XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

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14/09/18

O PINHO...O meu Presidente



Amanhã, se tudo correr bem, o meu Clube de Xadrez, o Grupo de Xadrez do Porto, vai ter uma nova direção.
Digo se correr bem, porque mesmo não correndo, haverá sempre Direção do G.X.P. Quem conhece a história do Clube, sabe que em tempos bem passados e perante impasses, ou não aparecimento de candidatos a órgãos diretivos, durante Assembleias Gerais aqueles que se ausentavam para café ou apanhar ar fresco, quando chegavam, quase por magia, cafeína, ou oxigénio, estavam nos lugares que faltavam nas listas! Era assim e pronto e nem pestanejavam! Belas histórias estas de amor consentido ao Grupo de Xadrez do Porto.


Mas dizia, temos então órgãos dirigentes novos no Clube. Bem, novos não serão, quer pela idade, quer pelo facto de a maioria dos elementos transitar dos outros órgãos da Direção anterior. Digamos que não são bem novos, são uma espécie de novos sendo os mesmos, estilo “ lavados com Extra” – lembram-se?
Existe um elemento da anterior Direção que não vai fazer a transição. Resolveu que chegava e encostou “à boxe”, ou se quiserem, resolveu guardar os “cavalos à la Chigorin” que tanto gosta na caixa do sossego.


Um exercício: Olhem para esta foto. 


Reconhecem-no? Quase como num conto: jovem, cabelos no peito, bigode à Errol Flynn, decisão a capturar a peça do adversário, e…dinheiro no bolso da camisa (10, ou 100 euros?!). Uma estampa, um verdadeiro “espera aí que já te atendo” do tabuleiro.

Olham agora para esta foto intermédia com o nosso querido Velez Grilo. 


Os mesmos cabelos no peito, barba por fazer, e sem dinheiro no bolso da camisa, substituído por uma esferográfica para assinar o que der e vier, nem que sejam alguma dividazita do GXP.

Olhem agora para esta última. 



Apesar do meio sorriso, do peito para fora (e barriga também), os cabelos e barba branca, dos óculos de quem “ Já nem vos vejo bem”, nota-se qualquer coisa naquele rosto. Não notam nada? Mesmo nada?
Ou não amam o xadrez, ou não percebem onde eu quero chegar. Na última foto existe claramente na personagem mais do que a idade que avançou, o caminhar temporal do cansaço, os verdes anos que já eram, num futuro outro que há-de ser sem o dirigismo do xadrez. 

Pois é! O Joaquim Brandão Pinho, o meu Presidente, o nosso Presidente no antes e no quase agora adeus. Que chegava, por cansaço, por outros objetivos, por necessidade de renovação do plantel, porque isto de marcar golos de pontapé de bicicleta na Direção do Grupo e não ter direito a prémio nem gala, não compensa.


O Joaquim Brandão Pinho. Um dos melhores Presidentes de Direção na história do G.X.Porto. Obviamente sem negar mérito aos membros dos órgãos sociais das sucessivas direções que encabeçou, sem dúvida que ele foi o elemento agregador, o jogador ansioso de rápidas na resolução de problemas do Clube, mas também o estratega paciente à espera do golpe tático para obter o melhor para o GXP. Por vezes as dificuldades deveriam ter-lhe surgido com Torres intransponíveis, outras vezes teve que lidar com ziguezagueantes cavalos fossem políticos, dirigentes putativo-federativos, bem diferente dos nossos do tabuleiros que saltitam em L, quando não teve que aturar “bispos” sem dioceses, “reizinhos” e “damazinhas” que abundam no dirigismo do xadrez português e arredores. 

Assim, um excelente Presidente do meu GXP. E quem me conhece, sabe que sou parco de elogios no que diz respeito ao xadrez português. Mas não sou mal agradecido, nem falho de compreensão afetiva, quando alguém como o Pinho deu ao xadrez o que tinha e não tinha ( e a isso não era obrigado), com paixão, dedicação, entusiasmo, e sobretudo com um sentido de dignidade, de abnegação, de entrega , de amor ao Grupo de Xadrez do Porto como poucos. Costumo dizer que uma Direção, um Presidente conseguir manter um Clube como o G.X P vivo durante um mandato, já daria lugar no céu, mantê-lo por vários mandatos, nem pede para entrar… tem lugar cativo.


Não me interessa muito enumerar o que o Brandão Pinho fez pelo GXP, outros que o façam, mesmo com folha Excel. Bastava a nova sede para esta Direção e o seu Presidente ficarem na História do Clube. Podemos discordar de uma ou outra orientação, de uma ou outra opção tomada pela Direção cessante, mas uma coisa é certa: o Grupo de Xadrez do Porto está vivo, e continua. 

Continuando a ser um Clube “Robin dos Bosques”, um Clube cuja pobreza monetária sempre foi seu apanágio, mas de uma grandeza de ser e sentir o xadrez na sua essência apaixonada e intima, de uma História viva , mesmo com o passado presente, que o torna raro e quase único. Um Clube que mais do que físico, quando se ama, entranha-se na alma a ferro e fogo, quase como identitário da nossa personalidade. Um Clube onde não há “croquetes” xadrezísticos,  mas mais  “tripas à moda do Porto”, mais carrascão da “adega do Olho” que já não há. 

Assim o Meu G.X.P. E o meu Presidente, Joaquim Brandão Pinho, continuou esta saga, que não sendo das estrelas, certamente o pôs muitas vezes a ver das mesmas. Sei o que ele passou nestes anos. O que a família perdeu ( e dava para fazer uma tese sociológica com o título “ Coitadas das mulheres e filhos e netos dos xadrezistas” É que eles tem por amante outras damas e por filhos outros peões), o tempo que dedicou ao xadrez tirando-o do seu lazer, do seu descanso, da sua paz interior tão necessitados estamos dela nestes tempos que correm, das canseiras e moideiras que um Presidente mesmo de um pequeno Clube como o G.X.P deve ter tido para lhe assegurar o sangue vital da sua sobrevivência.


Depois…depois há o Joaquim Brandão Pinho, que para mim será o “Pinho da Lixa”, porque só a garrafas do verde de nome, eu, o Rogério e Ele conseguimos fazer as obras quem nem de Santa Engrácia da sede de Passos Manuel, ainda por cima agravados pelos buracos do Castro. Há o Pinho dos matches titânicos de rápidas, a apontar tipo sueca e tudo com o Castro, há o Brandão Pinho cujo sorriso desarmante…desarma, o Pinho e a sua bonomia, o Pinho e a sua simplicidade, a boa vontade, a incapacidade de se chatear a sério e eternamente com alguém, o Pinho que dá uns toques valentes no xadrez por correspondência e toques menos valentes no não por correspondência, o Pinho que ama o xadrez por aquilo que ele é e nada mais. 


Não sei se o Joaquim Brandão Pinho deu muito ou pouco ao xadrez nacional, ao meu GXP deu muito, mas muito mesmo. Sei que não precisa de homenagens, nem foi a vaidade, nem a ambição (apenas e só a de servir o GXP) que o moveu e conhecendo a sua simplicidade, quase que me apetecia citar-lhe um poema da Dickinson:


Não sou Ninguém! E tu és quem?
Ninguém - Também?
Então somos um par?
Não contes! Podem espalhar!

Que enfadonho ser – se Alguém!
Como uma rã- que passa o junho todo –
A dizer o seu nome – publicamente
A um admirador, o Lodo!

Assim, Amigo Joaquim Brandão Pinho o meu obrigado pelo que serviste o G.XP, e neste meu obrigado, penso que se revêm muitos sócios do GXP. Saímos todos bem na fotografia, Tu principalmente que conseguiste dar seguimento a uma História de um Clube de emoções, afetos, aflições, apertos, enganos/desenganos, alegrias,  mas uma História que há-de continuar para corrente vida e memória futura.

O resto? Vamos andando por aí, Caro Pinho para o quer der e vier do nosso G.X.Porto, seja uns escritos, uma rápidas, o xadrez por Correspondência, a cavaqueira ocasional de um ou outro sábado de tarde. Quem sabe se ainda te vais dedicar ao colecionismo de xadrez… quem sabe?! Pronto lá vai a tua família fazer-me em “francesinha à moda do Porto”, por esta ideia.
Abraço apertado e cheio de afeto xadrezístico
Do Arlindo
A foto que mais gosto da tua "carantona" e que tem direitos de autor, só para se saber, não vá alguém "faná-la" para alguma revista da FPX. O teu sorriso franco, desalmado, estilo Bolhão, é uma maravilha!



 

20/06/18

1978-Fotografia e saudade

Escrevo tanto sobre outros no xadrez, que me esqueço de mim, bem…não será bem assim porque já mostrei neste blogue como fui um jogador fraquinho, já mostrei partidas minhas com o Ochoa, o Martinho, em que fui  literalmente reposto na horta do xadrez, onde não saí de nabo, e como no final de um nacional absoluto e único me apercebi que estava a perder tempo em demasia com o xadrez, numa ambição sem nexo, que sabia impossível atingir. Alguma coisa me dizia…fica-te por aqui, fica-te por aqui, aproveita o tempo que gastas no xadrez para outras coisas mais importantes que o xadrez. Assim fiz, recolhi-me ao templo de saber que não iria a lado nenhum, e curiosamente outro começou a surgir ligado a um lado pouco amado e conhecido do xadrez: o colecionismo. Templo de paixão que se mantêm intacto  vai para 40 anos.


Esta foto é simples e descobri-a há dias num caixa de plástico com muitos anos. Péssima qualidade, de uma daquelas Pocket 110 de  rolo, mas que me causou uma emoção profunda e conseguir por o lado memorialístico e emocional do meu cérebro a funcionar.
Reconheci-os logo: jovens que eram, jogadores de cartas de bisca lambida ( e ainda bem, porque as cartas vieram a destruir muitas vidas futuras de malta do xadrez, acreditem! Bem... parece que no passado também), percebi logo o local e porque ali estavam, estávamos.



Mata do Jamor – Centro de Estágio – Preliminar do Campeonato Nacional Absoluto de 1978 que se jogou nas instalações magníficas da Móbil Portuguesa em Lisboa de 6 a 15 de Agosto. O Centro de estágio era a casa de acolhimento do pessoal não “capitalizado” e não tive, nem tivemos razões de queixa.
Como não reconhece-los? O JOSÉ AZEVEDO (Espinho), o ANTÓNIO FERREIRA (Guarda), o LUÍS QUARESMA, O FERNANDO CASTRO , O NELSON SIMÕES ( Leiria, mas não tenho a certeza) e também sem certeza, o ANTÓNIO CAMPOS-ou FREDERICO FERREIRA

A todos o torneio correu muito mal, tal como correu ao Firmino, ao Rodolfo Lavrador, ao meu amigo de F.C.Porto – José Abrunhosa, ao Vítor Morais , mas por acaso ao António Ferreira e a mim correu-nos bem porque ocupamos o 10º e 11º lugar que por impossibilidade  do Palhares, de um dos Pereira dos Santos me levou à final do XXXIII campeonato Nacional disputado em S. João da Madeira de excecional organização e do qual já muito escrevi neste blogue.


Não joguei nada mal. Em 9 jornadas apenas perdi com quem haveria de ser…com o António Fernandes, no que poderia ter ficado para a minha história pessoal xadrezista: uma vitória arrasadora com quase mate e tudo, mas perdi…temos pena! Empatei numa partida interessantíssima com o Luís Santos, o vencedor, empatei com o António Ferreira e obtive algumas vitórias fruto da teoria, melhor de ter marrado montes de teoria. Antes desta preliminar, quase tinha devorado o Livro de Euwe sobre as defesas Indias, o do Cherta sobre a Paulsen, e andava doido com o a3 na Nimzoíndia. Tudo decorado a esmo, a martelo, sem compreensão de nada, com umas armadilhas pelo meio e tudo em que um ou outro meu adversário caiam e me davam a vitória quase de caras. Claro…valeu-me de um grosso esta metodologia no Nacional Absoluto, ou melhor valeu…batata de todo o tipo e feitio.



Que bom ter encontrado esta foto: Que bom hoje nos nossos cabelos brancos saber que já os tivemos escuros e que se calhar o xadrez e a paixão do xadrez continuam intactas como naquele Agosto de 78. Do Azevedo, do Castro, do António Ferreira sei que estão bem, e os outros? Quando olhei para a foto a ternura foi enorme, como enorme a prece de estarem vivos e de saúde. Devo tanto a esta miudagem da altura! Muita da minha construção como homem passou pela construção xadrezística que o contato humano me proporcionou, nem que fosse nas memórias longínquas, mas sempre afetivas de hoje. Obrigado, Amigos do Xadrez.

10/06/15

DURÃO, Joaquim

Aqui no limiar da tarde, enquanto repasso no meu melhor tabuleiro e peças algumas das suas partidas.
Caro Mestre, vai para anos escrevi (lhe) que ainda era cedo para a promoção. Caissa não quis, pronto.
Daqueles que respeito e gosto, prefiro a repousada  ternura da memória , sobretudo quando partem.
Aqui no meu blogue vários textos sobre o Mestre. Agora mais um. Até um dia para uma partida amigável, Mestre Durão. 




Os que partem trazem o fogo à extremidade do tabuleiro



Para além da oitava casa o que procuram não sei

o mistério talvez…

de amor morrem isso sei.



Na geometria diáfana de um quadrado

o incendiado milagre da multiplicação,

a omissa e abstrata procura de uma verdade

impura como a realidade do pensamento,

como se fosse possível explicar sopro de respiração.



Um jogo, sim, de mecânicos adotados silêncios,

um jogo, sim, esse e o da vida que não consente empate,

um jogo, sim, o xadrezvida

gesto habitado e suspenso, soletrado lance a lance

no mastigar paciente da morte.



Os que partem trazem o fogo à extremidade do tabuleiro.

Xadrez Memória - A.V


23/11/14

ANTÓNIO TORCATO




António, talvez agora seja o tempo. Porquê? Não sei. Talvez porque vou sabendo aceitar a visitação silenciosa da ternura. Instala-se. Nada diz. Acabo por a perceber perfeitamente...

Ou por outra razão difícil de explicar, uma espécie de rumor interior de beleza comovida que regressa sempre ao lugar de partida de um momento, de momentos, das coisas guardadas no lado bom do coração que não sei bem onde fica.

Ou talvez nem seja nada disto e esteja a ficar "parvolírico" típico da velhice, dos mimos da velhice, com todos os vícios inerentes a esse inevitável pé ante pé ir no suave declive. Mas é meu, silencioso das coisas e pessoas pegadas para sempre em mim. Tem lá paciência António.

Assim António Torcato, uma homenagem e um torneio de xadrez, numa espécie de dois em um te querem fazer, te queremos fazer no CPN que foi sempre o teu.

Pronto, conheço-te António! Aí onde estás, junto de Caíssa, vejo o tua gargalhada tão típica e o teu não menos conhecido gesto de simples mão aberta alisares para trás o cabelo de risca ao meio  , estupefacto com a novidade. Sei o que pensas:
Um torneio de xadrez com aquela malta já entradote, uns já "urinaparaochão", outros trelharoucos a colocar volante ao lada da Torre e a insistir para jogar com a "Torrante", outros a pedir encarecidamente "onde está a rede, a rede - sem rede não jogo!", outros, pior ainda, a entrar no salão do CPN e a perguntar se é ali o tal campeonato de sueca, ou bisca lambida. António, estou com medo, juro-te! Medo, acredita, porque nem eu sei bem onde me enquadrar neste nova coleção dos velhos cromos Victória.

E tu a rires, eu sei! Sinto o teu riso aberto a bandeiras despregadas, estilo Gambito de Rei. E todavia, sei que vou ver-te, que vais andar por lá, vestido com o teu celebérrimo casaco de couro castanho, a alindar de mão aberta o teu cabelo de risca ao meio, a pesquisar as asneiras, o assassínio às espanholas, à escocesa, berlinesa, à italiana, nós que te perdemos num gambito, nós a quem nos ficou sempre o sabor amargo de faltar sempre mais um bocadinho no xadrez e na vida depois de te apaixonares por essa deusa desgraçada que te quis perto dela. Vais andar por ali, de mesa em mesa, de respiração em respiração, de mão em mão nestes teus amigos e pobres empurradores de plástico em tabuleiro encardido. 


E vejo-te. Como te rias a fundo perdido do meu medo automóvel, como te escangalhavas às gargalhadas com a minha reprovação pelo facto de trataram jovem mancebo-nubento a casamento com o jogo, abaixo de "peskito" recém chegado de fresco ao CPN. Assim, o peixinho chegado do mercado, era metido no aquário envidraçado da sala de xadrez, era escamadinho que nem peixeira do Bolhão com mates estilo Bc2-Dd3 mate em h7, ou Torre g3, Dd4 para mate em g7, mas muitas vezes com olhar disfarçado de franciscano-descalço para o lado contrário ao do mate, ou seja, a ala de Dama. Claro que o Júlio Rei do Mambo, era Grande Mestre neste arte, embora tu António, chegasses a Mestre Internacional. E rias, rias muito do teu dichote, perante a minha indignação e certeza que o "peskito" não mais nadaria naquele aquário, havendo até o perigo de se dedicar à caça! "Arlindo, é fo...agora, que daqui a uns meses estão ele a fo...nos!", e rias com aquele belo sorriso rouco tão à António Torcato.


Tive sempre enorme respeito xadrezistico por Ti, António, por isso, mete lá uma cunha a Caíssa para mim daqui a uns bons e longos anos. Jogamos várias vezes oficialmente, ganhei-te uma vez porque te distraíste e a sessão de cinema não podia esperar, empatamos muitas, mas tiveste sempre no tabuleiro aquilo que sempre apreciei num jogador de xadrez – ser amador de xadrez: amar o xadrez para além da competição no xadrez.


Nunca quiseste a mestria no xadrez, porque o teu lema era o Xadrez Sem Mestre. Acho que leste o Xadrez Básico do Agostini (malta do CPN...não, não é o do Planeta do mesmo), alguns Pachman, um ou outro "Escaques" e pronto. Literatura esquística a mais e suficiente para chegares a uma categoria que tendo-a não precisavas de a ter, até porque nunca te vi muito preocupado com os tais números que parecem medida de "gaja”", e que tem o nome de Elo. Podia chamar-se outra coisa, como "liga", "espartilho", ou sei lá! Já reparaste António qualquer coisa como Arlindo Vieira 1950 "espartilhado", António Torcato 1900 "ligado"?! Podia ser Vicks Vapourub, mas é Elo, Arpard do mesmo, Arpard Elo, quase nome de loção de barbear ou xarope para a tosse o que ficou e o que pretende medir a potência de um maduro no tabuleiro e que põe ufano e contente muito xadrezista que quer subir "Piço...elo".

Talvez fosse por isso que adorávamos o Badminton onde não há "Picelo" mas Categorias! Dá mais griffe à coisa, distinção sem paralelo. Assim, fomos reis em Terceiras categorias: Eu, o Matias, Tu e o Júlio Rei do Mambo-meu irmão. Mas António, o que queríamos? "Homens a empurrar uma peninha para cá e para lá" como dizia o meu querido pai com certo desdém, um desporto entre o "maricas e o mata-moscas" só Categorias para enobrecer a coisa, embora o topo da modalidade fosse "Honras" para desonrar as categorias!

Assim o xadrez uma das tuas paixões...ou não! Talvez fosse mais pelos amigos, pelos dichotes, as piadas durante as partidas, por um xadrez que no CPN se jurava não ter sido inventado por mudos, nem no oriente, nem em lado nenhum, mas ali, naquele aquário ao som cavo das bolhas de bilhar, discussões quase de pera afocinhada, cheiro de bifana "siciliana" , cachorro à "benoni" , cerveja à  l' échiquier, ou brandy "caro-kan", versão cara ou coroa, sempre tudo com entra e sai, com "caralhadas" que não sendo assadas, eram medianamente cozidas, e tudo sempre atapetado por uma enorme amizade, um forte sentido de camaradagem, que nem o nojo da politiquice, ou o submundo futebolístico estragava.


Isso era Xadrez, e do bom , carago! Daquele que se gosta, do estilo: bifana do lado de Rei e mate a seguir! Assim António, impregnado daqueles sons, daqueles cheiros, daquelas "tangas" vocabulares e sobretudo da tua gargalhada franca, cortês, mas ao mesmo tempo cortante quando necessário. Nunca fui muito de participação, porque nunca cepenista do fundo d'alma, já que o meu lado de xadrez andou sempre pelo FCP e GXP, mas gostava de sociologicamente de vos observar, de te observar António. Aqui e ali, servindo-te dos teus superiores conhecimentos teóricos lá abifanavas um "GM chesscromo" com ganho de peça, lá davas um mate que mais do que pastor, era rebanho e tudo, mas por vezes lá perdias e nunca esquecerei aquele teu gesto tão típico de "braços abertas e punhos cerrados" em tremelique à António Torcato Teixeira, quando perdias uma peça, ou mostravas o teu desalento pela perda da partida. Apesar de teres uma filosofia própria sobre o xadrez, não gostavas de perder nem a feijões, corrijo, peões! 

Alguns dos matches com o Julinho Rei do Mambo eram extraordinários, ficaram célebres nos anais da modalidade, só superados pelos imorredoiros encontros nos grandes "open" da modalidade de Badmínton entre o Diomar e o Joãozinho, esses sim na história do desporto português - tanto pavilhão depenado!


Mas António, a memória galopa-me em vagas azuis quando te penso. Existiu outro António para mim que sendo o mesmo era um outro. Nem sei se fui teu amigo, ou alguma vez me consideraste como tal, nem me importa mesmo nada, já que os amigos não se dizem, estão onde são, mas ainda hoje acho que nunca partiste porque quem está permanece, oblíquo, vertical, gravado a ferro e fogo da ternura está. 


Percebi a importância para mim de um outro António para além do xadrez, numa noite em que te vi, aprumado, dignatário sim , mas já muito debilitado, no Centro Comercial Brasília. Saudamo-nos com as respetivas e tive de fugir apressado para um banco do Jardim da Boavista, onde não pude conter a represalágrimas de uma tristeza infinda que sabia ir perder um amigo que pelo nível intelectual, cultural e humano tanto me tinha marcado desde o fim da minha adolescência.


Mas foi assim, António. Lutador infindo de primeira vaga, não resististe à segunda. Um dia resolveste frágil gota já, ir embora. E foste de mistério que ainda não compreendo.

Será que te promoveste para além da casa 8 no Reino do nunca mais atraído pela belíssima deusa Caíssa ?

Será que num serviço longo, ele foi tão, tão longo que foste com volante e tudo até te esqueceres que o jogo terminava aos 21?

Não sei António. Sei que nunca mais fui o mesmo. O que contigo aprendi, o que te devo está, estará sempre guardado, ou não seja eu colecionador de xadrez e de alguns afetos.

Nunca mais o esquecimento do ouvir-te sobre o Marxismo, ou sobre o Fellini do Navio, que eu não gostava e que adoravas à força de me tentar convencer da minha azelhice, ou sobre o Cinema Novo francês, ou sobre um romance que andavas a ler. 

Sempre argumentativo, sempre convincente, mas nunca do estilo "Sartana Perdoa, eu Não", ou de "sacar primeiro", era preciso dar-te, corda "guita" como se diz no Porto, e então lá desenvolvias a tua entusiasta opinião que sem tentar convencer, convencia. Numa conversa tinhas um estilo curioso de "retranca-ofensiva" que muito me encantava. Penso que nunca te convenci do meu adorado Bach, mas tu lá me foste convencendo de alguma modernidade de Bartok e afins.


Numa das últimas visitas que te fiz, o encantamento com os enormes posters que tinhas trazido de viagem, sobre a pintura de Mark Rothko, mas também me falaste de Malevich, como foste pressuroso como menino encantado com descoberta, buscar a caixa de Vinis desse nosso gosto comum: Sandy Denny. 

E podia continuar, mas para quê? Da tua geração e do meu conhecimento de muita "malta" ermesindense, foste António o individuo que mais alto cotei intelecto e culturalmente. Aprendi imenso contigo e abriste algumas portas que por outros interesses e paixões estavam entreabertas à minha formação.


Olha António, eu gostava, gosto daquela malta do CPN, mas convenhamos que alguns ficavam muito bem colados numa caderneta de rebuçados estilo Vitória: claro que haveria o bacalhau, a cobaia, o cabrito, mas também ao raposa, o papagaio etc, etc, e porque não,  o burro – eu, mas sabes uma coisa? Nunca te consegui arranjar lugar de cromo nessa tal caderneta! Não sei, talvez porque achei sempre em ti uma categoria intelectual, um charme qualquer de inteligência, uma capacidade perceção ambiente que escapava a muitos de nós.


Assim António, como sussurro, como aragem de pensamento de fim de tarde, guardo-te invisível na palma da minha mão. Conheces a expressão certamente:"Foste um Senhor, carago!". Ou talvez não! Nem senhor, nem doutor, nem nada. Simplesmente o António Torcato Teixeira que vejo ao longe de mão só a ajeitar o cabelo para trás, nesse sorriso franco, gargalhado de uma meninice que de ti nunca se despojou.


Mas não...Caissa que já tinha no seu reino tanto Grande Mestre, tanto titulado, tanto génio do tabuleiro, invejosa, carente, tinha logo que nos levar um dos melhores tabuleiros da Amizade?!


António, nem precisas de convite, porque é em Ti, por Ti que lá estaremos naquele salão do teu sempre querido CPN. Aparece, sei que vais aparecer! No repasto nocturno, sei que vais aparecer novamente e guardar-te-emos um lugar especial! Consegues, claro que consegues espalhar-te na ternura quarenta, cinquenta e sessentona de dezenas de corações de amigos que te guardam tesouro precioso para sempre.

António, até sábado.