Xadrez de memórias, histórias e (es)tórias, de canteiro, de sussurro, de muito poucos...

16/03/12

PEÇAS DE XADREZ SOVIÉTICAS RUSSIAN-SOVIET CHESS SETS 3





Não são modelo Staunton, não sei a época, nem sequer tenho a certeza do material em que foram feitas ( plástico? Bakelite? embora tenham metal na sua composição), apenas e só que são peças russas, ou soviéticas, e que fogem bastante ao modelo simples das peças tradicionais, por muito elaboradas, quase diria, aristocráticas no seu design. Floreadas, com formas algo complexas e torneadas, estas peças exerceram algum fascínio em mim, quando me foram generosamente oferecidas por um amigo do G.X.Porto, que apenas me soube dizer que eram peças russas.








Depois, aqui e ali algumas pesquisas, mostraram algo interessante: ( ver gravuras) 

- Um jogo de peças destes foi objecto de transação na prestigiada casa leiloeira Christie's, por um preço interessante para umas peças de plástico. Parece que as mesma foram fabricadas em Minsk 1984, segundo a leiloeira.




- Ao aparecer em capas de livros de xadrez soviéticos dos anos 70-80, prova alguma popularidade que estas peças deveriam possuir por aquelas bandas.
 



- Existem variantes modernas e elaboradas ( mas não tão bonitas como as originais) deste jogo, principalmente nas figuras do Rei e da Dama, com mais um "andar" junto à base.













09/03/12

PEÇAS DE XADREZ SOVIÉTICAS RUSSIAN - SOVIET CHESS SETS 2




Foi dos primeiros jogos soviéticos que comprei. Vai para uma boa duas dezenas de anos e no Centro comercial Brasília numa loja que vendia diversas bugigangas, bonecas insufláveis e…jogos de xadrez.
  
É aquilo que se chama um jogo de viagem. O jogo de peças não é nada de especial, a não ser aquelas características típicas de muitas peças de xadrez soviéticas: desenho simples, quase estilizado, fabrico em  madeira  "fraquita",  óbvia ausência de cruz nos Reis, embora estas peças também tenham a ausência das célebres "carapuças de bola"de cor cruzada quer nas damas, quer nos bispos, quer embora já fossem presença em peças dos anos 20-30 no centro da Europa, depois de vão tornar imagem de marca das peças de xadrez características dos países ditos então do bloco de Leste, entre elas as da Checoslováquia e Jugoslávia. Outra curiosa característica das peças ( tal como em muitos jogos de leste) é o tamanho generoso dos Peões ( o Peão alma do xadrez - Steinitziano?) .



Ah! O tabuleiro é original. È daqueles dobráveis, com base para guardar as peças em baixo da superfície de jogo e, aqui também se nota um pormenor que sempre me fascinou nos jogos de peças soviéticos. A estreiteza das casas dos tabuleiros face ao tamanho das peças, melhor dizendo, a base das peças. Tenho centenas e centenas de fotos quer de jogadores soviéticos, quer de torneios e, exceptuando os Campeonatos da URSS, na sua fase final, é extraordinário ver como as peças parecem não respirar nos tabuleiros, isto é, parecem apertadas, juntas, quase que ocupam toda casa em que estão, dando uma má visibilidade geral. 


É fantástico ver fotos de torneios das “Forças Armadas”, ou Campeonatos dos Sindicato, por equipas, e ver as condições de jogo! Como se realizavam grandes partidas, enormes combinações, belíssimos finais nestes tabuleiros exíguos de 4,5- 5 cm de casa para bases de peças de 4 ou 4,5 cm de Base, fascina-me. Que eu saiba os jogadores soviéticos nunca se queixaram, habituados como estavam! Curioso é que nas finais dos Campeonatos da URSS, isto não acontecia, pois as fotos mostram as mesmas peças, mas agora “arejadas”, livres, em tabuleiros claramente de 5,5, 6 cm de casa, o que também não me deixa de surpreender. 



Talvez a enorme massificação do xadrez, a necessidade da fabricação de milhões e milhões de jogos, obrigasse a poupanças, a facilidade de transporte e utilização dos tabuleiros. Não sei. Estou a pensar alto.


Aliás, esta característica muito soviética de estreitar casas de tabuleiro para Peças de xadrez em que o Rei quase chega aos 11 -12 cm, levou a um pandemónio nas Olimpíadas de Xadrez de Moscovo de 1994, com os jogadores quase a fazerem um “levantamento de peças” devido a esta circunstância bem como a outras ( O Galego e o Kevin Spraggett sabem a que me refiro), mas isso ficará para outro artigo e outras peças soviéticas, prometo!

24/02/12

PEÇAS XADREZ RUSSAS - RUSSIAN-SOVIET CHESS SETS

(Clicar nas imagens para ampliar)


Passei por elas como “cão em vinha vindimada”. Percebi que eram russas ou soviéticas, vislumbrei de relance o seu mau estado, e, passei à imagem seguinte nos leilões de xadrez do Ebay.
Passadas uma horas regressei e resolvi fazer um estudo mais atento das peças, porque alguma razão estranha fazia não as esquecer.
Mau estado sim senhor. Mas, uma “patine” original, uma antiguidade que não enganava até pelas excelentes fotos que o vendedor de S. Petersburgo colocava no leilão. “Very old”, dizia ele, mas não arriscava o quanto. O preço de licitação era muito baixo, cerca de 30 dólares e faltavam dois dias para o fim. Ninguém tinha licitado até aí, e com a certeza fiquei que ninguém licitaria. Pelo estado do jogo, e pelo facto de as peças de xadrez russas –soviéticas não fazerem parte dos favores, das loucuras, dos quase “orgasmos” monetários dos colecionadores de Jaques of London, British Chess Company, entre outras. Direi que são parentes pobres do colecionismo de xadrez internacional, tirando um ou outro caso raro. Aquilo não tem valor, pelo design, pela madeira, pelos catálogos convencionados dos tais “tubarões” do colecionismo muito “British”. Assim uma certeza arreigada que este jogo pouco interesse despertaria nos “abutres” tão característicos dos leilões xadrezísticos no Ebay.
Um mail particular ao vendedor de S. Petersburgo, conhecido pela diversa e qualificada memorablia russa e soviética e “top rated seller ”com 100% de avaliações positivas em milhares de artigos vendidos, deu-me a certeza de resposta esclarecedora. Que chegou. Não podia afiançar com certeza a antiguidade do jogo, mas que a sua experiência de venda de vários jogos de xadrez, lhe dizia que as peças em leilão seriam dos anos 30-40, quer pela “patine”, o desenho das mesmas tão diferente das tão características peças soviéticas dos anos 50-60-70, pelos próprios “estragos” infligidos pelo tempo.
Acreditei que sim. Nessa noite dificuldade em dormir. O raio das peças a movimentar-se na minha cabeça, principalmente o seu desenho. Tinha a consciência de as ter visto em qualquer lado, mas não me lembrava em que livro ou foto. Fui percorrendo mentalmente as capas de vários livros que tenho, e uma súbita iluminação, daquelas que só um colecionador pode ter, tirou-me as dúvidas. De embalada para a estante dos livros de xadrez, onde retirei dois livros: “Bernsteins Schach – Umd Lebens Laufbahn” de Savielly G. Tartakower – da Tschaturanga – Olms, e o “Akiba Rubinstein – Uncrowned King” de Donaldson e Minev da International Chess Enterprises. Nas suas capas, a confirmação. Quer Bernstein, quer Rubinstein posam para a foto, com uma peças, senão iguais, pelo menos muitíssimo semelhantes às que estavam em leilão. Estas fotos são claramente da 1ª década do século XX. Seriam pois peças de xadrez ainda mais antigas, ou sejam da 1ª-2ª década do século XX?

Que estavam terrivelmente usadas, laceradas, cansadas por tanta peleja no tabuleiro, via-se, ou pelo menos eu queria acreditar que sim. Uma certeza tenho, tinha: este modelo de peças era o mais comum pelo menos em S. Petersburgo antes da sovietização do xadrez que trouxe outros modelos de peças como irei mostrar noutro artigo e particularmente nos anos 40-50. As peças usadas no Torneio de Moscovo de 1925, ainda tinham algumas reminiscências, semelhanças com as peças de 1914, como pude verificar no filme de Vsevolod Pudovkin “ Chess Fever”.

No dia seguinte a espera até aos últimos minutos para licitar as peças. Como o esperava de alguma experiência no Ebay, sem concorrência a minha licitação e o jogo a ser meu.
Quando o recebi um mês depois, a emoção mais forte sentida olhando para umas peças de xadrez. Ainda mais belas do que nas fotos. A cor, o cheiro incrível de verniz gasto e atabacado, uma “patine” de tempo original e não de “pintura fresca” avernizada, e sobretudo as mazelas de longas lutas de tabuleiro, para depois, descansarem por longos anos em casa alheia, ou sótão de clube de S. Petersburgo.
Qual restaurá-las? Então, cada vez que as olhava via vida intensa naquelas falhas, naquele gasto verniz, vida de tabuleiro, de alegrias, desilusões, de lances jogados com a raiva do desespero da derrota, ou alegria de vitória, e ia restaurá-las, para lhe insuflar vida artificial, para as tornar bonitinhas, para as valorizar no mercado? O valor delas, já interiormente o tinha atribuído a minha paixão de colecionador.

Pronto, a partir daqui, conhecem a “estória”…a pesquisa aturada sobre o Torneio de S. Petersburgo de 1914 que deu no post anterior neste blogue.


Vá lá acreditem comigo. E se as minhas forem as mesmas da partida Nimzowitsch-Capablanca ou Blackburne-Lasker deste torneio?
Porque não?