XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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08/09/12

SPIELMANN, Rudolf -Melodia Inacabada 1

Qualquer semelhança com a realidade pode ser verdade. Um romance verdadeiro a história deste meu ídolo do tabuleiro , o Grande Rudolf Spielmann. Em dois capítulos e para espíritos amantes da leitura, da História do Xadrez, de um passado que o sendo não volta mais. Quanto deve o moderno xadrez a Spielmann?!


 

Fecho os olhos e relembro com nitidez o passado...


Existe uma bela fotografia dos jogadores do Torneio de Noordwijk 1938. Ele está lá, com ar abatido, olhar cabisbaixo, envelhecido, limpo, mas o seu rosto não esconde os traços do tempo e as rugas da alma, causadas pela tempestade que se aproximava.
Não preciso de olhar a fotografia. Eu estive lá, na sala do torneio...


Perante ele, um jovem de 22 anos, alto, esbelto, com um magnífico fato de bom corte, sereno, confiante, mas também ambicioso, quase conquistador, se consigo interpretar as belas linhas do seu rosto e o seu expressivo olhar. Um homem de óptima aparência, aspecto encantador, sem dúvida!

O contraste absoluto...


Ele, sem ser velho, afinal tinha só 53 anos, parecia velho, ou talvez esta impressão fosse dada pelo ar de fadiga que aparentava. Pequeno, gordo, barriga algo saliente, face oval, calva luzidia, todo ele transmitia uma imagem de peso, de tal forma que a mesa de jogo arriscava não conseguir acolher a sua massa corporal. Toda a aparência de solidez, mas...mascarada de fragilidade...


Ele esperava o início da sessão, na sua posição típica no tabuleiro: as mãos pendentes cruzadas debaixo do tabuleiro. Essas mãos, que várias vezes vi lançarem-se como um raio sobre uma peça, para depois a jogar com doçura num quadrado do tabuleiro. Essas mãos que não estão em consonância com o seu corpo, oblongas, magras, elegantes...


Ele esperava. O seu rosto. Olho-o fixamente. Entre o redondo e o oval, pele lisa, mas aqui e ali com as marcas do tempo, nomeadamente com a queda de alguns músculos faciais e duas rugas bem definidas no canto da boca. Este rosto tinha ainda réstias de uma certa dignidade, mesmo beleza. Conheço fotos da sua infância e Juventude, e alguma coisa da beleza desses anos subsistia. Mas os olhos...os olhos, veementes, profundos, sem dúvida, mas também amigáveis, doces eram os mesmos da sua juventude.


A arqueologia do meu olhar sobre o seu distraído olhar, assustou-me! Sem perceber porquê, entrevi nuvens nos seus olhos, agora concentrados no tabuleiro. Direi olhos inquietos, profundamente perturbados! O que o afecta?


Medo do adversário? Jamais! Medo? No tabuleiro de xadrez nunca temeu ninguém. Desde 1903 que jogava xadrez de alto nível! Tinha jogado com gigantes da talha de um Emanuel Lasker, de um José Raul Capablanca, de um Alekhine, de um Akiba Rubinstein, de um Marshall e, medo do jovem postado à sua frente?


Nervosismo? Talvez. Não era um optimista por natureza. Várias vezes duvidou do seu talento e do seu poder xadrezístico. Sabia por experiência própria, que o seu temperamento nervoso o tinha traído em momentos importantes da sua carreira, roubando-lhe prémios e lugares honrosos. Detestava empates e, quando a posição, não era apelativa, não raras vezes perdia a concentração necessária para a manter igualada, deteriorando-a paulatinamente. Ainda se lembrava com nitidez absoluta do terrível torneio de Carlsbad de 1923, em que em 17 sessões, conseguiu 5 vitórias e encaixou 12 derrotas, mas empates não, nem um!
Mas hoje...hoje não! A experiência da idade e do tabuleiro, tinha-lhe dado a serenidade necessária para domar o pouco nervoso miudinho que o pudesse afectar. Agora sabia o seu lugar no mundo e hierarquia do xadrez. Não, decididamente, não eram os nervos que o afectavam.


Inquietação, preocupação, sim! Olhar turvo que passava despercebido num primeiro olhar de qualquer um, mas nunca a mim, que o considerava o "meu herói secreto" do xadrez.
Desprendia-se dos seus olhos uma tristeza, um abatimento, um desespero, que o corpo acentuava. Porquê?
No meu espírito, iam-se multiplicando as conjecturas...mas só mais tarde vim a descobrir a terrível verdade.




Feitos os cumprimentos institucionais, Ele escreveu lenta e cuidadosamente o seu lance na folha de partida, com notação descritiva, como gostava de fazer e, com suave energia, avançou o seu peão de rei para a quarta casa. O seu jovem adversário respondeu deslocando o peão negro à terceira casa do rei e, os primeiros sete lances decorreram logicamente segundo a teoria da época. O velho jogador parecia estar à vontade na variante desenhada no tabuleiro, pois com ela, tinha derrotado no ano anterior em Hastings, Vera Menchik e, neste mesmo torneio Schmidt!
Sem ser um teórico de aberturas, conhecia bem certas linhas e variantes e, para este torneio, tinha vindo acompanhado dos seus blocos de notas, onde ia catalogando as recentes partidas, que iam sendo publicados em  jornais e revistas. Sabia também que o seu jovem adversário era um estudante e um pesquisador intenso desta fase da partida e, por isso sabia que algo poderia surgir de novo. E chegou!


Ao oitavo lance negro...a novidade! Contra a teoria, as negras não fizeram o pequeno roque, mas o surpreendente e à primeira vista debilitador 8... g 6. A partida continuou, e à jogada 13, o jovem que conduzia as peças negras, erra no plano defensivo escolhido. No rosto do "meu herói secreto" esboçou-se um sorriso muito, muito tímido! Estava no seu elemento: O Ataque! Rapidamente joga 14. f 5! e, o jovem jogador mergulhou numa profunda reflexão. Atenção, sabia com quem jogava! O velho à sua frente, era um dos melhores jogadores de todos os tempos, naquele tipo de posições, e, os seus sacrifícios intuitivos, tinham-lhe valido inúmeros pontos. Sim, sabia-o, pois tinha estudado em profundidade as suas belas partidas!
A posição das negras ameaçava ruína em poucos lances, e, com a cabeça entre as mãos, numa concentração profunda, o cérebro do belo jovem trabalhava sem cessar, num emaranhado complexo de variantes e sub variantes, para resolver o problema do lance f 5 !
Passados uns bons 25 minutos, o rosto do jovem regressa do mergulho profundo no tabuleiro e, com elegância a sua mão move o seu miraculoso bispo para a casa do cavalo 14... Bb8!


Agora é a vez de o nosso homem se enredar nos meandros do cálculo de variantes. Ele sente a sua posição muito superior, quase ganhadora, mas o seu cérebro, não tem já a mesma frescura, a sua memória visual vai-lhe dando buracos e falhas aqui e ali. Por vezes dificuldade em ver a posição final nas análises e...ele hesita! Ou... destruir a posição dos peões na ala de rei, ou... reforçar o ataque com um lance simples de desenvolvimento do bispo de dama. Olha o relógio e, o tempo "esse grande escultor", do xadrez e da vida, avança inexoravelmente e a primeira hipótese é a escolhida 15. f x g 6 

Nesse mesmo momento o jovem sorri e com uma rapidez impressionante joga 15... Cd x e 5! O velho mantêm-se impassível, mas as suas orelhas ficam ligeiramente ruborizadas. Sente que o seu jovem adversário tem fibra de grande campeão! Mas se ele tinha fama e grande renome de atacante, tinha de fazer tudo para o manter! Era o que se passava naquela cabeça, quando jogou a sua torre a atacar a dama negra 18. Tf1, um lance "natural" de ataque.


Pela primeira vez em toda a partida, o jovem jogador agitou-se na cadeira, ajeitou uma pequena madeixa de cabelo que se tinha desprendido do seu penteado seguro a brilhantina, e durante breves minutos confirmou aquilo que já tinha descoberto nas complexas análises ao seu 15 lance, ou seja, as consequências do lance da torre branca a f 1 ! Tinha "rezado a todos os deuses" que o velho jogador o jogasse, em vez do simples 18.Bd2, que lhe daria ligeira vantagem e muita partida pela frente! A uma velocidade de raio, 18...Cg4! foi jogado, o lance anotado e com a convicção dos justos, o jovem reclinou-se na cadeira.
As brancas perderam-se numa reflexão intensa, para compreender que estavam perdidas! Sim a sua experiência, dizia-lhe que estava perdido! A sua posição iria ruir como um castelo de cartas. Jogou os restantes lances "à mão" e, ao jogar o seu 26.º , o velho parou o relógio e cumprimentou o seu adversário.


Na sala de análises, os dois jogadores mostravam o curso dos seus pensamentos, das suas concepções, da sua visão analítica da partida. O jovem conhecia bem quem ali estava...um dos melhores jogadores da História do Xadrez e , na despedida, o respeito por este extraordinário jogador tinha crescido dentro de si, sim, porque ele sabia quanto lhe devia, no seu desenvolvimento e seu crescimento artístico e estético do xadrez.


O Velho, não tinha dúvidas! Foram muitos anos de tabuleiro, para perceber que o jovem que se afastava tinha estofo de campeão...talvez mesmo de Campeão do Mundo!


Estava triste e angustiado. No Hotel, RUDOLF SPIELMANN retirou-se solitário para um canto de luz mortiça e afundou-se numa poltrona.
Não! Não estava incomodado com a derrota com o jovem estoniano PAUL KERES! Sabia que o seu tempo de cavaleiro do tabuleiro e grande campeão tinha passado. Era o tempo dos "jovens lobos" se afirmarem e adicionarem páginas novas a esse interminável livro da História do Jogo de Xadrez!


A sua depressão e o seu medo, tinham razões incontornáveis! Aqui sim, tinha medo...medo pela sua vida, pela vida dos seus familiares, de milhões de judeus, e centenas de jogadores xadrez, porque...ele sabia que a "grande , porca e desenvergonhada besta" do Nazismo se aproximava a toda a brida, para esmagar corpos e almas!

 

Spielmann R - Keres P [C11]
07, Noordwijk aan Zee 07, Noordwijk aan Zee, 1938
[Paul Keres]
1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cc3 Cf6 4.e5 Cfd7 5.f4 c5

Nesta época a e4 eu replicava quase sempre e5, todavia elegi a Defesa Francesa, por um motivo psicológico.Naquela altura Spielmann tinha publicado uns estudos sobre esta variante, concluindo que as brancas obtinham vantagem, aliás como demonstrou contra Vera Menchick em Hastings (1937-38) e contra Schmidt neste mesmo torneio.
6.dxc5 Cc6 7.a3 Bxc5 8.Qg4 g6
 Isto é uma novidade. O habitual era 8...0–0 9.Cf3 - Cd4 10.Bd3- f5 11.Dh3 -a6 com a ideia de b5 e se as negras parecem ter um jogo razoável, a verdade é que as brancas ficam com chances de ataque no flanco de rei, o que evita com o lance da partida
9.Cf3 a6 10.Bd3 b5 11.b4 Necessário, apesar de criar uma debilidade branca em c4, porque não se pode consentir o avanço b4 negro. 11...Ba7 12.h4 h5 13.Dg3 De7? Imprecisão, que permite a Spielmann iniciar um perigoso ataque. Como 14.B xg6 ainda não era uma ameaça, devido à resposta negra 14...Tg8, as negras deveriam ter jogado 13...Cd4, ou mesmo 13...Dc7, tendo em mira o peão de rei branco. 



14.f5! Esplêndido golpe táctico, com o qual se inicia um violento ataque, que se levado correctamente a cabo, dificilmente as negras se salvariam.  


14...Bb8! Única jogada! Lance defensivo, no qual as negras centram as suas esperanças. Contudo as coisas são mais complicadas do que parecem.




 [14...Ccxe5 15.Cxe5 Bd4 16.Cc6 Bxc3+ 17.Rd1 Df6 (17...Df8 18.Dc7) 18.Bg5+- Dg7 19.Dd6 vantagem decisiva-]

15.fxg6? Este lance mostra que Spielmann não se encontrava em forma, já que não aproveita a oportunidade para continuar o seu perigoso ataque:

A-  [15.fxe6? Cdxe5;
B-  15.f6? Dxf6;
C-  15.Bf4!! gxf5 (15...Cdxe5 16.Cxe5 Cxe5 17.fxg6 Cxd3+ 18.Dxd3 Bxf4 19.g7 Tg8 20.Dh7+-; 15...exf5 16.Bxf5 d4 17.Be4‚) 16.Bxf5 exf5 (16...Cdxe5 17.Cxe5 Cxe5 18.0–0–0!‚) 17.Cxd5 De6 18.0–0–0 Ce7 (18...Dg6 19.De1!) 19.Cxe7 (19.Cg5 Dxd5 20.Txd5 Cxd5 21.Te1‚) 19...Dxe7 20.Cd4 Cxe5 21.The1 f6 22.Cc6‚]

15...Cdxe5! O ataque branco fica como que desarticulado, pela ameaça de 16...Cxd3. Será que haverá maneira de as brancas se oporem ao contra jogo negro?
16.gxf7+ Dxf7 17.Cg5 [17.Df2 Dg7!] 17...Df6 


18.Tf1? Um colapso psicológico! Não é fácil passar a defender, depois do fracasso de um ataque. A jogada da partida perde uma peça, sem compensação. Ainda se podia opor alguma resistência às negras. Como? 



[18.Bd2! Cxd3+
a) 18...Cd4 19.0–0–0! Cc4 (19...Cg4 20.De1 Cf2 21.Tf1) 20.De1 Cxd2 21.Cxd5!÷ Confuso;
b) 18...Cg4 19.Df3 De5+ 20.Rd1! Tf8 21.Bg6+ Re7 22.Cf7÷ Confuso;
c)    18...Cc4 19.Df3 De5+ 20.Rd1 Cxd2 21.D7+ Rd8 22.Rxd2 Com boa posição;
d)   18...Cc4 19.Df3 Be5! 20.Dxf6 Bxf6 Esta a melhor variante para as negras, que conservam a sua vantagem, todavia, as brancas teriam chances de salvação.;
19.Dxd3 Ce5 20.Df1 E as negras têm de se conformar "apenas" com um final favorável]

18...Cg4! 



19.Df3 Dxc3+ 20.Rd1 Dg7 [20...Dxa1 21.Df7+ Rd8 22.Cxe6+ Bxe6 23.Dxe6 Ce7 vantagem decisiva–+ Também era possível jogar esta variante, mas as negras limitam-se a gerir a peça de vantagem.] 21.De2 Tf8 22.Txf8+ Rxf8 23.Cxe6+ Bxe6 24.Dxe6 Cf2+ 25.Re1 Cxd3+ 26.cxd3 E as brancas sem esperarem a resposta, abandonam. Uma partida interessante, mas não isenta de erros mútuos.(Comentários de Paul Keres) 0–1



( a continuar )

© Arlindo Vieira











31/03/11

História do Xadrez.Reflexões…à laia de Preâmbulo.

Tenho viajado muito. Gosto mesmo muito de viajar. Pelos livros de xadrez subentenda-se. Semanas e meses de viagem em determinados livros de xadrez para os não perder, parafraseando a ideia de Pessoa da perdição de um país numa viagem.


Não gosto de viajar de férias num livro de xadrez, num grande livro de xadrez. Nestes, assenta-se arraiais, estaciona-se, goza-se o lado da sua beleza, a solaridade da sua escrita, aprecia-se o lampejo da grande escrita, da capacidade de dedicação do autor ( ao tempo sem Fritz, Rybka e afins) nas análises, comentários, ou mesmo, adivinha-se a necessidade centrífuga e megalómana de um grande jogador se posicionar, ou mostrar ambição desmedida por um objectivo. “My Chess Career” de Capablanca, “Dreihundert Schachpartien” de Tarrasch, ou o “Izbrannye parti mezdunarodnovo turnira v Karlsbade 1929” de Nimzowitsch, são livros extraordinários, exemplares, relativos a este último ponto.

Assim, e sem qualquer explicação, costume ter “ataques” estranhos e abandono tudo no xadrez, para no Xadrez, partir num apego e afã profundo na rota de um Torneio histórico, de um Jogador esquecido do passado, de umas certas peças de xadrez especiais que me fascinam. Semanas e meses imerso em livros, em fotocópias, em CD, em revistas e livros de época, em fotos, sempre com a ajuda preciosa de um OCR como o Aby Fine Reader ( passe a publicidade) e de um Power Translator sempre prestável. Semanas e meses em que vou escrevinhando notas, guardando “words”, fabricando pastas, até ter um todo coerente que se leia.


Por vezes a poderosa força da viagem, leva-me a salões luxuosos de Baden, ou a Cambridge-Springs em 1905, quando não um saltinho a Ostende do princípio do Século XX, ou a um um pobre quarto na Suécia, onde um enorme e fabuloso jogador de xadrez literalmente morria de fome e abandono!

Um dos famosos blocos de notas de Ernst Grunfeld (Tinha arquivos organizados por aberturas, partidas, etc - Um dos 1ºs grandes teóricos organizados do Xadrez?)


Depois, depois há a descoberta, a descoberta de factos, de detalhes, de partidas de xadrez que não gozam da tinta impressa dos livros de xadrez, que não são de antologia, de cátedra mas que são jóias fulgurantes em baús poeirentos de esquecidos sótãos xadrezísticos. Outras vezes de jogadores que não sendo Campeões do Mundo, ou nomes poderosos de uma segunda linha, tiveram uma vida tão rica, tão intensa, tão apaixonada pelo xadrez, mesmo não sendo profissionais, que abismo com a qualidade do seu jogo, com a capacidade de luta no tabuleiro.


Por vezes partilho com a comunidade xadrezista , por vezes não. Sei do pouco interesse que este tipo de Xadrez, de História do Xadrez tem na maioria dos jogadores de competição, mais ligados a variantes, sub-variantes, sub-de-subvariantes, bases de dados, torneios actuais, ou mesmo a sordidez da vigarice no Xadrez, seja no tabuleiro ou colaterais. No mundo actual do descartável, do imediato, do aqui e agora, do “fast” qualquer coisa, se calhar com razão, a grande maioria dos xadrezistas do mundo preferem o “produto do dia”, o Elo, o título honroso do “rapidinhas-mor de sábado à tarde”, ou “o maior do seu clube – quando não está lá ninguém”, ou mesmo o seguir on-line partidas de torneio de grande renome em que as partidas terminam em empates (combinados?) medrosos-merdosos, ou erros garrafais.


Sorte deles, azar o meu, que sou mais para o tântrico xadrezístico ( sim, que estavam à espera? Isto de prazos de validade também se vai perdendo! Ah! Ah!), o arqueológico, o memoríalisto. Vinte e sete anos em cada “gambiarra”, uma barriguita a tapar “abono de família” já vão pedindo meças a excessos e pretensões.

Quem me conhece e os meus escritos na Luso Xadrez sabe dos enormes artigos sobre Spielmann, Bohatirchuk, Kasparyan, Simagin que me consumiram tempo, visão e saúde “colunal” , tudo pelo prazer do xadrez, de um certo xadrez que poucos partilham.


Nestes últimos meses várias viagens, envolvimentos demorados em torneios históricos, principalmente três, tão apregoadas, tão citados em antologias de partidas e tão mal conhecidos! Carlsbad 1907 , S. Petersburgo 1909 e S. Petersburgo 1914. Confesso que os dois últimos devido a Emanuel Lasker, o meu jogador preferido de todos os tempos.


Centenas e centenas de partidas reproduzidas, leituras de fio a pavio sobre esses torneios nos próprios livros dos mesmos, confronto de comentários e variantes em vários livros e bases de dados, das partidas mais importantes, reeleitura de capítulos referentes, nas biografias dos jogadores que participaram nestes torneios, leitura de revistas e livros de época, pesquisa em livros russos afins e por aí fora. Digamos em Português sumário que uma “doideira”, uma canseira de alguém que não deve estar bom da mioleira. Mas estou, e dá-me um prazer enorme este trabalho.

(Karlsbad 1907 - Dois enormes jogadores...adivinhem)

Não é todos os dias que se pode estar com Lasker, que se pode ver o olhar altivo e confiante de Capablanca, o cofiar da barba do “velhote da Negra Morte”. Por vezes, como no filme de Vsevolod Poudovkine, estou como espectador do lado de lá da corda que separa as mesas dos espectadores, outras vezes salto o cordão de segurança e no meio da fumarada da charutada de D. Emanuel, ou dos fartos cigarros de Blackburne, lá vislumbro aquelas peças magníficas movidas por cérebros fabulosos que produzem obras d’arte de uma beleza para sempre.


O desânimo a seguir.

Para quê e Por quê e com quem partilhar esta paixão? A quem interessa isso? Nem o “basta um ler e estarás justificado”, me atenua este sentimento do que se perde quando voluntariamente se ignora por ignorância. E se para muitos não interessa até “porque nunca serão emparceirados com estes “gajos” e como tal não terão de estudar (?) as partidas em bases de dados, para outros, poderia ser o reganhar do interesse pelo xadrez que sentem os ir abandonando por “dirigíveis” incompetências, por clubes tasqueiros ( honra às tascas) e como tal, vão mudando de “amante” seja ela o King, o Póquer, ou o Bridge. ( era giro que alguém escrevesse sobre esse fenómeno que está a acontecer no xadrez português-alguns dirigentes de clubes desunham-se para arranjar jogadores para as equipas, porque as outras amantes não deixam!).


Desânimo também com os sites de xadrez que abordam a História do Xadrez, sejam biografias ou Torneios. Reproduz-se até à náusea as mesmas partidas, as mesmos Wiki-bio, as mesmas banalidades, os mesmos erros.


Qual o interesse de colocar no Xadrez Memória uma milionésima versão da biografia de Capablanca? As diversas análises de Kasparov-Topalov, copiar trivialidades que se já mentira eram, a virtualidade propago-as como verdades, tornando-as mais mentirosas?


Qual o interesse de escrever larvares bacoradas que Alekhine, agrediu não sei quem, que determinado jogador se atirava da janela quando perdia, que Morphy tinha centenas de sapatos de mulher que dispunha em círculo e os olhava durante horas, ou que o mesmo Morphy morreu completamente louco, ou que Alekhine perdeu o match de 35 com Euwe por jogar completamente embriagado? Vou “Hannakizar” a perda da partida de Lasker perante Bernstein em S. Petersburg 1914, devido a não ter visto a mulher na assistência e ficar preocupado a tal ponto da dádiva de material ( Nem o Lasker merece, nem a Marta era um “vamp” fugidia!)? . Porquê mostrar uma foto de Rubinstein em Ragosa Slatina com o relógio do adversário a contar e ele sentado, contestando que o homem se levantava logo após realizar a jogada e ia para um canto ( até já li…a falar sozinho!!)


Para quê? Se tenho o David Lawson vai para anos, se li o Euwe do Munninghoff, ou os dois Rubinstein de Donaldson e Minev, e tantos outros vou transformar o meu blogue no “cabaré da concha”?


Não serve, nem servirá para isso o meu Xadrez Memória. Quando estiver mal disposto , talvez coloque aqui uma lista de sites que vivem deste “stuff”, desta trivia, deste falso “chibar” do xadrez sem qualquer fundamento histórico. Não me chamo Wall, Schiller, Pandolfini, ou afins.


A minha escola de leituras e a minha paixão pelo xadrez foi-se formando entre outros com Edward Winter, Vlastimil Fiala, Michael Ehn, Lissowski, Richard Forster, Jimmy Adams, Jeremy Gaige (recentemente falecido), Ken Whyld, Isaac Linder, Voronkov, Kasparov dos Meus Predecessores, Znosko Borovsky (admirem-se!) Dvoretsky, e sobretudo esse maravilhoso não historiador do “romance verdadeiro” Genna Sosonko (algum dia explico esta expressão de Paul Veyne que aplico a Sosonko – Não, nem tudo é verdade na dignidade com que escreve e quer dar de alguns jogadores! Botvinnik era muitas vezes um crápula, Tal não era a personagem angelical que se quer dar ao mundo, o artigo sobre Livitina mostra-esconde em certos aspectos uma mulher execrável, e quase consegue convencer-nos da bondade de um miserável como Baturinsky, ou de um certo vendilhão chamado Gufeld! O que Sosonko quer esconder, quase criptografado vem ao de cima! Agora, quando este homem escreve sobre Bagirov, sobre Lutikov, Keres, Koblenz, Levenfih, Vitolinsch, Ruban ou Kholmov, atinge o grau de Mestria de Humanidade).


Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Assim no futuro um ou outro artigo sobre grandes torneios e o início da colocação neste blogue das minhas peças de xadrez, em fotos decentes. Tudo para vos causar inveja! Claro! Mas também para vos mostrar que para comprar belas peças de xadrez, não é preciso gastar mais de 100 Euros, nem ser “pato bravo”. Estou numa fase em que procuro peças de torneio, ou suas réplicas aproximadas. Algumas surpresas engraçadas nos próximos dias.