XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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02/05/20

GRUPO XADREZ DO PORTO 80 ANOS!

Um Vídeo simples, sem efeitos "PXTO" só para mostrar a minha afeição por este Clube único no panorama xadrezista nacional, e se calhar, internacional.
Imagens de uma vida, de um património, de um capital humano e memorialistico como poucas no que diz respeito ao xadrez.
Tomara eu que outros Clubes tivessem preservado os testemunhos históricos do passado, que muito do património não tivesse sido pura e simplesmente delapidado ( para não usar o termo "roubado"), que os dirigentes tivessem como fio condutor da sua ação a preservação de atas, bibliotecas, material de jogo, folhas de partidas. Quase nada. Fico por aqui na minha amargura, que já nem o é bem: é mais um sorriso irónico, quase desprezível por este Xadrez nacional paupérrimo, pelo menos no que à sua História diz respeito. Opinião minha, claro!


07/03/17

João de Moura 2

Com a preciosa e sempre por mim agradecida ajuda do Mestre Cordovil, aí vão as páginas que a revista "Xadrez Actualidades, Cruzadismo Bridge" no seu nº1 dedicou a João de Moura. Aliás esta excelente revista teve uma vida curta, apesar das suas excelentes intenções e colaboradores, no que infelizmente não desmereceu de muitas outras e louváveis tentativas editoriais ligadas ao xadrez português, quase todas de perene fenecimento. A entrevista foi conduzida por Álvaro Pereira e Ana Diniz (no concerne ao Bridge). Acreditem que vale a pena ainda hoje refletir sobre algumas verdades intemporais do xadrez português, tão certeiramente apontadas por João de Moura.

 






 




Uma Notícia de Vasco Santos na Revista Stadium sobre a sua vitória no Torneio de Mestres


E talvez aquela que seja a sua melhor partida: a vitória sobre Pomar no Torneio Internacional do Estoril em 1950 





23/11/16

JOÃO DE MOURA e UMA TAÇA



Um troféu. Uma simplicíssima e pequena taça. O ano estampado na quase identificável gravura que a identificava. Vi-a num destes leilões online quase dada e foi logo enamoramento. O anúncio só dizia taça de xadrez. Pelo zoom  da fotografia, e antes de uma limpeza, percebi que tinha a ver com FEDA (Federacion Española de Ajedrez). Depois sem surpresa , o ano longínquo de 1950, o Torneio Ibérico de Xadrez, a taça correspondente ao 4º lugar. Por acréscimo, a perceção de jogadores portugueses presentes, mas mesmo uma rápida pesquisa em sites espanhóis, nada. Bastou virar a cabeça para a estante de xadrez e pegar no livro que tinha comprado vai para anos sobre Pomar ( bela homenagem, diga-se, num belo livro “ Arturito Pomar , Una Vida Dedicada al Ajedrez”, de Antonio Manzano e Joan Vila, PaidoTribo), para ler que o referido Torneio vinha referido na sua  página 109, juntamente com uma partida entre Pomar e Lupi. Pelos participantes e classificação, fácil perceber a quem pertenceu a taça que agora na minha posse. Num torneio ganho por Medina com 5,5 pontos João de Moura tinha ficado em 4º lugar com Francisco Perez no 5º e como tal, seu este troféu. Os outros jogadores foram Pomar e Fuentes (2º e 3º), João Mário Ribeiro, 6º , Lupi, 7º e Jimeno 8º.




Resolvido o enigma. Caminhos ínvios e misteriosos estes ligados a pormenores da História do Xadrez Português a que sou conduzido por improváveis desígnios e cintilações surpreendentes. Outros me tem acontecido.
Como este pequeno troféu chegou às minhas mãos, qual o seu percurso de 66 anos até acabar num leilão online por menos de 10 Euros, daria outra crónica aliciante sobre a forma como em Portugal se desperdiça o património histórico xadrezistico português, seja por desinteresse, incúria familiar, seja pela arte de falcoaria patrimonial escaquística levada a cabo por falcoeiros-mor em determinados clubes de grande tradição no xadrez português (para só falar nesses). O que foi delapidado, desviado,“gamado”, “fanado”, “emprestadado”  em bibliotecas e afins de clubes, por passarinhos e passarocos, abutres e falcões mostra que de “feios-porcos e maus”, não se pode gabar só o Scola. 

Assim este pequeno artigozito de testemunho relativo a um bem forte jogador português , Campeão Nacional por três vezes ( 1940, 1951, 1952) , que alternava períodos de atividade com outros de completo afastamento do tabuleiro, que começou no Grupo de Xadrez de Lisboa, passou pelo Benfica para depois jogar no Grupo Desportivo da Costa do Sol ( e mais não sei, confesso…perdi as revistas da FPX a partir de 44), e sobre quem nunca vi (ou desconheço) um artigo de fundo, uma homenagem como deve ser pelo seu contributo para o Xadrez Nacional ( seja lá o que isso for!).
Assim aí vai, com fotos generosas para guardar, imprimir. O João de  Moura bem merece. Se alguém tiver algo mais sobre Ele (principalmente das RPX, ou outras publicações) agradeço contacto através deste blogue (para lhe enviar o meu mail). Desde já agradecido.









                                                      No G X Porto nos anos 50

                                                               Torneio de Mestres 44

                                                Simultânea no G X PORTO anos 50

                                                                          Da RPX 




 

26/02/13

VITOLINSH, ALVIS



Deveria ser em Letão "Vītoliņš", mas também aparece a forma "Vitolins". Não me interessa muito. Semanas com a leitura de Sosonko e, sobretudo com o livro  único ( Z. Lanka, Kengis, Klovans e Vitomskis)- editora de Carnikava) sobre este grande jogador que apenas conseguiu o título de MI!. Passei e repassei centenas de partidas de Vitolinsh e, algumas são de uma beleza fulgurante, de uma concepção de xadrez de puro deleite de ataque.
Também não me interessa mesmo nada uma biografia curta e simplista das que existem (poucas) na Net  ou repetir à exaustão o que tão bela e sentidamente escreveu Genadi Sosonko sobre Alvis no seu maravilhoso " Russian Silhouettes". Apenas divagar, apenas o que me foi surgindo num fim de tarde chuvosa num recôndito café vazio e esquinado do Porto. Durante horas estive numa ponte de caminho de ferro em Sigulda. Vislumbrei ao longe um drama de alguém que consumaria fisicamente a morte interior já assumida .
Não sei se é leitura fácil ou não, se isto interessa á celebérrima comunidade xadrezista portuguesa, e qual o grau de conhecimento sobre este enorme jogador letão e as suas formidáveis partidas de ataque. O prazer de revisitar as partidas de Vitolinsh comentadas magnificamente por ele ou por Zigurds Lanka, valem tudo.
No final, um vídeo que coloquei no You Tube.



Madrugada fria, gélida em Sigulda. No meio do esbranquiçado do dia a querer romper os primeiros raios de sol pediam permissão para entrar.


Resoluto, longilíneo de silhueta torre, bamboleante no seu andar característico começou a percorrer a ponte de caminho de fim. Num estado de semiconsciência caminhava para um ponto não definido algures a meio da ponte. Seria aí que se cumpriria o destino, que o relógio pararia, que o Rei tombaria sem estrépito num derradeiro "abandono".


Vazio, completamente vazio. Nem o desespero já o era. O nada absoluto de nada valer a pena. Um gelo interior inominável, mais frio que a massa branca que se vislumbrava nas alturas de precipício da ponte sobre o rio Gauja.


Tudo terminado. Ou não. Ainda faltavam aqueles metros finais até ao indefinido ponto onde tudo se consumaria. A seta do relógio da vida elevava-se perigosamente até ao nível onde o tempo de perda equivale à queda em baque surdo e ciciado de uma seta de um relógio de xadrez. Decisão de segundos, de presenças, de um estar para um partir de não estar sem retorno. Hálito quente de morte anunciada ainda em bafo de respiração.


O fora do corpo dele vazio no vazio do corpo adentro. Inerte, tudo inerte nele, quase já não ele. Cavalo bravio, galopante,  o seu cérebro era agora escoiceado por rápidas, fugidias, meteóricas passagens  em tumultuosa cascata.


A vida num relance, a cabeça já separada de um corpo in sentido. Os amados Pais, a sala do seu amado Clube em Riga onde passava dias e noites, o seu querido amigo e mágico "Misha", o seu primeiro treinador, e até na névoa, Karen Grigorian lhe parecia acenar. Parecia ver, mas sentia que não via. Teatro de sombras que se desenrolava nesse ligeiro caminho. Tudo presente mas sem os definidos, exatos contornos, como se à distância em não percetíveis manchas de cor.


O caminhar de olhos fixos de um olhar nimbado de um penetrante e insondável infinito. Olhos estupefactos de milionésimos de segundos de clarividência. Olhos de imagens mais velozes que luz sem brilho de impossível alcance, olhos de intensa avidez de um fulgor de vida a esvair-se.


Já não aqueles malditos medicamentos que o prostravam, que lhe tiravam a vontade de jogar as suas peças para b5 ou f7, que lhe tolhiam a emersão nesse lago sagrado da beleza do cálculo, da incerteza desta ou daquela variante. Já não aquela lassidão mortal que o transformava quase em estátua, quase em peça a mais fora do tabuleiro sem existir promoção. Já não aquele colete-de-forças que lhe manietava corpo e alma e lhe tirava o prazer, a agitação, o vulcão que sentia frente ao tabuleiro.


Desde o fim da adolescência a sensação de cão raivoso a moer-lhe o cérebro, a mastigar ossos-restos da sua dignidade. Que era louco, perigoso, desajustado, ouvia sem compreender. Impossível colocar açaimo no seu cão bravio. Era ele que lhe trazia a criatividade, aquela luz especial que sentia quando sacrificava peça sobre peça até ao abandono do Rei adversário, aquele estado hipnótico de dias e noites sem dormir no seu clube, na procura da verdade da sua variante. O absoluto, sempre essa alquímica procura de verdade no tabuleiro que ele acreditava alcançar pelo esgotamento de possibilidades. Diziam que era impossível, ele achava que não. Enquanto pudesse franquear porta a porta, lance a lance, noite a noite, sonho a sonho as sucessivas portas da verdade do xadrez, continuaria .


Mas agora, até isso o tinha abandonado. Tinha dado tanto ao Xadrez e o Xadrez tinha-lhe dado tão pouco. A miséria mais absoluta, a solidão mais canina, o desconhecimento mais abjeto. Nem o reconhecimento dos seus pares que apenas entreviam nele o "estranho", o inadaptado, o teórico. Nem Grande Mestre de Xadrez quando pressentia que muitas das suas partidas eram obras de arte capazes de emparelhar com as maiores da história do xadrez. Não culpava ninguém, porque todas as horas da vida que perdeu, tinhas por ganhas pela força da beleza da descoberta, do alvoroço de uma novidade, do coração latejante de um mate anunciado. Perdia também, e isso derrubava-o por dias, mas encontrava alento no chicote do erro, na dor dilacerada do não visto, no passar ao lado uma análise e recuperava com nova descoberta teórica, com nova esperança de uma ideia nova ideia numa abertura, numa nova partida para a imortalidade e que podia ser no próximo amigável no seu Clube. 

Tanto deu ao xadrez. Xadrezviveu na entrega completa a um amor ingrato, de um só lado. Deixou tudo para seguir a Mestra que lhe pagou com a mais completa indiferença. Caissa não ama todos por igual.


Mas agora, nem isso lhe assomava ao espírito. Nada disso já lhe interessava. Gelado completamente, soterrado daquela massa branca que nem sequer cobre já o desespero.

Um último arremedo de sépia fez-lhe vislumbrar a mãe que o embalava em frágil berço de madeira, senteo afago nos cabelos do Pai que lhe oferece  o seu primeiro jogo de peças de xadrez, sente que daqui a pouco os vai ganhar aos dois outra vez, ouve uma melodia que em melopeia ascendente beija os seus ouvidos :Dzīves ūdens, nāves ūdens/Daugavā satecēja,/Es pamērcu pirksta galu,/ Abus jūtu Dvēselē,”


Meteu a mão no casaco sujo, velho e rombo e apertou com força o seu amado Bispo que tinha tirado do seu jogo de xadrez. Ao longe um comboio anunciava a sua futura presença. Parou, aspirou profundamente o ar frio e gélido de Sigulda e com a mesma determinação com que colocava o seu Bispo em b5, saltou.

Um som cavo, fundo, de quebrado gelo por corpo quente ouviu-se em eco nas funduras do rio Gauja. Amanhecia em Sigulda.


Encontraram Alvis Vitolins horas depois. Na  lívida e enregelada mão longilínea encontraram um Bispo de b5 que se tinha recusado abandonar Alvis. Tinham selado um pacto com a eternidade.



10/09/12

SPIELMANN, Rudolf "Melodia Inacabada" 2



Resolvera encerrar-se no quarto. Estava tudo terminado. Tinha desistido do mundo, como o mundo tinha desistido dele. 

Só! Completa e irremediavelmente só! Sem ninguém e abandonado por todos. Todos os seus planos de salvação por água abaixo. Não seria eliminado pela bestialidade nazi, tal como o foram as suas amadas irmãs Jenny e Irma! Tinha perdido tudo, menos a sua dignidade. Fora um campeão no tabuleiro de xadrez, seria-o agora no tabuleiro adverso da vida! Não seria essa náusea abjecta que galgava a Europa, que lhe daria xeque-mate! Abandonaria, isso sim! Mas com dignidade, senhor de si até ao fim! Quebravam-no, mas nunca o torceriam!


Só...caninamente só, na bela e amena cidade de Estocolmo, nesses dias de Agosto. Um quarto simples, estreito, de mobiliário sóbrio: uma cama, um guarda-fatos, uma mesa, uma cadeira e uma poltrona velha e descorada. Em cima da mesa, o inevitável tabuleiro de xadrez com as suas peças companheiras, que o acompanhavam desde a sua Viena natal.
Afundado na poltrona, uma caricatura daquele homem redondo, rosado, forte que tinha sido. Agora, um rosto magro, macilento, barba de dias, olhos enevoados e mortiços.



Olhou com olhar cansado e enfastiado as peças de xadrez na mesa à sua frente. Lembranças variadas afloraram-lhe ao espírito. Não! Não e não! Xadrez não! Que fosse para o inferno este maldito jogo! Tanto lhe tinha dado, tantas horas perdidas na dedicação louca àquelas pequenas e mágicas peças de madeira e aos seus encantatórios movimentos! Xadrez, não!
Mas como, se, uma catadupa de memórias cálidas, quase calmantes  começava a invadi-lo, contrapondo-se ao seu ódio repentino?


Xadrez, não! De que valeriam agora as memórias vãs de êxitos passados? Que tinha tido, a sua vida xadrezística de extraordinário? Tinha sido um campeão, um jogador reputado e respeitado, sim, mas...no deve e haver da vida, que peso na balança para o xadrez? Talvez pesado, demasiado pesado, uma espécie de cruz de um calvário nunca atingido! Apesar de tudo, algo dentro de si o fazia sentir redimido: a paixão louca que tinha tido por aquele jogo encantatório! Mas...que tinha ganho na prática?

Estava ali a paga de lhe ter dado o tempo, a vida, os sonhos! Ele, Rudolf SPIELMANN, só e abandonado num quarto minúsculo de Estocolmo estival.
Que tinha sido a sua vida pessoal? Xadrez, xadrez e mais xadrez! Por este feitiço, tinha sacrificado a comodidade de um lar, a alegria de ter filhos, o amparo de uma velhice reconfortada. O xadrez! Que estabilidade, que presença de afectos poderia ter dado a uma companheira, aos filhos, se o xadrez o tinha obrigado a viajar, a partir sistematicamente depois de chegar, a partidas de roupas limpas de ida e roupas sujas de chegada?
Não, nunca o quis fazer! Tinha-se sacrificado a uma deusa, não tinha o direito de obrigar outros ao mesmo sacrifício! O xadrez era para "lobos solitários" e ele, Spielmann, tinha escolhido como profissão de fé, o vaguear incessante, esfaimado e estonteado pelas mesas de xadrez dos grandes torneios, ao calor acolhedor da lareira e ao sorriso matinal das crianças.



Mas não! Xadrez não! Preferia recordar-se do belo rosto de sua mãe. Schlaf...schlaf...mein kinder! Uma longínqua cantilena de embalar, trouxe-lhe uma paz passageira. A voz cristalina da sua mãe Cacillie apaziguava-o menino, pacificava-o agora no seu sofrimento sem fim.
O rosto do seu querido pai Moriz Spielmann, visitava-o agora, trazendo mais alguma paz, à paz que ia sentindo! Em frente a um tabuleiro de xadrez, movia as peças serenamente, enquanto os olhos ávidos de menino fascinado procuravam perceber os objectivos dos movimentos paternos. Fora, ele, seu pai, que lhe metera o feitiço no corpo! O seu querido pai, o seu herói, mesmo quando já menino-prodígio lhe ganhava com facilidade! O seu querido pai, como bom judeu que era, que o queria como banqueiro ou matemático e, que sem saber, lhe instigou uma paixão e uma forma de vida para para sempre!



Agora, numa sucessão de imagens, qual animatógrafo, passeavam-se pelo quarto, num quadro estranho, os seus irmãos queridos. Leopold, grande pianista de mãos aveludadas, tocava um prelúdio de Bach, enquanto Jenny, Mellanie e Irma dançavam suavemente, perante o olhar zombateiro do Edgar, seu outro irmão!
Não, não fujam queridos irmãos! Demorem-se mais uns tempos! Preciso de Vós, dos vossos ancoradouros de ternura. Mas...



De súbito o rosto crispado, hirto, como se a imagem se desvanecesse, substituída por horrenda recordação. Toda aquela felicidade ceifada ao longo dos anos! A dor lancinante de ver a sua mãe desaparecer, o seu pai envelhecer na doença, até à despedida, o suicídio de Edgar, atacado por esquizofrenia, a morte súbita de Mellanie, o assassínio da sua querida Irma, num campo de concentração e o não saber de Jenny, também ela deportada!
Tanto tinha sofrido , para tentar salvar o que restava da sua família das garras da besta nazi! Tantas noites em claro, tantas depressões, algumas partidas perdidas, por impossibilidade de concentração e serenidade de espírito!



Em 1938, tivera a certeza que morrera para o xadrez! Tinha sentido a força de jogo abandoná-lo. Mas precisava do xadrez, já não pelo xadrez, pelo respirar do xadrez, mas para sobreviver e tentar salvar os cacos desfeitos de uma família. Nem isso tinha conseguido! Todos os planos falhados! Todos os contactos de costas voltadas! Todos os amigos Suecos a dizerem que sim, fazendo pela indiferença, que não! As esperanças da Federação Sueca, as palavras de Carl Levin, Erik Lundin e Olson, a não se concretizarem! Negaram-lhe uma simples comissão do "Larobok", tinha passado estes dois últimos anos da sua vida, a juntar notas e análises das suas partidas, a escrever a sua autobiografia, que teria o belo título de "Rudolf Spielmann, Memoirs of a Chess Master" , porque lhe tinham prometido publicação e dinheiro suficiente para emigrar para os Estados Unidos...mas nada! Tinham-lhe ficado com os manuscritos e entre evasivas e adiamentos , a sua esperança foi morrendo! Sabia que era Judeu, e numa Suécia ameaçada pelas botas hitlerianas, era um perigo potencial para quem o acolhesse, ou lhe mostrasse simpatia! Por isso, compreendia os silêncios compungidos, os afastamentos disfarçados, as amizades esquecidas dos xadrezistas suecos! Não lhes tinha rancor! A sua desgraça, não podia acolher rancor pelos outros.



Magoado, sim! Tantas injustiças! Que razões de queixa tinham dele, Spielmann? Alguma vez tinha cometido um acto de descortesia, de egoísmo, de vedetismo, em relação a algum colega de profissão e Mestre de xadrez? Porque o deixavam agora ali, “cão abandonado” os seus amigos suecos? Porque se perdiam as suas angustiadas missivas para amigos europeus, em silêncios de deserto?
Tinha dado tanto, que era quase tudo ao xadrez, e o xadrez correspondia-lhe com a total indiferença? Sim, sabia que o Mundo estava em Guerra, mas não era na mais terrível adversidade, que se devia mostrar a solidariedade mais profunda? Mas não! Sabia do egoísmo lendário, da celebérrima solidão do jogador de xadrez profissional!

Entregue a si próprio e ao que o destino lhe tinha reservado!
De nada valeram os mais de 100 torneios que tinha jogado, os mais de 50 "matchs" que tinha disputado, os milhares de simultâneas realizadas! Passado e memória curta dos homens e dos xadrezistas!



Mas não! Xadrez não!


Que o feitiço o abandonasse, mesmo agora, no seu abandono final! Como uma doença...nem agora, nem nunca, tal como as derrotas o obrigavam a noites em claro, nos seus momentos de glória!
Impossível! A sua memória alucinada, revia numa rapidez de relâmpago, os momentos marcantes da sua carreira: as belas partidas dos seus 6 prémios de beleza, as vitórias sobre os génios Capablanca e Alekhine, as batalhas titânicas com o seu amigo Rubinstein, a alegria das suas grandes vitórias em Teplitz-Schonau 1922 e em Semmering 1926, aqui à frente do grande Alekhine, por um ponto, o excelente 2.º lugar de Carlsbad 1929, empatado com o sublime Capablanca e... e...


Recordações vãs! De que tinham valido triunfos, honras, epítetos de  "rei dos gambitos", "último cavaleiro do Gambito de Rei", "último romântico" com que fora mimoseado? Na mais completa solidão! No mais soturno abandono!

 
Que lhe interessava viver? Tinha perdido tudo que mais amava! A Suécia, perto da conquista nazi, e, talvez quase como certeza, o mesmo destino para si, das suas queridas irmãs Jenny e Irma! Arruinado, a viver de réstias de caridade e compaixão de muito poucos, aprisionado, sem possibilidades de fugir para a pátria da esperança e liberdade, os E.U.A o que lhe restava?


Tanto se tinha humilhado! Ele Rudolf Spielmann, um dos maiores jogadores de ataque de todos os tempos, obrigado a jogar à defesa, dobrado pela necessidade de mendigar apoio e segurança ao seu amigo Collijn, para fugir de Praga, e receber abrigo na Suécia em 1938, já depois de ter sido escorraçado da sua Austria Natal!

"Espero que AINDA OCUPE ALGUM APREÇO EM SI; PARA SE DIGNAR ACEITAR um curto relato da minha situação. Fui exilado para sempre da minha pátria, estou privado da liberdade de viajar. Nenhum dos países europeus me deixará entrar com o meu passaporte austríaco. A única coisa que ainda me vai agarrando à vida é a esperança de arranjar um refúgio seguro e um trabalho relacionado com o xadrez. Não será possível ajudar-me como me ajudou em 1919 (Primeira Guerra) arranjando-me algum trabalho de xadrez em Estocolmo, ou em qualquer outro lugar na Suécia? A Suécia será para mim um trampolim para ir para a Inglaterra ou os Estados Unidos da América.
IMPLORO-LHE QUE NÃO ME DEIXE NA MISÉRIA E ME AJUDE A ENCONTRAR UMA FORMA DECENTE DE VIDA. Posso viver na mais humilde das condições, se puder encontrar alguma ocupação. O anti-semitismo sente-se fortemente em Praga e faz com que VIVA NA MISÉRIA".

(Stoltz, Lundin e Spielmann Estocolmo 1930)

O seu amigo e patrono Collijn , ouviu o seu apelo desesperado de Praga e ajudou-o! Mas o seu falecimento, deixou Spielmann em "terra incógnita". O que se passou a partir daí, prefere esquecer.


Estaria a pagar por pecados que não cometeu? Tinha ao longo dos seus 59 anos de idade, procurado ser justo, parcimonioso, equilibrado nos seus juízos, nas suas apreciações, nas suas referências. Que lhe censuravam? Que se lembrasse, nunca tinha tido uma palavra menos elogiosa, para quem sentia que lhe era superior ou não, no tabuleiro! Lembrava-se claramente de um artigo que tinha escrito sobre o gigantesco Lasker para uma revista de xadrez:

"As partidas de Lasker são uma fonte de prazer. As suas partidas são mais profundas do que as de qualquer outro jogador. Joga sem medo, sempre preparado para a luta e, isto, é um sinal de verdadeira grandeza.
Lasker! Os seus olhos de águia, os seus pensamentos, estão em toda a parte. Falo por experiência própria. Frequentemente analisei com ele, mas o resultado era desencorajador. Sempre que descobria uma bela ideia, ou combinação, Lasker imediatamente a recusava, porque no seu pensamento, na sua análise, já há muito tinha entrevisto variantes e sub-variantes, e como tal optado por outra alternativa.
Espero sinceramente que mantenha o seu poder e grandeza por muito tempo e, que tenha a possibilidade de coleccionar mais triunfos aos muitos que lhe honram o passado!".


Também se lembrava do que tinha escrito em 1935, sobre o novo campeão do mundo Max Euwe, quando sobre este se levantavam as mais infames insinuações, sobre a justeza do seu título:

" Em primeiro lugar , quero expressar a minha alegria e admiração pelo facto de o trono de xadrez, passar a ser ocupado não só a um admirável  Mestre, mas também a uma personagem íntegra e empreendedora no xadrez. Não interessa discutir se a força do novo campeão do mundo se compara ou ultrapassa a dos seus antecessores, Lasker, Capablanca, ou Alekhine! O que interessa é sabermos que Euwe é um verdadeiro, cavalheiro, gentelman do tabuleiro e de espírito, de bom coração, que sempre lutou honestamente para alcançar a mais alta posição no mundo do xadrez".

(Spielmann-Gilg 1926)

De que o acusavam? Que lhe censuravam? De que se lembrava ele próprio, que o tivesse envergonhado? Nada! Não se arrependia de nada! Nem sequer da inteligente e dura carta pública a Alekhine! Sim! Num mundo do xadrez em que Alekhine tinha o poder de boicotar qualquer jogador, em que se recusava a pôr o seu título em jogo contra adversários que ele sabia em momentos de forma suprema e, como tal, perigosos para a sua hegemonia, ele o simples , humilde e pacato Spielmann, tivera a suprema ousadia de afrontar educada, mas ironicamente o grande Alexandre Alekhine!
Os comentários, os remoques maldosos, a inveja escondida ou declarada, ou os apoios envergonhados e medrosos de outros mestres, conhecera-os bem, mas a verdade é que só ele o fez! E fá-lo-ia outra vez ! Tinha um sentido inato de justiça, de solidariedade, de noção de bem comum, de pertença a uma comunidade xadrezística, que não podia viver na dependência da vontade, dos temores, dos complexos de superioridade de um Alekhine, mesmo sendo este, o Campeão do Mundo, e, um dos jogadores mais extraordinários que o jogo tinha conhecido!


Não tinha sido por ele, Spielmann, a carta, como maldosamente alguns sugeriram! Ele sabia o seu lugar na hierarquia do xadrez! Sabia combinar maravilhosamente, tão bem como Alekhine, mas não tinha a capacidade de levar as posições até essas possibilidades combinatórias, como o tinha o extraordinário Alekhine! Estava a léguas da profundidade estratégica e de visão posicional de um Capablanca! Não tinha nem um décimo da arte da defesa e força psicológica de um Lasker, jamais conseguiria a mestria artística e de arte de relojoaria do seu amigo Rubinstein! Mas do seu pai, aprendera o sentido de justiça, de equilíbrio, de visão multiplural dos problemas, do sentido de pertença a um grupo, a uma arte, a uma comunidade! Não tinha sido por ele! Mas a recusa da desforra a Capablanca, como antes, as exigências dolorosas a Rubinstein, ou os boicotes a jogadores como Nimzowitsch, ou mesmo ele, Spielmann, tinham-lhe criado um estado de indignação, que se consubstanciou no referido documento! Embora Alekhine, nunca lhe tivesse respondido pessoalmente ou em artigo de imprensa, sabia que pelos olhares, pela frieza do trato, que este jamais lhe perdoaria, todavia, tinha por si a serenidade da razão, o espírito livre do justo. Recordava agora o que tinha escrito, a ousadia que tinha posto o mundo xadrezístico boquiaberto, pela coragem, audácia, para uns, desplante, azedume para outros:


"EU ACUSO!"

Talvez, seja uma grande surpresa para si, senhor "CAMPEÃO DO MUNDO”, o meu descaramento, que nem sequer tem em consideração as alturas do seu trono. Todavia, “ EU ACUSO”.

Obviamente, não ao seu jogo genial, ao qual como apaixonado do xadrez, só me pode maravilhar. Não. A minha acusação não é dirigida ao CAMPEÃO DO MUNDO, doutor Alekhine, mas ao colega doutor Alekhine. Porque, apesar dos seus prodígios xadrezísticos, acabamos por ser seus colegas de profissão, que ao fim e ao cabo, vossa excelência precisa para realizar as suas proezas imortais.

Um provérbio antigo diz “ A RIQUEZA É UM PUNHAL PRECIOSO, NECESSÁRIO PARA CORTAR PÃO, MAS DISPENSÁVEL PARA FERIR”. Os seus antecessores: Steinitz, Lasker, Capablanca, acreditavam neste provérbio e exigiam nos grandes torneios magistrais, as melhores condições para todos os jogadores. Certamente não se ofenderá se eu examinar os fins com que vossa excelência tem usado as suas armas cortantes de CAMPEÃO DO MUNDO. Tente compreender que não é a inveja que me move. Seria o último a opor-me ao seu legítimo direito, conquistado com grande trabalho. Em todos os domínios da vida, as melhores prestações são amplamente recompensadas: Porque não há-de ser assim no xadrez?

Todavia , tanto em San Remo 1930 como em Bled 1931, para além dos honorários extraordinários, vossa excelência impôs condições especiais e assim “praticamente” conseguiu eliminar Capablanca destes torneios. Naturalmente não o eliminou directamente, mas escolheu um procedimento mais fino, oculto, que não muda absolutamente nada a essência dos factos, e, que eu como perito, não quero deixar de analisar. Deverá Capablanca expiar tão duramente a sua vitória em Nova Iorque 1927?

Mas esqueçamos o passado, já enterrado, e, falemos de Nimzowitsch, que deverá ser, depois de você e de Capablanca, o mestre mais cotado na actualidade. Não acha estranho que ele não tenha recebido convite para o torneio de Londres, nem para o de Berna? Pelo menos para si, seria fácil, estabelecer as condições mínimas para que os convites lhes fossem dirigidos. Como licenciado em leis, não lhe será estranho, o “dolus eventualis” , tenho a certeza.

Não chega. Até eu, pobre jogador de xadrez, parece que me tornei em adversário “indesejável”. Não existe outra forma de explicar o meu súbito afastamento de Berna, para além, de há dois meses para cá, deixar de receber com regularidade convites para torneios, e, os que recebo, não o serem espontâneos e de boa vontade.

O comité de Berna decidiu surpreendentemente e depois da sua confirmação tardia de presença, que um mestre internacional se converteria automaticamente em “supranumerário”.

OS MEUS PARABÉNS PELA SUA EXTRAORDINÁRIA INFLUÊNCIA. Que poder mundial, para além daquele que lhe advém de ser CAMPEÃO DO MUNDO, pode impedir a Federação Suiça de Xadrez de convidar sete em vez de seis mestres de xadrez? Já agora, meu caro CAMPEÃO DO MUNDO, convide os seus adversários com frequência, já que assim poderá obter triunfos mais reluzentes, pois se não o fizer os seus triunfos serão confundidos com a DESVALORIZAÇÃO DO MUNDO DO XADREZ; baixe o seu ceptro, de contrário terei de lhe lembrar a palavra bíblica do Profeta Isaías, retomada por S. Marcos: “ QUEM SEMEIA VENTOS; COLHE TEMPESTADES”.

O recipiente está cheio. De um lado e outro do Oceano, vozes indignadas de protesto levantam-se contra a DITADURA DO CAMPEÃO DO MUNDO”

Assinado: Rudolf Spielmann
Mas não! Xadrez não!
Xadrez Sim! 



Que saudades do louco silencioso e genial Rubinstein! Que admiração por esse amigo e portento de sabedoria Tartakower, que respeito por esse checo tranquilo, Oldrich Duras, que fascínio por esse "pirata" boémio Teichmann, que recordação maravilhada de jovem, por esse destino gémeo do seu, Carl Schlechter!

(Teplitz Schonau 1922-Spielmann-Rubinstein-Tartakower-Grunfeld-Reti)

Xadrez não!


Volta, volta, longa e lenta melopeia infantil na voz cristalina da mãe Cacillie! Estou só! Como nos terrores nocturnos de infância, preciso de Ti! Aparece meu Pai Moriz, para jogarmos uma última partida, como jogávamos antes do adormecer! Com o fascínio de não sabermos os segredos que os segredos do xadrez escondem! Com a pureza, o fascínio infantil de nada sabermos de xadrez, para tudo descobrirmos do xadrez! Apareçam meus irmãos e irmãs! Toca uma valsa de Chopin, Leopold, sorriam maravilhadas Mellanie, Jenny e Irma! Não ultrapasses a tristeza da tristeza que te invade Edgar!



Xadrez Não! Xadrez Não!


Duas grossas lágrimas sulcavam-lhe o rosto magro, quando adormeceu...


Encontraram-no assim, quatro dias depois, no dia 20 de Agosto do ano de 1942. Sereno, afundado na poltrona velha e descorada, em estado de coma. Morreu poucas horas depois no hospital de Aso de Estocolmo.
Deixara-se morrer de fome e sede, fechado num quarto, de um pouco soalheiro Agosto da bela Estocolmo.
Na ficha clínica do hospital, a informação, seca, lapidar, "teórica" da causa da morte: "hipertensão" e "cardio-esclerose".



Estejas onde estiveres Rudolf Spielmann, tenho a certeza que:

A-    Nunca jogarás com Steinitz com um peão a mais! Desconfia se não é o tal peão sacrílego que ele dizia dar a Deus e ganhar-lhe!

B-  Respeitarás a loucura de Rubinstein! Continua a perceber o respeito que ele tinha pelo adversário, que o fazia fugir para longe depois de cada lance, para não lhe prejudicar a concentração!

C-    Terás cuidado com o único olho de Richard Teichmann, porque ele via mais xadrez com um único, do que muitos mestres com os dois!

D-    Jogarás rápidas com Tartakower, mais para falarem da essência de Deus, ou da História do xadrez, menos para ganhar partidas!

E-   Encontrarás outro louco genial de ataque como Tu, chamado Tal! Mas recuso-me a saber as vossas partidas! Queimar-me-iam os olhos!

F-   Saberás, que no actual mundo do xadrez , onde  abundam os mafiosos tonitruantes, os pavões titulados, os analfaxadrezistas militantes, um portuguesito amador  tem-te  como "herói secreto", pelo exemplo de verticalidade, de humildade, de paixão pelo xadrez , de tragicidade de vida , que deste ao mundo!

G-    Quem te conhecerá? Quem te continuará a conhecer? Quem te passará a conhecer? Quem depois destas minhas paupérrimas palavras, procurará sofregamente o teu "Arte do Sacrífico no Xadrez", ou jogará maravilhado as tuas maravilhosas partidas? Não me interessa!

As tuas partidas, a beleza da tua concepção do jogo do xadrez, constituem parte da minha cultura xadrezística, da minha educação no xadrez, do alimento constante desta paixão inextinguível que é o jogo de xadrez!
Não serás o meu único herói secreto de xadrez, mas de certeza "primus inter pares" entre outros Senhores do Tabuleiro. Imagino-te no meio deles qual "Xadrezistas da Távola Redonda" no reino de Caissa! 


© Arlindo Vieira