-te, corda "guita" como se diz no Porto, e então lá desenvolvias a tua entusiasta opinião que sem tentar convencer, convencia. Numa conversa tinhas um estilo curioso de "retranca-ofensiva" que muito me encantava. Penso que nunca te convenci do meu adorado Bach, mas tu lá me foste convencendo de alguma modernidade de Bartok e afins.


Numa das últimas visitas que te fiz, o encantamento com os enormes posters que tinhas trazido de viagem, sobre a pintura de Mark Rothko, mas também me falaste de Malevich, como foste pressuroso como menino encantado com descoberta, buscar a caixa de Vinis desse nosso gosto comum: Sandy Denny. 

E podia continuar, mas para quê? Da tua geração e do meu conhecimento de muita "malta" ermesindense, foste António o individuo que mais alto cotei intelecto e culturalmente. Aprendi imenso contigo e abriste algumas portas que por outros interesses e paixões estavam entreabertas à minha formação.


Olha António, eu gostava, gosto daquela malta do CPN, mas convenhamos que alguns ficavam muito bem colados numa caderneta de rebuçados estilo Vitória: claro que haveria o bacalhau, a cobaia, o cabrito, mas também ao raposa, o papagaio etc, etc, e porque não,  o burro – eu, mas sabes uma coisa? Nunca te consegui arranjar lugar de cromo nessa tal caderneta! Não sei, talvez porque achei sempre em ti uma categoria intelectual, um charme qualquer de inteligência, uma capacidade perceção ambiente que escapava a muitos de nós.


Assim António, como sussurro, como aragem de pensamento de fim de tarde, guardo-te invisível na palma da minha mão. Conheces a expressão certamente:"Foste um Senhor, carago!". Ou talvez não! Nem senhor, nem doutor, nem nada. Simplesmente o António Torcato Teixeira que vejo ao longe de mão só a ajeitar o cabelo para trás, nesse sorriso franco, gargalhado de uma meninice que de ti nunca se despojou.


Mas não...Caissa que já tinha no seu reino tanto Grande Mestre, tanto titulado, tanto génio do tabuleiro, invejosa, carente, tinha logo que nos levar um dos melhores tabuleiros da Amizade?!


António, nem precisas de convite, porque é em Ti, por Ti que lá estaremos naquele salão do teu sempre querido CPN. Aparece, sei que vais aparecer! No repasto nocturno, sei que vais aparecer novamente e guardar-te-emos um lugar especial! Consegues, claro que consegues espalhar-te na ternura quarenta, cinquenta e sessentona de dezenas de corações de amigos que te guardam tesouro precioso para sempre.

António, até sábado.



07/11/14

VASCO SANTOS ... Só para não esquecer





Em 2006, num comentário no blogue do Alverca aquando da sua morte, escrevi a respeito de uma polémica ( Xadrez Livre)  na Stadium entre o Vasco Santos e o Costa Moreira 

"Vasco Santos num número posterior de 10 de Dezembro de 1950, dá a sua própria opinião sobre o Xadrez Aleatório, no seu estilo fluente, bonito, escorreito mas profundamente elucidativo. Vasco Santos era um grande escritor de xadrez! Um colunista brilhante, talvez dos melhores, senão o melhor que passou pelo xadrez português! Já agora…para quando uma merecida homenagem ao Vasco Santos? Para quando este miserável país passa a não esquecer aqueles que lhe deram algo? Para quando nós, xadrezistas, que deveríamos ter memória bem estruturada, só a temos para variantes, posições, e não para o xadrez sentido dos afectos, do não esquecimento? No Xadrez, como noutras actividades, gostamos imenso de mandar as pessoas para os “lares de 3ª idade do nosso esquecimento”, como se o jogo que amamos, não o seja pelo que outros no passado lhe dedicaram!" - Arlindo Vieira

Reafirmo hoje o mesmo! 


Só um país peão sem alma, só uma comunidade xadrezista entre o parolo, o pacóvio, e sobretudo ingrata e mal agradecida é que permite que um nome como o de Vasco C. Santos esteja num limbo ignóbil. Pronto,  já sei,   foi organizado um torneio em sua memória vai para anos e uma sessão solene…querem um biscoito?! Acham que isso honra alguém como o Vasco Santos?
O António Pereira dos Santos dedicou-lhe umas belas palavras, mais aqui e ali umas lembranças aquando do seu falecimento e a partir daí o esquecimento.
Não, o que era preciso é que qualquer jovem mancebo se aventurasse a recolher tudo (e foi tanto, tanto! a Bola, Record, Mundo Desportivo, Flama, o Diário de Notícias, Jaque etc. etc. ; ) o que este Grande Homem do Xadrez escreveu sobre xadrez em jornais e  revistas  de xadrez ou não xadrez.
Eu dou uma ajudinha ( Flama  Ano VI nº 62 de 13 de Maio de 1949) se não se importam neste meu humilde blogue. Já agora, se me puderem identificar a foto do artigo agradeço encarecidamente ( É o Vasco Santos? Se o é, porque razão ninguém colocou esta foto online?). Se o for, finalmente uma belissima foto de Vasco Santos.
Ah! Não esqueçam: right click and save!




Caro Mestre Vasco Santos, vi-o duas vezes, mas nunca lhe falei. Sei hoje o que perdi de cultura e nível de xadrez. Valeu-me o que foi deixando escrito, e foi muito, de amor-paixão ao xadrez . Alimentou este feitiço  embevecido de Caissa que não me larga. Grato eternamente.


28/08/13

Requiem por um Xadrez







Desaprender, voltar ao núcleo fundamental do fascínio.

Ao inocente olhar primeiro
da selvagem imaginação,
ao mistério a desvendar,

Àqueles brancos quadrados, voz do silêncio
aos  negros quadrados, voz do assombro

sonho impossível de regresso
à casa primeira de olhar embevecido, atónito
de incompreendidos e geométricos movimentos
bailados no silêncio e assombro da mesa do xadrez. 

Impossível sonho agora
morto pela evidência, pela determinação, pelo saber
pela cegueira da lucidez.

No branco tempo dos relógios
perdido o arco vazio do segredo
do inominado, da ignorância celeste
que é a inocência

Caíssa tatuou-me  nas mãos cerradas portas,
difícil abrir janelas para o vazio.
Procura desesperada e perpendicular
da luz antiquíssima dos meus olhos
de ver claro.

Desaprender o Xadrez, desamar o Xadrez
nesse vazio que ficou... porque alguma coisa estava lá,
para o reamar de novo, reaprender a ver,

Neste mar cavalo branco de fim de tarde
em que o dia reclamando outro 
veste a sua nudez.

Arlindo Vieira






18/10/10

Ah! Ah! SURPRESA...Plácido passa o Tempo

Do que eu me lembro!!?

E com enorme ternura. Já tinha vai para anos colocado na Luso Xadrez. Agora com mais um ou outro personagem "novinho" do Xadrez Português. Algumas fotos são raras, e se calhar nem os próprios as possuem, vejam lá! Assim "aprovetem" este momento histórico. Lá está: pelas peças em alguns tabuleiros era capaz de adivinhar o local...mas não digo!


Claro que não ofereço livro de xadrez, porque alguns Luso-xadrezistas conhecem a maioria das fotos e, como já várias vezes afirmei, nunca se sabe se para além de variantes conseguem puxar pela memória visual e temporal-afectiva ( que na malta do xadrez e em relação ao xadrez, não é famosa, deixem que vos diga!).
Assim, "amandem-se" para a identificação! Desta vez "Dicas" só no Lidl, passe a publicidade! Ah! Tudo baralhadinho nas épocas, para vos tornar mais fácil o trabalho! Quem é amigo, quem é?!


Acreditem, alguns são um "berbigacho" para descobrir o quem é quem!
(o número está na foto-se quiserem cliquem na foto para aumentar)

Divirtam-se e um abraço especial para Todos que aqui vêm beber um pouco a alma nostálgica do xadrez, que também assim se faz e ganha sentido.
















10/08/10

FIGUEIRA DA FOZ...NACIONAL DE JUNIORES 1975 II




Sim…o teu olhar na foto, para além do tabuleiro que pareces observar. Foste sempre assim, serás sempre assim. Explicado uns tanto por cento porque nunca foste bom jogador de xadrez. O teu vício, a sobreposição do teu eu, o vogar dos teus pensamentos, à vontade de te queres concentrar no jogo, num jogo. A tua imaginação sorrateira, matreira e mansa, a passear por rostos, sons, mundos tão teus. A posição nas 64 casas, complexa e, a tua cabeça nos mergulhos de menino no Douro-Areínho, ou no Douro-Ribeira! A posição a pedir estratégia, completamente ultrapassada pelo último sorriso da Matilde, ou a última tirada da Elisa, o labirinto das variantes e sub variantes, com a Teresa a interpor-se no seu abraço, o final a pedir experiência e o problema pessoal e terrível de aluno a aflorar ao pensamento. Porquê? Nunca o soubeste explicar, nunca o quiseste explicar. Aconteceu desde o embruxamento do xadrez. Foste sempre da equipa da evasão do pensamento, da emoção, da concentração interior de ti, longe dos outros, mesmo estando presentes. Nunca umas peças de plástico ou madeira tiveram autorização de interromper o natural curso do teu fluir interior. A ginástica mental, o exercício de um pensar abstracto, geométrico, inteligente, nunca te interessou muito, ou pelo menos, nunca conseguiu vencer a poderosa força dos afectos, das emoções. Talvez nunca amasses o xadrez! Em última instância, o xadrez e o seu mundo de imersão complexa nas 64 casas, talvez fossem, uma fuga inconsciente ao eu sério de ti. Um jogo, um simples jogo divertido de menino. Agora talvez saibas, porque dedicando-lhe tão pouco, se te colou como uma praga! Conseguiste esse distanciamento tão perfeito, tão necessário, para o apreciares naquilo que será uma das suas essências: a estética, a cultura de jogo, de um extraordinário e belo jogo. Muitos tentam, procuram…poucos conseguem lá chegar! Muito poucos conseguem esse olhar interior e cultural que lhes permite qual raio-X, ver para além dos quadrados de um tabuleiro e do movimento mais ou menos coordenado de umas peças.


Agosto, Figueira da Foz, 1975. Eras novo de 18 anos e preparavas-te para ser o que ainda não sabias o que verdadeiramente querias ser. Procuravas-te com a avidez, com a perplexidade, de quem sai do certo de uma idade, de um período, para entrar no incerto de uma vida adulta. Nesse mês de Agosto, um capítulo diferente na tua história: o conhecimento de gente do xadrez, o convívio salutar e amigo de adolescentes que partilhavam o mesmo sonho, a mesma paixão por este jogo. Não te desiludiste. Foi bom.


Época conturbada fora e dentro de ti. O Verão politicamente quente de 75, o fim do Liceu, o teu navegar partidário na tua incipiente politização, do PUP, ao PPM, passando pelas RGA, pelas bandeiras azuis ou vermelhas, para acabar num… nunca mais até hoje de filiação partidária. Oxigenavas e saturavas as feridas de um amor não correspondido, começavas a descobrir o valor da solidão procurada e a beleza poética pequenas coisas. A música e os livros, começaram esse diálogo essencial, de instalação para sempre, na casa da tua vida. A entrada na Faculdade iria esperar, pelos tempos conturbados a viver, e, um ano de Serviço Cívico no IARN e como monitor de xadrez da DGD, esperavam-te.


Era Agosto nessa bela Figueira de 1975. E nós, dezenas e dezenas de jovens nela, por uma paixão comum: o xadrez. No Seminário, por hospedagem, grande parte de nós, porque uns poucos, por ambição, ou falta de vontade para a confusão, em pensão particular, ou em casa de amigos. no seminário, onde também matinalmente se realizaram alguns reatamentos de partidas adiadas. No seminário, de refeitório amplo, de quartos - celas curiosas. Um salão grande com camas baixas, onde alguns tiveram o privilégio de ficar, outros, coube-lhes em sorte um outro salão verdadeiramente extraordinário, com quartos individuais, mas que o não eram, separados que estavam apenas e só por uma rede cúbica que os dividia. Com porta e tudo, cada quarto, mas sem paredes, ou tectos, ou janelas - unicamente uma rede de arame de malha estreita em cubo que permitia toda a visão de e para….


Os seminaristas e as…tentações! É que Deus é omnipresente, mas o Diabo poderia tecê-las, e vá de travar os intentos do demo, com uma visão mesmo quadriculada, por parte de destro, pio e atento vigilante nocturno dos seminaristas. Que na altura, não deveriam existir no seminário, ou por férias, ou falta de vocações, porque aquela “pensão” estava por nossa conta! Aquelas extraordinárias redes de arame, por onde manhã cedo, no pseudo tecto, eram depositadas toalhas encharcadas, que pingue que pingue, iam molhando o incauto dorminhoco, até que estremunhado, entre um “filho da p…”, um “fod….”, “put…que vos pariu”, berrava que nem louco, nada satisfeito com o “baptismo” seminarista que lhes tínhamos preparado! Havia os espertos que afastavam a cama do alvo central, mas de nada lhes valia, pois a barrela ainda era pior, pelo encharcamento lateral, autênticos tiros ás redes, estilo “água-vai” nas “fuças” do angelical dorminhoco, sonhado protegido. Estive sempre do lado dos “encharcadores”, porque o meu dormitório, era no outro salão, todavia nunca pude cantar vitória, pois a vingança era servida fria, madrugada dentro, com “berros aos ouvidos” e autênticos “martelos” de almofadas, dos “encharcados” da manhã anterior! Dois gangs, perfeitos, definidos: os “encharcadores matinais” e os “travesseiros nocturnos”! Lembro-me como se fosse hoje, daquele riso muito particular e matreiro do João Sequeira, depois de me ter ensurdecido e almofadado as “trombas” pelas três ou quatro da madrugada, como vingança da encharcadela dessa manhã. Ao pequeno-almoço, aqueles que coragem tinham de se levantar, pazes feitas pela fome, ou pelo sono de noite mal dormida.

Ao Jantar, ânimos mais acelerados, pelo extravasar das emoções vividas nos tabuleiros do Casino Peninsular. Aqui e ali a “pêra” de mão portuense levantada a ameaçar, a “cabeçada” a quereres levar, o costumeiro “ vai pró cara…” e uma ou outra voz mais sensata a apelar à calma, ao bom senso, ou a interpor-se entre os beligerantes e tudo conforme as regras da sobremesa. Pela noite dentro, os noctívagos saíam para as miúdas, o casino, ou o cafés. Os “Xadrezistas-seminaristas” ficavam para as cartas, as rápidas, o “dolce-fare-niente”, ou a preparação da partida do dia seguinte. Eras um deles.


Mas estudar o quê? Dois livros apenas e, um deles surripiado por empréstimo ao meu F.C.Porto, no meu saco-mala portuense: “La Defensa Paulsen” de Pedro Cherta, da Escaques e El Gambito de la Dama” do Ludek Pachman. Descobri então, numa noite o que eram livros de Xadrez, daqueles bons e a sério! A minha educação livesca no xadrez, nunca tinha ido além do Xadrez Básico, dos volumes de aberturas do Pachman, já então ultrapassados, da Paulsen do Cherta, das Defensas Índias do Euwe e de uma ou outra revista Europe Échecs, ou a Jaque do Jose Luís Gonzalez, nada mais! Sabia que no Porto, o Sílvio Santos nos levava à perna com alguns Informadores, ou com ou outro volume alemão do Schwarz, agora que existiam livros com a qualidade, com a beleza dos que vi nessa noite no Seminário na Figueira da Foz, não o suspeitava.


Que os irmãos Sequeira, traziam uma mala pesada, cheia de livros, notava-se, agora que me deixassem folhear alguns, que me deixassem maravilhar com outros, foi um privilégio. Ao contrário de muitos xadrezistas que mais tarde vim a conhecer, para quem o segredo, a novidade, era “a alma do negócio”, e como tal se recusavam a mostrar livros, revistas, os Sequeira não me recusarem mostrar essas preciosidades, que o eram na altura e o ainda são agora para qualquer bibliófilo de xadrez. Nunca o souberam, mas o seu gesto nesse Agosto de 75 foi o propulsor do meu gosto pelos livros de xadrez, pelo coleccionismo de livros de xadrez. Que grandes livros, na altura! Esses livros fabulosos da R-H-M Press, dos primeiros e belíssimos cartonados volumes da Batsford britânica, dos Informadores Yugoslavos. Tinham uma apresentação gráfica, uma clareza de ideias, uma disposição da teoria, com que ainda hoje, as Everyman, ou Gambit, deveriam aprender. Passei três ou quatro noites a folhear os livros da autoria do David Levy, do W.Harston, do R.Wade, do Blackstock The Sicilian Dragon, The Grunfeld Defense, The Pelikan Defense (com análises de Svesnikov e Timoschenko), The Sacrifice In the Sicilian, The King’s Indian, etc. Não faltava na mala livresca do Sequeira, os que na altura me pareceram maravilhosos livros do Reuben Fine “ Basic Chess Endings” , “The ideas behind the chess openings “ “ The Middle Game In Chess”, além de diversos Informadores. Como não ser candidato ao título o João Sequeira, ele que até já tinha participado em Europeu e Mundial de jovens, ele que até livros húngaros tinha?



Percebi à altura, a distância espantosa entre a preparação teórica, a capacidade de estudo, o “apetrechamento” de muitos jogadores de Lisboa em relação aos do Porto. O equilíbrio começou a estabelecer-se, quando ou através do Durão, ou através de Férias, a “malta” do Porto conseguia a mesma bagagem teórica através dos livros, Informadores e mais tarde das Enciclopédias! Eu não! Ainda corria até Vigo, não para os caramelos, mas para o Corte Inglês, onde se vendiam os bons e relativamente baratos livros da Martinez Roca, Colecção Escaques!


Foi boa essa semana xadrezística na Figueira. Xadrez, convívio, risos! Éramos jovens e sorriamos. Tornamos aquele seminário menos austero, levamos talvez os últimos ecos de vida e juventude àquelas paredes. O xadrez, o xadrez como pano de fundo. O nacional, mas também as simultâneas do Meste Júlio Santos e o Recorde Ibérico do Álvaro Pereira em simultânea às cegas-26 tabuleiros. Estive lá, fui lá ! Conto? Um pouco de vergonha que guardo todos estes anos! Nem o Álvaro Pereira saberá! Aqui perto de mim a partida que ganhei ao Álvaro. Fui ao Casino, para assistir à simultânea. Os Juniores a disputar o Campeonato estavam “proibidos” de jogar, ou pelo menos, foram convidados por questão de ética, a não jogarem. Não sei como, mas perante a falta de jogadores, dei por mim sentado num dos tabuleiros da simultânea, talvez por fascínio, talvez porque o xadrez, o jogar xadrez, estava na ordem das minhas prioridades, depois de ter perdido nessa tarde. Alguém, penso o Meste Júlio Santos, me chamou a atenção para o facto de ser um Júnior “jeitoso” e não ser bonito ir defrontar o Álvaro numa simultânea daquele estilo, mas perante, a inexistência de outro voluntário, fiquei. E ganhei, uma peça primeiro, a partida pouco depois. Não contribuí para um score mais positivo do Álvaro Pereira, no seu recorde. No fim, envergonhado, não tive a coragem de pedir ao simultaneador para me assinar a folha de partida. Saí do Casino Peninsular e noite dentro, acabrunhado, dirigi-me para o me parecia naquela altura, o acolhedor seminário. Mais tarde (ou antes) joguei outra simultânea, esta à vista com o Mestre Júlio Santos, empatando a partida.


Era Agosto, na Figueira de 1975. Num campeonato Nacional de Juniores de Xadrez, onde ainda consegui ganhar dois ataques Fegatello, a jovens do interior. Onde vi o António Fernandes, então com treze anos, como ainda hoje o vejo: um estado de nervosismo incrível, nos apuros de tempo, na partida que disputou comigo e que perdi.Onde conheci e joguei a minha primeira partida com o António Pereira dos Santos, já de uma categoria e correcção no tabuleiro impecáveis. Um Nacional que terminou em grande, com a vitória muito “profissional” do Luís Santos, com os outros favoritos nas posições imediatas. Um Nacional que me demonstrou à saciedade a distância enorme que me separava em força xadrezística, em preparação, em métodos de estudo, em relação aos melhores jogadores “juniores” nacionais.


Foi.. Acho que foi aí, na Figueira da Foz, nesse Agosto de 1975 que comecei a perceber pela primeira vez, que competitivamente nunca ultrapassaria determinada categoria, aquilo que na altura se chamaria a 1ª Categoria. Que a minha força de jogo, que o meu progresso xadrezístico poderia ir um pouco mais além, mas nunca como o tinha sonhado ao 15 ou 16 anos.


Iria a continuar a dedicar-me ao Xadrez, mas já não com a intensidade, com a paixão competitiva, com as horas de tempo que até aí lhe tinha dedicado. Outros interesses, outras paixões mais intensas e produtivas, de mim se iriam apoderar. Sei hoje: Foi na Figueira da Foz, nesse Agosto de 1975 que comecei a perder o Xadrez, um determinado tipo de xadrez, uma faceta do xadrez, para o reganhar a juros, com toda a paixão, toda a sua integralidade, a sua beleza global. Perdi um tipo de xadrez, para me sair taluda de outros. Saí da Figueira, mais humilde, mais humano, mais consciente do eu xadrezista que era.


Foi bom esse Agosto de 75 na Figueira da Foz. Foi bom ter-vos convocado camaradas xadrezistas na minha memória, foi bom ter quase cinquenta e ver-vos em dezoito, foi bom continuar esta ternura de me sentir pertencente a um grupo de xadrezistas que tem sabido envelhecer no xadrez português. È bom reencontrar-vos longe a longe, mais enrugados, mais carecas, mais Xadrezistas talvez, em rápidas de fim-de-semana, em hall de hotel, mas sempre “juniores” nessa paixão que continuais a sentir pelo nosso jogo. Foi bom esse Agosto de 75 na Figueira da Foz! Talvez por isso, não quis despertar torrentes de memória emotiva, que estou a ficar, um “meia-idade piegas”, com uma possível ida à Figueira aos recentes Torneios da Figueira. Como o Carlos Tê: por vezes é melhor não regressar ao local onde se foi feliz. Fui-o durante uma semana, nessa bela cidade da Figueira nesse Agosto de 1975. Acreditem ou não... a vocês o devo!