XADREZ MEMÓRIA

Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

17/03/15

IRENE LISBOA





De uma escritora livre, profunda e grandiosa. Tão atual hoje, como o seria em 43 quando o escreveu. Dos bobos, dos verdadeiros e dos falsos, que destes nem o reino dos céus será o seu poiso. Atual para as nódoas sebosas que nos governam, da nóda máxima de bolo-rei à mínima governamental, bem como aspirantes a nódoas mais vísiveis, que já o sendo procuram oposição-expansão. Também poderia aplicar-se a essas peças magníficas que não fazendo parte do xadrez, gravitam nelas bobosos e borbulhosos chocalhando guisos numa necessidade pueril de serem conhecidos e amados como ninguém. Que conseguem corte , lá isso conseguem. É que existem os bobos e os babosos. 


" Bobo, sim! Ser bobo foi alguma coisa; nos velhos tempos o mister do bobo tinha ressonância. Tinha utilidade. O bobo, deformado e desprezado, era uma consciência elementar e acessória, de que um senhor lançava de vez em quando mão, à falta de outra melhor. O bobo via, ouvia e sabia...

Correm tais os tempos que me parece bem que o mister do bobo devia ser ressuscitado. Com as suas duas funções e não uma só... Gente que divirta a outra há muita. De que se carece é das tais consciências elementares, consentidas. Para rematar, finalmente: sempre que me vejo em certos lugares acomete-me o desejo de ser bobo.

A corte era só uma, nos velhos tempos. Hoje são muitas! Pequenas cortes, onde os homens mestres na arte da dissimulação, jogam subrepticiameníe os seus interesses e tomam atitudes nobres ou sensíveis. Mentindo sempre...em nome de ridículas verdades e de razões excessivamente particulares.

Mas a finura, única que verdadeiramente cultivam, para dizer agora que o preto é preto e loco que é branco? E a paixão disfarçada mas firme com que se defendem aqui e atacam além.Com que dominam e desbaratam os seus ilusórios contendores... Quais contendores? Os fantoches de oposição que criam!

São admiráveis, admiráveis. Tudo o mais é gente simplória, massa indistinta, salpicada de idealistas e de materialistas, fora dos rumos viáveis e dos seus segredos.

Mas isto na pulverização da vida livre não assumiria a importância nem a ardência consumidora que assume nos gabinetes particulares, nas linhas do comando. Como tudo ai se joga e palpita…

Para exemplificar: aqui está um homem que ontem se sentia desclassificado, mal aproveitado, e que hoje se sente no seu devido lugar... sem uma visível alteração de funções! Mas o seu espirito trabalhou e trabalha, molemente, brincando...enquanto a roda das paixões tornejando à sua volta altera todos os valores de posição. Esqueceu-se lá de pequenas humilhações e desaires, que engoliu como quem engole saliva.

É encantadora também a naturalidade com que homens destes se cortejam! Tratam-se entre si de indispensáveis, de preciosos. Consideram-se uma nova espécie de marcas de xadrez, que com muito cálculo e prudência se devem manejar As próprias marcas, animadas de espirito, dão palpites aos seus jogadores. E disto saem multas vezes resultados esplêndidos, mas efémeros. Contingentes, para melhor dizer. Porque, enfim, nunca se viu ambição sossegada... E num jôgo, as combinações e os lances imaginativos sucedem-se!

No meio disto tudo correm atropelados como é humano, absolutamente humano, os confusos interesses intemporais e impessoais: o bocado da ciência, da arte ou da administração que uns vagos anónimos pretendem cultivar. Para extrair proveitos... Mas sabe-se lá de que qualidade? E quem ousa duvidar de que esses mesmos proveitos não estejam incluídos, ou não decorram dos pessoais? Há muita dúvida viciosa e imoral.

Tão imoral como certas crenças, absurdas.

Para que se hão-de deixar persistir as famas gastas e as velhas idolatrias? Porque se não hão-de arruinar, liquidar? Mas sem grosseria, de luvas calçadas. Confrontemos tipos e épocas, E concluamos: que levianos eram os nossos maiores... que enganados...

Ó perfeita e delicada função do bobo! Como eu te cobiço e invejo... Gostava sinceramente de te cultivar.

Em cada dia que Deus dá, se mo permitissem, se me não arredassem com o pé (os senhores de hoje são mais impacientes e cruéis que os antigos) os motetes lindos que eu havia de fazer...as sátiras graciosas, a filosofia honesta, os epigramas risonhos... Animaria gostosamente a corte!

A vida de câmara, propícia por excelência ao afinamento do espírito, tornar-me-ia tão lúcida  prestável como qualquer velho bobo."
Irene Lisboa, Apontamentos, Lisboa 1943



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