E com enorme ternura. Já tinha vai para anos colocado na Luso Xadrez. Agora com mais um ou outro personagem "novinho" do Xadrez Português. Algumas fotos são raras, e se calhar nem os próprios as possuem, vejam lá! Assim "aprovetem" este momento histórico. Lá está: pelas peças em alguns tabuleiros era capaz de adivinhar o local...mas não digo!
Claro que não ofereço livro de xadrez, porque alguns Luso-xadrezistas conhecem a maioria das fotos e, como já várias vezes afirmei, nunca se sabe se para além de variantes conseguem puxar pela memória visual e temporal-afectiva ( que na malta do xadrez e em relação ao xadrez, não é famosa, deixem que vos diga!).Assim, "amandem-se" para a identificação! Desta vez "Dicas" só no Lidl, passe a publicidade! Ah! Tudo baralhadinho nas épocas, para vos tornar mais fácil o trabalho!Quem é amigo, quem é?!
Acreditem, alguns são um "berbigacho" para descobrir o quem é quem!(o número está na foto-se quiserem cliquem na foto para aumentar)
Divirtam-se e um abraço especial para Todos que aqui vêm beber um pouco a alma nostálgica do xadrez, que também assim se faz e ganha sentido.
Não, não era a altura que nele impressionava. Era qualquer coisa indefinível que passava pelo seu ar “maciço”, pesado, pelo seu andar pausado mas decidido, e sobretudo pela abundante e negra barba que quase lhe escondia a cara. Uma barba, negra, cerrada, florestal que lhe dava um aspecto épico, prometeico, assustador e, se a isto juntarmos uns centímetros acima, cobrindo uns olhos vivos, inquisidores, umas grossas lentes enquadradas por largas armações, teremos um retrato ténue do que na Escola Preparatória de S. João da Madeira vislumbrei no dia 19 de Setembro.
Esta a personagem que se me arribou frente a um tabuleiro de xadrez na 5ª sessão de um distante Campeonato Nacional de Xadrez no ano de 1978.
31 Anos passados, recordo nitidamente o MARTINHO LOPES, retenho-o numa espécie de “vi claramente visto” fotográfico para sempre. O Homem impunha respeito aos meus 21 anos da altura, embora o seu ser mais velho, mais parecia do que era efectivamente.
Esperei calmamente que chegasse e realizasse o seu lance inicial e confesso que quando se aproximou do tabuleiro, pareceu-me ver dois, não porque o Martinho Lopes tivesse o dom da ubiquidade, mas porque os 39,5 de febre com que amanheci, confirmado no boletim do torneio, faziam-me ver um pouco a dobrar, e como tal, não favoreceram nem a visão nem o entendimento do Xadrez, que não era famoso, diga-se.
Não, não foi por isso que perdi com esta fantástica personagem. Perdi, porque tinha de perder, perdi simplesmente porque era pior jogador do que o Martinho, perdi, aliás, porque como indica o meu último lugar neste Nacional, era sem dúvida o pior jogador, aquele que estava prestes a descobrir o óbvio: não tinha capacidade, nem vontade, de ir mais além no Xadrez de competição. Daria pouco mais do que aquilo que ali tinha mostrado. Sabia muita teoria decorada, muito lance pendurado numa espécie de tabuada pré-definida, e entendia muito pouco de xadrez. Acho que foi a partir desse momento que comecei a entender o xadrez, a amar um outro tipo de xadrez, a perceber a beleza escondida por detrás de um xadrez competitivo de tabuleiro.
Claramente o Martinho Lopes era melhor jogador do que eu, não na proporção de me ganhar no número de lances que ganhou, mas simplesmente porque era competitivo até dizer basta. O seu lugar nesse Campeonato Nacional Absoluto de 1978, assim o diz: 6º lugar, apenas com uma derrota! Um jogador que ao longo de 11 sessões de um duro campeonato, e com jogadores do topo, só inclina o rei uma vez, não podia ser um jogador qualquer...e não era! Um jogador de xadrez na verdadeira acepção da palavra, como constatei ao longo do torneio. “Esmagou” os dois fracotes, perdeu com aquele que era à data o Campeão Nacional, Fernando Silva, e empatou com todos ou outros jogadores, entre eles com aquele que seria neste torneio consagrado o novo campeão nacional, Luís Santos. Diga-se desde já que em algumas partidas, Martinho Lopes teve clara vantagem, deixando aqui ou ali, fugir a vitória.
Agressivo, ou de contra-ataque perigoso numas partidas, noutras, mostrava uma solidez de jogo que não permitia aos consagrados tirar qualquer partido da sua pretensa superioridade. Gostava de afirmar que não ligava nada à teoria, mas se estudarmos as suas partidas deste Nacional de S. João da Madeira, verificamos que era uma “blague”, porque o Martinho sabia teoria e não era pouca, veja-se a título de exemplo a sua partida com Ochoa e o ataque Fegatello ou a sua “Ruy Lopez-Chigorin-Keres “ de brancas contra o António Fernandes.
O Martinho Lopes e a sua negra barba à “captain Edward Thatch” impressionava, mas o que mais me impressionou quando se aproximou do tabuleiro para a “abordagem” à nossa partida, foi a sua voz de baixo profunda, rouca, cavernosa , no cumprimento da praxe e aperto de mão inicial “ Martinho Lopes – Santarém” !
O Martinho que fui observando ao longo das sessões e fora deles. Um Martinho pretensamente rude, distante invólucro de um outro Martinho sensível, brincalhão, de frase afiada e sentido de humor apreciável. Bom garfo, óptimo copo, o Martinho adorava a “charla” brincalhona, o dichote, o humor corrosivo e não raro a ironia quando falava de xadrez. Claro que não contamos com ele nas fileiras da equipa de futebol dos jogadores que defrontou a organização no dia livre, pois o nosso querido Martinho Lopes era daqueles que não tinha a cabeça onde nós nesse dia teríamos os pés, preferindo outros jogos, e depois... a finta à caldeirada sumptuosa oferecida pela maravilhosa organização.
Bem verdade o que o jogador Rui Silva Pereira e o árbitro José Oliveira, escreveram do Martinho na Revista Portuguesa de Xadrez, II Série nº 19 de Outubro de 1978 (e de que forma maravilhosa se escrevia sobre e de xadrez, nesta altura!).
screveu Silva Pereira: “ Martinho Lopes fecha a 1ª metade da tabela. Considerações sobre o estilo deste autêntico pirata do tabuleiro poderão ser encontradas no artigo de José Oliveira. Tal jogador ( que usa uma espessa barba negra) é sempre o terror do torneio, chegando a povoar os pesadelos dos seus potenciais adversários “.
O “Zé Oliveira” do apito Sanjoanino escreveu “ O Martinho Lopes foi das figuras mais típicas ( “castiças” diz-se em S. João) do Campeonato. Para além dos dotes fadísticos, oratórios, e no campo da futurologia, impressionou o seu estilo de jogo descontraído: “ Aquilo está ganho, pá. Sacrifico duas peças, entro com a torre na sétima e dou mate”. “Hoje - dizia ele entre duas fumaças - vou derreter o Luís Santos. Senão o Campeonato está resolvido”. E gerou-se uma certa expectativa à volta da partida. Ninguém contava era que o Luís aparecesse com um casaco novo, ao que parece revestido de amianto, assim conseguindo escapar in extremis ao maçarico do Martinho”.
“ A minha partida com o Sílvio estava ganha - dizia o Martinho Lopes, enquanto pousava a beata no cinzeiro – o pior é que levava duzentos anos a acabar” . E puxando de outro cigarro: “ Amanhã jogo com o Renato. Da última vez, eh!...ia com a dama, lá no fundo e ameaçava cinco peças ao mesmo tempo. Desfiz o tipo, mas estava à rasca porque tinha de ir apanhar o comboio, e propus empate” .
Era assim o Martinho Lopes, explosivo, de mar largo, de onda bravia, mas também de um enorme coração, de uma franqueza, de uma simpatia que cativava. Um senhor do Xadrez, um Senhor que nunca mais tive o privilégio de ver, porque ao que parece, depois deste Campeonato Nacional o Martinho Lopes resolveu tirar umas longas férias de dezenas de anos do Xadrez, quando muito poderia ter dado ao xadrez. Talvez aquilo que em tempos escrevi: quem ama muito a coisa amada, por vezes necessita dela desprender-se para melhor a amar, ou no mínimo amar a memória da beleza dela.
Por isso, uma enorme emoção, quando nesse excelente Blogue que é a “CASA DO XADREZ” num poste de 3 de Fevereiro deste ano, vi fotos do Martinho Lopes, a jogar xadrez no café "Solbar" em Santarém. Como confessou o fotógrafo, difícil de fotografar o Manuel Martinho Lopes, talvez por isso, as fotos não estejam famosas, mas mesmo de cabelos brancos e barbeado, reconheci o Martinho, na forma como se concentra, como se move decidido na realização de um lance, naquele olhar maroto de eterno apaixonado de Caissa!
Fez-me bem recordá-lo, fez-me bem mergulhar ma memória afectiva mais profunda relacionada com o xadrez, com um Xadrez, com um Campeonato de Xadrez, que suspeito ter sido “para hoje nunca mais”, pelo convívio, pela relação entre os jogadores, pela extraordinária organização, pelo puro prazer que era jogar xadrez e estar no xadrez apesar da competição.
Hei-de escrever sobre este Nacional.
( que me desculpe o Pessoal da Casa de Xadrez, mas...vou roubar do seu blogue uma ou duas fotos do Martinho...espero não ser processado). Bem, dedico este artigo ao Martinho Lopes e à Casa do Xadrez que é mesmo uma “habitação familiar” de xadrez!
Lopes,Martinho - Vieira,Arlindo [B33]
Campeonato Nacional S. João da Madeira (5) 09.1978 [Arlindo Vieira] B33: Siciliana:
Durante a partida esperei pelo lance lógico 10.f4, mas o lance do Martinho Lopes, parecendo uma "jogada de cafè", acaba por ter uma ideia clara, libertar o Bispo de c1 e tentar não permitir às negras a libertação do seu jogo com d5
10...d5?! Se conhecesse o Martinho Lopes, teria jogado o mais calmo e expectante [10...d6!?]
11.Bg5 Be6
Não é que este lance seja mau, todavia, deslumbrado com a minha posição e com a frase feita lida não sei algures " Na Siciliana se as negras jogam d5, sem problemas, ficam com excelente jogo", continuei a desenvolver as peças calmamente , procurando que as Torres entrassem em jogo , pressionando o centro. Claro que vi o avanço de d4, mas a possibilidade de ficar com um peão isolado em c6 não me agradou. Um mau juízo posicional, pois esta debilidade seria mais aparente que real, devido à actividade das minhas peças.
[ por exemplo: 11...d4 12.Ca4 Dc7 13.Bxf6 Bxf6 14.c3 dxc3 15.Cxc3 Be7 16.Dc2 Dd6 17.Tbd1 Dg6 com igualdade]
12.f4!
Bom e típico lance "à Martinho Lopes". Ele não fica a esperar para ver e inicia um ataque no flanco de Rei.
12...dxe4?
Mau lance e típico do fraco jogador que era. Abandonar a tensão central para quê e porquê? Depois abrir vias e avenidas de ataque ao Rei negro com que objectivos? [12...Dd4!?; 12...Tae8!?]
13.Bxf6
[ ainda era melhor 13.fxe5! Cg4 14.Cxe4 Tfe8±]
13...Bxf6
se tivesse estudado como deveria ter estudado na altura partidas do Fischer e o seu célebre " Castling into it", então não teria sido difícil descobrir que defensivamente a abertura do Roque era o mais aconselhado! [13...gxf6 14.Bxe4 f5 15.Dh5 fxe4 16.f5 Bxa2 17.Cxa2 Rh8 18.f6 Bd6 19.Dg4 Tg8 20.Dxe4 Tad8 21.b4 Tg6 ]
14.Cxe4 Dd8??
Cegueira e completo desnorte na análise da posição. Digo análise e não houve nenhuma, simplesmente um lance mecânico que surgiu na ideia e que na altura me pareceu que defendia tudo. É exactamente neste tipo de posições que um jogador tem de se aplicar na análise profunda da posição, isto é, na altura em que tem de reconhecer que da igualdade passou para uma posição claramente inferior, e como tal arranjar um plano defensivo adequado, ou pelo menos, uma série de jogadas que ponham problemas ao ataque do adversário.14...Bd8 impunha-se para uma defesa difícil. [14...Bd8!? 15.f5 (15...Bxa2 16.f6 De3 17.fxg7 Rxg7 18.Dg4+ Rh8 19.Tbe1 Dd4 20.Dh3 f5 21.b3 Ba5 22.Cg5)
(15...Bd5 16.f6 Dd4 17.fxg7 Rxg7 18.c3 De3 19.Dg4+ Rh8 20.Tf3 Dh6 21.Td1 Bb6) ]
15.fxe5+- Bxe5??
Sentindo a posição perdida, joguei ao correr da mão, nem sequer pensando na retirada do Bispo para e7, ou para g5, que não salvando a partida, ofereceriam mais resistência
1) 15...Be7 16.Cf6+ Bxf6 17.exf6 g6 18.Dd2 Rh8 19.Tbd1 Tg8 20.Dc3 Db6 2) 15...Bg5 16.Dh5 h6 17.Tbd1 De7 18.Cxg5 Dxg5 19.Dxg5 hxg5 20.Be4 Tab8 21.b3 Tb5 22.c4 Txe5 23.Bxc6
clássica manobra da variante, com vista a manter a possibilidade de domínio espacial no flanco de dama, útil no caso das pretas rocarem largo, e ao desenvolvimento Bc1–a3
7...Cbc6 8.Cf3 Bd7 9.Dd2
[9.Be2 Da5 10.Bd2 conforme partidas Durão-Sílvio Santos e Martinho Lopes-Sílvio Santos no presente campeonato, baseados na experiência do match Korchnoi-Spassky , Belgrado 1978/79, em que se jogou uma partida importante para o estudo da sub-variante]
9...Da5 10.Bd3 cxd4
[10...c4 11.Be2 (11.Bf1 com a ideia de g3 Bh3 é perigoso, por causa do posterior domínio da diagonal a3-f8) ]
11.cxd4 Dxd2+ 12.Bxd2 f6 ataque ao centro, antes que tenha tempo de ser consolidado pelo peão f
13.0–0 Rf7
mantendo o "status quo" central e colocando o rei em casa de pouca vulnerabilidade
14.Tfe1 h6
importante, pelo domínio que exerce sobre a casa "g5", negando o acesso pelas figuras menores 15.h3!? com o lance do texto, as pretas ficam sem problemas imediatos após 15...fe5 16.Ce5 Ce5 17.de5 Thc8 com muita partida por diante[15.exf6!?]
½–½
14.dxe5 dxe5 15.c4 0–0 16.Dc2 c6 17.Ce3 g6 18.Ted1 De7 19.Td2 f6 20.Tad1 Tad8 21.Td6? o melhor era 21.b4! seguido de c5 e depois as brancas preparavam o avanço dos peões na ala de Rei com g4,h4 e g5 para final vantajoso
Trifunovitch, Petar , Fischer-Spassky ,Campeonato Mundial de Xadrez/1972, Editorial Presença, 1973, Revisão Técnica e Comentários de João Cordovil.
Muita gente da minha geração deve conhecer este livro. Um bom livro que relatava passo a passo as peripécias do célebre match de 1972 Fisher -Spassky. Acontece que no blogue Ala do Rei do Franscisco Vieira vai para um ano e tal e a propósito de um comentário do João Cordovil, resolvi escrever o seguinte, ao qual hoje, mais do que retirar uma vírgula, ainda teria outras a acrescentar!(o meu texto a azul)
"Mestre Cordovil, Até em pequenos pormenores mostramos a nossa imaturidade afectiva como Povo , e um deles é sermos miseravelmente desmemoriados, mal agradecidos e arrogantes quando o queremos no esquecimento! Então no Xadrez, somos muitas vezes de uma mesquinhez de esquina paroquial , de um revanchismo e sobretudo de um desamor a quem faz alguma coisa pelo xadrez, que sempre me impressionou !
Talvez não o saiba, mas…se sou jogador de xadrez, a si o devo! E devo-o, porque durante o Match Fischer-Spassky, a presença do Cordovil na RTP era obrigatória, apesar de eu mal saber mexer as peças, no meu imaginário inicial do xadrez. E era-o, porque a forma como transmitia a informação, como catalizava-cativava pedagógica e televisivamente as peripécias das partidas , era verdadeiramente emocionante! Um comunicador nato. E sem querer e sem você saber, foi o causador de me ter desinteressado dos imensos bilhares do Café Palladium, e começar a interessar-me por duas salas maravilhosas nesse mesmo Café: a sala do FCPorto e a do GXPorto. Começou aqui esta paixão sem limites, este bruxedo de Caissa que não me larga! Como vê: EU LEMBRO-ME! Mas lembro-me também de muitos das suas crónicas-comentários à poucos anos na RDP e como sempre um modelo de como comunicar xadrez radiofonicamente!
E sobretudo, tenho um pequeno livro, um dos meus Primeiros Livros de Xadrez , a par do meu “bloquinho” Xadrez Básico , que comprei enganando a minha santa mãe, pedindo-he dinheiro para a escola quando o era para um livro que tinha na capa ” Revisão Técnica e Comentários de João Cordovil” e na contra . ” A Revisão Técnica de João Cordovil confere ao Livro a garantia de uma edição cuidada”E Tinha mesmo! O livro para o ano de 1973 era excelente e a sua revisão técnica não o é menos! Petar Trifunovitch” Fischer-Spassky-Campeonato Mundial de Xadrez 1972″ da Editorial Presença. Guardo-o Tesouro precioso, e sobretudo guardo-o pela qualidade e pelas páginas 167-169, que são de um Cordovil que sei que é Cordovil e não do Cordovil estereótipo engendrado em certos salões xadrezísticos, por confusão entre o jogador competição Cordovil e um dos grandes divulgadores e homens do xadrez Português-Mestre João Cordovil. E para que a comunidade deste blogue o saiba e o leia e, ainda por cima, com uma prosa de uma qualidade fantástica, aí vai o seu texto.
Caro e amigo Cordovil, desculpe a minha ousadia e transcrição - se quiser mande-me prender, mas como vê, este humilde “filósofo” do xadrez (o que é isso?!)tem por hábito, vocação e coração, não esquecer o que de bom se foi fazendo no xadrez português e sobretudo, saber reconhecer as pessoas que, doa a quem doer, vão ficar na História do Xadrez Português. E o Mestre Cordovil, vai ficar, aliás está, indelevelmente ligado à História do Xadrez Português e a uma parte muito boa do mesmo!
Sabe Mestre Cordovil, habituei-me mesmo nas conversas mais informais de Clube de Sábado de Tarde, a ter um “respeito sagrado” por alguns nomes do xadrez português, porque sei História, porque tenho memória, porque tenho valores que jamais abdicarei e sobretudo, porque não quero morrer estúpido!
Caro Mestre Cordovil, desde 1972 que “dei por isso” , como muitos jogadores de xadrez da minha geração ( cinquentões) deram , mas por esta ou aquela razão, não o querem confessar. Um abraço Arlindo Vieira
“Foi uma aventura arriscada e imprevisível meter-me no”match” Spassky - Fischer, tal como o fiz publicamente, tanto no jornal (Diário Popular) como na Televisão.Dormir apenas do meio-dia às seis da tarde durante mais de mês e meio, para que a informação estivesse actualizada dando tudo o que poderia dar profissionalmente, tendo apenas como base os conhecimentos de xadrez, pois desconhecia por completo os métodos e funcionamentos dos órgãos de informação, são tarefa ingrata e difícil, apesar de aliciante. Contudo, isso resultou, e o esforço físico ou técnico exigido foram plenamente compensados em muitas coisas, entre as quais o próprio sabor do risco.
Falhar e ganhar. Aprender e melhorar. Situações de grande responsabilidade vencidas ou comprometidas, de tudo uma experiência humana impagável, ou a vida de um fósforo, para a qual antes conta aquele momento sublime depois é trevas… Serve apenas isto para pagar um juramento, não fosse eu homem, sujeito ou não aos pecados da espécie, mas com um sentido intransigente de honestidade.
Antes de mais, a minha entrada no acontecimento foi o acaso de uma revolta. Fortuita e distante, mas justa. É testemunha disso, e foi quem pôs a girar toda a esfera, o jornalista Joaquim Teixeira.
O resto, bem, o resto, deve-o à boa vontade de compreensão de amigos os e chefes, que não esmoreceram o seu incentivo durante toda a jornada. Aqui vai, apenas abrangendo os mais responsáveis os meus agradecimentos à equipe directiva do nosso jornal com que mais de perto lidei, Fernando Teixeira, Jacinto Baptista, Abel Pereira e Viriato Mourão. Agradecimentos muito incompletos. Vai um abraço também para o Mensurado, para o Rebordão e para o Ruas, no referente à R.T.P. Mas é altura de pôr no seu devido lugar as pessoas que embora não tivessem forçado o acontecimento moldaram o homem, e esse é que fica para além de tudo o que seja fútil e passageiro.
Devo ser feliz, porque tenho seis amigos fixes que contribuíram para o caso, E só eles o conservaram irreversível. Refiro-me ao Dr. Joaquim Gomes Motta, ao Carlos Veiga, ao Dr.Rudolfo Lavrador, ao Jorge Cavalleri, ao Guilherme Rosa e ao Luís. Únicos críticos por que me guiei. Seria agora injusto não referir que aquilo que se passou na televisão, em que se sente mais do que nunca, nas emissões directas, o peso da responsabilidade, foi principalmente devido(ou disfarçado) à camaradagem e conselhos (e amizade) dos profissionais da locução, que comigo entravam no estúdio, dia a dia.
Sobre o livro, seria uma vergonha não ser publicado em português uma versão categorizada sobre o «match», depois de toda a divulgação que teve. Nem eu deixaria passar a oportunidade de um grande-mestre jugoslavo rectificar tudo aquilo que «em cima da hora» fora errada ou parcialmente divulgado, no referente aos aspectos técnicos.
Poderia fazer este trabalho para outras editoras, e talvez em melhores condições. Estou satisfeito em o fazer para estas pessoas. Nada para mim conta mais do que os factores humanos, e se alguém mais criticou o primeiro livro de xadrez desta casa fui eu. A concordância das críticas, e o espírito construtivo que encontrei, foi o bastante para me convencer com aqueles que afinal tiveram a coragem de se meter nesta especialidade, sem. se cingirem aos aspectos comerciais de momento, mas com vontade de continuar. A parte referente ao «match» foi, baseado nas directrizes do grande-mestre jugoslavo, aumentada e modernizada, de forma a proporcionar a todo o nosso público um sentido exacto das peripécias do encontro, em linguagem acessível, sem o obrigar(ou massacrar) a excessivos conhecimentos técnicos, particularmente nas aberturas. Este livro era para nós uma obrigação. Confiamos na compreensão e no êxito.” JOÃO CORDOVIL
Para terminar duas fotos do João Cordovil. Uma, mais actual e excelente da ex InfoXadrez, a outra...bem, a outra do meu arquivo e que tem uma particularidade notável, mostra também o seu grande rival escaquístico, e também figura que muito prezo no xadrez português! Esta foto mais antiga... onde? Não digo.