Morreu aos 75 anos. Várias vezes Campeão do Mundo de Séniores, fez parte da equipa russa do Campeonato Mundial de Estudantes em 1960. jogou três campeonatos absolutos da URSS, 1966, 1969 e 1975, sendo que em 69 ficou num honroso 7º lugar.
Inacreditavelmente, até pelo fortíssimo jogador que era (mas com poucas possibilidades de viajar no estrangeiro, quando mais novo), só conseguiu o título de MI aos 42 anos, e o de GM ao 62, ele que indubitavelmente nos anos 60 jogava claramente como um GM.
Aconselho vivamente que procurem numa base de dados a partida Vaganian-Klovans de 1968, que é uma maravilha, Karpov-Klovans de 1971 em que Klovans joga à estilo futuro de Karpov, esmagando o ainda jovem "Tolia"; Klovans-Tukmakov de 1974, com um belíssimo ataque ao Rei, Klovans-Razuvaev-1974, com outro exemplo típico de como castigar a debilitação de peões do Roque negro, ou talvez o mate dado no centro do tabuleiro em 1977 a Nona Gaprindachivili; A vitória sobre Tal em 83 também não pode ser deixada em claro.
Em sua homenagem, uma foto muito, muito rara de uma antiga revista de xadrez soviética. Klovans à esquerda de pretas na partida com um Rafael Vaganian na casa dos vinte. No fim a partida com Karpov.
Uma tristeza sem fim que cá dentro se anichou. Mais um amigo do Xadrez que se foi. Partiu, sem partir, porque parte quem eu deixo e ao Walter não deixo. Bastaram umas horas num hall de hotel em Gaia, para perceber a excelência de quem tinha pela frente. Amava o xadrez profundamente, amava a vida de uma forma completa e poética. A poesia do convívio, do diálogo franco, da gargalhada fraterna, do ir direito ao assunto sem rodeios, mas quase sempre numa atenção solidária e empática com o outro. De humor fino e cortante, de grande generosidade e simpatia o Walter era figura querida e sempre bem-vinda em qualquer torneio que participava ou aparecia.
Amava o Xadrez, o Brasil, a boa mesa, os Amigos, a cavaqueira, o filosofar da vida, Os Alverca dos Peões, em que mais do que Rei, ele era, ele queria ser mais um peão, a alma, a verdadeira alma do xadrez naquele Clube. Segui sempre o que escrevia (e que bela escrita contida, a do Walter Tarira!) sobre o xadrez, ou sobre o não xadrez, e em tudo que escrevia havia sempre uma poética emergente, um sentido profundo das coisas e da vida.
Gostava do Walter, pronto! Uma figura daquelas que valeu a pena, que vale a pena ter conhecido no Xadrez Português. Neste manicómio global em que vamos atolando, nesta mediocridade e imbecilidade generalizada, o Walter era um Bom, um ser culto e sensível de pegada segura no que tinha vindo aqui fazer.
Para e até sempre Walter! Acabaste de carregar no teu lado do relógio da vida, agora o tempo vai-se escoando para nós, naquele tic-tac inexorável e escultórico. Pareces sorrir, naquele teu riso matreiro e brincalhão! Pudera! Vais ter tempo...vai preparando as pecitas e tabuleiro aí no reino de Caissa, que isto não vai ficar assim...
(nesta homenagem, um grande e belíssimo texto de 2005 do Walter sobre a Vida e o Xadrez, publicado no Blogue Peões de Alverca)
Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005
CURIOSIDADES
Tabuleiro da “vida”
Depois de ouvir muitas pessoas nas faixas etárias dos “5 aos 20 anos”, dos “21 aos 35 anos” dos “36 aos 50 anos” dos “51 aos 70 anos” e, finalmente, dos 70 anos em diante, constatei o que passo a descrever:
Dos “5 aos 20 anos” o homem só vê e pensa sobre o presente – o passado ainda é muito recente – e o futuro fica no infinito! Não lhe diz respeito.
Dos “21 aos 35 anos” o homem concentra as suas atenções no presente procurando por vezes prever o futuro mas raramente mergulha no seu passado; acaba assim por ver um futuro distorcido da realidade que o espera.
Dos “36 aos 50” o homem já começa a ir ao seu passado mas continua concentrado no seu presente porém, nesta fase da sua vida já pensa em alguns aspectos do seu futuro com alguma realidade.
Dos “50 aos 70” o homem começa finalmente a gastar mais tempo evocando o seu passado mas ainda se concentra no presente, pensando desta forma prever melhor o seu futuro.
A partir dos “71” o homem já só olha o presente e o passado para tentar justificar o futuro que o aguarda. Fica quase com a totalidade das suas atenções concentradas no seu próprio fim, que por intuição começa a adivinhar – a sua própria morte – o fim do ciclo.
Tabuleiro de “Xadrez”
Neste tabuleiro, o “iniciado” quando é alertado para a importância dos diversos finais que podem surgir-lhe ao longo da sua partida, começa sempre por estudar as aberturas, não dando a importância devida aos finais. Claro que este método raramente o leva a um final e, ainda, quando isso acontece, normalmente perde-o.
Alguns jogadores aperceberam-se já muito tarde da importância dos finais e estudaram-nos com muito afinco mas mesmo esses não escaparam – foi só uma questão de tempo – acabaram por levar mate, sem defesa e imparável!!!
Posso assegurar “temporariamente” que, em ambos os tabuleiros, o da vida e o de xadrez, o “mate” não tem mesmo defesa! Sejam ricos ou pobres, GMs ou iniciados, todos têm o seu mate garantido; melhor ainda! O homem quando nasce já tem a sua partida perdida e por mate!!! Assim sendo, o que é que leva o homem e manter-se permanentemente em jogo?!
Desde os meus inícios no Xadrez que o seu nome não me foi estranho, e as suas partidas eram presença constante nas revistas que ia folheando, primeiro no F. C. Porto, depois no G X Porto. Depois, deixei de lhe seguir o rasto, porque ele também não o permitia, porque as suas partidas publicadas tornaram-se raras. A partir dos inícios dos anos 90, deixou o Xadrez de competição, embora nunca abandonasse a modalidade, noutros campos.
Jogou uma partida que sempre me fascinou , desde que nos anos 70 comprei o livro da Escaques “ La defensa Paulsen” de Cherta, e ela aparecia como o exemplo típico de conduzir um contra-ataque negro nesta Variante da Siciliana que era a minha nos torneios que jogava. È a célebre partida jogada em Couracao 62, em que Tal foi derrotado como raramente o era!
Depois graças ao meu querido e velho Amigo, Mestre Álvaro Machado, fiquei a conhecer melhor este jogador, porque participante no Zonal da Praia da Rocha de 1969 (que ganhou juntamente com Minic e Gligoric) e sendo Mestre Machado um dos árbitros dessa competição, melhor do que ninguém para me dar algumas informações sobre a força de jogo e um pouco da personalidade deste GM Checo.
Com os seus para cima de 2 metros de altura, Miroslav Filip impunha-se pela sua presença em qualquer sala de Torneio. As fotografias mostram-no cuidadoso a debruçar-se sobre o tabuleiro, não fosse parte do seu corpo ocupar a metade destinada ao seu adversário. Não era uma personalidade muito expansiva, mas era de uma correcção e de uma simpatia apreciável. Profissional do Xadrez, levava o xadrez a sério.
Jogador típico da Inglesa, levava frequentemente o seu jogo por caminhos posicionais e o seu forte sentido de posição, permitia-lhe vitórias “fáceis” com adversários menos cotados. Não era um jogador táctico por excelência, como se pode comprovar pelas suas partidas e claramente não era um jogador de “Negras” , tendo alguns reveses importantes contra jogadores da elite da época, com a sua Siciliana. O seu reportório com Negras, principalmente contra 1.e4, não era o mais apropriado, variando algumas vezes de defesa, sem grande resultado.
Seguro, difícil de bater na batalha prática do tabuleiro, Filip, conseguiu muitos empates contra fortes jogadores. Digamos que MIroslav Filip se enquadrou naquele grupo fortíssimo de GM da antiga Europa de Leste, uma espécie de “força de 2ª linha”dos quais destaco, Vlastimil Hort, Wolfgang Ullmann, Ludek Pachman, Jan Smejkal, Istvan Csom, Istvan Bilek, Laszlo Szabo, Vorislav Ivkov, entre outros. Nesta lista não refiro, Lajos Portisch, nem Svetozar Gligoric, porque na minha modesta opinião, jogadores de topo do Xadrez mundial, ouseja, de 1ª linha.
Faleceu aos 80 anos Miroslav Filip, no pretérito dia 27 de Abril. Não conheço livro das suas partidas para o poder adquirir, mas valha-nos que alguns sites de xadrez noticiaram a sua morte e homenagearam-no com breves biografias, ou mesmo a publicação da sua célebre vitória sobre Tal. Assim seria uma redundância repetir aqui o que está ainda nas primeiras páginas dos ditos sites ou blogues.
Assim... a minha homenagem a este forte GM Checo , que muito honrou a tradição do Xadrez Checo, há quem lhe chame “escola de Praga” numa linha que começou com esse Grande Jogador, e meu ídolo , inserido na imagem de apresentação do meu blogue: Oldrich DURAS ( isto sem entrar em debates histórico-particulares sobre Steinitz, ou Reti) !
Homenagem com 3 partidas que Miroslav Filip Ganhou a jogadores Portugueses( ganhou mais uma em 63 a Durão- conhecem mais alguma partida de Filip contra jogadores portugueses?) : Joaquim Durão, João Cordovil (estas duas no Zonal da Praia da Rocha em 69) e nas Olímpiadas de Siegen 1970 contra o meu conterrâneo do GXP prematuramente falecido, Jaime Gilbert, e uma outra belissimamente jogada em que derrota o “ Botvinnik Húngaro”, Portisch, esta comentada pelo GM russo Chekhov, em estilo figurativo.
Por último fotos de Miroslav Filip. Uma ou outra conhecida, outras raras, principalmente duas que por serem do boletim do Zt da Praia da Rocha, ou fotos particulares, aqui vão dar a “world premiére” . Nunca fui invesojo!
Razão tem o Alexandre Monteiro: que benefícios trariam para o Xadrez Porrtuguês, a História, as memórias, se o Durão e o Cordovil resolvessem “abrir o livro” e escrever sobre acontecimentos e personalidades que conheceram! Querem um exemplo? Na Olimpíada de Leipzig-1960 , a tal de Fischer-Muñoz, Portugal jogou com a URSS: Durão jogou com Tal, o João Mário Ribeiro jogou com Keres ( bela resistência) ; António Cardoso perde com Petrosian e Daniel Oliveira consegue um sensacional empate com Korchnoi. Reparem a minha ignorância: Quem foi este jogador Português que ofereceu resistência apreciável a Petrosian, António Cardoso? Quem foi Daniel Oliveira que pela partida com Korchnoi, mostra uma força de jogo apreciável ? Não, não basta ir às Revistas portuguesas da época!
Filip,Miroslav - Portisch,Lajos [E14] Alekhine mem Moscow (3), 1959 [Chekhov]
Zonal da Praia da Rocha 1969 - Filip concentrado perante o olhar atento do árbitro e meu Grande Amigo, Mestre Álvaro Machado ( a ele devo várias fotos aqui colocados-Cordovil, Gligoric, e estas duas últimas, todas desse Torneio Internacional no Algarve-desfeito o mistério)
Outra foto curiosissima e histórica desse Zonal. Não digo quem é Miroslav Filip, porque se estiveram atentos ao que escrevi,os seus 2,05 m traem-no! Reparem nos presentes nas mãos do Gligoric! Não , não era o "Champomix" passe a publicidade!